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Para Entender a Crise

Todos, quase todos, sabem que a atual crise econômica teve início com o estouro de uma gigantesca bolha especulativa no setor imobiliário, em setembro de 2008, nos Estados Unidos. Mas é só isso? Não haverá causas globais e estruturais que expliquem melhor a presente depressão de praticamente todas as economias do mundo? Não seria, enfim, o caso de estudarmos melhor o fenômeno descrito como o das crises cíclicas que acometem periodicamente (grosso modo a cada dez anos) o sistema (modo de produção) capitalista?

Esta coluna tentará dar resposta a estas perguntas.

29-9-12

PT destrói Serra em S. Paulo, mas
 Dilma herda  os  votos do tucano

Parece praga ou maldição. O fato é que  o PT finalmente conseguiu destruir Serra em São Paulo, mas boa parte do eleitorado serrista hoje vota em Dilma Rousseff.

Não podia dar outra: Dilma obedece cegamente seus marqueteiros que se deixam guiar cegamente pelas pesquisas. Então, pelo menos em São Paulo, era inevitável esta contaminação.

Mas não podemos tratar de forma leviana um fenômeno  hoje globalizado: as novas classes médias emergentes incorporam naturalmente, a partir do espírito neoliberal dominante, um jeito fascistóide de ser e agir.

Jeito este que se caracteriza pele egoísmos animalesco e pelo consumismo compulsivo e perdulário. Ao serem contaminados por esse tipo de eleitorado, o lulismo e o embrionário dilmismo sofrem um golpe fatal que os distancia do petismo original e faz com que fiquem indiferenciados dos partidos meramente burgueses.

A militância do PT original (não confundir com cabos eleitorais) ainda tem força para manter o espírito petista original.  Mas essa tarefa vai ficando cada vez mais difícil.            

 

Veja vídeo >http://youtu.be/Tckn3fwEGT0

14-06-12

A insustentável leveza do Capital

Não é fácil compreender por que o Capital chega a seu apogeu perdendo a capacidade de acumular, de reproduzir-se, o que anuncia  o seu crepúsculo. Digo que não é fácil, mas é só para quem, por preguiça ou preconceito, evita a leitura dos textos  de Marx.

Com a derrocada da União Soviética e a predominância, nas últimas três décadas,  dos  dogmas  neoliberais, criou-se toda uma geração de economistas e sociólogos pela metade. Eles  não percebem, por exemplo, que embora crítico da sociedade capitalista, Marx não refutou a essência da teoria econômica emanada de  Adam Smith, David Ricardo e Jean Baptiste Say,  três dos principais fundadores da ciência econômica moderna.

Na verdade, Marx deu sequência  lógica às teorias desses três clássicos, os primeiros (embora sem espírito crítico) a desvendarem os segredos da acumulação do Capital e suas conexões como Trabalho e a Natureza, enquanto recursos naturais.

 De Willian Petty (um contemporâneo de Ricardo e Say), Marx colheu uma frase (verdadeira pérola) e a cita logo no primeiro capítulo  de sua principal obra, O Capital.

Eis a frase de  Marx, citando Petty: “O trabalho não é a única fonte dos valores de uso que produz, da riqueza material (o capital). Dela o trabalho é o pai, como diz Willian Petty, e a terra é a mãe”.

Não é preciso, portanto, ser nenhum gênio para se compreender que em seu processo de acumulação, o Capital, obrigatoriamente, engole uma fatia de trabalho excedente (inútil) e  concomitantemente, engole uma fatia excedente e inútil da Natureza.

E é preciso muita ignorância ou má fé, insistir, como alguns ecologistas de última hora estão fazendo agora no Rio+20, que é possível salvar a Humanidade  do desastre ecológico desde que o Capital fique  mais bem comportado.

Como tenho repetido neste blog, supor um Capital bem comportado e ecologicamente correto, é supor o vampiro vegetariano. Isto porque, sendo ele próprio um excedente acumulado, o Capital é geneticamente dependente da produção de excedentes. Sem isso, ele desvanece e ingressa em sua fase terminal.

A densidade do Capital

Dizendo de forma simplificada, o capital só acumula explorando excedentes de trabalho vivo.  Aquele obtido pela velha e boa mão de obra, no chão da fábrica, por exemplo. Na atual fase, via desenvolvimento tecnológico vertiginoso, o Capital consegue  se desvencilhar  desse tipo de trabalho. Em consequência, concomitantemente, vai perdendo sua densidade de valor.

E segue assim, até o momento em que o grau de automação é tão grande que a utilização de mão de obra torna-se ínfima e a densidade de valor aproxima-se do zero. Individualmente as empresas continuam auferindo lucros, mas o Sistema como um todo, perde a capacidade de acumular, porque deixa de extrair mais valia, (excedente de trabalho vivo) o  verdadeiro e único fator de acumulação.

E faltou dizer ainda  que à medida em que perde densidade, o Capital (enquanto Sisstema) passa a girar mais rapidamente, para compensar, com o maior número de giros,  a menor mais valia obtida. Dai a descartabilidade e a obsolescência programada  executadas de forma vertiginosa. Ou seja: o Capital não só não vai ficar bonzinho, como torna-se mais feroz a cada giro de sua acumulação.

Empiricamente, é fácil perceber que em função dos fenômenos descritos acima, os capitais individuais migram ou para o grande cassino da especulação financeira ou para a periferia do Sistema, países  emergentes como China, Índia  ou  Brasil, bem como para nações mais atrasadas, porém promissoras, como Angola. Nesses locais ainda podem ser encontrados bolsões (currais) de extração de mais valia.  

E a esse processo que dou o nome de insustentável leveza do Capital. E, como sempre faço, acrescento logo aí abaixo um texto que pode auxiliar o leitor não familiarizado com os textos marxistas.  

Eis o texto:

O Crepúsculo do Capital

 Todos comentam a atual crise econômica mundial, mas poucos percebem que  ela é, na verdade, uma crise do próprio  modo de produção capitalista. Trata-se de um  sistêmico que aponta para crescente  incapacidade  de o Capital acumular o seu próprio excedente. É a fase crepuscular ou terminal. Entender isso não é muito complicado desde que se saiba, preliminarmente: 

1-O Capital é, em  si, um excedente. Excedente  de trabalho (próprio ou alheio) que não é consumido e sim acumulado. 

 2-O Capital só obtém lucro efetivo na sua parte variável, dinheiro vivo reservado para pagamento de salários. É essa a parte do Capital que retorna ao bolso no proprietário, inflado pelas horas excedentes (não confundir com horas extras) de trabalho não pagas, a famosa mais-valia. 

3-A parte fixa ou constante do Capital, máquinas e equipamentos (e insumos também)  não fornece, a rigor, nenhum lucro ao capitalista. Isto, pela boa razão de que ela  transfere o seu próprio valor para o valor da mercadoria que ajuda a produzir. No caso dos insumos (energia e matérias-primas) esta transferência é instantânea. No caso de máquinas  a transferência pode levar anos. Mas, inexoravelmente, insumos, máquinas  ou  equipamentos se exaurem, cedo ou tarde, na produção das mercadorias. Entretanto, é  aqui, na sua parte constante, que o Capital  acumula. 

4-A última frase do item anterior não é gratuita: o Capital só materializa e fixa os lucros obtidos com a rodada anterior de exploração do trabalho, quando investe em novas máquinas e em mais terrenos e edificações. É assim e só assim que ele realiza sua acumulação ou, mais propriamente, sua reprodução ampliada. Pois é assim que ele amplia sua capacidade de explorar mais trabalho a partir  da mesma base inicial. 

 Agora reparem (e isto  é estampado diariamente pela mídia) que o Capital está em permanente revolução interna, sempre substituindo sua  parte variável (salários e mão de obra) pela parte  constante (máquinas e equipamentos). É a  automação vertiginosa que acomete o Sistema nesta  sua fase terminal. Quando as máquinas e equipamentos perdem densidade de valor ou simplesmente tornam-se descartáveis (substituídas em prazos cada vez mais curtos), o Capital vai, concomitantemente, perdendo sua capacidade de acumulação.  

Então, fica nítida a noção de que, principalmente nos países  tecnologicamente mais adiantados, o Capital (entendido aqui como o conjunto de capitais – o Sistema), vai despregando-se daquela parte que dá lucro, bem como daquela onde  ocorre a acumulação efetiva. 

Quando isto ocorre, o Capital toma três rumos: a- deixa de ser produtivo e transforma-se em capital de serviços que dá lucro, mas não realiza a acumulação clássica que só ocorre (como foi exposto acima) no capital efetivamente produtivo, industrial ou agrícola; b- ingressa  no cassino especulativo e passa a obter a  maior parte de seus lucros não mais no  chão da fábrica, mas  no departamento financeiro e c- migra para a periferia do sistema, os países em desenvolvimento, onde ainda é possível  obter altas taxas de mais-valia, em função da mão de obra barata. Neste último caso, China, Índia e Brasil são três excelentes exemplos. 

Enfim, creio que aí está  um pequeno, porém eficiente, roteiro para acompanhar a  atual crise com melhor capacidade de percepção dos fenômenos que são subjacentes a ela e vão muito além das baboseiras repetidas à exaustão pela mídia pobre e podre. 

Reparem, ainda, que o que foi dito aí em cima, não é simples literatura marxista dogmática e sim leitura correta dos antigos clássicos da economia como Adam Smith, David Ricardo  e Jean-Baptiste Say,  em cujos textos Marx colheu os fundamentos para  desenvolver sua teorias sobre a acumulação capitalista. Um processo que chega agora à sua fase crepuscular.

O Neofeudalismo

A esta fase crepuscular eu dou o nome de Neofeudalismo, a etapa superior do Imperialismo.

O Neofeudalismo tem como principal característica a  monopolização  e/ou oligopolização extremas e a nível mundial. Some-se a isso, a terceirização da produção.  As grandes corporações cedem a terceiros avassalados, sua marca,  suas invenções e modos de produção e venda.  Assim, passam   (eis aí o aroma feudal) a  auferir renda com algo que é de sua propriedade, sem se imiscuirem na produção propriamente dita.

Com isso, como já é visível a olho nu,  há uma total revolução das relações  do trabalho, somada ao crescente descarte de mão de obra, por conta da vertiginosa automação. Nasce aí o chamado desemprego estrutural.

E desemprego estrutural é  um eufemismo, um nome técnico  que se dá a algo brutal: a exclusão definitiva de populações  inteiras ao redor do Mundo. Populações que se  tornam excedentes e descartáveis  enquanto elementos  do processo produtivo.

 

 

Comentário
Em 18-06

Um análise clara onde você demonstra que, desenvolvimento econômico é diferente de acumulação do capital. E que esse desenvolvimento está, intimamente ligado à devastação (ou extinção) dos recursos naturais em prol de poucos, e em detrimento da humanidade. Minha definição para o que acontece é APROPRIAÇÃO INDÉBITA. Adorei o artigo, nada a responder, vim aqui aprender. Abraços. Andrea S. de Loreto @deinhaloreto

Comentário

15-06

Achei muito interessante o artigo principalmente quando você aborda o ponto crucial do capitalismo que tanto Marx citou que é a tendência da taxa de queda do lucro no sistema capitalista. Porem você não elencou no seu artigo as sugestões que o próprio marx trabalhou. O Marx sugeriu entorno de 6 fatores de compensação. Será que você poderia trabalhar estes tópicos no seu próximo artigo.

Aias – BH

 

 

 

05-06-12

Por que os países ricos não conseguem crescer mais

O Clube de Roma acaba de divulgar relatório com textos de 30 pensadores da atualidade, considerados importantes. O tema é a “Questão Ecológica”. O interessante, contudo, é que o documento  indica a impossibilidade de crescimento econômico acelerado para os países mais ricos, EUA, Europa e Japão.  Estas “economias maduras” estão condenadas à virtual estagnação.

Isto, entretanto, não chega a ser uma grande novidade. Vários autores com conhecimento da teoria marxista têm afirmado isso, há  mais de uma década. Em meu livro O Impasse Ecológico (2004) procurei sintetizar esse fenômeno,  ao qual dou o  nome de  Crepúsculo do Capital.

De forma simplificada, pode-se dizer que o Capital, em determinado estágio, onde predomina a  vertiginosa incorporação de novas  tecnologias,  vai descartando a tradicional  mão de obra. Com isso, apesar dos altos lucros obtidos pelo diferencial tecnológico,  não consegue reproduzir-se (acumular), porque perde densidade de valor.

Essa acumulação e essa densidade de valor só são obtidas através da  famosa mais-valia  que, por sua vez, só  é viabilizada no chão da fábrica, pela mão de obra relativamente barata. O Setor de Serviços, por exemplo, enseja lucro, mas  não viabiliza a acumulação. Aliás, é comum  dizer-se que as economias mais avançadas, já são, predominantemente, Economias de  Serviço.

 Disso decorre que os capitais das economias mais adiantadas, aplicam seus lucros no Cassino Especulativo  ou migram para  os países emergentes, onde ainda podem ser aplicado em setores produtivos que  garantam  uma exploração intensiva de mão de obra barata. A China e a Índia, mais do que o Brasil, são exemplos claríssimos desse fenômeno.

Fica mais fácil, assim, perceber por que o Planeta depende quase que exclusivamente dos países emergentes para recuperar um  ritmo mais acelerado de crescimento.

Na matéria  que publique no blog (03-06), na coluna  O Impasse Ecológico, você encontrará um  texto, O Crepúsculo do Capital, onde procuro  expor de forma sintética esse fenômeno de  esvaecimento  do modo de produção capitalista.

 

02-06-12

Direitos Humanos  são iguais,
mas existem as classes sociais

Silas de Oliveira foi um dos fundadores do glorioso Império Serrano. Mas o menciono aqui porque, com seu parceiro Mano Décio da Viola, fundou a idéia de protestar e fazer denúncia social através do samba enredo da escola.

Fundou, assim, essa magnífica tradição, da qual a Velha Guarda do Império é guardiã. Aloísio Machado, membro da Velha Guarda, é um desses guardiões e autor do samba que nos ensina: os direitos humanos são iguais, mas existem as classes sociais.

Está na moda, é bonitinho e politicamente correto defender esses direitos. Hoje em dia, eles são defendidos até por gente que defendeu o Golpe Militar de 64.

Eu também defendo os Direitos Humanos, mas não creio que eles possam existir plenamente enquanto existirem classes sociais.

As filas às portas dos postos de saúde e dos hospitais. A luta que milhares de pessoas empreendem para continuar vivendo  no e do Lixão de Gramacho são suficientes para mostrar que  os direitos humanos  não são iguais. Porque, para a maior parte da população, o elementar direito à vida, não é respeitado.

Sob qualquer ângulo que se olhe, desde a concentração de renda e da propriedade da terra até  a distância entre os maiores e o menores salários, o Brasil é um dos campeões mundiais da iniqüidade social (o Coeficiente de Gini). As chamadas “elites” remuneram-se, como se vivessem no Primeiro Mundo, mas impõem salários de Quinto Mundo para a imensa maioria.

Famílias pobres (fantasiadas estatisticamente de Nova Classe Média) são induzidas ao endividamento ao qual ficarão presas pelo resto de suas vidas, para comprar supérfluos  e fechar os olhos para a falta de  e ensino digno, hospitais e segurança elementar. Tudo isso de mistura com a plena  vigência da pistolagem e do trabalho escravo.

 O Estado Brasileiro vem sendo devorado pela corrupção endêmica desde a sua fundação. Só agora virou moda indignar-se com isso. Talvez porque que se tenha descoberto que os antigos e tradicionais corruptos, (políticos e donos de empreiteiras, entre outros)  não passam, hoje, de meros laranjas de um  bicheiro vulgar.

O Governo Petista representou importante avanço em relação a tucanagem, na medida em que, para citar apenas dois tópicos,  resgatou uma política externa soberana e venceu  a  importante queda de braço contra o Mercado , conseguindo trazer os juros para patamares   civilizados.

No mais, assiste passivamente à insensível burguesia de sempre gastar, com viagens e compras fúteis  no exterior, mais o que ele (Governo) gasta com  a Bolsa Família.  

Mas o Governo Petista não é o foco deste artigo. E se mencionei o Brasil é porque ele é um excelente exemplo localizado da iniqüidade social global. Digamos que o Mundo é um Brasil ampliado.

Na verdade, mencionei Silas de Oliveira porque ainda acredito que, no momento  em que o  Capital ingressa em sua fase crepuscular,  ainda é possível resgatar o espírito da verdadeira luta social. Percebo que os jovens de todo o Mundo, em quantidade cada vez maior, recusam-se a ser rebanho globalizado ao som do pop esterilizado  e ao sabor do hambúrguer.   

A Sociedade de Consumo (único local onde o Capital consegue sobreviver) é inviável pela simples razão de que a Natureza chegou à beira da exaustão e se recusa a ser consumida de forma perdulária e redundante. Os “ecologistas” de última hora, que não denunciarem isso, são meros oportunistas hipócritas.

  

26-05-11

Decisão do Planalto: Crescer a qualquer custo

Pé na tábua que o ano é de eleição. A presidenta Dilma Rousseff já autorizou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a estudar a possibilidade de reduzir o Superavit Primário, para  fazer caixa e acelerar a economia. “Estudar a possibilidade” quer dizer: preparar psicologicamente o  Mercado para uma medida que fatalmente será criticada pelo setores ortodoxos.

Superavit Primário é a parte intocável do Orçamento (da arrecadação geral) que o Governo separa pagar os  juros da Dívida Pública. O governo deve pagar, este ano, cerca de R$250 bilhões, com média mensal em torno de R$ 20 bilhões É uma nota preta. E este é um outro motivo (além do estímulo à produção) para  o governo baixar a taxa oficial de  juros (SELIC).

Atualmente,  o Superavit Primário é de 3,1%. É um número mágico, apenas uma promessa. Ninguém vai morrer se  Governo não cumprir rigorosamente essa meta. Mas é prudente dar uma satisfação ao Mercado e anunciar a alteração da meta, o que é uma forma de não cumprir a promessa inicial.

 No auge da crise, em 2009, o Governo Lula reduziu a Meta do Superavit Primário de 3,8% para 2,5%. Como resultado, o  País obteve um crescimento recorde de 2,7% em 2010. Mas, como nada é perfeito, o Fantasma da Inflação voltou a rondar as estatísticas  e o bolso no consumidor. Então, ao assumir, Dilma apertou os cintos e elevou o Superavit parar os atuais 3,1%.

Outro resultado prático disso tudo é o de que haverá um aumento do montante da Dívida, já que não  haverá amortizações, só  o pagamento dos juros e  a reforma  ou rolagem dos Títulos do Tesouro.

 O Governo, no entanto, possui um forte argumento psicológico: os vultosos 400 bilhões de dólares de nossas reservas cambiais. Esta montanha de dinheiro fica parada nos cofres do Banco Central e é usada apenas para manter o equilíbrio cambial via compra e venda de dólares, principalmente.

 Mas em caso de necessidade, nada impede que se recorra a estas reservas. Na verdade, não faz muito sentido que toda essa dinheirama fique parada, apenas para se exibida como “uma garantia para o Mercado”. O Delfim Netto, por exemplo,  sugere que seja criado uma espécie de Fundo Soberano para ser usado  como  fonte para o crescimento econômico, via  BNDES  e outros caminhos.

As eleições

Há três meses  Dilma Rousseff e  Guido Mantega vêm advertindo quase que diariamente sobre a gravidade da Crise Mundial. Todos crescerão menos, até a China,  É natural que  isso ocorra também com o Brasil. O problema é que no ano passado crescemos muito pouco. Apenas 2,7%. Crescer menos do que isso no presente ano, seria um desastre político-eleitoral. Então o Governo resolveu agir. E rapidinho.

Há dias facilitou-se a vida da indústria automobilística cujos pateos estavam abarrotados. A receita de sempre: facilitação do crédito e diminuição ou eliminação (temporária) de alguns impostos. Os resultados não formam os esperados, porque o consumidor já está endividado com as compras recentes de veículos.

Seja como for, na sequência, será feito o mesmo em relação à chamada  Indústria Branca (fogões, geladeiras, etc.) eletro-eletrônicos e os materiais de construção. Haverá, então, um aquecimento econômico ainda que menor do que o desejado pelo Governo.

 E com o aquecimento, teremos o retorno do fantasma inflacionário. Isto sempre acontece, quando se busca uma saída via consumo e não via produção, prioritariamente.

Entretanto, o Governo tentará segurar a inflação via medidas administrativas,  controlando o preço dos combustíveis e de algumas tarifas. Além disso, o Planalto se fia na que baixa dos preços internacionais em função da grande crise americana e européia.  E é provável que isso aconteça mesmo. Deverá  ocorrer uma redução  dos preços das chamadas commodities: carnes, produtos agrícolas, minérios, etc.

De qualquer forma, é previsível que 2013 será ano de ressaca, de cintos apertados. Mas só até a chegada de 2014, um ano eleitoral por excelência.

 

 

 

22-05-12

A “lambança populista” que salvou a Argentina 

Em matéria de desonestidade mental Celso Ming ultrapassou todos os limites. Ele é o decano dos colunistas  de Economia, muitos dos quais, para servir seus patrões corruptos que comem nas mãos dos banqueiros,  sempre serviram ao Capital Financeiro.

Vejam como ele inicia seu artigo de ontem (21):

“A conta das lambanças populistas das duas administrações Kirchner está chegando para a Argentina.

O momento não é somente de escassez e de fuga de dólares; é também de forte desaceleração da atividade econômica.

“Até agora, podia-se dizer que, apesar de tudo – apesar da falta de crédito externo que se seguiu ao megacalote de 2001; apesar da manipulação tosca das estatísticas de preços; apesar da repressão dos preços e das tarifas; apesar do super-reajuste de salários e aposentadorias; e apesar do achatamento dos lucros do setor produtivo –, a Argentina vinha crescendo uma beleza: média de 8% ao ano desde 2003.”

“Não é o que acontece em 2012. Em vez de garantir avanço do PIB de pelo menos 5,0%, como vinham projetando organismos oficiais, as mais recentes estimativas são de que o resultado das contas nacionais neste ano poderá não ser positivo. Tende a ficar ao redor de zero por cento. Mesmo desse modo, as consultorias independentes vêm trabalhando com um crescimento do PIB ao redor de 3,0%”

Temos então que a “lambança populista” dos Kirchners produziu durante oito anos contínuos   um crescimento econômico só inferior ao da China.

O pobre Ming odeia o casal Kirchner que ousou dar uma banana para ao FMI e para a Comunidade  Financeira Internacional. E é tão grande esse ódio  que  entregou para seus leitores esta verdade:  O Milagre Argentino (sem aspas) só foi possível porque  o ex -presidente Néstor Kirchner decretou unilateralmente a suspensão do pagamento de uma dívida que, a rigor, era uma extorsão  da Banca Internacional que durante três décadas fez isso com os países  da periferia,  respaldada pelo FMI e pela armas dos países centrais.

Mas Ming não teve a hombridade de  informar a seus leitores que Kirchner, diante de uma situação extrema, fez exatamente  o que  a Grécia   (e talvez Portugal e Espanha) terão que fazer para não emergir  em profunda numa crise social fora de controle. Aliás, patrocinada pela ortodoxa Ângela Merkel, há quatro meses, a Grécia já deu um  calote de porte médio.  Os bancos credores foram obrigados e reformar parte da divida  sem receber a sua integra contabilizada.

Por outro lado, Ming  tem razão quando se refere às manipulações estatísticas  no país vizinho. Esse é realmente o grande pecado do Governo argentino.

Mas faltou explicar que se a Argentina vai realmente crescer menos esse ano,  isso não se deve a nenhuma “lambança populista” e sim ao fato mais que evidente de que  todos vamos crescer menos e americanos e europeus terão crescimento pífio. Até a China e a índia crescerão menos.

 Ming, decano ou não, é um mau profissional.

O calote

Para esclarecer melhor, vamos recordar que no último dia 22 de maio, os investidores privados concordaram em perdoar 53,5% da dívida grega: Com isto o país poupou 107 mil milhões de euros. O anuncio do perdão da dívida  foi feito pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy, após reunião com a chanceler alemão Ângela Merkel. 

Atenas negociou também uma nova redução dos juros: passa a pagar uma taxa de 1,5% pelos empréstimos, durante toda a duração do programa. Com isto, a poupança chega a 1.400 milhões de euros.

O Banco Central Europeu e os bancos centrais nacionais abdicam das mais-valias realizadas com a compra de dívida grega e os eventuais lucros revertem para os cofres de Atenas: baixam as necessidades de financiamento e a poupança pode  chegar a cerca de 1.800 milhões de euros.

As condições foram negociadas para atender os pleitos de Atenas. A meta era reduzir a dívida grega de 160 por cento do Produto Interno Bruto para 120,5%.

Não resolveu nada e os gregos estão às vésperas de novas negocições para evitar o pagamento de mais uma parte de sua dívida. Mas vale lembrar que  “calote” não é uma invenção argentina.

 

 

12-05-12

A “autonomia” do Banco Central

Para o Capital Financeiro a situação ideal é aquela em que o Banco Central tem autonomia absoluta em relação ao Estado e submissão completa aos dogmas do neoliberalismo E, segundo esses dogmas, a manipulação da taxa de juros é o único instrumento eficaz não só no combate à inflação com na gerência geral da macroeconomia. Tudo em absoluta consonância com as sacrossantas leis do Mercado.

E assim veio caminhando a coisa nos últimos 30 anos: ao menor sinal de inflação,  eleva-se a taxa de juros  o que, por sua vez, inibirá o crescimento econômico. Mas não basta isso. É preciso, também que o Estado corte seus gastos o que, por igual, evite a expansão economia. Esta é a raiz da famosa Teoria do Estado Mínimo.

Na verdade, isso corresponde a uma insanidade acadêmica ungida por uma cresça quase religiosa na excelência do Mercado sem peias. Na prática, isto representa (como vem acontecendo de forma escancarada desde os anos 80) a liberação de trilhões de dólares para o  que o Mercado Financeiro especule como  e onde quiser  o que invariavelmente resulta em bolhas que invariavelmente  explodem.

E o fenômeno contamina a economia real como um todo. As empresas deixam de focar predominantemente na produção e dão primazia à sua Diretoria Financeira e aos chamados lucros de caixa obtidos nas operações (especulações) financeiras. Muitas empresas quebram por cota dessas especulações. Mas se forem estratégicas ou amigas do Rei, são salvas pelo Estado.  No Brasil, entre dezenas de outros casos, são paradigmáticos os da Sadia/Perdigão, da Votorantim e do Grupo Silvio Santos.

Tombini e Dilma

Vai daí que, quinta-feira (10), o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, enquanto reafirmou a autonomia do Banco Central, anunciou a nova postura da instituição, menos ortodoxa, vamos dizer assim.

Para Tombini, a estabilidade dos preços é “uma condição necessária, mas não suficiente” para garantir o sistema de metas de inflação. É preciso também, disse ele, que o BC cuide da estabilidade financeira. Em miúdos: a manipulação da taxa de juros é  um mecanismo necessário para conter a inflação, mas  não pode servir, simultaneamente, como combustível para a farra  do Setor Financeiro, aquilo  que ficou conhecido pelos economistas  como a  exuberância especulativa movida exuberante expansão monetária.

Tombini disse o que a presidente  Dilma vem dizendo de forma política ao denunciar a  guerra  cambial e o tsuname financeiro impostos  pelos países do Primeiro Mundo. Quem quiser pode depreender disso  que o BC cedeu  parte de sua autonomia.

 No entanto, o mais cordato é concluir que Dilma optou pela nomeação para o BC de um economista (o Tombine) que em alguns aspectos macroeconômicos pensa como ela. O que houve, portanto, foi que o BC libertou-se de sua servidão absoluta ao Mercado Financeiro. Servidão que descambava pra a conhecida promiscuidade pouco decente.

 E aqui é necessário denunciar a  grande cilada. Na verdade, os países centrais jamais seguem à risca as políticas restritivas que impõem à periferia. A própria Alemanha, hoje mestra exigente da austeridade, nos anos 80 estourou seu orçamento e extrapolou todas as normas ortodoxas, porque estava focada em um objetivo político maior: sua reunificação. E nem falemos  da França com sua tradição de subsídios  aos agricultores.

Entretanto, a própria adoção do sistema de metas de inflação, considerado essencial pela ortodoxia neoliberal, só muito recentemente foi adotado pelos Estados Unidos e pelo Japão. Ou seja,  não era uma unanimidade nem entre os países mais desenvolvidos.

A mídia brasileira, incompetente e venal, come na mão do Capital Financeiro, daí seu alinhamento automático com as teses neoliberais. Isso explica por que as principais estrelas (especialistas) desta mídia, tipo Miriam Leitão, Celso Ming e Carlos Alberto Sardenberg são intransigentes defensores dessas teses completamente ultrapassadas. Com isso, eles informam mal ou simplesmente desinformam seus leitores.

A matéria abaixo dá sequência ao raciocínio desta.

 

07-05-12

Mirian Leitão, Carlos Ming e
C A  Sardenberg  são desleais

A eleição do socialista François  Hollande na França altera substancialmente o xadrez político da Europa, a começar pelo rompimento do atrelamento ideológico entre  franceses e   alemães, na Política Econômica.

 Mas esta guinada à esquerda assinala, principalmente, a derrota (talvez definitiva) dos paradigmas neoliberais que infernizaram o Mundo nas últimas três décadas.

No artigo que o eleitor encontrará   logo abaixo desde, já dizíamos que nos últimos  cinco anos os bancos centrais europeus liberaram cerca de 3 bilhões de euros para que o Sistema Financeiro gastasse à farta toda esta grana, Mundo  afora. E entre outras coisas, aplicaram  sistemáticos assaltos especulativos a países emergentes, o Brasil entre eles.

De outra parte, as mesmas autoridades européias obrigavam trabalhadores, aposentados, a população de um modo gera, a apertar os cincos. Mais do que uma incongruência, essas políticas representam uma crueldade intrínseca e mais do que uma crueldade, um crime.

Se quiserem,  meus  queridos leitores  podem dizer que nestes artigos estou apenas repetindo  a argumentação de  economistas de peso, como  o Premio Nobel Paul Crugman e outros consagrados neokeynesianos.

Mas  com fica nisso tudo a incompetente e venal mídia brasileira que come na mão dos banqueiros e sempre defendeu as soluções neoliberais com o fervor de quem defende um dogma? E como ficam os profissionais maliciosos dessa mídia, tipo Mírian Leitão, Celso Ming e C A Sardenberg, que sempre foram arautos do neoliberalismo.

Eles simplesmente tergiversam, focam temas paralelos e fogem na questão central: a falência do neoliberalismo e da idéia grotesca de que o Mercado resolve tudo sozinho. Na verdade, desinformam deliberadamente seus leitores e, por isso,  são indignos deles.

02-05-12

A insanidade do Mercado

29-04-12

A insanidade do Mercado

Ontem (03), o ex-presidente Lula resumiu numa frase (está é uma de suas habilidades) a Crise Européia, subproduto da  Crise Americana.

Sua frase:

“Punem as vítimas da crise e distribuem prêmios para os responsáveis por ela. Há algo muito errado nesse caminho”.

E protestou contra medidas de austeridade dos países europeus que tiram direitos dos trabalhadores: “Ao sistema financeiro, todo apoio. E aos trabalhadores e aposentados, nenhum socorro, mais prejuízos, mais aperto do cinto”.

No mesmo dia, as editorias de Economia dos principais jornais destacaram que o Banco Europeu de Investimento (a versão européia do nosso BNDES), conta com 200 bilhões de euros para enfrentar a Crise. Na verdade, uma ninharia perto da magnitude do problema.

Para se ter idéia do quão minguados são estes estes recursos, basta dizer que só uma empresa brasileira, a Petrobras separou 172 bilhões  de euros para investimentos na produção, nos próximo dois anos.

Entretanto, creiam, não há falta de dinheiro. Desde a eclosão da Crise, os Bancos Centrais europeus, a começar pelo da Alemanha, a locomotiva do Continente, já despejaram no Mercado mais de  três trilhões de euros.

O americanos fizeram outro tanto. Mas fiquemos apenas com o exemplo europeu, para não complicar o raciocínio, até porque  a política  econômica do Obama é diferente  da de Ângela Merkel.

O que importa dizer é que  esse tsunami financeiro inunda os países emergentes que vêem suas bolsas e sua moedas atacadas por ferozes especuladores. Ocorre, então, a valorização artificial das moedas locais. Isso distorce absolutamente as leis elementares  do assim chamado  Livre Mercado e provoca enormes prejuízos às economias emergentes. O Brasil é exemplo claro disso.

Temos então que, por malícia, insanidade ou vício neoliberal, os “gênios” das finanças do Primeiro Mundo  não conseguem perceber que numa crise recessiva como a deles, a saída é o aumento da produção, jamais a adoção de  medidas ainda mais recessivas. Entretanto, tudo isso tem que ser feito por um Estado suficiente forte para, eventualmente, vencer quedas de braços com o Mercado.

Keynes ensinou estas coisas há 80 anos. Mas não é necessário recorre a ele.  Um mínimo de senso comum indica que deixar o a solução da Crise Mundial nas  mãos do Mercado é o mesmo que contratar um fogueteiro neurótico  para chefiar o Corpo de Bombeiros.

28-04-12

E o Mercado, enfim, cedeu

A Mídia trapaceira, manipuladora e que sempre se cevou na mão dos banqueiros  talvez jamais admita que O Governo venceu a queda de braço contra O Mercado. Os banqueiros sempre preferiram emprestar pouco e lucrar alto, sem nenhum compromisso com a produção ou com o País.

Na verdade, eles são mais incompetentes do que espertos ou egoístas, tanto que, desde o advento do Plano Real, 19 grandes bancos varejistas nacionais faliram ou foram incorporados.

E quando falamos em Governo é preciso incluir no time o Alexandre Tombini, presidente do Banco Central que, por ambição ou identidade de pensamento, resolveu aderir à turma do combate heterodoxo à inflação: Dilma Rousseff, Guido Mantega e Luciano Coutinho (BNDES).

E é verdade, também, que certa complacência com a inflação (o que faz parte do menu heterodoxo) só dá certo em emergências ou no curtíssimo prazo. Depois que a inflação passa dos dois dígitos, nem o demônio a recoloca nos eixos. Em Economia realmente não há almoço grátis.

Creio que o que confunde alguns teóricos importantes sobre esta questão é a teoria keynesiana da saída das crises com o incremento da produção e do consumo e não com o  gesto  ortodoxo de apertar ainda mais o cinto.

E ousaria dizer que quando Keynes defendeu suas teses não havia escassez de recursos financeiros no Planeta, entendido aqui como o Sistema, embora a Europa e a Rússia estivessem destruídas. Tanto é assim que uma única nação, os EUA, puderam sustentar o Plano Marshall e realizar a tarefa ciclópica de reconstruir a Europa em pouco mais de cinco anos.

Estou dizendo isso, porque vejo uma analogia entre o Pós Guerra e a atual Pós Crise. E se prestarmos atenção, veremos que na “Europa Falida” há pelo menos uma nação com capacidade para (guardadas as devidas proporções) reeditar o feito dos Estados Unidos nos anos 50: a Alemanha.

O problema é que Dona Ângela Merkel não é apenas sovina e altamente reacionária ela é, também, uma neoliberal démodé.

Finalmente, querido leitor, o que me conforta e encoraja a dizer tudo isso é o fato de que  Paul Krugman, Nobel de Economia,  faz, em relação à Crise Européia, um raciocínio exatamente igual ao meu. Você pode chegar a isto, lendo sua coluna publicada pelos principais jornais do Mundo.

 

 

28-01-12

A verdadeira vitória de Dilma

A mídia e seus especialistas picaretosos não admitem, mas a verdadeira grande vitória da presidente Dilma Rousseff, nesse seu primeiro  ano de governo, foi derrotar o Mercado  numa verdadeira queda de braço.

Desde meados do ano passado, com a ajuda de colunistas especializados da área econômica (tipo Míriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg) e  de analistas “conceituados” (todos trabalhando para corretoras ou bancos) o Capital  Financeiro que se auto denomina Mercado, tentou obrigar o governo manter a política de juros altos.

 Mas aqui, vale um breve retrospecto: Em dezembro de 2010, quando se especulava sobre a  composição do futuro governo de  Dilma Rousseff, este blog informou que o   nefando Henrique Meirelles, o homem do Capital Financeiro incrustado no Governo Lula, não permaneceria à frente do Banco Central. Dias depois dissemos que o novo presidente do BC sairia dos quadros da instituição e que um dos nomes cogitados era o de Alexandre Tombini.

Em janeiro de 2011, confirmada a nomeação de Tombine,  reproduzimos em  linhas  gerais e maneira informal, o diálogo entre  a presidenta e ele: “Garanto  que o governo vai  conter suas despesas e elevar o Superávit Primário. Mas gostaria que o BC fosse mais flexível (menos ortodoxo)  na sua política de juros.” Tombine concordou.

E então começou a guerra. Nos meses seguintes, Miriam Leião,  Sardemberg e  Celso Ming, entre outros áulicos do Capital Financeiro passaram a dizer diariamente que a autonomia do Banco central estava ameaça. E acusavam Tombini de “ter pulado para o lado do Governo”.

Aqui, torna-se necessário esclarecer que a autonomia dos bancos centrais é uma armadilha construída pelo Capital Financeiro Global, fazendo com que, monitoradas pelo FMI, as economias de países periféricos e de continentes inteiros, durante longos trinta logos anos (os anos da hegemonia neoliberal) fossem literalmente sangradas em sua seiva produtiva.

É claro que é saudável a autonomia técnica  do BC, assim como a do  IBGE, por exemplo.  Mas a instituição financeira não pode ser um governo paralelo e superior ao próprio Executivo.  Um exemplo: para cada ponto percentual de aumento da taxa oficial de juros, o Governo fica onerado (no serviço de Dívida Pública) em  US$ 15 bilhões. Daí a necessidade do Suprávit Primário.

É esta, quase que exatamente, a soma que o País gasta anualmente com a Bolsa Família. E isto quer dizer, portanto, que o presidente do Banco Central, que não é eleito por ninguém a não ser por um vago Consenso   do Mercado, tem  poder equivalente  ou maior do que o do Presidente da República.

Essa mágica besta durou aqueles trinta anos  neoliberais, promovendo uma  extraordinária transferência de renda  dos extremos para  o centro do Sistema. Durou, enfim, até o momento em que os países centrais deram com os burros n’água e o esquema explodiu junto com a bolha inflada pela especulação desenfreada, insana, do Capital Financeiro sem regulação. Foi o Setembro Negro de 2008, detonado pela falência do Lehman  Brothers.

De lá para cá, foram sendo desmontados todos os paradigmas neoliberais, a ponto de ser possível ouvir, esta semana, tanto no Fórum Social de Porto Alegre como no Fórum Econômico de Davos que “o Capitalismo precisa ser reestudado”.

E é isso que ilustra a  vitória de Dilma Rousseff sobre o Mercado e seus áulicos (Miriam Leitão, Sardenberg, etc.) e faz com que ela possa dizer, com autoridade, que  a Europa está caminhando para o fracasso, porque insiste em políticas recessivas ditadas, ainda, pela ortodoxia residual do pensamento neoliberal.

A Europa só sairá da crise se usar os capitais excedentes e ociosos (os bancos têm dinheiro, mas estão paralisados pelo medo)  se  investir na criação de novos mercados e empregos, tanto no próprio continente europeu, como em outras áreas. A África, por exemplo.

A matéria abaixo dá sequênncia ao raciocínio desta.

  

10-01-12

Malandros ou idiotas?

Carlos Alberto Sardeinberg, Miriam Leitão e Celso Ming.

São dezenas deles, mas fiquemos apenas com esses três mais conhecidos:  Mirim Leitão, Celso Ming e  Carlos Alberto Sardenberg, os jornalistas especializados, sabichões da economia.  Há três décadas eles “ensinam” seus leitores a respeitar a soberanas regras do Mercado que solucionam tudo naturalmente e sem dor.  E nem procuram esconder que atual locomotiva do Mercado é o Capital Financeiro, mais conhecido como agiotagem internacional.

Esses três são, enfim, os paladinos dos paradigmas neoliberais que assolaram o Planeta desde os anos 80 do século passado, quando a União Soviética ruiu e o Capital Financeiro assumiu o comando do processo, fazendo com que pessoas, empresas e países  buscassem a fortuna , não no setor produtivo, mas no lucro de caixa, nas aplicações financeiras.

Disso resulta a formação de gigantescas bolhas de economia fictícia, cujo destino e estourar, depois de infladas por aplicações especulativas  via derivativos e  apostas no Mercado Futuro.

Um idiota perceberia que tal distanciamento da economia real não daria certo. Mas eles não quiseram perceber, até porque são regiamente remunerados e não apenas com salários das empresas jornalísticas para as quais trabalham.

Malandros ou idiotas, há uma plêiade de jornalistas especializados  que jamais estudaram economia. E não entendem que, como ensinaram  Ricardo e Say ( Marx também aprendeu com eles) nenhuma mercadoria poderá ser chamada assim se não houver um comprador (consumidor) para ela.

Ocorre que a teoria neoliberal que aterrorizou o Mundo nas últimas três décadas com base nos textos da famosa e suicida Escola de Chicago, propôs  um modelo que na prática é absolutamente excludente (no limite abstrai a produção e o consumo), onde o Capital é o inicio e o destino do processo, sem levar em conta as reais necessidades do homem.

Para perceber isso, é preciso que se veja o Planeta de forma global, como um sistema único, já que  ele “globalizado” está. Nesse sentido, o que ocorre em Wall Street não é indiferente à última choupana de Moçambique. E ninguém, em qualquer parte do Planeta, produz redundante e inutilmente (via descartabilidade) sem ferir de morte a Natureza.

O “falecido” Lord Keynes

“Insensíveis, nossos “especialistas” não vêm ou fingem não ver nada disso. Entretanto, são obrigados a informar, meio sem jeito, que para salvar sua economia Obama  teve que mandar à favas a tória  do Mercado Absoluto e Estado Mínimo e simplesmente nacionalizou desde os bancos  falidos e fraudulentos até as montadoras de veículos à beira do fechamento ou da  desnacionalização.

E aos poucos (esses “especialistas”) são obrigados a admitir que um dia existiu um certo Lord Keynes que ensinou aos burgueses a  usarem a seu favor, um Estado Forte e Intervencionista. O mesmo Keynes que os neoliberais imaginavam ter soterrado ao longo das três últimas décadas perdidas.

Finalmente, coitados, são obrigados a noticiar, como ontem, que o conservador presidente francês, Nicolas Sarcozy, na tentativa de salvar a Europa da fúria e da incompetência do bancos (que não confiam nos bancos), propôs  a instituição de um imposto sobre operações financeiras, igualzinho ao nosso Imposto do Cheque que eles (os especialistas) fizeram questão de fulminar porque, no fundo, sempre , direta ou indiretamente, estiveram a soldo dos  banqueiros.

Como não sabem ou não querem ir às causas fenômenos limitam-se a informar  em tom  professoral que hoje a Bolsa de Nova Iorque  fechou em queda porque o Mercado está  nervoso, etc.  Amanhã informarão que as bolsas fecharam  em alta porque o Mercado está mais otimista. Enfim, uma palhaçada e uma palhaçada superficial.

Em seu artigo de hoje (publicado em jornais de todo o Planeta)  Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia, aponta para o centro do drama alemão e europeu. A síntese de seu raciocínio: Os alemães (seguindo a cartilha neoliberal) querem que os países da área do Euro pratiquem políticas de austeridade econômica que são recessivas.  Se for assim, quem comprará os excedentes industriais alemães, cuja venda é a razão de seu sucesso econômico?

A matéria abaixo dá continuidade ao raciocínio desta.

26-12-11

Dólar: o fim da picada

Os EUA não deixarão de ser a maior potência do Planeta amanhã.  O dólar também não deixará de ser, na semana que vem,  a moeda de aceitação universal. Mas estas duas coisas acontecerão, com certeza e ainda nesta década.

Já dissemos, neste blog, que a decadência norte-americana, coincide com o ingresso do modo de produção capitalista em sua fase terminal. Estamos em transição para um modelo pós- capitalista, ainda não suficientemente delineado. Mas o processo de acumulação  já entrou em colapso, entre outras coisas, em função do Impasse Ecológico.

Enfim, no pé deste texto, o amigo leitor encontrará uma síntese desse processo que defino como o Crepúsculo do Capital.

Aqui, o que pretendo destacar é a noticia de que Japão e China estabeleceram um acordo  que visa, no médio prazo, eliminar o dólar como moeda  utilizada nas relações comerciais entre esses dois gigantes econômicos.

O mesmo já foi feito pelas pelos países do Mercosul. Aqui também se programou  a utilização gradativa de moedas locais para as transações entre os membros do bloco. É inequivocamente, uma tendência mundial.

E vale destacar também a atual  postura americana entre arrogante e pouco séria, característica dos poderosos decadentes. Mesmo sem fazer a lição de casa na área econômica, mesmo devendo  mais do que podem pagar e mesmo derramando irresponsavelmente dólares sem lastro Mundo afora, os EUA continuam  gastando um Brasil por ano com sua máquina de guerra e insistem em ditar regras e agir como Polícia do Planeta.

Eis um resumo das noticias divulgadas pelas agências informando sobre o acordo sino-japonês para eliminar o dólar de suas transações e comerciais:

Os governos chinês e japonês revelaram, neste domingo (dia 25), um pacote inovador de acordos financeiros elaborados para estreitar a ligação entre a segunda e a terceira maiores economias do globo, em uma iniciativa que pode elevar o status do yuan para o de uma divisa internacional e solucionar as dificuldades que as empresas com sede no Japão tinham para seus negócios na China. As diretrizes visam ainda reduzir o uso do dólar nas trocas cambiais entre os dois países, o que  possibilita limitar o papel da moeda dos EUA na região de maior ritmo de expansão do mundo.

O Crepúsculo do Capital

Aqui a síntese da crise capitalista, conforme o prometido parágrafo acima:

 Todos comentam a atual crise econômica mundial, mas poucos percebem que  ela é, na verdade, uma crise do próprio  modo de produção capitalista. Trata-se de um fenômeno sistêmico que aponta para crescente  incapacidade  de o Capital acumular o seu próprio excedente. É a fase crepuscular ou terminal. Entender isso não é muito complicado desde que se saiba, preliminarmente:

1-O Capital é, em  si, um excedente. Excedente  de trabalho (próprio ou alheio) que não é consumido e sim acumulado.

 2-O Capital só obtém lucro efetivo na sua parte variável, dinheiro vivo reservado para pagamento de salários. É essa a parte do Capital que retorna ao bolso no proprietário, inflado pelas horas excedentes (não confundir com horas extras) de trabalho não pagas, a famosa mais-valia.

3-A parte fixa ou constante do Capital, máquinas e equipamentos (e insumos também)  não fornece, a rigor, nenhum lucro ao capitalista. Isto, pela boa razão de que ela  transfere o seu próprio valor para o valor da mercadoria que ajuda a produzir. No caso dos insumos (energia e matérias-primas) esta transferência é instantânea. No caso de máquinas  a transferência pode levar anos. Mas, inexoravelmente, insumos, máquinas  ou  equipamentos se exaurem, cedo ou tarde, na produção das mercadorias. Entretanto, é  aqui, na sua parte constante, que o Capital  acumula.

4-A última frase do item anterior não é gratuita: o Capital só materializa e fixa os lucros obtidos com a rodada anterior de exploração do trabalho, quando investe em novas máquinas e em mais terrenos e edificações. É assim e só assim que ele realiza sua acumulação ou, mais propriamente, sua reprodução ampliada. Pois é assim que ele amplia sua capacidade de explorar mais trabalho a partir  da mesma base inicial.

 Agora reparem (e isto  é estampado diariamente pela mídia) que o Capital está em permanente revolução interna, sempre substituindo sua  parte variável (salários e mão de obra) pela parte  constante (máquinas e equipamentos). É a  automação vertiginosa que acomete o Sistema nesta  sua fase terminal. Quando as máquinas e equipamentos perdem densidade de valor ou simplesmente tornam-se descartáveis (substituídas em prazos cada vez mais curtos), o Capital vai, concomitantemente, perdendo sua capacidade de acumulação. 

Então, fica nítida a noção de que, principalmente nos países  tecnologicamente mais adiantados, o Capital (entendido aqui como o conjunto de capitais – o Sistema), vai despregando-se daquela parte que dá lucro, bem como daquela onde  ocorre a acumulação efetiva.

Quando isto ocorre, o Capital toma três rumos: a- deixa de ser produtivo e transforma-se em capital de serviços que dá lucro, mas não realiza a acumulação clássica que só ocorre (como foi exposto acima) no capital efetivamente produtivo, industrial ou agrícola; b- ingressa  no cassino especulativo e passa a obter a  maior parte de seus lucros não mais no  chão da fábrica, mas  no departamento financeiro e c- migra para a periferia do sistema, os países em desenvolvimento, onde ainda é possível  obter altas taxas de mais-valia, em função da mão de obra barata. Neste último caso, China, Índia e Brasil são três excelentes exemplos.

Enfim, creio que aí está  um pequeno, porém eficiente, roteiro para acompanhar a  atual crise com melhor capacidade de percepção dos fenômenos que são subjacentes a ela e vão muito além das baboseiras repetidas à exaustão pela mídia pobre e podre.

Reparem, ainda, que o que foi dito aí em cima, não é simples literatura marxista dogmática e sim leitura correta dos antigos clássicos da economia como Adam Smith, David Ricardo  e Jean-Baptiste Say,  em cujos textos Marx colheu os fundamentos para  desenvolver sua teorias sobre a acumulação capitalista. Um processo que chega agora à sua fase crepuscular.

O Neofeudalismo

A esta fase crepuscular eu dou o nome de Neofeudalismo, a etapa superior do Imperialismo.

O Neofeudalismo tem como principal característica a  monopolização  e/ou oligopolização extremas e a nível mundial. Some-se a isso, a terceirização da produção.  As grandes corporações cedem a terceiros avassalados, sua marca,  suas invenções e modos de produção e venda.  Assim, passam   (eis aí o aroma feudal) a  auferir renda com algo que é de sua propriedade, sem se imiscuirem na produção propriamente dita.

Com isso, como já é visível a olho nu,  há uma total revolução das relações  do trabalho, somada ao crescente descarte de mão de obra, por conta da vertiginosa automação. Nasce aí o chamado desemprego estrutural.

E desemprego estrutural é  um eufemismo, um nome técnico  que se dá a algo brutal: a exclusão definitiva de populações  inteiras ao redor do Mundo. Populações que se  tornam excedentes e descartáveis  enquanto elementos  do processo produtivo.

O Impasse Ecológico

E ainda nem falamos no Impasse Ecológico que não só entrava, como inviabiliza  o atual modo de produção e consumo, pelas seguintes três razões:

1- A acumulação capitalista só ocorre, como vimos acima, pela metabolização do homem (através de seu trabalho) com a Natureza. Mais precisamente, através de um excedente de trabalho, a mais valia. Este excedente é aquela parte sem a qual o trabalhador poderia sobreviver, mas sem a qual ele  não consegue poupar e/ou acumular. E é certo que a este excedente de esforço humano  corresponderá, obrigatoriamente, um excedente  a ser fornecido pela Natureza, os recursos naturais.

2- Por esta razão o Sistema  se utiliza daquilo que chamamos de consumo e produção redundantes, através da descartabilidade e da obsolescência prematura ou forçada.

Ou seja, mercadorias de todos os tipos, inclusive mecadorias produzidas para produzir outras mecadorias (insumos, máquinas e equipamentos) são elaboradas com todo o esmero pra serem  descartados ou substituídas no mais curto espaço de tempo. O  objetivo dessa pressa é o de dar  lugar  a outras mecadorias que já estão entrando na linha de produção.

É este carrossel diabólico que com seus giros intemináveis vai produzindo mercadorias apenas para produzir mais mercadorias, sem nenhuma conexão com as reais necessidades do homem em particular ou na Humanidade como um todo. E é isto que faz com que o Capital, enquanto sistema global, perca sua lógica ou sua racionalidade elementar, transformando-se em instrumento de destrição planetária.

Enfim, creio que aí está  um pequeno, porém eficiente, roteiro para acompanhar a  atual crise com melhor capacidade de percepção dos fenômenos que são subjacentes a ela e vão muito além das baboseiras repetidas à exaustão pela mídia pobre e podre.

Reparem, ainda, que o que foi dito aí em cima, não é simples literatura marxista dogmática e sim leitura correta dos antigos clássicos da economia como Adam Smith, David Ricardo  e Jean-Baptiste Say,  em cujos textos Marx colheu os fundamentos para  desenvolver sua teorias sobre a acumulação capitalista. Um processo que chega agora à sua fase crepuscular.

A matéria abaixo dá continuidade ao raciocínio desta.

26-11-11

O Fim do Euro?

Veja como o Capital  Financeiro cava sua própria sepultura.

 Os dois maiores países da Zona do Euro estão cientes de que um fracasso da Itália levaria ao fim da moeda comum do bloco e à paralisação da integração do continente, afirmou, ontem (25-11), o novo primeiro-ministro da Itália, Mario Monti.

E realmente, em uma reunião ainda ontem, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, e a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, afirmaram que “estão cientes de que uma crise na Itália inevitavelmente levaria ao fim do euro, provocando um impasse no processo de integração europeia e resultando em consequências imprevisíveis”.

Mas as tensões aumentaram no mercado com o juro dos títulos italianos batendo recordes de alta. O retorno (yield) do bônus de 2 anos subiu 45 pontos-base ante o fechamento do dia anterior e tocou 7,60%; já o yield do bônus de 5 anos avançou 29 pontos-base, para 7,76%.

Entretanto, Sarkozy  de forma  mais branda e  Merkel, de forma radical, exigem medidas fortes de austeridade de todos os países  inadimplentes da Zona do Euro: Itália, Espanha, Grécia, Portugal, Hungria, etc. A verdade é que se esse países derem  o calote,    será geral a quebradeira dos bancos europeus a começar pelos italianos, franceses e belgas.

Então, adota-se a velha receita neoliberal de  apertar os cintos dos devedores, para salvar os bancos, muitos  deles incompetentes ou imprevidentes, para não dizer francamente abusados e desonestos.

Isto até faria um certo sentido, se não houvesse uma crise recessiva global. E até os neoliberais reconhecem que  nesses casos (de recessão) a solução é estimular o poder de compra dos mercados e não inibi-lo. Os europeus estão, portanto, andando em círculos.

Por outro lado, a presidenta  Dilma Rousseff e o ministro Guido Mantega, da Fazenda, têm insistido na  adoção de uma política redistribuitivista global. Ou seja:

Ao invés de empobrecer ainda mais os endividados, os países do Primeiro Mundo deveriam ampliar ou mesmo inaugurar novos mercados, como saída pra a crise recessiva.  Há regiões da África, por exemplo, que são mercados praticamente virgens.

Paul Krugman,  Nobel de economia, dizia ontem em  seu artigo, publicado em vários jornais  do Mundo, que  a atual política recessiva adotada pelos europeus, aponta para o fim do Euro. E desenvolve um raciocínio neokeynesiano que este blog, modestamente, vem desenvolvendo  há tempos: Numa economia efetivamente global o débito de uns é o ativo de outros. Quando você estrangula os devedores, na verdade você está calcinando os ativos dos credores.

Ocorre que os financistas, não pensam na economia real, produtiva. Sempre viveram de juros, explorando o trabalho alheio e não sabem agira de outra forma. Isso ainda funcionou quando os países devedores eram periféricos e obrigados a reduzir seu povo à miséria  e à estagnação econômica. Ocorre que hoje os devedores são os países do Primeiro Mundo.

É o fim do caminho.

A materia abaixo, dá sequência ao raciocínio desta.

21-11-11

A esquizofrenia do Mercado e o Crepúsculo do Capital

A Hungria pediu nesta  tarde de segunda-feira  (21) um “auxílio preventivo” ao FMI, para evitar dificuldades com o pagamento de sua dívida pública, como já aconteceu com Irlanda, Portugal, Grécia e Itália. Ainda hoje, Alemanha, motor da Europa, informou que sua economia crescerá menos de um por cento este ano.

A Espanha, com  20% de desempregados  (recorde europeu) principalmente jovens, acaba de eleger o PP, um partido conservador, para  gerir seus destinos. Mas, curiosamente, pesquisas  realizadas no dia das eleição (domingo) indicam que a maioria do eleitorado não acredita que o novo governo solucione seus problemas. Foi,  portanto, um voto contra o governo anterior, Social Democrata . Mas um voto sem esperança.

A Itália e a Grécia devem uma vez e meia o seu próprio Produto  Bruto, o que fragiliza  os bancos credores, principalmente  franceses e alemães.

Fica claro que  os governos europeus,  capitaneados  por Alemanha e França, estão apenas preocupados em  salvar seus bancos. Por isso impingem aos países devedores (que foram, no passado, estimulados a contrair dívidas) políticas de austeridade, um eufemismo para substituir um fato concreto:  o arrocho salarial, o apertar de cintos e o desemprego ainda maior.

Agora vejamos pelo lado dos EUA:

A comissão parlamentar (reunindo democratas e republicanos)  para  acordar planos de redução de déficit dos EUA deve  anunciar hoje, formalmente, o fracasso das negociações. Ela foi criada há três meses para evitar um eminente calote da maior economia do Mundo que  confessa não ter como pagar em dia as parcelas vincendas de sua estonteante dívida  de 15 trilhões de dólares, maior que o BIP do país: 14,5 trilhões.

Por conta disso tudo, as bolsas de valores asiáticas fecharam em baixa nesta segunda-feira e o movimento foi acompanhado pela  bolsas européias, diante da  incerteza continuada sobre como os líderes da Zona do Euro responderão às dificuldades dos bancos, enquanto os políticos dos Estados Unidos aparentemente fracassavam em acertar uma redução de déficit do governo.

“É um fator negativo. Há muitas perguntas a serem feitas: e se a Moody’s e a Fitch, por exemplo, agirem para rebaixar (o nível de credibilidade) dos EUA”, disse Garry Evans, diretor global de estratégia do HSBC.

O alerta do vice-premiê da China, Wang Qishan, sobre o cenário econômico global também prejudicou os mercados, especialmente em Hong Kong, cujo índice  declinou 1,44%.

O último reduto

Tudo isso para dizer que toda vez que a economia dos países fica por conta só do Mercado elas, cedo ou tarde, vão para o buraco. Exatamente o contrário do que os neoliberais tentam ensinar, nos últimos trinta anos, exigindo intervenção mínima do Estado.

Isso porque o Mercado, controlado pelo Capital Financeiro, é imediatista, irracional e não tem nenhum compromisso com o bem estar ou destino   do homem, no sentido global.

O Mercado corre atrás do “lucro de caixa” especulativo, não aquele proveniente da produção efetiva. E isso resulta invariavelmente em bolhas de crescimento fictício, cujo destino e explodir.

Agora que a crise está escancarada,  especialistas” neoliberais e jornalistas levianos metidos a sabidos, como Míriam Leitão e Celso Ming, começam a redescobrir Lord Keynes (pai involuntário estruturalismo) que  há  80 anos, influenciado pelo economista marxista Michal Kalecki, ensinou que as crises são apenas superficialmente financeiras.

 Na verdade, elas correspondem  a movimentos cíclicos (dinâmica) da acumulação do capital produtivo. Então, a solução  passa pelo aumento da produção  e do consumo, com as devidas cautelas, evidentemente.

A idéia neoliberal de aguardar uma solução natural (depuração via falências e desemprego) do Mercado e limitar-se a elevação ou baixa dos juros como num elevador automático, o que só beneficia o Capital Financeiro, é uma bobagem como outra qualquer. E só não é risível, porque acarreta a fome, a miséria absoluta e a morte de centenas de milhões de pessoas ao redor Mundo.

Um exemplo concreto. Se ao invés de gastar trilhões de dólares ou euros apenas para salvar bancos, os países  mais ricos  investissem pelo menos uma parcela disso, na  África por exemplo, estaria sendo criada uma nova dinâmica de consumo, com a  incorporação de  centenas de milhões de pessoas ao Mercado Global.

Foi isso, aliás, o que a presidenta brasileira propôs na reunião do G-20, dia 3 último em Cannes. Na verdade, ela sugeriu a criação de um programa mundial de renda mínima ao qual deu o nome de “piso mundial de renda”, com o objetivo de sair da crise através da inclusão e não da exclusão social. Mas a mídia brasileira, americanófila, incompetente e calhorda não deu o menor destaque.

Para concluir: a incompetência e a esquizofrenia do Mercado é tão patente que neste momento de crise generalizada, todos correm (é o efeito manada e, portanto,  animal)  para a compra de  Títulos do Tesouro  Americano considerado o último reduto de segurança para os aplicadores. Quer dizer:  o último reduto é um país à beira do calote.

02-11-11 atualizado em 13-11-11

As crises da Grécia e da Itália  não  são o  Fim do
Mundo, mas anunciam o Crepúsculo do Capital

Itália e Grécia trocam políticos populistas por tecnocratas para tentar sair da crise. Na Grécia sai o “irresponsável” gastador de centro-esquerda George Papandreou. E na Itália sai o mussolínico  bufão direitista Silvio Berlusconi.

Na Itália está prevista a indicação de Mario Monti, professor de Economia, ex-Comissário da União Européia, especialista em Política Financeira, e ex-consultor  da Goldman Sachs e da Coca-Cola. Um homem do Sistema ou “tecnocrata”.

Na Grécia, já assumiu o novo primeiro ministro Lucas Papademos, ex-vice-presidente do Banco Central  Europeu. Outro homem do Sistema. Nos dois casos eles representam  as soluções de mercado: privatizações  e corte de  salários e benefícios sociais.

As economias dos  dois países tem tamanho muito diferentes. A Itália  e a terceira economia do da Zona do Euro e a  Grécia e  a décima quinta.  A outra diferença é a de que a situação fiscal da Itália ainda é equilibrada, mas na Grécia  o desequilíbrio é tão grande que o Governo  não tem como pagar seu funcionalismo e as pensões, já no próximo mês.

O que há  em comum, é que os dois países devem uma  vez e meia o seu próprio Produto Bruto. No caso italiano, chega a dois trilhões de euros.  São dívidas impagáveis no curto e no médio prazos. Quando sua rolagem não se dá naturalmente, os juros crescem muito e é preciso renegociá-las. Se essas renegociações não forem bem  sucedidas,  os principais  bancos credores  ( no caso italianos e franceses)  começam a quebrar.

Por outro lado, os analistas têm dado pouco destaque  a um aspecto central da Crise do Euro. O de que qualquer economia, seja de que tamanho for, exige  quatro mecanismos  (políticas) fundamentais para o seu manejo:  o fiscal (equilíbrio das contas do governo), o tributário (distribuição da renda interna), o monetário (controle inflacionário) e o cambial (manipulação do valor de sua moeda).

 Com a moeda única (o Euro) dois desses mecanismos, o monetário e o cambial, desaparecem. Então quando tudo vai bem, ótimo. Mas quando se instala a crise, como agora, os países mais fracos não têm como se defender com um mínimo de autonomia, como é o caso da Grécia e de Portugal, por exemplo.

Por isso, a maioria dos economistas  já prevê  que alguns  países menores,  abandonem   a Zona  Euro, por desejo próprio ou “educadamente convidados”.

No texto abaixo tentamos explicar por que a Crise do Euro anuncia  o Crepúsculo do Capital.

Texto de o2-11-11

Como é que o Caetano dizia? Pois é: Uma nova ordem mundial. Os poetas têm dessas intuições, são mais proféticos que os próprios profetas.  E como a História é farta em ironias, a Grécia e a Itália, berços da  Civilização Ocidental,  estão se  insinuando, agora,  como marcos de seu crepúsculo. Mas que nova ordem é essa?

No início é uma desordem, uma demolição, um fim de era.

Do ponto de vista econômico, a Grécia  é um pais periférico, uma das últimas províncias européias, mas como dizia  Paul Krugman (Prêmio Nobel de Economia), em seu artigo de ontem (01),  o calote  grego representa o “Crepúsculo do Euro”.

E acrescenta que já há um contágio em cadeia: a Itália já está pagando 6,29% ao ano para reformar  os títulos de dez anos  de seu Governo. E conclui catastrófico, dizendo que “ a próxima parada é a França”, cujos bancos  estão atolados até o pescoço  com títulos  podres da Grécia, da Itália, da Irlanda, de Portugal e por aí vai.

Tudo isso, porque o primeiro ministro da Grécia, George Panpandreou, um espertalhão, resolveu convocar um referendo para saber se o povo grego aceita “a ajuda” coordenada pela Alemanha e pela França para fazer com que o calote de seu pais não seja  selvagem.

 Então os bancos credores  foram obrigados a “apagar”  50% da dívida grega e ainda  fornecer créditos adicionais de 181 bilhões de dólares. Como a Grécia  deve uma vez é meia o seu próprio Produto Bruto, toda essa ajuda é insuficiente, a menos que se adote um programa de  grande  austeridade  e bota austeridade nisso. Ou seja:  o governo e a população terão que apertar o cinto até o último furo.

Ocorre que o povo grego já está nas ruas em greve  quase permanente  e promove quebradeiras diárias. Parece, portanto, um  beco sem saída. Entretanto esta é apenas a visão superficial da crise que, lembremos, se inicia  em 2008, nos Estados Unidos, com a quebra do Banco Lehman  Brothers.

Por que o Capital não acumula

A presidenta Dilma Rousseff  e o ministro da Fazenda,  Guido Mantega, tem dito reiteradas vezes que a atual crise é muito mais séria do que a mídia divulga e possivelmente tão profunda quanto a de 1929.

Eles estão  certos, mas este ainda não é o cerne da questão.

No meu livro “O Impasse Ecológico” de 2004, pretendi demonstrar que a próxima grande  crise capitalista seria crônica e definitiva, representando um crepúsculo. Isto, dizendo simplificadamente, por  três razões:

1- As crises cíclicas do Capital (da acumulação capitalista) ocorriam, grosso modo a cada dez anos, tempo em que o esgotamento pelo uso  e a  obsolescência pela evolução  tecnológica, determinam a substituição  do Capita Constante  – máquinas e equipamentos.  Entretanto, com a vertiginosa aceleração  tecnológica das últimas décadas, o espaço de tempo entre uma crise e outra tornou-se exíguo ou mesmo imperceptível. A crise torna-se, por assim dizer, crônica.  Picos e vales ficam nivelados, como num remanso paralisante.

2- Concomitantemente,  o Capital  (enquanto Sistema  Global) em função dessa mesma vertiginosa evolução tecnológica, vai perdendo sua capacidade de acumular. Deixa de extrair  mais valia, porque deixa, progressivamente, de explorar  mão de obra física,  única e verdadeira  fonte de sua acumulação.

3-  Em se tratando  de economias maduras (as do Primeiro Mundo), onde e quando houver crescimento, ele ocorrerá invariavelmente através do aumento do consumo e da especulação financeira,  a acumulação fictícia, apartada da economia real. Nesses casos, surgirão, invariavelmente, as chamadas bolhas, cujo destino é o estouro, como  de fato ocorreu  em 2008.

Os economistas modernos não notam isso, porque nas últimas três décadas foram encharcados pela literatura neoliberal  tecnicista que pretendeu  esquecer os  verdadeiros fundamentos da ciência econômica depositados  nos clássicos como Smith, Ricardo e Marx, entre outros.

Os últimos currais

Entretanto, é fácil notar que o crescimento médio global é sustentado pelos chamados emergentes, onde ocorre uma mescla de utilização de altas tecnologias com a exploração  ainda intensiva de mão de obra  física e barata. Estes países (e a  China é o mais exemplar) representam  os últimos redutos (curais) de extração de mais valia do Planeta.

Em artigos recentes sobre economia  tenho repetido  trecho de um artigo antigo, onde procuro sintetizar  a fórmula da acumulação capitalista.  Vou reproduzi-lo novamente, não pelo gosto da repetição, mas para  facilitar a compreensão do leitor, sem precisar remetê-lo para este ou aquele texto. Creio  que sem entender a  essências da acumulação do Capital é impossível  notar por que vivemos a fase crepuscular do modo de produção capitalista.

O Crepúsculo do Capital

Eis o texto que prometemos no parágrafo acima:

Todos comentam a atual crise econômica mundial, mas poucos percebem que  ela é, na verdade, uma crise do próprio  modo de produção capitalista. Trata-se de um fenômeno sistêmico que aponta para crescente  incapacidade  de o Capital acumular o seu próprio excedente. É a fase crepuscular ou terminal. Entender isso não é muito complicado desde que se saiba, preliminarmente:

1-O Capital é, em  si, um excedente. Excedente  de trabalho (próprio ou alheio) que não é consumido e sim acumulado.

 2-O Capital só obtém lucro efetivo na sua parte variável, dinheiro vivo reservado para pagamento de salários. É essa a parte do Capital que retorna ao bolso no proprietário, inflado pelas horas excedentes (não confundir com horas extras) de trabalho não pagas, a famosa mais-valia.

3-A parte fixa ou constante do Capital, máquinas e equipamentos (e insumos também)  não fornece, a rigor, nenhum lucro ao capitalista. Isto, pela boa razão de que ela  transfere o seu próprio valor para o valor da mercadoria que ajuda a produzir. No caso dos insumos (energia e matérias-primas) esta transferência é instantânea. No caso de máquinas  a transferência pode levar anos. Mas, inexoravelmente, insumos, máquinas  ou  equipamentos se exaurem, cedo ou tarde, na produção das mercadorias. Entretanto, é  aqui, na sua parte constante, que o Capital  acumula.

4-A última frase do item anterior não é gratuita: o Capital só materializa e fixa os lucros obtidos com a rodada anterior de exploração do trabalho, quando investe em novas máquinas e em mais terrenos e edificações. É assim e só assim que ele realiza sua acumulação ou, mais propriamente, sua reprodução ampliada. Pois é assim que ele amplia sua capacidade de explorar mais trabalho a partir  da mesma base inicial.

 Agora reparem (e isto  é estampado diariamente pela mídia) que o Capital está em permanente revolução interna, sempre substituindo sua  parte variável (salários e mão de obra) pela parte  constante (máquinas e equipamentos). É a  automação vertiginosa que acomete o Sistema nesta  sua fase terminal. Quando as máquinas e equipamentos perdem densidade de valor ou simplesmente tornam-se descartáveis (substituídas em prazos cada vez mais curtos), o Capital vai, concomitantemente, perdendo sua capacidade de acumulação. 

Então, fica nítida a noção de que, principalmente nos países  tecnologicamente mais adiantados, o Capital (entendido aqui como o conjunto de capitais – o Sistema), vai despregando-se daquela parte que dá lucro, bem como daquela onde  ocorre a acumulação efetiva.

Quando isto ocorre, o Capital toma três rumos: a- deixa de ser produtivo e transforma-se em capital de serviços que dá lucro, mas não realiza a acumulação clássica que só ocorre (como foi exposto acima) no capital efetivamente produtivo, industrial ou agrícola; b- ingressa  no cassino especulativo e passa a obter a  maior parte de seus lucros não mais no  chão da fábrica, mas  no departamento financeiro e c- migra para a periferia do sistema, os países em desenvolvimento, onde ainda é possível  obter altas taxas de mais-valia, em função da mão de obra barata. Neste último caso, China, Índia e Brasil são três excelentes exemplos.

Enfim, creio que aí está  um pequeno, porém eficiente, roteiro para acompanhar a  atual crise com melhor capacidade de percepção dos fenômenos que são subjacentes a ela e vão muito além das baboseiras repetidas à exaustão pela mídia pobre e podre.

Reparem, ainda, que o que foi dito aí em cima, não é simples literatura marxista dogmática e sim leitura correta dos antigos clássicos da economia como Adam Smith, David Ricardo  e Jean-Baptiste Say,  em cujos textos Marx colheu os fundamentos para  desenvolver sua teorias sobre a acumulação capitalista. Um processo que chega agora à sua fase crepuscular.

O Neofeudalismo

A esta fase crepuscular eu dou o nome de Neofeudalismo, a etapa superior do Imperialismo.

O Neofeudalismo tem como principal característica a  monopolização  e/ou oligopolização extremas e a nível mundial. Some-se a isso, a terceirização da produção.  As grandes corporações cedem a terceiros avassalados, sua marca,  suas invenções e modos de produção e venda.  Assim, passam   (eis aí o aroma feudal) a  auferir renda com algo que é de sua propriedade, sem se imiscuirem na produção propriamente dita.

Com isso, como já é visível a olho nu,  há uma total revolução das relações  do trabalho, somada ao crescente descarte de mão de obra, por conta da vertiginosa automação. Nasce aí o chamado desemprego estrutural.

E desemprego estrutural é  um eufemismo, um nome técnico  que se dá a algo brutal: a exclusão definitiva de populações  inteiras ao redor do Mundo. Populações que se  tornam excedentes e descartáveis  enquanto elementos  do processo produtivo.

O Impasse Ecológico

E ainda nem falamos no Impasse Ecológico que não só entrava, como inviabiliza  o atual modo de produção e consumo, pelas seguintes três razões:

1- A acumulação capitalista só ocorre, como vimos acima, pela metabolização do homem (através de seu trabalho) com a Natureza. Mais precisamente, através de um excedente de trabalho, a mais valia. Este excedente é aquela parte sem a qual o trabalhador poderia sobreviver, mas sem a qual ele  não consegue poupar e/ou acumular. E é certo que a este excedente de esforço humano  corresponderá, obrigatoriamente, um excedente  a ser fornecido pela Natureza, os recursos naturais.

2- Por esta razão o Sistema  se utiliza daquilo que chamamos de consumo e produção redundantes, através da descartabilidade e da obsolescência prematura ou forçada.

Ou seja, mercadorias de todos os tipos, inclusive mecadorias produzidas para produzir outras mecadorias (insumos, máquinas e equipamentos) são elaboradas com todo o esmero pra serem  descartados ou substituídas no mais curto espaço de tempo. O  objetivo dessa pressa é o de dar  lugar  a outras mecadorias que já estão entrando na linha de produção.

É este carrossel diabólico que com seus giros intemináveis vai produzindo mercadorias apenas para produzir mais mercadorias, sem nenhuma conexão com as reais necessidades do homem em particular ou na Humanidade como um todo. E é isto que faz com que o Capital, enquanto sistema global, perca sua lógica ou sua racionalidade elementar, transformando-se em instrumento de destrição planetária.

27-08-11

O País começa a descobrir que Maluf não é
a exceção, mas  o padrão  da classe política

A quase totalidade dos políticos e administradores públicos são, paralelamente,  empresários. E corruptos nas duas  versões. Numa  época em que o empreendorismo é a palavra de ordem,  agir e pensar generosamente em função do coletivo  já deixou de ser utopia, é piada.

A prefeitura de São Paulo e o Governo Brasileiro tentam, há anos, recuperar a enorme fortuna  da família Maluf (e é apenas uma parte) depositada em bancos do exterior. Algo como U$ 160 milhões.

Se calcularmos, por baixo, que existam mais 10 mil empresários e/ou políticos, todos muito  empreendedores, do calibre do Maluf e tão pilantras quanto ele,chegaremos a uma soma que supera o trilhão de dólares. Grana que foi e continua sendo ilicitamente subtraída do Estado Brasileiro. Por isso, os neoliberais espertos defendem o Estado Mínimo com tanto ardor.

Por outro lado, ainda  existe  gente suficientemente  ingênua ou hipócrita para defender soluções do tipo Ficha Limpa. É evidente que se trata de uma grossa bobagem, já que o País foi encampado pelo Crime Organizado (Institucionalizado) que é sócio indissolúvel do Capital Organizado.

O desanimador é que as esquerdas brasileiras, inteiramente apáticas, desfiguradas  e  ideologicamente fragilizadas, oscilem , diante da atual situação, entre o moralismo neolacerdista e o leninismo centralista e obsoleto.

No entanto, creiam, o Capital já ingressou em sua fase  crepuscular. De um lado porque, como já esmiucei  em dezenas de artigos neste blog, ele não consegue mais acumular seu próprio excedente. E, além disso, dada essa insuficiência congênita de acumulação real, ele se estiola na especulação desvairada e acelera o ritmo de seus ciclos. Aceleração que faz com que ele destrua a Natureza de forma cada vez mais inútil e vertiginosa.

No pé desta matéria, reproduzo um dos últimos artigos, onde descrevo este crepúsculo do Capital.  Antes, porém, leiamos esta nota policial distribuída, hoje, pelas agências de notícias:

A grana do Maluf

“A prefeitura de São Paulo terá de esperar alguns anos para receber os milhões de dólares das contas das offshores Macdoel Trust e Latin Invest que estão na Ilha de Jersey, no Reino Unido. A última esperança de reaver de forma rápida o dinheiro público supostamente desviado pelo ex-prefeito Paulo Maluf (PP) era o acordo entre a defesa do deputado em Nova York e o promotor Adam S. Kaufmann, de Manhattan. Pelo acordo, Maluf abriria mão de US$ 13 milhões dos US$ 22 milhões bloqueados administrativamente em Jersey. A negociação se arrastou por quase um ano, mas Maluf desistiu na última hora porque seu filho, Flávio, poderia ficar à mercê do Ministério Público brasileiro. .

Os advogados britânicos da prefeitura não haviam entrado na Justiça para reaver esse dinheiro, ao contrário do que fizeram em relação aos valores das contas mantidas pelas offshores Kildare Finance e Durant Internacional. No caso dessas duas, além do bloqueio administrativo, a prefeitura também obteve o bloqueio judicial do dinheiro.

Ao todo, o Ministério Público de São Paulo e a prefeitura estimam que Maluf e sua família manteriam ativos avaliados em US$ 160 milhões em Jersey – cerca de US$ 100 milhões em ações da Eucatex e o restante em dinheiro nas contas bancárias das offshores. No Brasil, o MPE também obteve o bloqueio judicial dos valores em Jersey. Na avaliação da Procuradoria do Município, seria mais difícil reaver o dinheiro da Macdoel Trust e da Latin Invest do que o das outras offshores.  Um acordo com Maluf seria duplamente vantajoso: além de garantir o repatriamento imediato da fortuna, acabaria com o risco de um processo moroso”

O Crepúsculo do Capital

Eis o texto que prometemos parágrafos acima:

Todos comentam a atual crise econômica mundial, mas poucos percebem que  ela é, na verdade, uma crise do próprio  modo de produção capitalista. Trata-se de um fenômeno sistêmico que aponta para crescente  incapacidade  de o Capital acumular o seu próprio excedente. É a fase crepuscular ou terminal. Entender isso não é muito complicado desde que se saiba, preliminarmente:

1-O Capital é, em  si, um excedente. Excedente  de trabalho (próprio ou alheio) que não é consumido e sim acumulado.

 2-O Capital só obtém lucro efetivo na sua parte variável, dinheiro vivo reservado para pagamento de salários. É essa a parte do Capital que retorna ao bolso no proprietário, inflado pelas horas excedentes (não confundir com horas extras) de trabalho não pagas, a famosa mais-valia.

3-A parte fixa ou constante do Capital, máquinas e equipamentos (e insumos também)  não fornece, a rigor, nenhum lucro ao capitalista. Isto, pela boa razão de que ela  transfere o seu próprio valor para o valor da mercadoria que ajuda a produzir. No caso dos insumos (energia e matérias-primas) esta transferência é instantânea. No caso de máquinas  a transferência pode levar anos. Mas, inexoravelmente, insumos, máquinas  ou  equipamentos se exaurem, cedo ou tarde, na produção das mercadorias. Entretanto, é  aqui, na sua parte constante, que o Capital  acumula.

4-A última frase do item anterior não é gratuita: o Capital só materializa e fixa os lucros obtidos com a rodada anterior de exploração do trabalho, quando investe em novas máquinas e em mais terrenos e edificações. É assim e só assim que ele realiza sua acumulação ou, mais propriamente, sua reprodução ampliada. Pois é assim que ele amplia sua capacidade de explorar mais trabalho a partir  da mesma base inicial.

 Agora reparem (e isto  é estampado diariamente pela mídia) que o Capital está em permanente revolução interna, sempre substituindo sua  parte variável (salários e mão de obra) pela parte  constante (máquinas e equipamentos). É a  automação vertiginosa que acomete o Sistema nesta  sua fase terminal. Quando as máquinas e equipamentos perdem densidade de valor ou simplesmente tornam-se descartáveis (substituídas em prazos cada vez mais curtos), o Capital vai, concomitantemente, perdendo sua capacidade de acumulação. 

Então, fica nítida a noção de que, principalmente nos países  tecnologicamente mais adiantados, o Capital (entendido aqui como o conjunto de capitais – o Sistema), vai despregando-se daquela parte que dá lucro, bem como daquela onde  ocorre a acumulação efetiva.

Quando isto ocorre, o Capital toma três rumos: a- deixa de ser produtivo e transforma-se em capital de serviços que dá lucro, mas não realiza a acumulação clássica que só ocorre (como foi exposto acima) no capital efetivamente produtivo, industrial ou agrícola; b- ingressa  no cassino especulativo e passa a obter a  maior parte de seus lucros não mais no  chão da fábrica, mas  no departamento financeiro e c- migra para a periferia do sistema, os países em desenvolvimento, onde ainda é possível  obter altas taxas de mais-valia, em função da mão de obra barata. Neste último caso, China, Índia e Brasil são três excelentes exemplos.

Enfim, creio que aí está  um pequeno, porém eficiente, roteiro para acompanhar a  atual crise com melhor capacidade de percepção dos fenômenos que são subjacentes a ela e vão muito além das baboseiras repetidas à exaustão pela mídia pobre e podre.

Reparem, ainda, que o que foi dito aí em cima, não é simples literatura marxista dogmática e sim leitura correta dos antigos clássicos da economia como Adam Smith, David Ricardo  e Jean-Baptiste Say,  em cujos textos Marx colheu os fundamentos para  desenvolver sua teorias sobre a acumulação capitalista. Um processo que chega agora à sua fase crepuscular.

O Neofeudalismo

A esta fase crepuscular eu dou o nome de Neofeudalismo, a etapa superior do Imperialismo.

O Neofeudalismo tem como principal característica a  monopolização  e/ou oligopolização extremas e a nível mundial. Some-se a isso, a terceirização da produção.  As grandes corporações cedem a terceiros avassalados, sua marca,  suas invenções e modos de produção e venda.  Assim, passam   (eis aí o aroma feudal) a  auferir renda com algo que é de sua propriedade, sem se imiscuirem na produção propriamente dita.

Com isso, como já é visível a olho nu,  há uma total revolução das relações  do trabalho, somada ao crescente descarte de mão de obra, por conta da vertiginosa automação. Nasce aí o chamado desemprego estrutural.

E desemprego estrutural é  um eufemismo, um nome técnico  que se dá a algo brutal: a exclusão definitiva de populações  inteiras ao redor do Mundo. Populações que se  tornam excedentes e descartáveis  enquanto elementos  do processo produtivo.

O Impasse Ecológico

E ainda nem falamos no Impasse Ecológico que não só entrava, como inviabiliza  o atual modo de produção e consumo, pelas seguintes três razões:

1- A acumulação capitalista só ocorre, como vimos acima, pela metabolização do homem (através de seu trabalho) com a Natureza. Mais precisamente, através de um excedente de trabalho, a mais valia. Este excedente é aquela parte sem a qual o trabalhador poderia sobreviver, mas sem a qual ele  não consegue poupar e/ou acumular. E é certo que a este excedente de esforço humano  corresponderá, obrigatoriamente, um excedente  a ser fornecido pela Natureza, os recursos naturais.

2- Por esta razão o Sistema  se utiliza daquilo que chamamos de consumo e produção redundantes, através da descartabilidade e da obsolescência prematura ou forçada.

Ou seja, mercadorias de todos os tipos, inclusive mecadorias produzidas para produzir outras mecadorias (insumos, máquinas e equipamentos) são elaboradas com todo o esmero pra serem  descartados ou substituídas no mais curto espaço de tempo. O  objetivo dessa pressa é o de dar  lugar  a outras mecadorias que já estão entrando na linha de produção.

É este carrossel diabólico que com seus giros intemináveis vai produzindo mercadorias apenas para produzir mais mercadorias, sem nenhuma conexão com as reais necessidades do homem em particular ou na Humanidade como um todo. E é isto que faz com que o Capital, enquanto sistema global, perca sua lógica ou sua racionalidade elementar, transformando-se em instrumento de destrição planetária.

09-08-11

Os juros não sobem mais este ano

A presidenta Dilma Rousseff, o ministro Guido Mantega, da Fazenda, e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, então em contato permanente, monitorando o que chamam de “Double Crise”, a Americana e a Européia que são simultâneas, complementares, mas de qualidades deferentes.

O problema americano é de credibilidade e de excesso de gastos governamentais. A crise européia é essencialmente bancária. Teme-se que haja quebradeira de bancos se ocorrer na Itália e na Espanha algo semelhante ao que ocorreu na Grécia, só que em proporções dez vezes maiores. Daí o socorro urgente prestado, neste fim de semana, a Roma e Madri.

Disso tudo, uma coisa é absolutamente certa: não haverá nova elevação das taxas de juros este ano. Tanto Dilma como Mantega recordaram e Tombine concordou que no auge da crise de 2008, o então presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, cometeu grande barbeiragem ao aumentar ainda mais a taxa de juros. Na verdade, Meirelles temeu equivocadamente uma fuga de capitais e o esgotamento de nossas reservas.

No ano seguinte, o rumo foi corrigido, os juros baixaram, o tsunami virou marolinha e Lula ainda teve condições para  exibir um prestígio popular inédito e eleger a desconhecida  Rousseff.

Entretanto, os juros básicos da economia ainda estão num patamar elevadíssimo, os mais altos do Mundo, uma anomalia que até  hoje é o principal problema brasileiro. Estes juros atraem uma enxurrada de capitais, principalmente especulativos, que valorizam demasiado o Real e estrangulam  nossas exportações.

Há, porém, uma discordância entre os três economistas, Dilma, Mantega e Tombine. O presidente do Banco Central insiste na diminuição dos gastos públicos como via prioritária no  combate à inflação. Ele acredita que o País deve conformar-se com um crescimento em torno de no máximo 3%,  bem distante dos 4,5%  desejados por Mantega.

Coincidindo com o diagnóstico de Pérsio Arida (um dos pais do Real), Tombini entende que  nestes momentos de turbulência a aversão ao risco é generalizada e a atividade econômica tende a cair.

A solução seria a redução da taxa de juros, o que é impossível no momento, diante da ameaça da inflação que já ultrapassou os 6%. Então, o remédio é reduzir o gasto público. Esta é, porém, uma decisão política da presidenta.

Quanto à questão cambial, há pelo menos uma notícia positiva: a inflação chinesa já bateu nos 6%, a maior da década. Isto poderá levar Pequim a finalmente valorizar um pouco o Yuan, encarecendo, assim, os produtos chineses de exportação e baixando os  preços relativos das importações, uma vantagem para o Brasil que tem hoje, na China, o seu principal cliente nos setores de minérios e alimentos.

A matéria aí abaixo dá continuidade ao raciocínio desta.

04-08-11

O Dólar derrete porque  o Capitalismo
Global  está caminhando  para o brejo

Enquanto o dólar derrete, a Zona do Euro mergulha na crise. Itália e Espanha enfrentam dificuldades para reformar seus títulos, como já aconteceu com Irlanda, Portugal e Grécia. O Japão combalido pela catástrofe natural e pela anemia econômica crônica, mesmo assim anuncia medidas para sustar a valorização do yen em relação ao dólar.

Os americanos evitaram, na última hora, o calote, mas as bolsas continuam despencando, porque eles não evitaram a exposição pública de sua mazelas políticas e econômicas.

A dívida do Tesouro Americano já é equivalente a 110% do Produto Bruto do país, que  não consegue deslanchar sua economia. E o pouco que cresce (média de 1% ao ano desde 2008) não se traduz em novos empregos, em função da automação ou do salto tecnológico.

E este é um ponto crucial: o crescente uso de novas tecnologias na produção industrial calcinam  empregos Mundo a fora, enquanto concentra  renda (pelo domínio privado das descobertas científicas e seu  emprego na  economia) e  disseminam a  exclusão social.

Mas nossos cronistas econômicos, sabichões do tipo Mírian Leitão e Carlos Alberto  Sardenberg que ocupam largos espaços na mídia venal e incompetente, logo eles que todos os dias ditavam regras, já não conseguem explicar nada a seus incautos leitores e ouvintes.

Fornecem apenas algumas observações ridiculamente superficiais. E, recentemente, cutucados talvez, pela consciência, deram para confessar que simplesmente não conseguem entender o que está acontecendo.

Há algumas semanas postamos neste blog (na verdade regatamos um texto ainda mais antigo) trecho de uma matéria onde procuramos explicar da forma mais simples possível, um tema de alta complexidade: a fase do esvaecimento do modo de produção  capitalista que dominou o Mundo nos últimos 350, mas que  ingressa, agora, em sua   fase terminal.

Isto decorre não das grandes crises como a atual e que são apenas os sintomas, mas  da própria  gênese  do Capital e da sua  forma elementar de acumulação.

O Crepúsculo do Capital

Eis o texto “antigo” a que nos referimos acima:

Todos comentam a atual crise econômica mundial, mas poucos percebem que  ela é, na verdade, uma crise do próprio  modo de produção capitalista. Trata-se de um fenômeno sistêmico que aponta para crescente  incapacidade  de o Capital acumular o seu próprio excedente. É a fase crepuscular ou terminal. Entender isso não é muito complicado desde que se saiba, preliminarmente:

1-O Capital é, em  si, um excedente. Excedente  de trabalho (próprio ou alheio) que não é consumido e sim acumulado.

 2-O Capital só obtém lucro efetivo na sua parte variável, dinheiro vivo reservado para pagamento de salários. É essa a parte do Capital que retorna ao bolso no proprietário, inflado pelas horas excedentes (não confundir com horas extras) de trabalho não pagas, a famosa mais-valia.

3-A parte fixa ou constante do Capital, máquinas e equipamentos (e insumos também)  não fornece, a rigor, nenhum lucro ao capitalista. Isto, pela boa razão de que ela  transfere o seu próprio valor para o valor da mercadoria que ajuda a produzir. No caso dos insumos (energia e matérias-primas) esta transferência é instantânea. No caso de máquinas  a transferência pode levar anos. Mas, inexoravelmente, insumos, máquinas  ou  equipamentos se exaurem, cedo ou tarde, na produção das mercadorias. Entretanto, é  aqui, na sua parte constante, que o Capital  acumula.

4-A última frase do item anterior não é gratuita: o Capital só materializa e fixa os lucros obtidos com a rodada anterior de exploração do trabalho, quando investe em novas máquinas e em mais terrenos e edificações. É assim e só assim que ele realiza sua acumulação ou, mais propriamente, sua reprodução ampliada. Pois é assim que ele amplia sua capacidade de explorar mais trabalho a partir  da mesma base inicial.

 Agora reparem (e isto  é estampado diariamente pela mídia) que o Capital está em permanente revolução interna, sempre substituindo sua  parte variável (salários e mão de obra) pela parte  constante (máquinas e equipamentos). É a  automação vertiginosa que acomete o Sistema nesta  sua fase terminal. Quando as máquinas e equipamentos perdem densidade de valor ou simplesmente tornam-se descartáveis (substituídas em prazos cada vez mais curtos), o Capital vai, concomitantemente, perdendo sua capacidade de acumulação. 

Então, fica nítida a noção de que, principalmente nos países  tecnologicamente mais adiantados, o Capital (entendido aqui como o conjunto de capitais – o Sistema), vai despregando-se daquela parte que dá lucro, bem como daquela onde  ocorre a acumulação efetiva.

Quando isto ocorre, o Capital toma três rumos: a- deixa de ser produtivo e transforma-se em capital de serviços que dá lucro, mas não realiza a acumulação clássica que só ocorre (como foi exposto acima) no capital efetivamente produtivo, industrial ou agrícola; b- ingressa  no cassino especulativo e passa a obter a  maior parte de seus lucros não mais no  chão da fábrica, mas  no departamento financeiro e c- migra para a periferia do sistema, os países em desenvolvimento, onde ainda é possível  obter altas taxas de mais-valia, em função da mão de obra barata. Neste último caso, China, Índia e Brasil são três excelentes exemplos.

Enfim, creio que aí está  um pequeno, porém eficiente, roteiro para acompanhar a  atual crise com melhor capacidade de percepção dos fenômenos que são subjacentes a ela e vão muito além das baboseiras repetidas à exaustão pela mídia pobre e podre.

Reparem, ainda, que o que foi dito aí em cima, não é simples literatura marxista dogmática e sim leitura correta dos antigos clássicos da economia como Adam Smith, David Ricardo  e Jean-Baptiste Say,  em cujos textos Marx colheu os fundamentos para  desenvolver sua teorias sobre a acumulação capitalista. Um processo que chega agora à sua fase crepuscular.

O Neofeudalismo

A esta fase crepuscular eu dou o nome de Neofeudalismo, a etapa superior do Imperialismo.

O Neofeudalismo tem como principal característica a  monopolização  e/ou oligopolização extremas e a nível mundial. Some-se a isso, a terceirização da produção.  As grandes corporações cedem a terceiros avassalados, sua marca,  suas invenções e modos de produção e venda.  Assim, passam   (eis aí o aroma feudal) a  auferir renda com algo que é de sua propriedade, sem se imiscuirem na produção propriamente dita.

Com isso, como já é visível a olho nu,  há uma total revolução das relações  do trabalho, somada ao crescente descarte de mão de obra, por conta da vertiginosa automação. Nasce aí o chamado desemprego estrutural.

E desemprego estrutural é  um eufemismo, um nome técnico  que se dá a algo brutal: a exclusão definitiva de populações  inteiras ao redor do Mundo. Populações que se  tornam excedentes e descartáveis  enquanto elementos  do processo produtivo.

O Impasse Ecológico

E ainda nem falamos no Impasse Ecológico que não só entrava, como inviabiliza  o atual modo de produção e consumo, pelas seguintes três razões:

1- A acumulação capitalista só ocorre, como vimos acima, pela metabolização do homem (através de seu trabalho) com a Natureza. Mais precisamente, através de um excedente de trabalho, a mais valia. Este excedente é aquela parte sem a qual o trabalhador poderia sobreviver, mas sem a qual ele  não consegue poupar e/ou acumular. E é certo que a este excedente de esforço humano  corresponderá, obrigatoriamente, um excedente  a ser fornecido pela Natureza, os recursos naturais.

2- Por esta razão o Sistema  se utiliza daquilo que chamamos de consumo e produção redundantes, através da descartabilidade e da obsolescência prematura ou forçada.

Ou seja, mercadorias de todos os tipos, inclusive mercadorias produzidas para produzir outras mercadorias (insumos, máquinas e equipamentos) são elaboradas com todo o esmero pra serem  descartados ou substituídas no mais curto espaço de tempo. O  objetivo dessa pressa é o de dar  lugar  a outras mercadorias que já estão entrando na linha de produção.

É este carrossel diabólico que com seus giros intermináveis vai produzindo mercadorias apenas para produzir mais mercadorias, sem nenhuma conexão com as reais necessidades do homem em particular ou na Humanidade como um todo. E é isto que faz com que o Capital, enquanto sistema global, perca sua lógica ou sua racionalidade elementar, transformando-se em instrumento de destruição planetária.

A matéria abaixo dá continuidade ao raciocínio desta.

30-07-11 atualizado em 03-08-11

Com calote ou sem, o dólar já está furado

O presidente Barack Obama recuou no sábado (30) e conseguiu, precariamente, que democratas e republicanos chegassem a um acordo já votado, segunda-feira (1-8), na Câmara e  aprovado,  ontem (2-8),  no Senado.

O teto  da Dívida Pública será elevado de 14 para perto de 17 trilhões de dólares e haverá um corte de gastos do governo de um trihão de dólares em dez anos. Mas não  haverá  o aumento de impostos para os mais ricos, como queria o presidente. Este, exatamente, foi o seu recuo.

O calote oficial foi evitado, mas ficou evidente que os EUA esgotaram sua capacidade de endividamento. Isto quer dizer que fica  ainda mais difícil  retomar o crescimento econômico. Nos  últimos três anos o crescimento médio foi de apenas 1%.

O Mercado percebeu isso e as Bolsas, em todo o Mundo, reagiram com cautela, sem nenhuma euforia.

 Até agora o estímulo ao desenvolvimetno vinha sendo feito pelo viés do aumento do consumo do governo e das famílias. Daí o crescimento da  dívida do Tesouro Americano  que passou de 40% do PIB em, 20o2, para os atuais 11o%.

 A rigor o que está acontecendo com os EUA é, em proporções muito maiores e dramáticas, o que aconteceu, na Irlanda, em Portugal, na Grécia e poderá acontecer na Itália: gastos (consumo) maiores que a capacida de pagamento.

Os especialistas gostam de dizer que “em economia não  há almoço grátis”. Esta é uma regrinha básica que não popua ninguém, nem a maior economia do Mundo.

Texto de  30-07

Aos ingênuos e analfabetos políticos  que imaginavam que  baixaria e a política pequena são   privilégio do Brasil, Obama e os republicanos mostram  toda sua insensatez e mesquinharia, quando, na luta por uns pontinhos a mais ou  a menos nas pesquisas eleitorais, colocam  seu próprio país e a economia mundial à beira do precipício.

É possível que até terça-feira (2-8), se chegue a um acordo com mais desgastes para os dois lados, já desmoralizados, mas o dólar não escapa. Ele está definitivamente furado. Ninguém mais confia numa moeda emitida por de um país pouco confiável.

Se as agências que dão notas a países para classificar suas credibilidade (capacidade de endividamento) fossem sérias, já teriam rebaixado os EUA  que ostentam ainda o Triplo A  (A-A-A), a nota máxima.

Mesmo assim, houve  advertência emitida na semana passada por duas das maiores agências classificadoras de risco, a Moody’s e a Standart & Poor’s. Ambas anunciaram sua decisão de rebaixar a nota dos EUA, caso não haja acordo sobre o teto da dívida até o próximo dia 2 de agosto.

 Razões  técnicas e objetivas  para o rebaixamento não faltam: os  norte-americanos  devem 14 trilhões de dólares, o equivalente a 100% de seu próprio Produto Bruto e sofrem de crônicos déficits, o do Orçamento e o da Balança Comercial.  Tudo por que não fazem a chamada lição de casa. Gastam mais do que podem e ninguém, nem mesmo um gigante, sobrevive a uma situação dessas por muito tempo.

No momento, o Tesouro dos Estados Unidos, organismo responsável pela arrecadação e  pelo pagamento das despesas, opera com um rombo de mais de US$ 100 bilhões por mês, que é o quanto as despesas excedem as receitas.

Para cobrir a diferença, o governo americano tem que levantar empréstimos, o que se faz pela emissão de títulos ou notas do Tesouro. E mesmo que   Obama consiga  aprovar  seu programa de austeridade  combinado com aumento de impostos (o que os republicanos recusam), o déficit vai continuar, embora um pouco menor.  Ou seja, vai ser preciso continuar rolando a dívida.

Por conta disso, o governo  já elaborou um plano de contingência e dará prioridade ao pagamento dos credores (investidores e governos estrangeiros), deixando para  depois os compromissos com aposentados e despesas com os programas sociais. Estes serão pagos com o que sobrar.

 Isso não deve escandalizar aos brasileiros. É exatamente o que fazemos aqui, com o nosso chamado Superávit Primário, um eufemismo usado para  denominar a parte da arrecadação que separamos só para pagar os juros dos Títulos do Tesouro. Com o que  sobrar cuida-se da saúde, educação, infra-estrutura… Este ano o Superávit Primário vai  ser superior a 140 bilhões de reais, o equivalente a  dez  Bolsas Família.

No caso americano,  como a legislação permite, FED, Banco Central, poderia cobrir a diferença, emitindo dólares sem lastro. Sem lasrtro, porque há um déficit orçamentário confessado.  Se fosse assim, haveria um inflação descomunal nos EUA e  que se alastraria pelo Mundo.

 Na verdade, isto já vem acontecendo de forma disfarçada e em doses  já próximas do insuportável: nos  próximos  dias, o Federal Reserve (Fed) completa o segundo programa de afrouxamento quantitativo (QE2, na sigla em inglês), que consistiu em despejar mais US$ 600 bilhões nos mercados, mediante a recompra de títulos do Tesouro dos Estados Unidos.

 Apenas para relembrar: o primeiro programa desse tipo, o QE1, aconteceu entre novembro de 2008 e março de 2010 e recomprou US$ 300 bilhões em títulos públicos. As principais consequências dessas decisões são a desvalorização do dólar, aumento dos preços das commodities e o surgimento de novos focos de inflação global.

Enfim: lá, como aqui em como em todo o Mundo, falam mais alto os interesses intocáveis do Capital Financeiro.

A matéria abaixo complementa o raciocínio desta.

26-07-11

Arrogantes e insensatos, os americanos ensaiam a Crise Mãe       

A mídia tratando esta questão do iminente calote dos EUA, como uma imperdoável leviandade dos políticos  americanos que, por questões eleitorais, estão brigando à  beira do abismo e  colocando toda a economia mundial em risco.

É uma verdade, mas não é toda a verdade. Por trás desta disputa entre  o presidente Obama e os republicanos, que controlam a Câmara dos Representantes (dos deputados), há uma insuperável  questão ideológica: os republicanos e não só os mais radicais, acreditam sinceramente que toda e qualquer solução econômica deve ser entregue às leis do  Mercado e  não à ação do Governo. Aliás, os neoliberais brasileiros, também  pensam assim.

É a velha proposta do Estado Mínimo. Quando estourou a  Grande Crise Americana de setembro de  2008 (que é sistêmica e terminal) as lideranças políticas republicanas e seus principais ideólogos,  disseram claramente: deixa quebrar, mesmo que  haja  temporariamente desemprego e sofrimentos humanos, o Mercado  se encarregará de ajustar as coisas logo mais adiante.  A economia tem capacidade de auto-regeneração e sempre foi  assim, com  alternância de picos de crescimentos eufóricos e vales depressivos.

Nos quatro anos anteriores,  Bush filho  seguira  à risca  esta receita: diminuiu a ação social do Estado e eliminou alguns impostos cobrados ao Grande Capital  que, assim, poderia investir mais e gerar empregos. Em seguida, partiu para a guerra no Iraque e no  Afeganistão, enquanto  o Grande Capital (controlado já pelo segmento financeiro) partia para a construção  meticulosa  da maior bolha especulativa de  todos os  tempos. Deu no que deu.

O papa de todas estas teorias cretinas que  gente como Míriam Leitão e  Carlos Alberto Sardenberg  repetem e à exaustão e de forma de   nauseante e simplória   é  o economista  americano Milton Freidman, Prêmio Nobel (1976) e autor da “bíblia” Capitalismo e Liberdade.

Freidman, além de pregar (contrapondo-se a  Keynes)  o Estado Mínimo e o Mercado Máximo, teve a  habilidade ou malícia, como o título sugere,  de afirmar que   capitalismo é sinônimo de liberdade. Na verdade, porém, a maior  afinidade do capitalismo puro e fundamentalista (a seleção  social natural – que vença o mais forte) e com o nazismo puro.

A Bíblia 2 dos republicanos  e parte dos neoliberais americanos é  a obra  “O Choque das Civilizações”  (1996) do polêmico e ousado  economista  e cientista político Samuel Huntington que  desde  a  Era Reagan vem sendo conselheiro formal  ou informal de todos os presidentes republicanos.

 Ele defende, em síntese, que, na virada do século,  as guerras religiosas  substituiriam as ideológicas.  É nesse sentido que, para grande parte dos norte-americanos, a guerra contra o islamismo (que para eles se confunde com o terrorismo moderno), faz todo o sentido. Aliás, para  parte da mídia brasileira mais exaltada também faz. Tanto que ela alinha-se automaticamente  ao conteúdo  editorial  da mídia americana que é, por sua vez,  ditado pelo Departamento de Estado.

Como se vê, esta briga entre Obama e  os republicanos vai muito além de uma simples disputa eleitoral. E segue a novela:

 Barack Obama fez ontem (25) um apelo desesperado em rede nacional de TV para que haja um comprometimento de republicanos e democratas com um acordo para elevar o teto da dívida pública do país, hoje em US$ 14,3 trilhões. O prazo fatal para a declaração de inadimplência (calote de consequências imprevisíveis) é 2 de agosto.

Momentos após o discurso de Obama, o presidente da Câmara, o republicano John Boehner, disse que os Estados Unidos não podem suspender os pagamentos, mas também não se pode dar um “cheque em branco” ao governo.

Após a matéria logo aí abaixo, há  outra que complementa o raciocínio desta que você acabou de ler. Leia, também, na  coluna O Grande Debate, texto sobre o mesmo tema.

20-07-11

Dilma volta a pensar na Quarentena (câmbio
quase fixo) para conter a valorização do Real

Mario Henrique Simonsen sabia das coisas em matéria de Economia. Talvez até mais do que  o Delfim Netto que, entretanto, é bem mais prático e esperto na política. E Simonsen dizia: a inflação machuca, mas o câmbio mata.

Deste o início de seu governo, Dilma Rousseff debate-se  neste dilema. Não consegue estabelecer  uma prioridade entre o combate à inflação (uma  necessidade inclusive eleitoral) e a contenção da valorização (em parte artificial) do Real, o que está fulminando setores inteiros de nossa indústria e pode representar uma década perdida  em termos de avanço e consolidação de tecnologias nacionais.

A indefinição não se deve ser à inconsistência da presidenta  enquanto economista, nem à inconstância, enquanto política. O que há é um grande círculo vicioso a ser superado.

 Ele funciona assim: para combater a inflação, o Governo cede à ortodoxia do Mercado (para não deixar a  inflação disparar) e concorda com o aumento juros. Juros, aliás, cuja taxa deverá ser elevada hoje pelo  Banco Central,  chegando a 12,5% ao ano, recorde mundial absoluto.

 Ocorre que  com esta tentadora taxa, atraímos um violento fluxo de capitais externos (especulativos ou mão) o que valoriza ainda mais o Real.

Dilma e seu ministro Guido Mantega, da Fazenda, já tem prontinho, em cima da mesa, o decreto que  institui sistema de Quarentena.  Isso consiste em  reter durante, digamos 90 ou 120 dias, os dólares que entram no País. Aos poucos estes  capitais vão sendo seletivamente liberados. Na prática, isto pode ser chamado de câmbio fixo ou quase, porque  susta, pela ação do Governo, a desvalorização do dólar.

A Quarentena quase foi adotada há dois meses. Ela deveria ter sido anunciada  no retorno de Dilma de sua viagem à China.  Entretanto, houve, na época, um recrudescimento da inflação  e a guerra contra esse dragão passou a ser a prioridade.

Como se sabe, o Real  valorizado é uma das formas de combate  à inflação, pela razão simples de que  isto  faz com que  o mercado interno seja inundado  por produtos, inclusive alimentícios, relativamente mais baratos.

Agora, entretanto, Dilma e Mantega parecem dispostos a  lançar mão da Quarentena, porque,  segundo cálculos de Alexandre Tombini, presidente do Banco Central,  a inflação  ficará estabilizada ou em queda   até outubro ou novembro, quando deverá ocorrer novo recrudescimento.

Seria esta a brecha  ideal, somada ao pretexto da  crise americana que desvaloriza ainda mais o dólar, para a implantação da Quarentena. Porém…

Porém  surge aqui um problema  diplomático e estratégico. A desvalorização do Real  ou sua estabilidade no atual nível, prejudica a Argentina, nosso principal parceiro estratégico no campo diplomático  e um dos mais importantes parceiros comerciais, com um volume de trocas igual ao da China e superior ao dos Estados Unidos, por exemplo.

Vai daí que Dilma provavelmente só vai  mexer no câmbio depois do dia  12 de agosto, quando recebe a visita de sua colega  Cristina Kirchner. Ambas estão dispostas  a colocar um ponto final no contencioso  comercial entre os dois países. O encontro pode ser antecipado para o próximo dia 29.

 Há um saldo crônico a favor do Brasil na balança comercial entre os dois países e com a vantagem de que exportamos para  a Argentina principalmente produtos industrializados, diferente do que ocorre  com a China para  onde enviamos apenas commodities (matérias primas).

Por outro lado, em função de uma manobra das montadoras que usam a seu favor os mecanismos do MERCOSUL, 70%  das exportações de automóveis argentinos e feita  para o Brasil. Como se vê, queiram ou mão, os dois países estão amarrados.  E eu, pessoalmente, acho isso muito bom.

18-07-11

Crise Americana: o mal já está feito

Mesmo que na última hora republicanos e democratas cheguem a um acordo  e aprovem  no Congresso o aumento do teto de endividamento dos EUA, evitando assim o calote, o mal já está feito. A imagem  do dólar e dos Títulos do Tesouro Americano como aplicações seguras está irremediavelmente arranhada. E, seja como for, os congressistas só tem esta semana para evitar a queda no abismo.

Diante  da teimosia suicida dos radicais do Partido Republicano que parecem decididos a deixar a vaca ir para o brejo só para  prejudicar eleitoralmente  o presidente Obama, os analistas concluíram  que  o prejuízo maior já ocorreu: a imagem norte-americana e  de sua   moeda  já foi degradada. Confiança é algo que se constrói em décadas e se perde em um segundo.

Este é, talvez, um momento histórico  que assinala o momento em que o dólar deixa de ser confiável (perdeu fidúcia) como moeda padrão de troca  universalmente aceita.

Nos últimos dias o governo americano montou uma operação para convencer consultorias e analistas do setor financeiro a não rebaixar a classificação de risco de sua dívida pública de US$ 14,3 trilhões. Mesmo com a ameaça de  calote dos Estados Unidos no início de agosto, as principais agências classificadoras de risco ainda mantêm a nota dos EUA no patamar mais alto.

 As autoridades americanas têm mantido contatos com esses agentes para reforçar a existência de compromisso dos líderes do Congresso em alcançar um acordo sobre o aumento do teto da dívida pública, segundo o jornal The Washington Post. Apenas com essa iniciativa será possível impedir a declaração de suspensão dos pagamentos pelo Departamento do Tesouro.

Segundo o jornal, o nervosismo das autoridades americanas em relação a um potencial rebaixamento da classificação da dívida do país os levou a pedir aos analistas da Standart & Poor’s, em Londres, para usarem uma linha telefônica direta da embaixada dos EUA. Dessa forma, poderiam conversar com maior segurança.

Em outro momento, quatro analistas da mesma consultoria foram convidados para uma reunião com os mais próximos colaboradores do presidente americano, Barack Obama. No encontro, o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, teria feito um fervoroso apelo contra ações que pudessem aumentar dúvidas sobre a dívida do país, segundo o Post.

A iniciativa de manter contato estreito com os agentes de mercado não é diferente da que muitos países põem em marcha em situações delicadas. O Brasil manteve uma estrutura como essa para apresentar novas informações e avaliações aos participantes de mercado e aos governos credores, no Ministério da Fazenda e no Banco Central, durante as crises seguidas do fim da década de 90.

 Nos EUA, entretanto, essa tarefa não foi suficiente para evitar o alerta emitido na semana passada por duas das maiores agências classificadoras de risco, a Moody’s e a Standart & Poor’s. Ambas anunciaram sua decisão de rebaixar a nota dos EUA, caso não haja acordo sobre o teto da dívida até o próximo dia 2 de agosto.

Última tentativa

No sábado (17-07) em seu discurso de final de semana ao povo americano, o presidente  Obama, reafirmou seu compromisso de aceitar cortes em despesas públicas sociais ( investimentos na saúde e no combate ao desemprego) antes impensáveis para o Partido Democrata, e apelou à oposição republicana para concordar com o fim das reduções de impostos para a fatia mais rica da população e as grandes empresas.

 Na mensagem, estava implícito o ultimato feito na última sexta-feira por Obama para que o Congresso apresente, até a noite de sábado, um plano razoável para elevar o teto da dívida pública do país, hoje em US$ 14,3 trilhões, e reduzir substancialmente esse total nos próximos dez anos.

Os republicanos enlouqueceram

Diante da sucessão de  jogadas político-eleitorais de alto risco à beira do abismo, o economista Paul Krugman (Premio Nobel) escreveu em seu último artigo no New York  Times:

“Não há muitos aspectos positivos na crescente possibilidade de uma moratória na dívida americana. Mas sou obrigado a reconhecer que há um elemento de alívio cômico – no sentido do humor negro – no espetáculo proporcionado pelas pessoas que insistiram na negação e agora despertam para se deparar com tanta loucura.

Alguns comentaristas parecem chocados diante da posição extremamente irracional dos republicanos. “Será que o Partido Republicano enlouqueceu de vez?”, perguntam eles.

Ora, é isso mesmo: os republicanos enlouqueceram. Mas não estamos falando de algo que ocorreu subitamente e sim no resultado de um processo que se desenvolve há décadas.

 Quem estiver surpreendido pelo extremismo e pela irresponsabilidade demonstrados agora não deve ter prestado atenção no comportamento republicano dos últimos anos,ou então preferiu ignorar deliberadamente essa tendência”.

Nã deixe de ler a matéria logo aí abaixo. Ela dá continuidade ao raciocínio desta.

  11-07-11 atualizado em 15-07-11

Da Grécia para os EUA

 O presidente  Barack Obama, disse que está esta tarde  (15-07) estar “pronto para agir” no sentido de elevar o teto da dívida do país e pediu que o Congresso apresente, em 24 horas, um plano para que isso seja feito. “O tempo está se esgotando”, disse Obama .

Por lei, o país tem teto de endividamento de US$ 14,29 trilhões, valor que foi recentemente atingido. O problema é que no dia 2 de agosto há vencimento de dívidas e os americanos não têm dinheiro suficiente para pagar. Um acordo precisa ser fechado até o dia 22 de julho, quando o Congresso deve entrar em recesso.

Há um impasse porque  os  republicanos são maioria na  Câmara dos Representantes (deputados)  e exigem que  Obama reduza  o déficit do orçamento federal, sem aumentar impostos, ou seja, cortando gastos.

Na verdade, os dois lados  travam uma luta  à beira do abismo e de olho nas pesquisas de opinião. Isto porque o presidente é candidato à reeleição e, se houver  o desastre da  situação declarada de calote (ainda que temporário), a culpa recairia sobre o  os radicais do Partido Republicado. É uma aposta de altíssimo risco, mas os analistas acreditam que na última hora, os contendores cederão,  um pouco de cada lado.

Texto de 11-07-11

Há quem aposte que depois da  Grécia e de Portugal, a próxima falência (default  moratória, calote, etc.) será o da Espanha ou o da Itália. Estão  errados. O caloteiro mais próximo ou mais visível no horizonte  são os Estados Unidos. Há mais de cem anos isto não acontece.

Agora, entretanto, as autoridades dos Estados Unidos admitem a possibilidade de um calote, ao menos temporário, da dívida americana – se o Congresso não autorizar o aumento do  teto do endividamento que já é  astronômico: US$ 14,3 trilhões.

 O Congresso tem prazo até o dia  2 de agosto para aprovar a autorização. O Partido Republicano que controla o Parlamento bota lenha na fogueira, nesta verdadeira guerra de nervos  e  cobra de Obama corte nos gastos, enquanto o presidente propõe  novo aumento dos impostos  para os mais ricos.

Mas, o provável que é na última hora os republicanos  aprovem, na última hora, o aumento  do teto de dívida.  O reconhecimento oficial da situação inadimplência provocaria fantástica balburdia financeira Mundo afora. Praticamente todos os países aplicam a maior parte de suas reservas em Letras do Tesouro  Americano.

Entretanto, a verdade é que, de forma disfarçara e  homeopática os EUA  já vem dando o calote há dois anos:

Nos  próximos  dias, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) completa o segundo programa de afrouxamento quantitativo (QE2, na sigla em inglês), que consistiu em despejar mais US$ 600 bilhões nos mercados, mediante a recompra de títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Apenas para relembrar: o primeiro programa desse tipo, o QE1, aconteceu entre novembro de 2008 e março de 2010 e recomprou US$ 300 bilhões em títulos públicos. As principais consequências dessas decisões estão razoavelmente mapeadas: desvalorização do dólar, puxada para cima dos preços das commodities e o surgimento de novos focos de inflação global.

Esse “afrouxamento quantitativo” é um eufemismo que, devidamente traduzido, mostra que   os EUA não estão seguindo as normas elementares  de economia, e gastam mais do que podem e tentem sair da crise, iniciada em 2008, sem  restringir gastos e custos: apenas priorizando  o estímulo ao aumento do consumo.

Logo  os EUA, maior  acionista do Fundo Monetário Internacional que sempre foi tão rigoroso com  todos os países inadimplentes ou quase. Ou seja, os  EUA não fazem hoje o que  se  exigiu no passado do Brasil, por exemplo, e exige-se atualmente da  Grécia, Portugal, Itália, etc.

E os norte-americanos  só conseguem  fazer isso, porque possuem  uma moeda que é , ainda,  o padrão cambial mundial e como tal aceita mundialmente pelo seu valor de face. Como  resultado, a partir dos EUA  esparge-se para o Mundo todo um processo inflacionário sem controle  e  já bem visível na valorização das commodities  em relação ao dólar.  E isto se traduz em  pressões inflacionarias tanto para produtores como consumidores dessas commodities, sendo que para os produtores há ainda o efeito colateral da  excessiva valorização de suas moedas. Caso específico do Brasil.

Seja como for, já há um movimento consistente liderado por países como a China (o maior credor) e Brasil (um dos maiores prejudicados) pela substituição do dólar  por outra moeda padrão a ser criada.

Do ângulo geopolítico tudo isso aponta para o fim de uma era. A era da hegemonia mundial absoluta dos EUA.

As duas matérias logo aí abaixo dão continuidade ao tema desta.

15-06-11

O Dólar à beira do abismo

Este blog tem pouco mais de dois anos. Durante este período, desde o início temos dito, nesta coluna Para Entender a Crise, que os EUA estão em estado pré falimentar  e insistem em não fazer o dever de casa.

Agora, quem diz isso, com todas as letras é nada menos que o presidente do FED (Banco Central americano), Bem Bernanke.  Vamos lê-lo (via agências de  notícias) para comentar em seguida:

“O presidente Fed (o Banco Central dos EUA), Ben Bernanke, disse ontem (14-06) que o fracasso em elevar o limite da dívida pública americana poderá causar “distúrbios severos nos mercados financeiros”, incluindo rebaixamento de ratings da dívida do governo e danos ao papel especial que o dólar e os Treasuries desempenham atualmente nos mercados globais.

Em comentários feitos durante uma conferência organizada pelo Comitê por um Orçamento Responsável, em Washington, Bernanke renovou seu pedido para que políticos apresentem logo um plano para conter o crescente endividamento público, mas alertou mais uma vez sobre os perigos de usar o teto da dívida como moeda de troca nas negociações.

As conversações para a redução do déficit, conduzidas pelo vice-presidente do país, Joe Biden, enfrentou seu maior teste ontem, tendo em vista que o grupo chefiado por ele iniciou três dias de discussões politicamente sensíveis. Os republicanos continuam a exigir cortes de gastos como condição para que o Congresso eleve o limite da dívida, que é atualmente de US$ 14,3 trilhões, o que, segundo o Tesouro, deve acontecer até o início de agosto.

Em cerca de 9% do Produto Interno Bruto (PIB), o déficit orçamentário dos EUA aumentou acentuadamente desde o início da recessão no final de 2007, declarou Bernanke na conferência.

Segundo ele, o déficit deverá recuar durante os próximos anos, à medida que a economia continuar a crescer, mas os EUA ainda enfrentarão um grande endividamento quando as condições voltarem ao normal: “A história deixa claro que o fracasso em colocar nossa casa fiscal em ordem causará uma erosão na vitalidade de nossa economia, reduzirá o padrão de vida nos EUA e aumentará o risco de instabilidade econômica e financeira.

Mesmo destacando que não é uma tarefa fácil, o presidente do Fed exortou o Congresso e a Casa Branca a desenvolverem e implementarem rapidamente um plano confiável para atingir a sustentabilidade fiscal de longo prazo.

Nota em risco. As três agências de ratings mais influentes ameaçaram rebaixar a classificação “AAA” do governo dos EUA se os políticos não chegarem a um plano para melhorar as finanças públicas do país.

Na semana passada, a Fitch Ratings disse que colocará a dívida norte-americana em revisão para possível rebaixamento no início de agosto se o Congresso não elevar o limite de crédito do país. O alerta se segue a avisos semelhantes da Moody”s e da Standard & Poor”s.

O Tesouro disse que o Congresso precisa aumentar o limite da dívida até 2 de agosto, o dia em que se esgotam as medidas extraordinárias para financiamento do governo”.

Tudo o que foi dito acima, inclusive a ameaça de rebaixamento da dívida americana pelas agências de ratings (classificadoras de risco), é  exatamente o que se diz de qualquer país que passa por uma situação difícil. Aliás, estas agências declararam hoje (15-06), formalmente, que é mais seguro investir em títulos do Tesouro Brasileiro do que  nos títulos do Tesouro Americano.

E é bom dizer que a chamada macroeconomia das grandes nações não é, na essência, diferente das macroeconomias  dos pequenos países. A bem dizer isto vale, também, para as economias  das famílias. Ou seja: quando você  se encontra em situação  de inadimplência ou próximo disso, precisa, cortar gastos  e se desfazer de ativos, o patrimônio.

E assim que todos fazem. Foi assim que Brasil fez, mas não é assim que os Estados Unidos querem fazer. Eles pretendem continuar com sua insana gastança não só com seus carrões  irracionais como com  sua gigantesca máquina de guerra.

Para ficarmos num detalhe: são 12 gigantescos porta-aviões, metade deles movida a propulsão atômica. Cada  unidade precisa ser escoltada por pelo menos outras 12 naves, envolvendo um efetivo, em média, de 15 mil homens.

Para que eles querem isso?  Provavelmente para continuar sendo a Polícia do Mundo, título que  eles  se auto concederam. E que garante na prática, como  garantiu no passando à Inglaterra, a condição de incontestável hegemonia global que, por sua vez, lhes dá o direito (condições  elementares) de possuírem a moeda padrão ou de conversibilidade universal.

Isto vem funcional assim desde os anos 40 do Século passado. Ocorre que desde setembro de 2008 (início da Grande Crise Americana), o dólar está em queda incontrolável e chega agora  à beira do abismo.

Enfim, isto é o que os demais países (embora desejem no mais íntimo de sue íntimo) temem que aconteça, porque todos  eles possuem a maior parte de suas reservas em dólares e aplicam estas reservas em títulos  americanos. Assim é com o Brasil e assim é com a China  que possui uma descomunal montanha  de  dólares  e de títulos do seu principal rival.

14-06-11 atualizado em 18-06-11

Para salvar  Grécia, Europa dá
“calote” igual ao da Argentina

A chanceler alemã, Angela Merkel, defendeu neste sábado (18) uma participação “substancial” dos credores privados no novo pacote de ajuda à Grécia.

Havendo esa adesão dos credores privados, a situação continua sendo de calote da dívida grega, porém de forma menos  vexatória e desmoralizantes. Na prática,  haverá perdão de parte dessa dívida e um alongamento dos prazos de pagamento, exatamente como foi feito na Argentina  há oito anos.

Durante um congresso de seu partido, o CDU, em Berlim, Merkel insistiu no caráter “voluntário” dessa participação de bancos, seguradoras e fundos de investimento –reiterando o acordo alcançado na véspera entre Alemanha e França.

Até agora, a participação dos bancos havia sido o principal obstáculo entre Alemanha, de um lado, e o Banco Central Europeu (BCE) e França, do outro, para conceder uma segunda ajuda à Grécia.

Texto de 14-06-11

O ministro de Finanças da  Alemanha, Wolfgang Scäuble, defendeu ontem, uma fórmula  para resolver a crise grega que, na prática, é idêntica ao “calote” aplicado pela Argentina há  oito anos.

Há oito anos, quando Néstor Kirchner assumiu a presidência, a Argentina era um país literalmente falido. E falido por uma política neoliberal suicida comandada pelo badalado “gênio” da época,  Domingo Cavallo,  poderoso ministro da Economia de   Carlos Menem, um peronista destrambelhado.

A divida argentina era completamente impagável. Se  seguidas à risca as recomendações do FMI e dos economistas ortodoxos,   a nação teria explodido. Explodiria, porque o país tem sangue quente e sindicatos fortes e atuantes. A população não aceitaria o arrocho proposto, nem a dilapidação do patrimônio nacional, parecido com o praticado por FHC no Brasil.

Hoje a Grécia vive uma situação semelhante. Mas falemos um pouco mais sobre a Argentina. Diante da situação dramática, Néstor  Kirchner, eleito em março de 2003, chamou os credores, especuladores de toda ordem, mas principalmente  os grande banqueiros internacionais e colocou as cartas na mesa: Devo não nego, mas só poderei pagar assim….

Em linhas gerais, depois de duras negociações e pressões fantásticas Kirchner  obteve o que queria e o seu  “só poderei pagar assim”  foi aceito pelo FMI e credores. Em miúdos: a dívida antiga foi trocada por novos papeis, com prazos alongados e  num montante 75% inferior ao débito anterior.

Era a consagração do “calote”. A imprensa mundial submissa ao Capital Financeiro Globalizado, principalmente a brasileira, que consegue ser uma das mais sórdidas, passou a ter Néstor  Kirchner  como reles “populista caloteiro”.

Mas com seu débito reduzido de  U$ 100 bilhões para U$ 35 bilhões a Argentina pode reerguer-se   da mais rude de todas as suas crises. E pode, assim, exibir nos últimos oito anos, um crescimento do PIB que, na média,  foi o dobro do obtido pelo Brasil no mesmo espaço de tempo.

E os banqueiros  que deram origem  a crise (emprestando barato no início e alterando os juros com o trem em movimento) deixaram de receber uma parte da dívida que, para muitos, já  haviam recebido com sobras.

Seja como for, ninguém mais tem dúvida  de que os especuladores e seus desvios de comportamentos (alavancagens excessivas, derivativos de brisa e apostas no quimérico mercado futuro) estão na raiz de todas as últimas grandes crises capitalistas. Entretanto, a maioria dos grandes financistas saem ilesos dessas crises deixando, atrás de si, uma  esteira de falências no setor produtivo.

Calote já não é palavrão

Agora  vou tomar a liberdade de reproduzir três parágrafos escritos há  uma semana por meu amigo Clovis Rossi, um dos últimos profissionais honestos e não alienados que ainda militam na grande mídia:

“A palavra calote, ainda que disfarçada, entrou esta semana na agenda europeia: um dos pesos mais pesados da economia do continente, o ministro de Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, escreveu carta a seus colegas da União Europeia sugerindo que apoiem uma eventual iniciativa grega de propor a seus credores que estiquem sete anos o vencimento de títulos.

Seria o “reprofiling” (um novo perfil para a dívida grega), palavra menos agressiva aos ouvidos dos credores e do establishment econômico-financeiro do que “default”, que é o calote puro e simples.

Schäuble diz, na carta, que é pegar a sua proposta ou “correr o risco real do primeiro ‘default’ desorganizado na eurozona”.

Sem estender os prazos para pagamento da dívida, o calote se tornaria obviamente inevitável: afinal, o ministro alemão condiciona o apoio de seu governo a um novo pacote de ajuda à Grécia à aceitação do “reprofiling”. Ora, sem novo pacote, a Grécia não tem como pagar a sua dívida e, portanto, teria que recorrer ao “default”.

É simples assim”.

Na semana passada Ângela  Merkel, primeira-ministra da  Alemanha  comunicou a Barack Obama a  decisão de colocar em prática a proposta de Schäuble. E o presidente americano concordou. Ou seja: Calote deixou de ser palavrão.

A Europa copia a Argentina

Os ministros das Finanças da zona euro vão realizar hoje (14-06) uma reunião extraordinária para tentar encontrar uma solução para a crise grega. A informação é das Agências de Notícias:

“O encontro, que não estava programado, foi organizado para aproveitar a reunião hoje num jantar de trabalho de todos os titulares das Finanças de toda a União Europeia (UE) para debater a reforma da disciplina fiscal, indicaram diferentes fontes europeias.

O Eurogrupo vai debater em Bruxelas as “possíveis vias para avançar” para resolver a crise na Grécia”, explicou uma das fontes europeias.

Atualmente, a UE está a debater a possibilidade de outorgar um segundo pacote de ajuda à Grécia, que poderia ascender a 90 mil milhões de euros para cobrir as necessidades de financiamento do país até 2014.

Fontes citadas na imprensa asseguram que um terço desta segunda ajuda será facilitado pela UE e pelo fundo Monetário Internacional (FMI), um terço será originado pelo programa de privatizações grego e o restante será fornecido pelos credores privados da Grécia, ponto que constitui o maior foco de ausência de acordos.

A Alemanha defende um adiamento de sete anos nos vencimentos dos títulos gregos, opção que é vista com reticências pelo Banco Central Europeu, um dos principais credores da Grécia e contrário a qualquer contribuição privada que possa ser interpretada como uma reestruturação da dívida “de fato” pelos intervenientes do mercado”.

28-04-11

Governo pressiona e Vale
participará de Belo Monte

 Há dois meses, este blog informou em primeira mão que o presidente  da Vale, Roger Agneli, seria  substiuído  em razão de suas divergências em relação a algumas demandas  importantes (estratégicas) do Palácio do Planalto. Uma delas era sua recusa em participar da construção da  hidrelétrica de  Belo Monte, no Sul do Pará.

Águas corretam por baixo da ponte e agora, no exato momento  em que  Agnelli sai para dar lugar a Murilo Ferreira (mais afinado com a  presidenta DilmaRousseff) a Vale deve anunciar, segundo notícia do Estado de S. Paulo de hoje (28), que seus acionistas controladores já aprovaram a entrada da mineradora como sócia na hidrelétrica de Belo Monte.

 A Vale fica, assim, com a participação dos 9% que pertenciam à Gaia Energia, empresa do Grupo Bertin que desistiu do projeto em fevereiro.

A decisão já passou por duas instâncias: primeiro, foi aprovada pelo comitê estratégico e, na segunda-feira, segundo o Estado, recebeu sinal verde em reunião da Valepar – a empresa que reúne os acionistas controladores da mineradora. São eles que determinam como os conselheiros devem votar em assembleia.

Fica resolvido, desta forma, um problema para o governo: o consórcio Norte Energia, montado com certa ligeireza  para atender às necessides de Brasíla, venceu o leilão de Belo Monte no ano passado, mas estava incompleto desde que o Grupo Bertin (de origem agropecuária) desistiu de participar do projeto. Com a entrada da Vale, o governo tapa este buraco.

 A Vale entra no empreendimento na condição de autoprodutora, o que significa que poderá usar parte da energia da hidrelétrica em suas operações. Nas proximidades de Belo Monte, a mineradora tem projetos de cobre e níquel, além do minério de ferro, seu principal produto.

O custo da hidrelética foi orçado em R$ 19 bilhões pelo governo, mas empresas que estudaram o projeto calcularam que ela não será concluida por menos de R$ 30 bilhões.

O  Governo exerce forte influência na mineradora por meio do fundo de pensão Previ (dos funcionários do Banco do Brasil) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que, juntos, possuem 61% das ações. A administração, contudo, cabe ao  grupo Bradesco cuja participação é de 30%.

06-04-11 atualizado em 07-04-11

Esta nascendo mais uma grande estatal

A Câmara dos Deputados aprovou ontem (6-4) a Medida Provisória (MP-511) que cria a Empresa de Transporte Ferroviário de Alta Velocidade S A (Etav). Ela participará obrigatoriamente, com no mínimo de 10% das  ações, do Consórcio que  construirá e administrará o Trem Bala entre Campinas e Rio de Janeiro. A MP segue, agora, para votação no Senado.

Os leitores que me são fiéis (e felizmente  todos o são) devem estar lembrados que, ainda durante a campanha eleitoral, este  blog  anunciou uma listas de novas estatais que seriam  criadas no Governo Dilma Rousseff.  Uma  delas é esta do Trem Bala.

A Oposição prometia obstruir a votação, na tentativa  da evitar a criação da estatal. O Governo isistiu na votação imediata, alegando que sem a MP-511 será  impossível  construir o Trem Bala, em função de um empecilho legal: o BNDES fica impossibilitado de emprestar os  R$ 20  bilhões previstos no edital.

Além disso, a Etav, que  deverá ter sua  sede em Brasília, com escritórios do Rio e em Campinas, ficará reponsável pela transferência de tecnologia para a indústria nacional e realizará todo o planejamento da expansão ou criação de novas linhas do trem ultra-rápido.

Não obstante, assim como aconteceu por ocasião da privatização da Vale, nada impede que o Governo amplie sua participação no empreendimento, associando-se  a um ou mais consórcios que  participarão da concorrência.

Ele poderá fazer isso através de outras estatais ou de fundos de pensão de funcionários de estatais.  Na Vale, cuja administração ficou a cargo do Bradesco, o Governo controla 61% das ações  através do BNDES e da PREVI, fundo de Pensão dos Funcionários do Banco do Brasil.

16-03-11

Governo adia  anúncio  do câmbio semi-fixo por
causa da tragédia japonesa e da visita de Obama

Como este blog tem informado, o governo  já se armou com todos os instrumentos técnicos e jurídicos para implantar o sistema de câmbio semi-fixo (quarentena)  destinado a sustar a valorização do Real e enfrentar o que o ministro da  Fazenda,  Guido Mantega, batizou de  Guerra Cambial. Mas a medida, que deveria ser adotada neste mês, foi adiada.

A primeira razão do adiamento,  política e diplomática,  diz respeito à visita de Barack Obama. Não pegaria bem o anúncio da adoção do câmbio semi-fixo neste momento,  porque tanto a presidenta Dilma  quanto Mantega vêm, há meses, denunciado os EUA e a China como responsáveis pela  Guerra Cambial, na medida  em que manipulam suas moedas para baixo.

 A adoção, pelo Brasil, do câmbio semi-fixo  poderia ser interpretada como uma  represália e um posicionamento político, mais além de uma  necessidade técnica.

Entretanto, o principal motivo do adiamento  tem relação com o drama japonês. O desdobramento econômico da tragédia é tão grande  quanto imprevisível nos seus limites. A verdade é que já está funcionado chamado “ Efeito Manada”, quando capitais especulativos, sempre ariscos, buscam refúgios tradicionais, considerados seguros.

 Nesse caso, haveria, naturalmente, uma diminuição do fluxo de dólares para o Brasil. luxo o que provoca a valorização do Real.

O refúgio natural desses capitais  viciosos, de jogo,  continua sendo  os títulos garantidos pelo Tesouro Americano com  sua capacidade de emissão aparentemente infinita. Além disso, o Japão para, reerguer sua economia, terá que recorrer a capitais externos e ao aumento dos juros. Isso  contribuirá, também, para aliviar a pressão sobre os países  emergentes  (o Brasil sobretudo) que têm sido,  até aqui, o principal alvo dos investidores  tanto produtivos como especulativos.

Paul Kugman (Nobel de Economia) vê assim esta questão, em sua última coluna: “Estou observando muito as preocupações sobre os impactos financeiros. Com certeza, o Japão terá de despender centenas de bilhões (de dólares, não ienes) para limitar os danos e recuperar o país, mesmo com a queda de receita graças ao impacto econômico direto. Assim, ele se tornará menos um país exportador de capital, para ser um importador de capital, durante um determinado período.  E isso levará a uma alta nas taxas de juro”.

Veja como o Estadão, que entrevistou Mantega,  noticiou, ontem,  a questão relacionada com a Guerra Cambial:

 “O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse nesta terça-feira, 15, que o governo está acompanhando a evolução do mercado para avaliar a necessidade de adoção de medidas cambiais. A situação extremamente delicada no Japão, a visita oficial ao Brasil do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, além da crise em países do Norte da África com a situação indefinida na Líbia, recomendam o adiamento do anúncio das medidas.

Os estudos (sobre as medidas cambiais) incluem a possibilidade de aumento da alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) no ingresso de capitais e até mesmo a imposição de um tipo de quarentena para dificultar a saída do capital do país. Apesar de trabalhar com o arcabouço jurídico para impor uma quarentena, trata-se de uma medida de alto simbolismo no mercado internacional’.

Na verdade, Mantega esclarece sempre que a Quarentena não pretende dificultar a saída de capitais, mas, tão somente, inibir a entrada daqueles que são especulativos.

A matéria abaixo dá continuidade ao raciocínio desta.

05-03-11

No rumo do câmbio quase fixo

A idéia é acabar com a farra dos importados e das viagens ao exterior.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombine, combinaram, na semana passada, que  logo após o Carnaval vão  usar  artilharia pesada contra  a  crescente valorização do Real.

Como este blog vem informando há semanas, o Governo não descarta a adoção do Câmbio  Semi-Fixo (o regime de Quarentena) para enfrentar a Guerra Cambial na qual China e Estados Unidos manipulam o câmbio, pressionado suas moedas para baixo.

Isso prejudica seus parceiros comerciais, principalmente os emergentes. Na  sexta-feira (4),o Dólar atingiu sua menor cotação desde 2008.

Para enfrentar a valorização do Real, o governo já elevou duas vezes o Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF) para investimentos estrangeiros em renda fixa. Além disso, alterou normas de forma  inibir a aposta dos bancos na valorização da moeda brasileira.

 Mas não adiantou.  Os capitais especulativos continuaram afluindo  de forma crescente,  em função da  confiabilidade  da nossa economia  e, principalmente, pelos juros altos que pagamos. Então, a possibilidade já admitida, na intimidade, pelo governo, é a imposição  da quarentena (digamos de 90 dias) para os  capitais que ingressam no País.

Esta é a opção mais rejeitada pelo Mercado. Entretanto, o governo já está em plena campanha, esclarecendo aos principais agentes que a  medida não vai criar obstáculos à saída de capitais estrangeiros.

A Administração Dilma Rousseff tenta desesperadamente sustar  a alta do Real em razão principalmente de: a- os brasileiros (em função do câmbio favorável) gastaram, em 2010, quase U$ 17 bilhões, o dobro do que destinamos à Bolsa Família; b- a Farra dos Importados que destrói seguimentos inteiros da  nossa  indústria.

No ano passado, nossa Balança Comercial só não foi deficitária, porque houve alta de preços dos principais produtos primários que exportamos: soja, minério de ferro, etc.

A matéria abaixo dá sequência  ao raciocínio desta.

02-03-11

Juros em alta, Dólar em queda. Isso não vai dar certo

O Banco Central deve elevar hoje a taxa de juros (SELIC) que  baterá nos 12%, ou quase. É um dos absurdos da gestão econômica, uma vez que  nossos juros  já são os mais altos do Mundo e nossa economia é festejada como robusta e sadia. Entre outras coisas, a taxa de juros indica a confiabilidade dos Títulos do Tesouro Nacional.

 Os manuais  indicam que  a alta da taxa de juros  é remédio eficiente para o combate à inflação, porque inibe o consumo. Mas o bom senso comezinho  informa que  a partir de determinada dose o remédio vira veneno.

Quando você cobra  ao produtor e ao comerciante 12% ao ano você estará obviamente  acrescentando um custo de 12% a ambos que, obviamente, transferirão estes custos para o consumidor. Só quem não perde com isso é o banqueiro.

Fica evidente que a taxa de juros não pode ser  o principal, nem muito menos  o único instrumento de combate à inflação que, realmente, deu um repique importante e  já  atingiu os  6%.

 As duas outras armas contra a fera são o equilíbrio das contas do Governo ( os  cortes dos gastos e investimentos que o Planalto já anunciou  – mas o  Mercado ainda não  acreditou – e medidas de retenção do dinheiro em circulação, as tais “medidas macro-prudenciais” que o  BC e o Ministério da Fazenda podem adotar: aumento dos depósitos compulsórios, proibição de créditos a prazos muito longos e contingenciamentos.

Seja como for,  o Executivo e o Banco  Central, precisam remar na mesma direção, caso contrário caímos  no maldito círculo vicioso da Guerra  Cambial: o BC aumenta os juros, os títulos brasileiros e as ações tornam-se ainda mais atrativo e atraímos, assim,  mais capitais especulativos que afluem de todo o Mudo, o que valoriza ainda mais o Real. Isso  maltrata nossas exportações  e  assassina setores inteiros  de nossa  indústria que não resiste à concorrência dos importados.

 Para  “resolver”  isso, o BC sai comprado dólares da tentativa  infantil de tentar conter a queda da moeda americana. Mais que uma infantilidade   trata-se de uma insanidade, porque a instituição compra  uma moeda  que em seguida estará mais  desvalorizada,  simplesmente porque está  em queda  livre no Mundo e não apenas no Brasil.

 A coisa funciona assim: o Governo  apanha recursos pagando 12% ao ano e compra  uma mercadoria (o Dólar) em  vertiginosa desvalorização. Qualquer empresário que fizesse isso, quebraria em menos de um ano.

Agora vejamos o que isto  custa ao País:

Os títulos públicos brasileiros pagam em torno dos juros básicos (Selic) que até hoje eram de  11,25%. O pagamento desses juros é a despesa do Tesouro ou do Banco Central para formar  as nossas reservas cambiais através da compra de dólares.

Em seguida esses dólares são aplicados em títulos de outros países, a maioria deles do Tesouro americano, que rendem cerca de 1,5% ao ano. A diferença entre o que o Banco Central paga para manter as reservas (que acabam de ultrapassar os U$ 300 bilhões ou R$ 455 bilhões)  e o que recebe por elas é o que se chama custo de carregamento.

 Na semana passada, o Banco Central  informou que  recebeu 1,88% de juros pelos títulos em que as reservas foram aplicadas e teve de pagar, em média juros de 7,74%.  O custo de carregamento já traduzido para a moeda nacional foi, portanto, de R$ 26,6 bilhões, uma conta que em geral não é desembolsada à vista, mas incorporada à dívida.

Para esse ano, a previsão é  de que  o custo dessa brincadeira seja de  R$ 30 bilhões, quase duas vezes o gasto anual com a  Bolsa Família.

 15-02-11 atualizado em 16-02-11

Na reta final, Governo pressiona
 para obter mínimo de de R$ 545

Apesar do natural estardalhaço, já que nestas horas  todo mundo quer aparecer, tudo está correndo dentro do script  estabelecido, como, aliás, este blog  vem informando aos seus leitores.

 Depois de negociar com a Oposição e os sindicatos para obter votação em regime de urgência, Governo joga pesado, exigindo fidelidade de sua base.

Então:

1- A principal preocupação do Governo era a de evitar que a discussão sobre o novo salário mínimo se transformasse num grande debate nacional, com o desgaste daí decorrente. Por conta disso, na semana passada, autorizou seu líder a Câmara, Candido Vaccarezza, a negociar com os líderes  dos principais partidos da Oposição, a votação  de seu projeto, em regime de urgência, no máximo até quarta-feira.

2- Com a colaboração de Aécio Neves que também não estava interessado em ver José  Serra (e sua proposta de R$ 600) como vedete do grande debate, ficou acertado que o projeto fosse  votado na quarta, o Governo não boicotaria a apresentação, na sequência,  da emenda propondo R$ 560 e não a vetará se  for aprovada.

3- Cumprida esta etapa, o Governo acionou o deputado Vicentinho  (PT-SP)  e ex-dirigente máximo  da CUT para, como relator do projeto,  negociar com as lideranças  sindicais. Destas negociações, ficou mais ou menos acertado que  os sindicatos recuariam  de seu projeto de R$ 580 para os R$ 560  combinados com a Oposição. Ficou decidido, também, que  a diferença para mais, de  quinze reais, será considerada como uma antecipação  do reajuste de 2012, quando o salário deverá  ser superior a R$ 610.

4- Depois de  obter o regime de urgência para a votação do projeto e de estabelecer o teto de R$560, o Governo voltou a pressionar sua base exigindo lealdade em torno dos R$ 545. Como este blog informou, o Ministro Carlos Lupi, do Trabalho (PDT) chegou a ouvir esta frase dura: ” Ou vota com a gente ou devolve o Ministério”.

Na matéria logo abaixo, você lerá outros detalhes dessas negociações.

12-02-11

Com apoio de Aécio, Governo fecha acordo
em  torno  de R$ 560 para o salário mínimo

Depois de arrancar da Oposição (com a ajuda de Aécio Neves) um acordo para que o novo salário mínimo fosse votado na próxima  quarta-feira, o Governo acenou para os sindicatos que  o número final poderia ser  de  R$ 560, desde que não se falase mais em R$580.

Mas essa diferença de  quinze reais  será descontada no aumento previsto para 2012. Tudo isso foi acertado na reunião de líderes sindicais com o deputado Vicentinho (PT-SP) e ex-dirigente máximo da CUT. O argumento de Vicentinho,  indicado como relator do projeto de aumento enviado pelo Governo, é o de que deve ser preservado o acordo  vigente,  mediante o qual o salário vai sendo gradativamente valorizado até 1015.

 Em suma: o Governo brigará por R$545, mas não vetará  se o Congresso arpovar emenda estabelecendo R560.

Como dissemos na matéria de ontem ( veja logo abaixo), a principal preocupação do Governo era a de evitar que a discussão sobre o novo mínimo se arrasasse no Congresso, transformando-se num grande e desgastante debate nacional.

A vitória do governo  foi dupla: de um lado elimina acusação de  intransigência e insensibilidade. De outra parte,  evita um impacto muito forte na economia em 2012, quando  poderia haver um aumento superior a 13%.

Pelo acordo estabelecido entre o presidente Lula  e os sindicatos, o  salário mínimo  é reajustado com base na inflação do ano anterior, mais o aumento do BIP de dois anos atrás.  Como em 2009 não houve crescimento econômico, ficou a sensação frustrante de que só o salário mínimo não acompanhou os demais índices e reajustes da economia.

O curioso é que  a proposta do governo foi aceita não apenas pelos sindicatos, como pelos líderes da Oposição no Congresso. (Veja matéria abaixo)

Aécio x Serra

Nesse ponto, destaque-se  que mais uma vez a Oposição apresentou-se para as negociações  dividida e desarticulada.  Enquanto a “Linha Dura” de Serra pregava  o  não diálogo com o governo e insistia na proposta de R$ 600, mesmo que fosse para fins meramente propagandísticos,  a “Linha Mineira”,  comandada por Aécio Neves defendia a conversação e o acordo.

O objetivo claro de Aécio  era o de  evitar que  José Serra (ambos disputam a liderança nacional do PSDB) roubasse a cena, caso a questão do mínimo se transformasse num grande debate. Nisso, suas necessidades e interesses  coincidem com os do Governo.

 Ontem em Minas, calculista, Aécio  sugeriu que as centrais sindicais e a oposição se aproximem para defender um salário mínimo, viável, de valor mais alto do que o R$ 545, proposto pelo governo. Mas não tão elevado quando o proposto por Serra.

Suas palavras: “Defendemos um projeto comum sobre o mínimo, mesmo que  não seja o de R$ 600”.

11-02-11

Governo cede e salário mínimo pode ir a R$ 560

Como este blog informou (veja matéria logo abaixo desta), tudo o que o Governo não quer é que o reajusto do salário mínimo se transforme num grande debate nacional.  Isto seria, evidentemente, desgastante.

Então, os negociadores do Planalto atuaram em dois níveis  O primeiro correspondeu  ao enquadramento da sua base de apoio no Congresso que foi “proibida” de apresentar emendas elevando o salário além dos R$ 545 propostos pelo Governo.

Nessa etapa obteve-se algum sucesso. Mas faltava combinar com a Oposição. Esta, não tem poder de fogo para impor sua proposta de  R$ 600, mas pode fazer a discussão e a votação se arrastarem  o tempo suficiente para que se arme um grande  palco.

Nesse palco (as tribunas do Congresso) desfilariam José Serra que exporia a viabilidade dos R$ 600. Além dele se apresentariam líderes sindicais, especialistas e até o MST.

 Para evitar isso, o líder no Governo na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) foi autorizado pela  presidenta Dilma a negociar com a Oposição, acenando com a possibilidade  de chega até os  R$ 560, desde que a votação se conclua na próxima  quarta-feira, impreterivelmente.

Foi assim que Vaccarezza se reuniu  ontem e obteve um acordo preliminar com o líder do PSDB na Câmara, Duarte Nogueira (SP), com ACM neto (BA) líder do DEM e com Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG), líder da Minoria.

Se o acordo não der certo, restará ao Governo encarar o desgaste e vetar qualquer emenda  do  Congresso elevando o mínimo acima  da quantia combinada. Aí, a bola volta para o Parlamento que para derrubar o veto do Executivo, precisa de 2/3 mais um dos votos de senadores e deputados. Algo considerado praticamente  impossível.

09-02-11 atualizado em 10-02-11

Estilo Dilma: Ou vota com o Governo ou devolve o Ministério

Neste momento, o Governo concentra todos seus esforços para que a votação do novo salário mínimo no Congresso ocorra o mais rapidamente possível, com  a aprovação de sua proposta que é a de R$ 545. Tudo o que se quer evitar é  que o tema se transforme num grande debate nacional com todos  os desgastes daí decorrentes.

Objetivamente, há um cerco aos parlamentares do PDT, único partido rebelado dos 17 que compõem a base de apoio ao Governo. Esses deputados estão colhendo assinaturas para apresentação de emenda  à proposta do Governo. Eles propõem, na emenda, um salário de R$560.

No texto abaixo, postado ontem ,  estão as informações complementares.

É uma questão de estilo, mas também  uma questão de absoluta necessidade, no momento em que o Governo trava uma  importante queda de braço com o insaciável Setor Financeiro e seus especuladores.

Tudo porque a inflação bateu nos 6% nos  últimos 12 meses e acusa alta inquietante de 0,83,  em janeiro de 2011. É o maior índice desde  2005. E é preciso considerar que a chamada espiral inflacionária não decorre  apenas de números e fatos concretos,  como também de um forte conteúdo emocional e psicológico.

 Então, neste momento crucial, o Governo precisa sinalizar que não vai relaxar  na política  de contenção de gastos, com  previsão de  cortes de R$ 60 bilhões  no Orçamento.

Se não fizer assim, o Mercado e sua mídia corrupta e submissa vão sair dizendo que  não há outra solução além do aumento ainda maior da taxa de juros, único remédio que eles conhecem  para  o combate à inflação. Ou seja, o remédio que eles vendem. Isso é uma  chantagem. Mas é assim que a banda toca.

É isso que  o governo, leia-se Gilberto  Carvalho, Chefe da Secretaria Geral da Presidência  e o melhor e mais sereno negociador do  Palácio do Planalto, está dizendo a congressistas aliados e líderes sindicais.

E foi isso que fez  com que o presidente Lula, instado por Carvalho, quebrasse seu silenciou e  desse, lá de Dakar, um puxão de orelhas  nos “companheiros sindicalistas”, mesmo correndo o risco de abrir um precedente: o de que se recorra ele, toda vez que uma crise se instala.

 Com a situação é realmente preocupante, o  Governo considera que este não é o momento  para gracinhas ou jogos de cena. Então, no calor da discussão, ouviu-se  de um negociador  do Governo, esta frase mais ríspida: Ou vota com a gente ou devolve o Ministério.

A carapuça serviu e foi devidamente vestida  pelo Paulinho da Força, deputado pelo PDT paulista e líder da Força Sindical.  Ele era  o mais entusiasta defensor do salário de  R$ 580.  Então, magoado,  murmurou: “Também não precisava tratar  gente como inimigo.”

Em todo o caso, Carlos Lupi, o presidente nacional (licenciado) do PDT  continua  muito bem instalado no Ministério do Trabalho, de onde não vê razão para emitir opinião  ou se meter na discussão.

A verdade verdadeira é que do ponto de e vista estritamente  financeiro, não faz muita diferença dar R$ 545 ou os  R$ 550 que chegaram  a ser  acenados pelo  Governo. Nas contas do Serra, por exemplo, o salário poderia  ser de  R$ 600. Há estatísticas para todo gosto.

Mas a questão  é de comunicação e psicologia. A tal sinalização ao Mercado a que nos referimos acima. E tudo isso fica tão mais importante, quando se sabe que novo aumento  da taxa de juros atrairá ainda mais capitais externos especulativos, o que provocaria uma  valorização ainda  maior do Real. Valorização esta que comprometeria  ainda mais nossas exportações e inundaria  nosso mercado interno com uma enxurrada maior ainda de bugigangas  chinesas.

05-02-10

O cobertor é curto: salários x juros

O pessoal do Capital Financeiro é esperto. Com o auxílio da mídia e de seus profissionais “jornalistas” (só Deus sabe se eles são ingênuos  ou excessivamente  bem remunerados) convenceram a todos nós que o assim chamado Superávit  Primário é uma lei inquestionável da Natureza ou um dos  Dez Mandamentos.

Mas, afinal, o que é Superávit  Primário? É a parte do Orçamento que o Governo separa para pagar os juros que são o preço do dinheiro e o salário dos banqueiros. “Mateus, primeiro os teus”. Depois, com o que sobrar, é que se vai pensar no seu, no meu, no nosso salário. Ou na sua, na minha, na nossa saúde e assim por diante.

Ano passado, o Setor Público (Governo Federal mais Estados e Municípios) conseguiu juntar R$ 101,696 bilhões, para perfazer esse bendito superávit. A parte federal foi de R$ 78,723 bilhões. O primeiro número representa 2,78% do BIP, inferior à meta (promessa) de 3,1.

3,1% é um número mágico imposto pelo Mercado e seus especialistas e considerado indispensável para que o Governo cumpra sua meta inflacionaria fixada, no ano passodo, em 4,5%. Enfim, quando esses dois números básicos não são alcançados, o Mundo vem abaixo, a mídia anuncia a o Dilúvio e o Banco Central diz que não há outro remédio senão aumentar ainda mais os juros.

É verdade, por exemplo, que quando o governo  gasta mais do que o razoável como fez o ano passado (um ano eleitoral) ele tem que consertar o mal feito apertando o cinto para pagar o almoço da véspera. Terá que  cortar seus gastos e evitar aumentos salariais mais liberais, para evitar o recrudescimento da inflação que já bate nos 6%.

Mas é verdade, também, que  quando os juros passam de um certo limite, eles  se transformam num  custo adicional da produção e da circulação das mercadorias. Custo este que é repassado para o nosso bolso no preço final do varejo. Quando é assim, o aumento da taxa dos juros deixa de ser remédio para ser combustível da inflação.

 E esta é exatamente a vexatória situação do Brasil que já ostentava a taxa de juros (10,75%) mais alta do Mundo, embora nossa economia seja uma da mais badalada e atrativas  deste mesmo Mundo, tanto  que nosso problema é o de excesso de entrada de capitais, o que leva  à indesejada valorização do Real. Mas, não satisfeito, o Banco Central  fez o favor  de , há dez dias,  elevar a taxa para 11,25. Mais do que um acinte isto é um hino à insensatez.

Entretanto, a grande mentira que está subjacente a tudo isso é a de que não há alternativas. A de que não devemos discutir com os bancos. Para começar é necessário duvidar da legitimidade da dívida. Já existe uma vastíssima literatura acadêmica e jornalística demonstrando  que a origem e acumulação  dessa dívida  está num grande  golpe aplicado pelas  principais corporações  financeiras com a conivência do FMI.

Isso ocorreu nos anos 70/80 do século passado, quando, em articulação com os dois  grandes coques dos preços do petróleo, os países do então chamado Terceiro Mundo, foram  constrangidos e seduzidos a se endividarem  até o pescoço,  assumindo dívidas com juros baixíssimos. Todo mundo entrou nessa. E então, no meio do  caminho,unilateralmente, os juros  foram elevados de forma exponencial. As taxas  forma multiplicadas por cinco em poucos anos e a quebradeira foi geral.

Nós, particularmente, perdemos duas décadas,  com desenvolvimento  pífio ou negativo. As gerações desse período foram sacrificadas e torramos nosso patrimônio público na onda das privatizações. O argumento sempre utilizado era o de que  não havia outra saída.

Entretanto, aqui ao lado, a Argentina adotou  o caminho inverso. Decretou a Moratória da Divida e chamou os credores para conversar. Foi um escândalo: “Calote!” gritou a mídia mundial e a mídia brasileira, submissa ecoou. No entanto, conformados, os credores acabaram sentando para negociar. O país pode, então, pagar a dívida sem sacrificar seu desenvolvimento e a qualidade de vida da população.

E é por isso que  a nação vizinha ostenta há  dez anos um crescimento médio de 7% ao ano, (contra 3% do Brasil no mesmo período) e Néstor Kirchner  é hoje um dos maiores  ídolos da história argentina, só superado  por Juan Perón. Finalmente, é por isso que sua viúva,  Cristina Kirchner,  deverá ser   reeleita  em novembro próximo.

A tudo isso, gente do tipo Míriam Leitão e Carlos Alberto Sardemberg  dão, marotamente, o nome genérico e pejorativo de populismo. Populismo é uma espécie de recipiente onde eles jogam tudo aquilo de que não gostam ou não sabem explicar.

 O Brasil adotou o caminho do bom-mocismo  que é a cara do FHC e pagou um preço altíssimo. Porém, agora o pior já passou e  do ponto de vista do Governo,  não dá mais para mexer no modelo que aí está. Dilma Rousseff é prisioneira dessa circunstância histórica.

Todavia,  essa circunstância não amarra os petistas que ainda honram sua bandeira original, nem muito menos os líderes sindicais. É preciso questionar. Se o cobertor é curto, que ele proteja ou desproteja, na mesma proporção aos juros e aos salários. Por que só o trabalhador deve pagar a conta?

Mas não é só isso: nesse início de ano, a insuspeita  primeira ministra  da  Alemanha, Angela Merkel, em nome de uma  Europa angustiada pela quebradeira generalizada (Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália), chamou os principais banqueiros europeus e americanos e lhes disse o que Kirchner dissera há dez anos: Vocês  provocam esta crise com sua insensatez especulativa e agora terão que pagar pelo menos uma parte da conta. Vamos negociar.

Leitão e Sardenberg nessa  hora escondem-se e  não informam nada disso a seus  leitores. E não informam, porque, para serem coerentes, teriam que dizer  que  Merkel  é “caloteira e populista”.

A matéria abaixo complementa esta.

01-02-11

Crise. Que crise?

Os grandes luminares do jornalismo brasileiro na área econômca, tipo Celso Ming  e Míriam Leitão  até hoje não entenderam a Grande Crise Norte-Americana.  E, sem competência para articular a superfície do fenômeno com as causas subjacentes que dizem respeito à fase terminal do modo de produção capitalista, eles preferem não falar mais sobre o assunto.

O resto do jornalismo econômico da grande mídia, cujo nível  vai de Minc e de Leitão para baixo, segue o mesmo caminho e não fala mais da Crise Americana. Parece que, pare eles, ela agora é só européia. São uns brincalhões.

Para que pelo menos os leitores deste blog não fiquem  desatualizados, adiantamos aqui,  alguns dados  relevantes:

O número de falências de bancos em 2011 contabilizadas  em janeiro nos Estados Unidos estava em 11 na última sexta-feira, dia 28, informou o Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC). Os 11 bancos que faliram custaram ao FDIC cerca de US$ 1,19 bilhão de seu fundo de seguro.

No ano passado, o número de falências ficou em 157, o maior número desde 1992 e acima do registrado em 2009, de 140 bancos. Desde o início da crise financeira, em 2007, 336 bancos declararam falência, num total de ativos de US$ 650,7 bilhões e um custo ao FDIC de cerca de US$ 75,80 bilhões. Além disso, em setembro do ano passado, 860 instituições financeiras estão na lista de bancos “com problemas” do FDIC, o maior nível desde 1992.

Apenas na sexta-feira, quatro bancos fecharam, de Oklahoma, Wisconsin, Colorado e Novo México. Em 2010, os estados recordistas de falências de bancos foram Flórida, Geórgia, Illinois e Califórnia.

-O secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, pediu  no último dia 6 em mensagem ao Congresso, que eleve o teto da dívida pública, dando sinal para o início de uma nova batalha política, relacionada com o forte déficit fiscal do país.

“Se não conseguirmos elevar o limite, isso precipitará a inadimplência nos Estados Unidos”, escreveu Geithner. “Solicito ao Congresso elevar o teto desde o início deste ano, antes que a ameaça de falta de pagamentos torne-se iminente”.

O Congresso havia elevado o teto a 14,3 trilhões de dólares em fevereiro de 2010. A dívida chega atualmente a 13,9 trilhões de dólares, destacou o ansioso Geithner.

O déficit da Balança Comercial  norte-americanas,  de Janeiro a Outubro do ano passado superou os 400 bilhões de dólares.

28-01-11

Dilma  puxa a orelha de Mantega e tenta falar como Lula

Há duas coisas que não podem acontecer no sistema de comunicação da Presidência, de todas as presidências: deixar  um espaço vazio  ou permitir que ministros briguem ou se desmintam em público. A briga tem efeitos negativos tão óbvios que dispensa comentários. O vazio  na mídia é perigoso porque, inevitavelmente, será preenchido pela Oposição ou por notícias ruins.

Este é o elementar da comunicação oficial. Então, ou a ministra Helena Chagas não  sabe disso, ou não tem suficiente  acesso à presidenta para  adverti-la a cada instante. Com Lula isto não seria necessário. Ele é um comunicador nato.  Dilma é o oposto. Finalmente, é infantilidade supor  que,  no jogo do poder, informação e propaganda são compartimentos estanques.

Mantega, o inseguro

Guido Mantega respirou aliviado quando soube, uns vinte dias antes da posse, que continuaria ministro  no Governo Dilma. Mas logo descobriu que ele seria uma espécie de assessor de luxo da presidenta que decidiu comandar pessoalmente a  macroeconomia.

 Vai daí que, voltando de rápidas férias de apenas dez dias, o estressado Mantega  soube pela mídia que, na negociação com os líderes sindicais, o governo poderia trocar um aumento menor do salário mínimo, por aumento do desconto do Imposto de Renda para as faixas de renda mais baixa. Então, sem pensar duas vezes, Mantega  disse que  o Governo  não estuda nenhuma  mudança no IR.

Dilma soube da entrevista de Mantega, quando almoçava, ontem no Rio, com o prefeito Eduardo Paz.  Horas depois, puxou a orelha do ministro e encarregou Gilberto Carvalho, chefe da Secretaria-Geral da Presidência, de esclarecer o mal entendido. Carvalho foi exatamente quem, na reunião de  quarta-feira com os sindicalistas, acenou com a possibilidade de mexer no Imposto de Renda, desde que o novo salário mínimo não passe de 550 reais. Ele fez o esclarecimento em off, usando pelo menos três canais deferentes de contato com mídia.

Então a coisa ficou assim:

As centrais sindicais colocaram o assunto na mesa de negociações oficialmente na quarta-feira e Gilberto Carvalho avisou que se o governo decidir dar alguma coisa, será de forma a não comprometer o combate a inflação.

E sinalizou-se que o governo rejeita desde logo os 6,46% (de aumento do desconto co IR) que as centrais querem e que representariam uma perda de receita de R$ 1,5 bilhão. Mas o Planalto concorda em fazer um reajuste de 4,5% na tabela do Imposto, uma perda de cerca de R$ 1 bilhão para o Tesouro.

Lula  diria exatamente isso

Entretanto nem tudo vai tão mal na área de comunicação. A presidenta tem feito um grande esforço para ser  mais comunicativa e ontem, no Rio, por um breve instante, ela fez lembrar seu antecessor quando encaixou, numa única fala, três propostas que,  em conjunto, são inatingíveis: Não cortar as recurso do  PAC,  manter a inflação sob controle e garantir um nível elevado de desenvolvimento econômico.

 De passagem, ela  desmentiu a ministra Miriam Belchior, do Planejamento, que  horas antes dissera que  os cortes (contingenciamento) dos recuso do PAC “ seriam os menores possíveis. Ocorre que, como todos sabem, o governo será forçado a abrir mão de pelo menos uma dessas metas. Ou bem corta drasticamente  seus gastos o que inibe o crescimento da economia, ou deixa na mão de Deus uma inflação que já bateu nos 6%.

24-01-11

Governo aceita  salário mínimo  de R$ 550, mas  adverte
 que cortes no orçamento  serão os maiores da “Era Lula”

A equipe econômica do governo (leia-se a própria presidenta Dilma e seu  assessor Guido Mantega) não  se surpreendeu nem se aborreceu muito com o aumento  dos juros oficiais em  0,5 ponto,  realizado pelo Banco Central, na última quarta-feira.

Como este  blog tem informado, Dilma Rousseff combinou informalmente com o novo presidente  do BC,  Alexandre Tombine que de seu lado o governo adotaria o arrocho, o seja, cortaria fundo não só no custeio como nos investimentos previstos no Orçamento deste ano, incluídas aí, as obras do PAC. De sua parte, o BC pegaria leve no aumento da taxa de juros.

 Os cortes de 60 bilhões.

Há dez dias a presidenta reuniu  seus trinta e tantos ministros para anunciar os cortes. Ficou claro, então, que eles  seriam maiores do que se esperava, mas não foram  fornecidos números definitivos. Estas cifras só virão à luz dentro de um mês, quando Miriam  Belchior, ministra do Planejamento  e  Guido Mantega, ministro da Fazenda, deverão ter concluído a triagem que resultará nos cortes.

Até esta reunião ministerial esperava-se que os corte chegariam a 40 bilhões, quando muito 50. Este blog foi, talvez, o primeiro a mencionar os 60 bilhões que é o que se ouvia nos corredores do Palácio do Planalto. Hoje, é o próprio Mercado e seus analistas que “exigem” um corte e não inferior  aos tais 60 bi.

 Este seria o número mínimo e mágico para que o BC não siga elevando a taxa de  juros com o objetivo de conter uma inflação que já bateu nos 6%.

Várias vezes esclarecemos isto neste blog. Mas como, felizmente, estão sempre chegando novos leitores, vamos dizer, de forma simplificada, que todos estes cortes são necessários para que se obtenha um  Superávit Primário equivalente a 3,1% do PIB, um outro número mágico.

É essa grana alta que o Governo  separa para  pagar os juros. Com o que sobrar é que  ele vai cuidar da  Saúde, da Educação, das Segurança e das aposentadorias. É claro  que  isso  só beneficia aos banqueiros e  sacrifica o resto da população, mas é assim que a banda toca.

E o governo quer evitar, no momento, uma certa masturbação ideológica que poderia, teoricamente, dar razão aos que defendem  um Superávit Primário menor. Mas  isto criaria um  tumulto tão grande que poderíamos perder a oportunidade de surfar  a onda  de credibilidade e de investimentos que está beneficiando não só o Brasil, como quase como toda a América Latina.

E claro que soa como um absurdo  e medida suspeita elevar ainda mais as taxas  de juros que já são as maiores do Mundo, embora nossa economia seja uma das mais badaladas neste mesmo Mundo. Absurdo ainda maior quando se sabe que quando a taxa de  juros  ultrapassa um certo patamar (digamos os 10% que já superamos) ela atua como veneno e não como remédio contra a inflação. Isso pela razão simples de que os juros passam a funcionar com um custo adicional na produção e na circulação das mercadorias.

Ocorre  que o governo prefere partir para o  sacrifício, porque sabe que o Mercado é arisco e insensato.  Tão  insensato que  consegui  destruir  a maior economia do Mundo. Ele se orienta por sinalizações  muitas vezes aleatórias  ou sem contato com a economia real. É o lucro financeiro ou especulativo que cria bolhas fatais.  Então, às vezes e dentro de um limite razoável,  é melhor dar logo o capim que a anta pede, antes que ela meta as  fussas  na cerca e dê um  prejuízo maior.

E é mais ou menos isso que Gilberto Carvalho,  chefe da Secretaria-Geral  da Presidência dirá nesta quarta-feira, durante reunião com os  dirigentes das principais Centrais Sindicais. O governo que começou  oferecendo salário mínimo de  540 reais,  aumentou, depois, para 545 e já admite  550. Mas garante que disso não passa.  Carvalho vai oferecer, também, uma diminuição da  alíquota do Imposto de Renda para as faixas de salário mais  baixas.

Meu palpite é que Dilma pagará em torno de 555 reais.

As duas  matérias abaixo complementam os raciocínios e as informações desta.

20-01-11

Salário Mínimo:
Sindicatos se  recusam  a negociar com Palocci e
Carvalho interrompe férias para apagar incêndio

Inacreditável, mas absolutamente verdadeiro: o Super-Palocci falhou na Hora H. Como chefe da Casa Civil ele estava centralizando (embora negasse formalmente) as negociações políticas com vistas ao preenchimento dos cargos do segundo escalão dos ministérios e para a eleição do novo presidente da Câmara.

Entrementes, a questão do salário mínimo virou moeda de troca e os partidos insatisfeitos da base aliada (que são muitos) ameaçam votar emenda elevando o salário mínimo acima  dos R$ 545 propostos pelo governo. A partir daí, os sindicatos entraram nas negociações.

 E ontem, os sindicatos e outras organizações sociais declararam simplesmente que com Palocci não conversam mais. O porta-voz da “rebelião” foi o irrequieto deputado Paulinho da  Força (PDT), chefe da Força Sindical.  Na verdade, a Força é que é do Paulinho.

Sem alternativas, já que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, também já havia sido  banido das conversações, a presidenta Dilma ligou para seu Secretário Geral da Presidência, o discreto porém eficiente  Gilberto Carvalho que estava de  férias. Carvalho entrou em contato com os sindicalistas e marcou reunião para segunda-feira (depois remarcada para quarta-feira) em Brasília.

Como essas negociações começarão da estaca zero e como o Banco Central, na sua  reunião de ontem (19-01),  garantiu um bom salário para os banqueiros elevando os juros para  11,25%, os maiores do Mundo, é provável  que  sindicalistas e  políticos rebelados exijam um mínimo algo superior aos  R$ 550 que Palocci chegou a admitir. Mesmo assim, continua sendo um dos mais baixos do Mundo.

Um esclarecimento: Palocci procurava participar discreta  e informalmente das negociações, porque  existe um órgão  vinculado à presidência  que  está formalmente encarregado disso: a Secretaria das Relações Institucionais, cujo titular, Luiz Sérgio  (PT-RJ) não é do ramo ou ainda está meio travado.

Veja mais sobre o mesmo tema na  matéria  logo abaixo.

14-01-11 atualizado em 15-01-11

Os cortes  do   Orçamento  podem  chegar a R$ 60 bilhões.
Dilma quer restringir o remédio amargo ao primeiro ano

Na reunião ministerial de ontem à tarde, a presidenta  quis demonstra que a marca de seu governo será o da austeridade. Ela quer que os cortes no Orçamento sejam  substanciais (alguns ministros  de 50 bilhões de reais ou mais) e a ordem é “fazer mais com menos”. O salário mínimo será de  545 reais.

O tamanho do arrocho

Veja o resumo  do foi comunicado durante a reunião ministerial.

Os ministros Guido Mantega, da Fazenda e Miriam Belchior do Planejamento, apresentarão em 45 dias os números do “contingenciamento” (verbas não liberadas).

Os recursos para o PAC também ficarão temporariamente retidos.  Não haverá, por ora,  contratação de novas obras (a postergação) e  o ritmo das que estão em andamento poderá ser diminuído, dependendo da decisão da presidenta, após levantamento inicial feito por Miriam Belchior. É o chamado “corte seletivo”.

A ministra disse, após a reunião com a presidenta e seus ministros, que “as obras do PAC serão preservas ao máximo”, o que quer dizer que não serão totalmente preservadas.

Nas verbas dos ministérios, principalmente as de custeio, não haverá seletividade, o corte já está sendo linear. Em janeiro e fevereiro, a Fazenda já estará cortando 50% dos recursos que deveriam ser liberados.  Em vez de 1/12 (verba do ano dividida por 12 meses), cada ministério receberá apenas 1/18.

Por sua vez, Mantega o que mais falou durante a reunião, porque vez a exposição geral do quadro econômico, informou que a previsão para o crescimento da economia  é o de  5,9%, em média até 2014. No governo Lula o crescimento médio foi de 4%. O  nível de investimento do governo para este ano ainda fica em torno de 5% , mas deverá crescer gradativamente até 2014. A idéia é transferir recursos do custeio para  o investimento.

O investimento da economia como um todo (governo mais iniciativa privada) deverá chegar aos 24% no fim no quadriênio. Atualmente está em 19%, sinal de que o crescimento econômico está sendo puxado pelo consumo, o que não é sustentável a médio prazo. O ideal é que a produção cresça mais  do que o consumo.

O remédio amargo

Frase da presidenta Dilma registrada há duas semanas por um de seus colaboradores mais próximos: “Quatro anos passam rápido.Vamos cortar o que tivermos que cortar agora, para  podermos  investir nos três anos restantes. Deste raciocínio inicial, nasceu a idéia de exigir a cooperação de todos os integrantes do governo, o que foi feito na reunião de ontem. E resultou, também, no slogan com aroma marqueteiro, o “Ministério Solitário”.

O dilema de Dilma é o de que ela não pode sinalizar para a população e para o Mercado que  “a coisa está preta”, até porque não é o caso. Mas é preciso informar que não haverá mais gastança. Medir as palavras, eis a questão. Todos sabem ou sentem que o governo gastou mais do que devia no ano passado e, quando é assim, alguém tem que pagar a conta. Melhor que seja o próprio governo.

Essa é a verdade simples, mas se a presidenta disser isso, com essas palavras, sem dourar a pílula, o Mundo vem abaixo. Então arma-se uma cena adequada, a reunião ministerial e a chefe do governo passa a imagem de autoridade e austeridade. E uma montagem, faz parte da liturgia do poder, mas não é uma mentira ou uma farsa.

 Por outro lado, a questão econômica pode ser compreendida, mesmo por um leigo: O Governo luta contra dois problemas simultâneos que interagem entre si. A inflação que votou a crescer e a valorização excessiva do Real. Esta última, além de potencialmente provocar um déficit da Balança Comercial, provoca um prejuízo maior, o da desindustrialização do País. Isto ocorre, em função do ingresso maciço de mercadorias baratas.

Entretanto, todos concordam que o governo está gastando além do ponto fixado pela prudência. E, ao fazer isso, isso ele sinaliza para o Mercado que vem mais inflação por aí, dando ao Banco Central a justificativa técnica para elevar ainda mais nossos juros que  já são os mais elevados  do Mundo. Juros mais altos atraem mais dólares especulativos, o que valoriza ainda mais o Real. Caímos no círculo vicioso.

Então, sem entrar na furiosa discussão ideológica que permeia  o tema, a presidenta, decidiu (e esta é a razão da reunião ministerial de ontem) mostrar sua determinação de fazer o dever de casa, ou seja, cortar drasticamente  gastos do governo.

A desindustrialização:

O setor industrial registrou o pior rombo da sua história nas trocas com o exterior. No ano passado, o déficit da indústria da transformação atingiu o recorde de US$ 37 bilhões, 125% acima do saldo negativo obtido em 2009. O resultado assusta os especialistas e revigora os temores de desindustrialização no País.

Segundo a Secretaria de Desenvolvimento da Produção, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (matéria do Estado de S. Paulo),se forem excluídos itens com pouco grau de transformação como aço, açúcar ou celulose e considerados apenas os produtos manufaturados (automóveis e sapatos, por exemplo), o déficit atingiu US$ 70,9 bilhões em 2010. O resultado final da Balança Comercial só não foi negativo, graças ao bom desempenho das exportações do setor agronegócio.

Para o diretor do Instituto de Economia da Unicamp, Mariano Laplane, o agravamento do déficit da indústria traz efeitos indesejáveis, como demissões, menos arrecadação e redução do superávit comercial. Também acelera a desindustrialização, que é a perda de espaço da indústria no Produto Interno Bruto (PIB).

Graças às perdas da indústria, o saldo da balança comercial brasileira encolheu do recorde de US$ 46 bilhões em 2007 para US$ 20 bilhões no ano passado. O resultado positivo só foi garantido porque o setor do agronegócio teve um bom desempenho.

“Uma consequência que não é tão evidente, mas é mais grave no longo prazo são as oportunidades perdidas. Hoje temos um mercado doméstico em forte expansão, mas que está promovendo o crescimento da produção em outros países”, diz Laplane.

11-01-10

O Brasil já entrou na  Guerra Cambial

 O ministro Guido Mantega, da Fazenda, avisou esta semana em entrevista ao Financial Times, que o  Brasil vai   ingressar com queixa na OMC, Organização Mundial do Comércio, contra a indevida manipulação do câmbio praticada pelos EUA e pela China. Na verdade, este é o primeiro passo para que o País inicie, ainda este ano, a adoção de medidas, muito próximas do câmbio fixo, destinadas a sustar a crescente valorização do Real.

A mídia calhorda não informa nada disso ou informa com maliciosa distorção. É sempre assim. Mas o Brasil já entrou com armas e bagagens na Guerra Cambial, denominação, aliás, cunhada  pela  presidente  Dilma Rousseff e por Guido Mantega.

A questão  daqui para a frente vai tornar-se complexa por que a  discussão ideológica entrou em campo. Mas, na verdade, é bastante simples: o Brasil e mais um penca de países emergentes estão sendo altamente prejudicados pela ostensiva manipulação do câmbio praticada pelas duas maiores potências, EUA e China. E elas fazem isso à luz do dia, na mão grande, como se diz.

Como os dois gigantes desvalorizam artificialmente suas moedas, instala-se Mundo a fora uma fabulosa concorrência desleal que tem duas pontas. Uma, a visível, é a invasão de produtos importados, bugigangas ou não, que, literalmente, destroem as indústrias nacionais.

 A invisível, porém mais perniciosa, é a de que os países cujas moedas são fortalecidas contra a sua vontade, ficam encharcados de capitais especulativos que valorizam ainda mais estas moedas e  instalam a balburdia no mercado financeiro. Balburdia que sempre termina em estouro ou prejuízo grande logo ali na frente.
Alguns números:
Enquanto a China segura na marra seu Yuan lá em baixo (câmbio fixo), os EUA, de forma obliqua,  mantém o Dólar em baixa, emitido moeda adoidadamente e sem lastro. O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) está despejando no mercado US$ 75 bilhões por mês em moeda emitida para a recompra de títulos do Tesouro americano.
Enquanto isso, pressionada pelas importações, a indústria brasileira perdeu R$ 17,3 bilhões de produção e deixou de gerar 46 mil postos de trabalho em apenas nove meses de 2010. A informação é de um estudo inédito da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) que mediu o impacto que o processo de perda relativa do setor na formação do Produto Interno Bruto (PIB) apresenta na economia brasileira.
Em dois anos, o chamado coeficiente de importação, que mede o porcentual da demanda interna suprido por produtos vindos do exterior, subiu quase dois pontos. Passou de 19,6%, no acumulado de janeiro a setembro de 2008 (pré-crise), para 21,2%, no mesmo período de 2010.
O que temos, em linhas gerais é que  as duas grande potências que  respondem por mais de 50% do comércio, da produção e do consumo mundiais de bens e serviços, não seguem a cartilha neoliberal do  cambio livre, mas querem que o resto do Mundo continue seguindo.
Por isso, o governo de Dilma Rousseff vai entrar com a reclamação junto à OMC. É apenas um lance psicológico e político. Com ele o País adquire o “direto moral” de  também manipular o  seu câmbio. A manipulação se dará através de medidas que  segurarão a  alta do Real A principal  deverá ser adoção do regime de  Quarentena, quando capitais considerados especulativos ficam retidos, digamos por 90 dias, no Banco Central. Formalmente isto não corresponde  à adoção do câmbio fixo, mas  o resultado prático  é mesmo. Há um congelamento das cotações por falta de fluxo.
Então, no contexto dessa guerra psicológica, Mantega avisou que vai denunciar no Grupo dos 20 (G-20) a manipulação cambial. E quer que a Organização Mundial do Comércio (OMC) defina manipulação cambial como forma velada de subsídio comercial o que, portanto, caracteriza jogo inadmissível no comércio exterior.
No momento, o governo ainda trava a batalha interna contra a mídia serviçal do Capital Financeiro e americanófila, onde pontificam Miriam Leitão e Celso Ming  entre outros. Entretanto, como já tem o apoio da FIESP e da CNI (Confederação Nacional da Indústria) e como o tema já está sendo debatido no Congresso, é possível que  Dilma e  Mantega vençam esta parada em pouco tempo. E mesmo que não a vençam completamente, vão adotar a Quarentena do mesmo jeito.
Para concluir, palavras do ex-ministro da  Fazenda, professor  Bresser Pereira:
“Não é de hoje que a indústria vem perdendo espaço. O País está se desindustrializando desde 1992. Perdemos nossa oportunidade (de industrialização crescente e sustentada) quando fizemos a abertura financeira, no quadro de acordo com o FMI. Em consequência, a moeda nacional se apreciou, as oportunidades de investimentos lucrativos voltados para a exportação diminuíram, a poupança caiu, o mercado interno foi inundado por bens importados e muitas empresas nacionais deixaram de crescer ou mesmo quebraram”.
Foram as duas décadas perdidas.

29-12-10

Lula diz que não, mas recursos
do PAC já estão sendo cortados

Há dois dias dissemos que Dilma Rousseff  já deu ordens para que sejam feitos cortes nas despesas do governo, seja no custeio, seja nos investimentos. Isto representa, inevitavelmente, o adiamento ou diminuição do ritmo de parte das obras do PAC. Isto é aliás, natural. Em todo início de governo há  o chamado ajuste de contas, quando ele é forte, o chamamos de arrocho. Nesse sentido, a mídia vem informando, corretamente, que alguns cortes serão inevitáveis.

Já o presidente  Lula, nesta semana marcada pelo ritmo  das despedidas e da consagração popular, tentou interferir e “garantiu” que o PAC não seria tocado.  É claro que o presidente  não desconhece a realidade dos fatos, como igualmente sabe que um governante deve formular e  administrar as políticas essências  de  sua administração.  Ele também faz isso.

Mas, prevalece nele aquilo que é, hoje, a função  principal de todo chefe de Estado ou líder de uma corrente  ideológica: ser “relações públicas” e propagandista de seu próprio governo. Como ele faz isso com maestria, é isso que faz toda a diferença.

Dilma tem outra formação, outra personalidade e, provavelmente, não será tão popular quanto seu padrinho. Pés no chão e com certo destemor, ela já assumiu o comando da economia.

O resultado é que o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, que ainda é do Lula  mas já e  dela, reconheceu, ontem, que  não foi possível cumprir a meta  do Superávit Primário (3,1% do PIB) fixado pelo próprio governo. O objetivo do Superávit primário é o de separar, antes  de qualquer outra coisa, os recursos necessários para pagar os juros da Dívida Pública.

E, como que numa manobra previamente  ensaiada, também ontem, o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, anunciou que , em  função do não cumprimento da  meta do Superávit  Primário, será inevitável  o adiamento ou a diminuição do ritmo de algumas obras do PAC. Concretamente, Dilma deixou claro que a coisa  não é bem como disse o presidente, embora tenha feito isso através  do Mantega que passou a bola para o Arno.

Entretanto, nada disso oculta que a verdadeira batalha que Dilma (queda de braço com o Banco Central)  terá que travar neste início de governo, será conta os juros altos, esta maliciosa  anomalia.  Maliciosa e resvalando na agiotagem,  porque ostentamos as taxas de juros  mais altas do Mundo,  quando simultaneamente, somos uma economias mais badaladas deste mesmo Mundo.

Os gastos públicos  tem  sua parcela, importante,  nesse desarranjo fiscal. Mas se os juros não fossem  tão criminosamente  altos, o Superávit  Primário poderia ser reduzido à metade. Sobrariam, assim, muito  mais recursos para a Saúde,  Educação e  Segurança, as grandes demandas  do momento. E sobraria até para pagar  os desmandos do governo  ou o cafezinho  servido  no Senado por  contínuos cujos salários  são três vezes  superiores aos dos médicos, professores e PMs.

Mas ainda não é tudo. Resta dizer que os juros altos atraem capitais especulativos que  valorizam ainda mais o Real, o que  dificulta nossa exportações e destrói, via importações, nosso parque industrial e de empregos.

A mídia calhorda, quer vender a idéia de que  o único vilão é o Governo e seus gastos descontrolados. E faz isso, tendo à frente  Míriam Leitão, Carlos Alberto Sardemberg   CelsoMing, apenas,  para que seu verdadeiro  patrão, o Capital Financeiro, continue  cevando-se  na agiotagem  oficializada.

A matéria abaixo dá  continuidade ao raciocínio desta.

26-12-10

Recomeça a queda de braço:
Juros  sobem agora, porém bem
 menos do que o Mercado deseja

Ninguém, no Mercado, tem  dúvida. Os juros devem subir e subirão já agora em janeiro, na próxima reunião do COPOM, Banco Central. Se for assim, os “estruturalistas” ou desenvolvimentistas do Governo a começar pela própria presidente, começam  levando um gol, logo no primeiro minuto  da  partida contra os “laissez faire” da Política Econômica capitaneados, agora, por  Alexandre Tombini, o novo presidente do BC.

A certeza do Mercado assenta-se em dois dados concretos: o primeiro registra uma alta da inflação que não é só dos alimentos (como quer o ministro Mantega, da Fazenda) e que pode  ficar fora  de controle, porque  termina este ano muito próxima dos 6 %, quando o centro da  meta, fixado pelo próprio governo, era de 4,5 %. O segundo dado é mais complexo e diz respeito à dosagem do remédio.

O que Dilma Rousseff e Guido Mantega tem procurado mostrar ao  jovem mas independente presidente do Banco Central é que os juros podem subir, porém  não precisam ir  muito alto nem  muito rapidamente.

Na verdade, o Mercado ficou animado, ontem (23), com a divulgação do Relatório Trimestral de Controle da Inflação do BC, redigido em reunião já sob o comando, na prática, de Alexandre Tombine que é diretor do órgão. Neste relatório está dito com todas as letras, sem a nebulosidade  características da linguagem do Banco, que a taxa de juros  deverá ser elevada, para manter a inflação sob controle.

Há nisso tudo, um pouco de jogada psicológica e política que visa reafirmar a autonomia do BC que  no Brasil não é assegurada por lei, mas tem sido aceita  pelos  últimos governos. Mas ninguém nega que o combate à inflação será a primeira  preocupação do Planalto e do Banco.

 Entretanto, e aqui está o X do Problema, os desenvolvimentistas argumentam que  com uma taxa oficial de juros  de 10%, sua elevação, se de um lado  restringe o crédito e a demanda, um freio natural à inflação, de outro, incide sobre os custos das mercadorias, agindo, assim, como fator inflacionário.

 Além disso, como a alta dos juros oficiais só surte efeito  depois de oito ou nove meses, pode-se entender que, no curtíssimo prazo, seu efeito é simbólico e  funciona apenas como sinalização de que as autoridades monetárias estão atentas e não brincarão em serviço.

Acresce que  há apenas três semanas o BC  adotou uma série de medidas a começar pelo aumento dos depósitos  compulsórios a que os bancos estão obrigados. Estas medidas  já estão surtindo efeitos: os créditos  ficaram mais restritos e mais caros e já houve desaceleração na venda, por exemplo, de  automóveis e eletro-eletrônicos  mais caros. Ou seja, o Mercado já  está sendo calibrado para um crescimento bem menor em 2011, 4,5, contra 7,8 % de 2010. Com crescimento menor, o risco inflacionário também é mais baixo.

Por fim, há ainda o argumento de que, exceto pelo hábito e por uma ou outra norma interna facilmente removível, o BC não precisa mexer na taxa de juros no tradicional patamar, uma escadinha de  0,25% > o,50% e 1%. Ele pode perfeitamente baixar esse patamar para, digamos, o,10% > o,20% e o,30%.  Isto daria  uma sintonia mais fina, mais precisa, às medias e evitaria grandes desastres quando houver dosagem excessiva, coisa  que ocorreu muitas vezes em  passado recente.

Em suma: O BC, provavelmente vai fazer gala de sua autonomia e aumentará os  juros  já  agora em janeiro. Mas fará isso de forma bem menos arrogante e bem mais prudente. Diferente dos tempos do Meirelles.

A matéria logo abaixo complementa o raciocínio desta.

22-10-12

Dilma  já preveniu  ministros de confiança:
 próximo  ano será  de  arrocho  econômico

Em Economia não há almoço grátis. Então temos: Lula almoçou e Dilma vai ter que pagar.

Isto é que é  uma sinuca de  bico.  O Banco Central anunciou, ontem, sua previsão para  o déficit do Balanço de Pagamentos (todo o dinheiro que, sob qualquer forma, entra e sai do País, durante um ano), para 2011. Segundo o BC, haverá um grande aumento: 67 bilhões de dólares, contra os 49 bilhões de 2010. O que já é um senhor rombo.

Um dos principais vilões deste desastre  sãos  os gastos  no exterior  cometidos  por nossa inocente classe media, com suas viagens e comprinhas: 15 bilhões de dólares, nesse ano. O dobro do que gastamos com a Bolsa Família em  12 meses.

 Mas o grande vilão mesmo são os juros altos. Aliás, os mais altos do Mundo, o que  no mínimo é uma extravagância já nossa economia está bombando e é reconhecidamente  uma das mais sadias.

A elevação da taxa de juros é medida elementar para conter o consumo e  neutralizar  pressões   inflacionárias, mas doses de  10% ao ano como o BC está ministrando, só são usadas, com lógica,  em pacientes internados nas UTIs da economia mundial.

Vamos ver como isso funciona por dentro: os juros altos atraem capitais especulativos (40 bilhões previstos para 2011), que  não são os mais desejados, entretanto  tem um lado positivo, porque ajudam  a  cobrir o déficit do Balaço de Pagamentos.

O lado negativo é que esse ingresso maciço de capital provoca a valorização do Real em relação ao Dólar. Como conseqüência, passamos a importar mais produtos do exterior e a exportar menos, o que amplia  o déficit do Balanço de  Pagamentos. Está instalado, assim, o círculo vicioso.

 Para  romper esse círculo, é preciso evitar, a todo custo,  novos aumentos da taxa de juros que já estão em patamares extravagantes e , a rigor, só beneficiam o Setor Financeiro. Então, para  se conseguir isso são necessárias quatro medidas simultâneas e concatenadas: a- “convencer” o BC  a  aumentar a taxa  em doses menores e menos vezes por ano; b- alterar a” leitura” dos índices de inflação, excluído deles produtos agrícolas  que são vítimas  da sazonalidade e da especulação, contaminado os preços  reais da economia plena; c- manipular discreta ou ostensivamente o câmbio para , a exemplo do que já fazem os EUA e a China, evitar a valorização  exagerada e desastrosa do Real, e d- cortar drasticamente  gastos públicos, tanto no custeio como no investimento.

As primeiras três medidas serão discutidas em profusão nos meios acadêmicos e na mídia especializada, mas acabarão sendo aceitas com algum protesto e desde que o governo faça a sua parte ou seja:  aperte o cinto e, finalmente, pague o almoço.

Dilma assumirá com uma popularidade  maior do que aquela com que foi eleita.  Nada menos que 83%  da população acredita que ela fará um bom  governo. Enfim, é preciso ter  muita determinação para torrar isso em  poucos meses.  Mas acho que a presidente vai fazer isso, mesmo que o Lula estrile.

Há 25 anos, Tancredo Neves era uma unanimidade pouco antes de sua posse que não houve. O Pais vivia, na época,  enorme crise financeira. Então seu neto Aécio, um jovem de vinte e poucos anos, quis saber o que ele faria com todo  aquele enorme patrimônio popular. Sua resposta: “Vou gastá-lo em seis meses”.

06-12-10

Dilma vai mexer no câmbio, mas a mídia finge que não vê

Desde a reunião dos G-20 em Seul, há quase um mês, este blog tem informado a seus leitores que o Brasil, cedo ou tarde, terá que mudar sua política de câmbio flutuante e desvalorizar o Real.

 Na capital coreana, tanto Lula, como Dilma Rousseff e Guido Mantega, ministro da Fazenda de ambos, praticamente anunciaram isso toda vez que falam à imprensa ao referirem–se  ao que  passaram a chamar de Guerra Cambial. Mas a imprensa, pelo menos a brasileira, finge que não vê. Depois, na maior cara de pau, sempre manipuladora, dirá que Dilma traiu uma promessa de campanha – a de que não mexeria no câmbio -, sem esclarecer aos leitores que quando a promessa foi feita, ainda não estava declarada a Guerra Cambial.

No entanto, O Mercado dá como certo que a valorização do Real terá que ser contida em algum momento, provavelmente, quando começamos a torrar nossas reservas de quase  300 bilhões de dólares para  honrar compromissos externos.   Isto acontece, quando o Balanço de Pagamentos (total do ingresso e saída de dinheiro no País) tornar-se deficitário.

Aliás, a volta do câmbio fixo já conta com dois  ativos e robustos cabos eleitorais,  Paulo Skaf  (presidente da poderosa FIESP) e Robson Braga, presidente da  tradicional CNI, Confederação Nacional da Indústria. Ambos defendem abertamente o retorno ao Câmbio Fixo, alegando que o dólar barato está “aniquilando nosso parque industrial” e não só os setores ligados à exportação.

E eles têm razão, pela metade. A sobre-valorização  do Real dificulta muito nossas exportações  e estimula a importações  além dos gastos perdulários no exterior (viagens turísticas). A outra metade reúne, três fatores que constituem o chamado Custo Brasil: a- o comodismo de  nossos capitães da indústria que não investem em pesquisa e tecnologia, única forma sustentável de eliminação do fosso tecnológico em relação a concorrência externa e preferem  depender do socorro paternalista que o Governo sempre lhes dá; b- o gargalo logístico de nossa infra-estrutura (estradas, portos, pedágios, etc.), além do espantoso emperramento burocrático, e c- os juros altos que  quando ultrapassam, digamos os 10% como é o nosso caso,  representam  um custo  extra na produção e circulação de mercadorias, inclusive das exportadas.

Enfim, só o Carlos Alberto Sardemberg e a Míriam Leitão não vêem isso, porque eles são, digamos, profetas do passado. Como não entendem o presente, a Grande Crise  Norte-Americana que aponta para o Crepúsculo do Capitalismo, eles  odeiam o futuro. Então, agarram-se à cartilha do FMI de dez anos atrás, quando  os países periféricos eram  obrigados a abdicar do  seus crescimentos, para honrar  compromissos com a agiotagem internacional, o Capital Financeiro. Capital Financeiro este que, autor de suas próprias regras, tantas  fez  que acabou arruinando a maior economia do Mundo.

Para esses dois avantesmas da Política Econômica, recorrer ao câmbio fixo (manipulação) é a maior das heresias, embora tenha sido o carro chefe da gestão FHC. E é inacreditável que eles não informem seus leitores que, neste preciso momento,  Barack Obama e o Banco Central americano,  de comum acordo,estão manipulando o câmbio, forçando artificialmente  a queda do Dólar.

Mas Míriam e Sardemberg  são francamente  desonestos quando fingem ignorar  Paul Krugman, Nobel de  Economia,   que diariamente defende, nos EUA, a manipulação do câmbio em situações de emergência.

 Para  simplificar a  guerra,  vamos reproduzir  aqui,  trecho  de um dos últimos artigos de  Krugman:

“O desafio é nomear uma nação na história que prosperou desvalorizando sua moeda.

Vejamos:

- A Grã-Bretanha se recuperou vigorosamente dos seus problemas nos anos 90 depois que desvalorizou a libra frente ao marco alemão em 1992. (Na época, alguns engraçadinhos sugeriram erigir uma estátua de George Soros em Trafalgar Square.)

- A Suécia também se recuperou fortemente depois da crise dos seus bancos nos anos 90 com um boom de exportações conduzido por uma coroa desvalorizada.

- A Coréia do Sul também saiu-se bem da sua crise de 1997-1998, registrando uma explosão das suas exportações após a desvalorização da sua moeda, o won.

- A Argentina registrou grande sucesso depois da sua crise em 2002, com o forte aumento das suas exportações que resultou da desvalorização do peso.

E outros mais. A verdade é que todas as recuperações de uma crise financeira que conheço, desde a 2ª Guerra Mundial, foram conduzidas por uma desvalorização da moeda. Na verdade, essa é a maior razão para o pessimismo no momento: devido ao alcance global da crise, a saída habitual está bloqueada.

Agora, estou certo que os defensores do ouro como investimento darão explicações bem diferentes sobre aqueles eventos.Mas, neste caso, não estaremos aprendendo com a história; e ela mostra muitos casos de países que prosperaram mediante a desvalorização”.

Sobre o mesmo tema, leia matéria logo abaixo.

6-11-10

 O Jeito Mantega de  combater a inflação

Quem acompanha este blog sabe que há semanas temos dito que  Dilma Rousseff e seu  ministro Guido Mantega, da Fazenda, têm opiniões sobre o combate  a inflação e a política cambial, que são consideradas  heterodoxas,  do  ponto de vista do Mercado e de seus  áulicos, tipo Mírian Leitão e Carlos Alberto Sardenberg.

Então, para não sobressaltar o Mercado, cheio de “não me toques”, escolheram para a presidência do Banco Central,  Alexandre Tombine, um técnico acima  de qualquer suspeita e para  a Casa Civil, a presidente convidou Antônio Palocci, o queridinho do Mercado e de sua mídia.

 Entretanto, no frigir dos ovos, o que vai valer mesmo é a opinião de Dilma e Mantega. E se  precisar   restabelecer  o câmbio fixo (dos tempos do FHC, alais) eles farão isso,  se  julgarem que é a única saída  para conter  a valorização acelerada e de desastrosa  do Real que, por estimular as  importações e inibir as exportações, já  comprometeu nossa Balança Comercial.

E, para conseguir combater a inflação sem alimentar a taxa de juros e  manter a promessa de meta  inflacionária  de 4,5% em 2011, Mantega  propõe  algo   que  está deixando os  xiitas liberais de cabelo em pé: ele quer  mudar o termômetro que  habitualmente mede a  inflação.

Para isso, ele simplesmente pretende  expurgar dos índices que medem a inflação, os preços  de  alguns produtos agrícolas e  combustíveis. Seu argumento é o de que vários desses produtos de consumo diário, como o feijão, por exemplo, sofrem altas buscas,  por razões sazonais ou climáticas.  Como geralmente depois esses preços voltam ao leito normal, se expurgados, evitariam alguns soluços inflacionários que  poderiam induzir o BC a elevar  taxa de juros.

 Os citados Míriam  Leitão e Carlos  Alberto Sardenberg  já caíram de pau em cima  do  pobre  Mantega, o saco de  pancadas predileto dos dois.  O que eles não dizem é que muitos outros países importantes  fazem esse mesmo tipo de expurgo e que, no Brasil, o pai da idéia foi nada menos que Mário Henrique Simonsen, aclamado unanimemente, pelos neoliberais, com o Príncipe da nossa teoria econômica.

Quando ministro da Fazenda de Ernesto Geisel, Simonsen elegeu o chuchu como vilão   e extirpou a insossa  leguminosa dos  índices medidores da inflação. Outra medida do Príncipe Mario Henrique foi estabelecer um “empréstimo compulsório” cobrado de quem viajasse  para o exterior a passeio.

Sabe que essa até que não é má idéia.

22-11-10

Obama e União Européia temem que
o Brasil desencadeie Guerra Cambial

Reunido com os presidentes da União Européia, neste sábado em Lisboa, Barack Obama conseguiu extrair uma declaração conjunta que é um misto de pedido e advertência aos integrantes do G-20,  principalmente  os  emergentes e, particularmente, o Brasil.

 Este pequeno trecho da declaração resume tudo: “Conclamamos os membros do G-20 a evitar uma desvalorização competitiva ou políticas de taxas de câmbio que não reflitam a situação econômica real”.

Nem vamos discutir aqui a asquerosa hipocrisia americana que pretende que ninguém faça   o que os EUA e a China estão fazendo escancaradamente ao manipular suas  moendas para desvalorizá-las. Tampouco falaremos da tradicional incompetência (ou será malícia?) de nossa média que praticamente ignorou o fato.

 Vamos nos limitar a dizer que o Brasil está no centro desta questão, porque na última reunião do G-10 (há 10 dias em Seul) denunciou a manobra sino-americana e  propôs a criação uma nova moeda para substituir o dólar como padrão de aceitação universal. E é possível que, nos bastidores, Lula, Dilma e Guido Mantega tenham ameaçado “segurar de alguma forma” a valorização do Real.

O fato é que Obama saiu de Seul preocupado, tanto que inseriu esse tema cambial na reunião com a União Européia realizada  para tratar de problemas relacionados com a  segurança, na órbita da OTAN, Organização do Tratado do Atlântico Norte.

E não é só isso: dois dias pós a reunião na Coréia, Obama, convidou Dilma para uma conversa na Casa Branca, antes de sua posse. Essa reunião foi marcada, em princípio, para o dia 17  de dezembro, Entretanto, este fim de semana, Dilma  comunicou que  outra data teria que ser escolhida, provavelmente em janeiro. Ela alegou compromissos previamente marcados na área do Mercosul, o que é parcialmente  verdade.

 Mas a principal razão é a de que ela havia se comprometido a visitar, antes da  posse,  a colega  Cristiana Kirchner, como, aliás, antecipamos neste blog. Este encontro cumpre o objetivo de consolidar a amizade pessoal diante da recente viuvez da argentina. Contudo, o que se quer é assinalar que a Argentina e a América do Sul são prioridades absolutas  da política externa brasileira.

Desses episódios todos, resultou de curioso que o nosso ministro da Fazenda, Guido Mantega, ganhou súbita notoriedade internacional ao cunhar a expressão  “Guerra Cambial”. Com essas duas palavras, em poucos dias, ele obteve uma projeção que ainda não obtivera em logos anos, com todos seus pronunciamentos oficiais e trabalhos acadêmicos.

Sobre o mesmo tema, veja matéria logo abaixo e a coluna Pérolas & Pílulas. 

18-11-10

 Dilma  já sabe  que  deverá  voltar  ao Câmbio
Fixo, só não sabe como dizer isso ao Mercado

Há um consenso na área econômica do Governo e (a própria presidente é economista) que se a Guerra Cambial mantida por EUA e China, durar mais alguns meses, não haverá outra alternativa para o Brasil, senão proteger sua moeda,  manipulando também o câmbio.  E acredita-se que outros emergentes, também afetados, farão o mesmo.

Dilma, aliás, foi a primeira a advertir o presidente  Lula, sobre  as consequências nefastas da Guerra Cambial entre as duas maiores potências do Planeta. Por isso, o presidente desembarcou em Seul, na semana passada, batendo forte nos dois gigantes da economia.  Na capital coreana, estava sendo realizada a reunião do G-20. Em verdade, ele repetiu  frase que  Dilma vem usando nas reuniões com a equipe econômica: “Eles ( EUA e China) não fizeram o dever de casa e querem que a  gente pague a conta. Mas não faremos isso”. Veja mais  detalhes   em matéria  da coluna  Coisas da Política.

Esquerda não acorda para o problema

As esquerdas brasileiras, sempre atrasadas e exibindo uma espantosa indigência teórica e  ideológica, estão passando batidas  sobre esse tema crucial que afeta a interesses vitais do País.  A rigor, como o câmbio fixo foi  a principal característica dos governos  de Itamar e FHC,  a esquerda,  por medo ou incompetência, não se posiciona sobre o assunto.

Como exceção, temos apenas  o deputado Carlos  Zarattini (PT-SP) que ontem  propôs, na Câmara Federal, a  mobilização do partido e a criação de uma um núcleo suprapartidário para  debater a questão.

Por seu lado, a Direita e sua mídia corrupta, também evitam o tema, porque teriam que lembrar o “populismo cambial” de FHC que esticou desnecessariamente o Cambio Fixo até a véspera de sua reeleição. Teriam que admitir, também, que  seu maior ídolo, Barack Obama,  ao manipular a cotação do Dólar, contraria todos princípio neoliberais que eles defendem com fervor. A verdade é que o Cambio Fixo é um expediente historicamente muito usado em situações de emergência, mas que só funciona se for usado num prazo curto, para evitar fortes distorções.

 E é preciso esclarecer que, no momento, a leitura da questão deve ser feita com os sinais trocados. Ou seja, FHC manteve o Real fixamente valorizado (o que assegura  preços relativos mais acessíveis para o consumidor), para evitar  a retomada da inflação. Com outras palavras: mercadorias  importadas, mais baratas, forçam  os produtores nacionais a rebaixar seus preços ou simplesmente fechar as portas.
Já Dilma, se vier a adotar a medida, será para evitar uma valorização excessiva do Real, o que decreta a falência dos nossos exportadores e inunda o mercado interno com produtos importados. Como conseqüência, temos internamente uma acelerada desindustrialização. O mais problemático, porém,  é situação da nossa Balança Comercial  que está a caminho do déficit.

Leia mais  sobre o mesmo tema na  matéria abaixo e ns  colunas Coisas da Política e Pérolas & Pílulas.

  12-11-10

Dilma prepara choque na economia  

Na área econômica do governo (que ainda é de Lula, mas também já é de Dilma), não se fala em outra coisa: será  inevitável um choque heterodoxo na economia, logo nos primeiros meses do próximo ano. A própria presidente tem dito claramente em particular e de forma velada em público, que é impossível conviver com a contradição escandalosa de nos apresentarmos  como detentores de uma das moedas mais valorizadas no Mundo e, ao mesmo tempo, pagamos os juros mais altos deste mesmo Mundo.

Em Seul, Dilma  tocou numa das pontas da contradição (o Real supervalorizado) e  provocou certo nervosismo no Mercado  ao ser lacônica e enigmática, dizendo que  serão anotadas as medidas  necessárias para corrigir o problema”.

Como  ela não  afirmou enfaticamente que não mexerá no Câmbio Flutuante, imediatamente surgiram  especulações (o Mercado é arisco) de que ele poderia adotar o Câmbio Fixo, ainda que temporariamente, só durasse a crise. Esse câmbio, aliás, seria semi-fixo, com bandas  folgadas, tanto para baixo como para cima.

Por seu turno, Mantega, praticamente confirmado como titular  da Fazenda, também em Seul, tocou na outra ponta da contradição, a dos juros altos e do combate à inflação. Nesse caso, ele deixou claro que a guerra contra a inflação passará por uma política mais heterodoxa e menos complexa do que a simples manipulação dos juros pelo Banco Central que, quase mecanicamente, elava as taxas diante  da ameaça de inflação e deprime  essas taxas   quando se prenuncia uma recessão.

Mantega deixou claro que serão usados, paralelamente, outros instrumentos, como o do uso  intensivo de subsídios e insinuou que pode-se chegar até à administração temporária de  algumas tarifas e insumos básicos como energia e combustíveis. Assessores do ministro  ressalvam, contudo, que se isso chegar a acontecer, será por  um período curtíssimo, só até  que a inflação (que anda meio assanhada) volte ao seu leito normal.  E prometem que o governo também fará sua parte, ou seja,  cortará todos os gastos e apertará todos os cinto possíveis, inclusive (isto, eu é que estou dizendo) os dos funcionários e dos aposentados.

Tudo isso para que, logo no inicio de seu governo, Dilma se livre do círculo vicioso fatídico: o Real está supervalorizado (o que é péssimo não só para os exportadores, como para o País inteiro), porque os juros são altos e atraem dólares especulativos. E os juros são altos  porque paira no horizonte  uma ameaça inflacionária.

Para que se entenda melhor essa contradição interna do governo, falemos de uma disputa de poder que corre  em paralelo dentro deste mesmo governo. Então, de forma  simplificada e esquematizada, diremos que de um lado temos  Antônio Palocci e  Henrique Merirelles, prestigiados por Lula (que levou um susto logo no início do seu primeiro mandato) e os usa  porque são o seu “cartão de crédito” junto ao Mercado.  E eles são realmente os defensores da ortodoxia neoliberal que considera pecado capital qualquer ingerência do Estado onde o Mercado deve governar soberano.

Do outro lado temos Luciano Coutinho, atual presidente do BNDES (cotado para o Planejamento) e a própria Dilma. Estruturalistas, pero no mucho, já que os tempos mudaram, defendem um Estado mais musculoso e capaz de intervir, ainda que pontualmente, para corrigir as crises cíclicas de esquizofrenia  do Mercado que, de tempos em tempos,  bota o Mundo de  cabeça para  baixo. Eles cotam com o reforço do Guido Mantega e, por enquanto, de Paulo Bernardo, cotado pra a Casa Civil. Este, entretanto, transita com desenvoltura de um lado para outro.

E é certo que o PT em peso  e mais o Zé Dirceu torcem pela dupla Dilma/Luciano Coutinho. No momento Meirelles está fragilizado pelo “Caso Silvio Santos”, mas assim que recuperar o fôlego, a mídia se voltará  com toda a fúria, contra Luciano Coutinho.

Sobre o mesmo tema, leia a matéria abaixo e as colunas Coisas da Política  e Arte & Manha.

05-11-10

Por um dólar furado: Merielles  fica no
 BC  se  baixar os  juros  imediatamente

Enquanto se  faz muito  barulho com as especulações sobre  ministérios e estatais disputados pelo PT, pelo PMDB e pelo PSB, Lula, Dilma e Sua Eminência (Parda) Antônio Palocci  estão centrados na Guerra Cambial em pleno curso. É uma guerra suja que subverte todos  os princípio da  teoria econômica, a mesma que os países do Primeiro Mundo impõem, como dogmas, aos emergentes e daí para baixo.

Absolutamente  focados nisso, Lula e Dilma embarcam  semana que vem para a Coréia do Sul, dispostos  a, durante a Reunião do G-20,  pegar pelo chifre os dois touros, China e Estados Unidos,  principais personagens desta guerra monetária. Com eles,  seguem  Guido Mantega e  Henrique Meireles, cujos destinos pessoais também estarão sendo  decididos em Seul.

Dependendo  de seus desempenhos e de seus compromissos com as “novas linhas”  da política econômica do governo, Mantega poderá  sobreviver  por pelo menos  um ano no Ministério da Fazenda e  Merelles poderá emplacar mais quatro anos no Banco Central.

Em sua  última aparição  na cena mundial, Lula vai botar pra quebrar e  passará uma descompostura nos dois gigantes econômicos que estão de brincadeirinha. Ele já antecipou parte da espinafração comentando o derrame de dólares  (600 bilhões) perpetrado ontem  pelo FED, Banco Central Americano, na tentativa desesperada de inflar o Mercado, para contornar a  crise. Só que está, como veremos no final da matéria,  é a forma errada de lidar com o problema.

Lula já classificou esta media como “jogada irresponsável e debaixo nível”. A versão de Mantega é mais  amena: “É um erro combater a crise  jogando dinheiro  a esmo, pela janela do avião”. E ambos tem razão.

A “nova orientação” da política econômica que  poderíamos traduzir como o “olhar de Dilma” sobre o tema, consiste numa política mais agressiva  de  baixa dos juros. É ai que o Meirelles vai ter que se virar, se quiser continuar no bonde.

Isto porque, pelo menos na teoria, todos concordam que o Brasil está sendo  assediado violentamente por uma enxurrada de  dólares especulativos, não apenas por que  saiu bem e rapidamente da Crise  Americana que continua assolando  Primeiro Mundo, mas principalmente, porque, contraditoriamente , oferecemos as taxas de juros mais altas  Mundo.
Como resultado a entrada de dólares valoriza ainda mais o Real, o que inviabiliza nossas  exportações  e  exacerba a importações. Uma  situação insustentável no médio prazo. É por isso que Dilma e  Sua Eminência Palocci já  resolveram que os juros tem que cair e cair rapidinho. 

Galinha morta
Quanto à  questão do fantástico derrame de 600 bilhões de dólares, trata-se de algo mais complexo. Vamos lá: Os Estados Unidos possuem   e estão matando a galinha dos ovos de ouro. Isto porque são detentores de uma moeda que serve de padrão ou de troca universal. Todos os produtos em todo Mundo são cotados em dólar.

Em função disso, os americanos podem  emitir e consumir dólares quase  que sem limites, porque ao jogar mais  moeda no Mercado (via emissão ou compra  de títulos de seu próprio Tesouro) eles não provocam inflação interna. E não provocam porque todos os produtos locais ou mundiais caem também de preço já que são cotados em  Dólar, a moeda universal.
Ou seja, se o Brasil, por exemplo, emitir desmesuradamente o Real, no dia seguinte  nossa moeda  valerá menos, porque os preços relativos  de todas a mercadorias e também das  moedas e  produtos estrangeiros,  se valorizam em relação à nossa moeda.

Entretanto,  como vimos, isso não acontece ou não acontecia  com o dólar americano. Por isso, durante  décadas eles puderam  gastar de  forma absolutamente incompatível com as regra do Mercado e as leis da Economia, conseguindo sustentar um crescimento econômico contínuo a partir  apenas do aumento do consumo.

Até que, inevitavelmente, começaram a explodir as bolhas especulativas, em Setembro de 2008. E então “redescobriu-se” que em economia  não há almoço grátis e que esta  é uma lei básica que  serve para todos.

Quando ocorrem essas crises  (que aliás são cíclicas) o único remédio possível é o da  austeridade,  do apertar de cintos tanto do governo quanto da população, até que o Mercado (sufocado pelo excesso de oferta) restabeleça o  seu equilíbrio. Mas, como donos da galinha dos ovos de outro, o americanos se recusam a fazer isso. E querem, depois de ter almoçado o bônus, ratear o ônus por toda a humanidade.

Como, porém, tudo tem seu limite, esse sinal terminal já  apareceu para a América do Norte.  Aconteça o que acontecer  na semana que vem em Seul, o Mundo sairá de lá convencido de que  o Dólar tornou-se imprestável como moeda padrão.  Tanto Lula, como o presidente chinês, Hu Jintao, já disseram  há meses e vão repetir agora, que é preciso criar uma nova  moeda padrão  internacional a ser administrada, provavelmente, pelo FMI.

Enfim, os americanos mataram sua galinha dos ovos de ouro e agora, como todos os mortais, vão ter que pagar o almoço, a janta e fazer o dever de casa.

31-10-10

Com Dilma a Esquerda avança, mas
 ainda não  detém a soma  do Poder 

A histórica ingratidão da classe média e a função imbecilizadora da grande mídia. 

Com a vitória de Dilma Rousseff, o PT vive um momento crucial e exacerba sua contradição central: como revolucionar uma sociedade que o próprio partido está  fazendo com que seja   predominantemente de classe média e consumista.

Toda a literatura marxistas sobre a prática revolucionária que os teóricos do PT (se  é que ainda existem) não conseguem  atualizar, baseia-se  em conceitos leninistas, absolutamente incompatíveis com a realidade do Século  XXI que como insisto sempre neste blog, assinala o Crepúsculo do Capital. Crepúsculo este que aponta  para o que  chamo de Neofeudalismo, a etapa superior do Imperialismo.

Entretanto, em seus textos “teóricos” e  nas simples palavras de ordem, os atuais “formuladores” do pensamento esquerdista, ainda falam em luta contra o Imperalismo, algo que já não há. Temos, então, fantasmas lutando contra fantasmas.

Vamos tentar explicar melhor isso:

O modo de produção capitalista atingiu um estágio de evolução tecnológica tão avançado e que avança de forma tão vertiginosa que o Capital,  concomitantemente, vai perdendo a capacidade de acumular seu próprio excedente.

Nesta mesma coluna,  há dezenas de artigos que   desenvolvem este tema  com o cuidado e  a profundidade necessários.  Mas aqui, diremos de forma simplificada que o  Capital só acumula na sua parte variável,  a  exploração do trabalho vivo (seu excedente). A parte constante  do Capital é trabalho morto (máquinas e equipamentos) que apenas  transferem o  seu próprio valor para o valor da mercadoria que  produzem e, portanto,  não ensejam a  acumulação.

Por outro  lado, hoje é visível, até para um leigo   que o Capital está  se  desfazendo  vertiginosamente  de sua  parte variável (trabalho vivo). Todos sabem que hoje é possível produzir uma número, por exemplo, três vezes maior de automóveis do que há dez  anos, utilizando-se de um número  três vezes menor de operários. E este é um processo em aceleração que  atinge a todos os ramos industriais. É o chamado desemprego estrutural.

A parte  descartada desses trabalhadores ou ingressa  no exército dos excluídos, ou é encaminhada  ao  Setor de Serviços que  pelas mesmas razões expostas acima,  oferece lucro, mas não propicia a acumulação do capital.

E aqui  já podemos afunilar o raciocínio para  as seguintes  conclusões importantes:

1-  A classe operária como é descrita nos textos marxistas de cento e cinqüenta anos atrás está em vias de extinção se soubermos ler, de forma atualizada, esses mesmos textos.

 2- A burguesia descrita também  nesses textos, tende, por igual, a desaparecer E não há o que estranhar: se o  modo de produção capitalista clássico entra em estado de obsolescência, é natural que  seus dois personagens centrais (burguesia e proletariado) o acompanhem.

3- De onde, então, o Capital extrairá seu lucro? É aqui que esta nova era exala o seu aroma feudal:  o lucro das grandes corporações,  globalizadas e dominadas pelo Capital Financeiro,  advirá da  concessão  de direitos, licenças, para exploração de suas tecnologias  e de suas marcas (brasões). E estas mega empresas  se dedicarão cada vez menos à produção. É a terceirização (avassalamento) generalizada.

 4- O que temos aqui, é o  que  chamaremos de “monopólio dos saberes”, onde  não haverá lugar para a tradicional mão de obra que   e sim para os cérebros de obra. Também não haverá distinção ou fronteiras entre  as empresas e as instituições de pesquisa. A universidade  vira departamento do novo grande feudo mercantil.

 5- A nova  classe média, disso resultante,  já nasce sem nenhum compromisso com os conceitos clássicos de luta de classes. Ela quer mais  é ser  terceirizada, avassalada. Sem sentir a proximidade física do relho do patrão, ela se sentirá mais livre (autônoma),  sem perceber que será muito mais dependente dos novos barões feudais.

 6- Como posicionar  os  estados nações, ou  um conjunto deles, como é o  caso da UNASUL, diante  desse novo modo de produção, é o grande desafio teórico destes novos tempos. Sendo  certo que, a menos  que ela dependa do Estado (grandes estatais concorrendo com as  empresas neofeudais), será difícil obter a gratidão da nova classe média, permanentemente  assediada pela grande mídia, cuja  função é mantê-la em estado de alienação.

27-08-10

As novas estatais estratégicas da presidente Dilma Rousseff

Há quatro meses informamos neste blog que a criação de novas estatais fazem parte não só da estratégia de campanha  mas, evidentemente, dos planos de governo de Dilma Rousseff. O anúncio será feito provavelmente antes da posse, já que a indicação de seus presidentes faz parte da montagem do novo governo.

Duas das companhias que mencionamos, na época, já se  materializaram: A Telebras, ressuscitada para dar conta da expansão territorial da banda larga e  a do Trem Bala, nascida recentemente. Embora criadas agora, elas serão instaladas por Dilma. A  nova empresa  do governo ligada aos  seguros, criada há dois  meses, não estava nas nossas contas.

As  próximas duas a serem anunciadas, entre a eleição e a posse, são as seguintes: A - Ourobras, destinada e explorar metais nobres e pedras preciosas (com monopólio de  alguns deles) e  sustar, assim, o descomunal contrabando  e a dilapidação indescritível  de  nossos recursos naturais, principalmente na vastidão amazônica. B – Embrafarma,  voltada para as pesquisas e a sintetização de princípios ativos do nosso gigantesco patrimônio  genético (vale  mais do que o pré-sal) igualmente dilapidado e escancaradamente furtado, ainda uma vez  na Amazônia cobiçada e sem fronteiras vigiadas.

Há pelo menos mais cinco no forno, mas a terceira nova estatal (na verdade uma empresa com participação minoritária do governo), que mencionaremos  hoje, visa dar ao Brasil autonomia na produção de motores (turbinas) para  a indústria aeronáutica, podendo estender seu atendimento a outros setores de transporte. Seu nome provisório é Fábrica Nacional de Motores.

A futura presidente tem dito que é ridículo que o Brasil  possua  a quarta maior  empresa mundial produtora de aviões  e ocupe o quarto lugar na produção e no consumo de  automóveis, sem ter uma única fábrica nacional de motores.

Esta nova empresa  dará especial atenção a projetos e pesquisas do carro elétrico que  inevitavelmente substituirão, em  o máximo duas décadas,  os veículos à combustão. E já estão sendo testados nos Estados Unidos e no Japão. Dilma tem dito que se depender dela, “o Brasil não vai perder mais este bonde tecnológico”.

05-08-10

  A Crise Americana e a queda de popularidade de Obama:
 uma visão neoliberal de Cesar Maia e uma visão  marxista

Cesar Maia é mais  conhecido como ex-prefeito (duas vezes) do Rio de Janeiro, mas é bem mais que isso, como vermos. Como prefeito, eu que não sou chegado a preconceitos  e patrulhas ideológicas, considero que  ele fez um bom trabalho.

Entendo que ele inovou, para melhor, diversas  técnicas  administrativas e de planejamento e equilíbrio financeiro que, aliadas a um  postura mais moderna de administrador, marcaram época. É um divisor de águas: depois dele não dá mais para ir levando a administração carioca naquele antigo jeitão populista (no pior sentido), modorrento  e  irresponsável. Mas, para que ele também não pense que  está com  essa bola toda, direi que a  Cidade da  Música é um desastre completo.

Há ainda o Cesar Maia comandante de  fato do DEM, uma  herança maldita  da  Ditadura, a qual ele aceitou, creio, por falta de alternativas partidárias para dar continuidade à sua carreira, depois que sentiu-se  sem espaço, primeiro no PDT de  Brizola, depois do PMDB do Rio que acabou caindo nas mãos do Garotinho. Este é o lado menos edificante de sua  biografia, digamos assim.

E há, ainda, um terceiro Cesar Maia: um economista competente (dentro dos limites dos conceitos  neoliberais) e um arguto observador das cenas  políticas ,tanto a nacional como a internacional . É esta terceira persona, a que nos interessa.

Agora vejamos o que  Cear Maia disse em seu blog, do dia 4-8 , sobre os recentes desdobramentos da Grande Crise Americana:

OBAMA E AS ELEIÇÕES PARLAMENTARES DE NOVEMBRO

Por Cesar Maia

( Não fica  claro, no blog, se  o texto é, em parte, uma transcrição de um artigo do jornal  O Clárin, ou se é uma resposta de Cesar a um repórter  daquele jornal. O importante é a o conteúdo do texto.)

“Quala razão da queda de Obama na opinião pública?

 Há duas interpretações: uma diz que é resultado direto das características da recuperação econômica, liderada pelo extraordinário aumento da produtividade que não implica na criação de empregos, mas sim, entretanto, no aumento excepcional do nível de

lucro das empresas. No primeiro trimestre, a taxa de lucros das empresas cresceu 70%. Hoje, as empresas norte-americanas têm acumulado 1,8 trilhões de dólares, mas não criamempregos nem investem, especialmente em alta tecnologia, o que por sua vez acaba por reduzir a importância relativa da força de trabalho.

. O resultado é que, com uma economia que cresce 3,5% no ano, tem atualmente 16 milhões de desempregados, somando aqueles que não têm emprego, os que foram despedidos depois de 07/12 e aqueles que trabalham meio expediente devido à falta de melhor oferta. A outra hipótese adverte que as reformas de Obama implicam um aumento qualitativamente superior da presença do Estado na vida dos norte-americanos e que a cultura cívica americana – profundamente populista, antiestatal e antielitista – rejeita. É provável que haja convergência das duas realidades na queda da popularidade de Obama”.

Nosso comentário: 

Em primeiro lugar, uma ressalva: por um descuido, creio, de digitação, a penúltima linha do primeiro parágrafo ficou incoerente em relação ao raciocínio desenvolvido,   É possível que o autor  ao invés de dizer “nem investem” tenha pretendido dizer ”e quando investem , o fazem, especialmente em novas tecnologias …

No mais, o raciocínio econômico é perfeito e bem  articulado com as  consequências sociais e  políticas. Sobretudo este texto sucinto  diz muito mais do que toda a verboragia tragicômica de “especialistas” do tipo Míriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg,  que até  hoje não têm a menor noção do que aconteceu  e está  acontecendo nos  Estado Unidos (epicentro da  crise), desde  setembro de 2008

E aqui sobressai a questão das limitações  do pensamento neoliberal que tentou reescrever – e o fez muito mal -, os antigos clássicos da economia, como  Smith, Ricardo, Say e Marx. Como resultado, nem  Cesar Maia, nem  alguns economistas  superbadalados da atualidade, como  Paul Krugman, conseguem ir muito  além do que foi dito  nos parágrafos transcritos acima..

Fica-se, então,  sem  a percepção correta do  núcleo teórico que diz respeito à  acumulação do a, na sua esfera  mais íntima, na sua essência. E é exatamente este processo de acumulação que  dita as circunstâncias e o ritmo  da evolução  histórica do modo de produção capitalista. Modo de produção este que atingiu seu apogeu em meados do  século passado (climax do fordismo) e hoje, avança  já em sua fase crepuscular.

Para   dar   pequena contribuição para  o esclarecimento desses fenômenos atualíssimos e cruciais,  escrevi em 2004, o livro  “O Impasse Ecológico e o Terrorismo do Capital”. E, atualmente, venho escrevendo neste   blog, textos atualizados  que perseguem os mesmos  objetivos do livro.. Os dois artigos que você  poderá ler logo ai abaixo, são um esforço de síntese, uma tentativa de  expor, em  artigos curtos, a alta complexidade da acumulação  do Capital.

12-07-08

Mais dez estágios para
entender a grande crise

Este artigo dá continuidade ao anterior, de 7-7-09, “Dez degraus para entender a atual crise”. A compartimentação do raciocínio completo em itens numerados (degraus) parece ter agradado à maioria dos meus pouco leitores. Vamos persistir neste método. Por outro lado, como acontece na maioria dos blogs, os texto mais recentes encabeçam as colunas. Neste caso, porém seria conveniente que o leitor que acessa este blog pela primeira vez, leia antes o artigo anterior.

1- Se já concordamos que nas crises cíclicas, além dos aspectos apenas financeiros, o que deve nortear a análise são os substratos da produção efetiva (economia real) onde invariavelmente iremos registrar o fenômeno da superprodução, e se concordamos que é exclusivamente neste local (o da produção material) onde ocorre a acumulação capitalista, podemos seguir adiante para dizer que quanto maior (mais intensa) a crise, tanto maior será, na saída dela, o salto de qualidade a ser dado pelo sistema como um todo. É uma forma, digamos, de recuperar o terreno perdido. Com outras palavras: já vimos (itens 6 e 7 da matéria anterior) que o capital global, após cada crise, atinge um patamar superior em termos de sua própria concentração e de seu nível tecnológico . É o que chamamos de queda para cima. Há assim, um efetivo progresso, mais precisamente uma progressão. O capital global perde parte de sua essência anterior e adquire uma nova tonalidade. Fica, eu diria, mais leve ou menos denso. Em miúdos: emprega menos mão-de-obra e mais tecnologia e/ou automação. No jargão marxista, este capital, no seu movimento de exploração do trabalho, troca mais-valia absoluta por mais-valia relativa. Isto seria irrelevante ou mera curiosidade científica, se não fosse possível demonstrar, como pretendemos fazer na sequência, que nesta troca, embora o capital aumente o volume de mais-valia (sobretrabalho extraído) ele diminui a taxa de mais-valia. O que nos obrigará a demonstrar, também, que na soma de todos os capitais, a menor taxa de mais-valia total corresponderá, irremediavelmente a uma menor taxa de lucro total.

2- Esta degradação permanente da taxa global de lucro pode ser estatisticamente comprovada. Ninguém mais ignora que as taxas globais de lucro e, portanto de acumulação e, portanto, de crescimento econômico tem sido, nos últimos 20 anos, substancialmente menores nos países tecnologicamente mais desenvolvidos, na comparação com países mais atrasados ou onde as indústrias mesclam uso intensivo de tecnologia (mais-valia relativa) com uso maciço de mão-de-obra barata (mais-valia) absoluta. Exemplo emblemático disto é a China, para onde acorrem, vorazes, capitais produtivos de todo o planeta.

3- A não compreensão plena deste fenômeno crucial, é que leva renomados economistas como Delfim Netto e Luiz Gonzaga Belluzzo (para citar apenas dois dos mais competentes) a supor que o medíocre crescimento econômico do mundo desenvolvido nas duas últimas décadas – o que se reflete nas estatísticas globais – deve-se à prática exorbitante de métodos excessivamente ortodoxos (um padrão neoliberal) nas políticas monetárias e cambiais. Outros economistas, como os festejados Paul Krugman e Nouriel Roubini atribuem as misérias do atual sistema ao excesso de condescendência e ausência de regulamentação em relação aos capitais financeiros, em particular os especulativos,como se houvesse na face da Terra, um único capital financeiro que não especule. Seja como for, eles também não vêm que no mesmo passo em que aumenta sua capacitação tecnológica (mais máquia, menos homens) o capital global perde a velocidade de crescimento.

4- Então: o excepcional crescimento econômico da China nas últimas duas décadas, não se deve apenas à excelência da gestão macro-econômica do governo dito comunista, mas ao fato de o território chinês ser hoje o maior quadrilátero de extração de mais-valia do planeta. O custo ecológico disto tudo, já foi por nós analisados em outros artigos deste blog, mas cabe mencionar mais uma vez.

5- Vale destacar que quanto mais profunda e/ou intensa for a crise, tanto mais elevado será o nível tecnológico e o grau de concentração com que o capital global reiniciará

sua caminhada após a superação dos efeitos do cataclismo. Aqui temos o exemplo clássico de realimentação recíproca de fatores (vende mais porque é crocante e é crocante porque vende mais) Assim, a maior concentração (fusões e incorporações), decorrentes do maior número de concordatas e falências, permite, em função da concentração de capitais, esforços e material humano, um esforço concentrado na área de pesquisas e tecnologia. Disso sobressai um aumento do fosso tecnológico entre as mega empresas de um lado e as pequenas e médias de outro. Sendo que estas últimos tenderão a ser avassaladas (terceirizadas ou contratadas com vínculo exclusivo pelas primeiras). Na mesma proporção este fosso será maior na relação entre as economias centrais, tecnologicamente mais desenvolvidas e as periféricas, cuja autonomia vai, assim, se inviabilizando progressivamente.

6- Do que foi dito no item anterior resulta um fato muito comum na atualidade e que merece destaque: o surgimento dos superlucros provenientes do diferencial tecnológico articulado com a situação (muitas vezes temporária) de monopólio. E aqui tocamos num ponto crucial: estes superlucros, como uma densa neblina, dificultam a visibilidade (demonstração) da teoria da queda permanente (irrevogável) dos lucros, através da trajetória no modo de produção capitalista pela História. E esta , absolutamente não é uma questão menor, porque a ser verdadeira a teoria (da queda da taxa de lucro), fica demonstrado que, no limite, o capital caminha na direção do lucro pífio, o que fará com que ele próprio (o capital) torne-se, pífio, ou ultraleve ou ainda, sem densidade de valor, quando, na mesma medida, perderá a capacidade de acumular (reproduzir-se). Entretanto, se o aquecimento lógico do pensamento dissipar a neblina, ficará claro que os superlucros, que são reais, dizem respeito apenas a algumas grandes empresas em particular, empresas estas que só surgiram em situações também particulares. Trata-se de uma tendência, sim, mas uma tendência que afeta apenas a parte menor de universo empresarial, até porque estamos falando de um fenômeno articulado de concentração que tem como consequência óbvia a exclusão e/ou extinção de grande parte das empresas menos dotadas. Contudo, o raciocínio mais importante a ser feito é o de que ao falarmos em queda da taxa de lucro, não estamos falando de eventos que afetem esta ou aquela empresas ou este e aquele setor: estamos falando de algo global, universal, que afeta o sistema como um todo, na soma de todas as suas circunstâncias.

7- O que foi dito até aqui, parece indicar que a grande maioria dos estados nacionais vão perdendo a sua capacidade de operar com autonomia, por não reunirem as condições mínimas indispensáveis (volume total e densidade de capitais). Se for assim, estaríamos diante do que podemos chamar de obsolescência dos estados nacionais. Obsolescência esta que é combatível com dois outros fenômenos que precisam ser estudados

isoladamente e com todo o cuidado: a irrelevância da política (diante do efeito prático avassalador de simples portarias da equipe econômica que não passa pelo crivo eleitoral) e a criação de blocos econômicos ( que proliferam mundo afora), o que reduz ainda mais as autonomias nacionais.

8- Entrementes, paira sobre o que foi dito nos itens 6 e 7 uma teoria muito mais instigante: a da concomitância entre os desvanecimentos dos estados nacionais burgueses (controlados pela burguesia) e o modo de produção burguês. Esta concomitância esta começando a aparecer com maior nitidez nesta atual fase, acentuada, mais ainda, pela crise econômica. Max Weber lembra que em seu nascedouro (em temos lógicos e não de sincronia absoluta) houve uma mútua adequação entre estados nacionais e o modo de produção capitalista. Neste caso, as articulações entre todas as obsolescências e desvanecimentos até aqui mencionados não seriam indicações de que estaríamos ingressando numa etapa de mútua inadequação entre estados nacionais, sua organização política e seu modo de produção?Voltaremos muitas vezes ainda a este tema.

9- Quanto à defasagem tecnológica, item 5, vale recordar que Ernedt Mandel, em seu último livro, “ O Capitalismo Tardio”, já afirmara que a partir dos anos 70 do século passado, ficou bem evidente que as grandes empresas buscavam seus lucros, prioritariamente, no diferencial tecnológico. Podemos acrescentar que a partir dos anos 90 as empresas de um modo geral passaram a complementar ou mesmo priorizar seus lucros não mais nos departamentos de produção apenas, mas na diretoria financeira, prioritariamente. Eram os chamados lucros de caixa. Na verdade falsos lucros, como a crise viria demonstrar. Na verdade eram apenas perspectivas de lucros obtidos no mercado financeiro, lucros futuros, ou promessas de lucros a partir da exploração futura de trabalho (produção) que jamais se realizaria. Pura fumaça. Quimeras de quem supõe ou finge supor que é possível construir algum tipo de valor sem passar pela elementar metabolização entre o trabalho (mão-de-obra) e a Natureza (recursos naturais convertidos em commodities mesmo quando ainda em estado bruto, nas minas e nas jazidas) Em meu livro O Impasse Ecológico e o Terrorismo do Capital” (2004) abri um capítulo apenas para analisar esta descomunal montanha de promessas que os especialistas insistiam em chamar de capital. Me ocorreu dizer, então, que quando houvesse a mínima suspeita de que tudo não passava de uma especie de “corrente da fortuna” ou “pirâmide”, destas passadas nas esquinas por malandros pés-de-chinelo, estaríamos diante de uma crise mãe.

10- Quando ficar completamente claro, compreendido e combinado que toda vez que completa um ciclo de acumulação o capital global total avança, consome e, portando, destrói um pedaço importante dos recursos naturais não renováveis,este será o momento de perguntarmos quão útil ou inutilmente a Natureza esta sendo consumida, destruída. E o momento de introduzirmos em nossos raciocínios o conceito da produção redundante, quando recursos naturais são consumidos, destruídos, na sua metabolização com o trabalho, sem que disto resulte o mais mínimo beneficio para a qualidade de vida ou para a evolução da humanidade como um todo.

05-09-10

Dez degraus para
entender esta crise

Não quero, absolutamente, ser grosseiro com a Míriam Leitão. Minha birra com relação a ela se deve ao seus textos, mais precisamente ao estilo professoral e impositivo. No mais, creio que ela pessoalmente seja um simpática jovem senhora e boa colega, como me informam. O problema é que ela é paradigma de uma geração de jornalistas que incorporou, ao seu jeito de pensar e de escrever, algumas “verdades absolutas”, verdadeiros axiomas, que não são verdades nem absolutas. São – ou melhor, eram – fugazes imposições de um jeito fugaz de interpretar a economia e, por conta disso, a política e a vida: o jeito neoliberal ou, se quiserem, o modo como o Mercado passou a impor os seus pontos de vista a partir da crise que culminou com a derrocada da ex-União Soviética.

Seja como for, Míriam me surpreendeu quando, em sua coluna do último dia 3 de julho disse que ainda não conseguiu entender a atual crise econômica “tão diferente” das outras. Em função disso, resolvi alinhar os dez primeiros passos a serem dados, segundo penso, para quem quiser digerir esta crise que, por suas dimensões e intensidade poderá significar o início de uma fase pós capitalista. Não que o atual modo de produção vá acabar amanhã. Mas é possível que , mais tarde, os historiadores apontem este período como o marco inicial de uma etapa de esvaecimento – gradual – do modo de produção e de consumo que se impôs ao mundo (e também não fez isto de uma hora para a outra) nos últimos trezentos anos. É claro que não pretendo dar uma de professor, mas escrevo com a segurança mínima de quem, nos últimos vinte anos debruçou-se sobre os textos marxistas, ironicamente, para tentar entender o fracasso soviético e acabou redescobrindo os mecanismos essenciais da acumulação capitalista que, por suas vez, gera , inexoravelmente, crises cíclicas de todos os tamanhos, inclusive as gigantescas como a atual. Então:

1-As crises econômicas cíclicas, todas elas, são crises de superprodução, embora os primeiros sintomas geralmente ocorram durante o estouro das bolhas especulativas no setor financeiro e se alastrem, na sequência, pelo setor imobiliário.

2- O desencadeamento das crises se dá, invariavelmente, a partir do que chamo de hiato de consumo (ver meus artigos na coluna “Para entender a crise” do meu blog) que se inicia, invariavelmente no setor de máquinas e equipamento, ou bens de capital ou, ainda, capital constante, no jargão marxista.

3- Este primeiro hiato (estacamento de encomendas) se dá quando o setor de máquinas e equipamentos deixar de comprar máquinas, equipamentos e insumos com os quais iria produzir mais máquinas, equipamentos e insumos. É por isto que , pelo menos os que entendem minimamente do assunto, dizem que o setor de bens de capital é o primeiro a entrar e o último a sair das crises econômicas.

4- Como numa reação em cadeia, este primeiro hiato desencadeado por produtores de máquinas, equipamentos e insumos (capital contante ou aquele capital que produz outros capitais) se propaga para os demais setores da economia. O economista burguês que só enxerga a superfície do fenômeno (os sintomas) dá a todos estes fatores

concomitantes o nome genérico , simplificador, de “efeito manada”, o que é uma boa denominação, mas, em si, não explica nada.

5- Para quem nunca leu ( faz questão de não ler) os textos de Marx tudo isto tornar-se incompreensível e eles ficam imaginando que uma fada madrinha teria avisado aos produtores de bens de capital e insumos que haveria no mercado mais mercadorias do que demanda efetiva, o que levaria estes produtores a moderar ou suspender encomendas com as quais produziriam mais máquinas equipamentos e insumos. Mas não é isto. O que há é que a restrição de consumo (o hiato) decorre da necessidade de investimento. Investimento este que, a menos que se recorra novamente à fada madrinha, decorrer, obrigatoriamente, da restrição ao consumo. Não se imagine que um magnata produtor de aço vá deixar de almoçar só porque resolveu instalar mais um alto forno. Mas ele deixa de comprar jatos executivos, iates , coberturas, diamantes, etc. É claro ainda que esta simples e partircular restrição de consumo não explica a crise. Entretanto, a gente começa a entender melhora a coisa quando imagina que existem centenas de milhões de pequenos e médios produtores de bens de produção e, simultaneamente de consumo (agricultores e extrativistas, por exemplo) que também, em dado momento, precisam poupar, para, em seguida, produzir mais. Além disso, considere-se que o primeiro hiato começa a interagir dentro do próprio setor de bens de produção: O setor siderúrgico deixa de encomendar minérios que deixa de encomendar navios que deixam de consumir combustíveis, etc.; sendo certo que o desemprego será a consequência lógica disto tudo. Finalmente, lembre-se que quando os cidadãos de uma economia global são induzidos a consumir mais e poupar menos, sedo ou tarde o sistema (global) desemboca numa crise.

6-Tudo isto para dizer que ( e antes de Marx, Adan Smith já ensinava isto) não há acumulação capitalista sem restrição do consumo. Esta, a contradição inata do atual modo de produção. Mas não estaríamos acrescentando muita coisa ao que outros autores já disseram, se não enfatizássemos que em função desta contradição inata (crônica), o sistema à medida em que avança – porque ele sempre supera suas crises a partir de um patamar mais alto – vai crescentemente acumulado as condições para a sua própria exaustão (superação).

7-Este patamar mais elevado (uma espécie de queda para cima), é toda a força, todo o mistério e toda a fraqueza do capital. Kalecki, de quem Keynes colheu boa parte de sua próprias teorias, demonstrou que , em sua dinâmica, ao sair de cada crise cíclica, o capital o faz com um nível maior de concentração (fusões, incorporações, etc.) e um patamar tecnológico superior. Sendo certo aqui também que este novo patamar ( mais automação e melhores métodos) vai gerar mais desemprego estrutural, aquele que veio para ficar. Se analisarmos o sistema como um único (planetário), que é como requer esta época globalizada, vamos constatar que na medida em que acumula, concentra, numa ponta, ele exclui na outra. São ações concomitantes e inevitáveis .Os analistas burgueses supõem (mais torcem do que supõem) que o desemprego estrutural – a eliminação definitiva de vagas de trabalho – no setor produtivo pode ser compensado pela abertura de outras vagas no setor de serviço. Isto corresponde a uma dupla ilusão. A primeira, porque também no setor de serviços há uma crescente automação. Segundo, porque fora do setor produtivo

6-Tudo isto para dizer que ( e antes de Marx, Adan Smith já ensinava isto) não há acumulação capitalista sem restrição do consumo. Esta, a contradição inata do atual modo de produção. Mas não estaríamos acrescentando muita coisa ao que outros autores já disseram, se não enfatizássemos que em função desta contradição inata (crônica), o sistema à medida em que avança – porque ele sempre supera suas crises a partir de um patamar mais alto – vai crescentemente acumulado as condições para a sua própria exaustão (superação).

7-Este patamar mais elevado (uma espécie de queda para cima), é toda a força, todo o mistério e toda a fraqueza do capital. Kalecki, de quem Keynes colheu boa parte de sua próprias teorias, demonstrou que , em sua dinâmica, ao sair de cada crise cíclica, o capital o faz com um nível maior de concentração (fusões, incorporações, etc.) e um patamar tecnológico superior. Sendo certo aqui também que este novo patamar ( mais automação e melhores métodos) vai gerar mais desemprego estrutural, aquele que veio para ficar. Se analisarmos o sistema como um único (planetário), que é como requer esta época globalizada, vamos constatar que na medida em que acumula, concentra, numa ponta, ele exclui na outra. São ações concomitantes e inevitáveis .Os analistas burgueses supõem (mais torcem do que supõem) que o desemprego estrutural – a eliminação definitiva de vagas de trabalho – no setor produtivo pode ser compensado pela abertura de outras vagas no setor de serviço. Isto corresponde a uma dupla ilusão. A primeira, porque também no setor de serviços há uma crescente automação. Segundo, porque fora do setor produtivo

6-Tudo isto para dizer que ( e antes de Marx, Adan Smith já ensinava isto) não há acumulação capitalista sem restrição do consumo. Esta, a contradição inata do atual modo de produção. Mas não estaríamos acrescentando muita coisa ao que outros autores já disseram, se não enfatizássemos que em função desta contradição inata (crônica), o sistema à medida em que avança – porque ele sempre supera suas crises a partir de um patamar mais alto – vai crescentemente acumulado as condições para a sua própria exaustão (superação).

7-Este patamar mais elevado (uma espécie de queda para cima), é toda a força, todo o mistério e toda a fraqueza do capital. Kalecki, de quem Keynes colheu boa parte de sua próprias teorias, demonstrou que , em sua dinâmica, ao sair de cada crise cíclica, o capital o faz com um nível maior de concentração (fusões, incorporações, etc.) e um patamar tecnológico superior. Sendo certo aqui também que este novo patamar ( mais automação e melhores métodos) vai gerar mais desemprego estrutural, aquele que veio para ficar. Se analisarmos o sistema como um único (planetário), que é como requer esta época globalizada, vamos constatar que na medida em que acumula, concentra, numa ponta, ele exclui na outra. São ações concomitantes e inevitáveis .Os analistas burgueses supõem (mais torcem do que supõem) que o desemprego estrutural – a eliminação definitiva de vagas de trabalho – no setor produtivo pode ser compensado pela abertura de outras vagas no setor de serviço. Isto corresponde a uma dupla ilusão. A primeira, porque também no setor de serviços há uma crescente automação. Segundo, porque fora do setor produtivo capital, em si, não acumula. Isto porque, na sua essência, ele só acumula quando transforma Natureza (matérias-primas) e Trabalho (mão-de-obra) em uma novamercadoria, materialmente falando. Mas isto é tema para um artigo específico. Por hora, basta dizer que mercadoria, materialmente falando, vai impregnar, com sua materialidade, outras mercadorias, inclusive a mão-de-obra, esta mercadoria absolutamente essencial. Já os serviços ( embora possam provocar o enriquecimento individual de seus fornecedores o que não deve ser confundido com acumulação do capital) cessam seu efeito no momento em que é usufruído pelo seu eventual consumidor Não há aqui, portanto, materialização de uma novo capital a partir de um capital/mercadoria anterior. O fato concreto é que o capital só acumula efetivamente, quando ele efetivamente aumenta a sua materialidade, (capital fixo) o que ocorre primordialmente (o ponto de partida) no setor de bens de produção. Dizendo com outras palavras, para que fique bem claro: o capital (sistema global) completa um ciclo de acumulação quando, em dado momento, mais máquinas estão aptas para produzir mais máquinas .Enquanto isto não acontecer, poderá haver muitas transações, com muito consumo, muita destruição da Natureza e enriquecimento de pessoas e empresas . Mas não há acumulação do capital global.

pela noção de que o crescimento do BIP mundial ou de países em particular equivale ao mesmo tanto de acumulação capitalista. O BIP registra o aumento (digamos assim para simplificar) do faturamento geral das pessoas, das empresas e dos governos. Fica ai computado, por exemplo, o setor de serviços, onde há muito movimento financeiro, muito gasto pessoal, porém nenhuma acumulação. Já nos tempos de Adan Smith, os fisiocratas franceses ensinavam que “onde há consumo não pode haver acumulação”. São elementos antagônicos que não cabem dentro do mesmo conceito. O que enseja a acumulação é exatamente a ausência de consumo.

9- Entretanto, é dificílimo embutir no raciocínio das pessoas , tão longamente habituadas a essa conclusão automática, a noção de que desenvolvimento econômico é diferente de acumulação do capital. O consolo é o de que, com o avanço das preocupações ecológicas, mundo afora , as pessoas comecem a perceber, automaticamente, que muitas vezes desenvolvimento corresponde a devastação ou destruição de elementos naturais que, em função da apropriação privada, são elementos integrantes do capital e de sua acumulação. Mais uma vez: onde há apenas consumo ou destruição pura e simples, o capital, obviamente, não acumula, embora seu proprietário, cuja visão não vá além de seu próprio bolso num determinado momento, possa supor o contrário. Eis ai um bom exemplo da indispensável articulação entre o pesamento marxista e o ecológico.

10- Se quisermos retornar às coisas mais práticas e imediatas da vida, fica a lição de que não se sai da crise apenas estimulando o consumo, via baixa de juros e de impostos. Isto, embora tenha um custo inflacionário a ser pago mais adiante, ameniza os sintomas e dores da doença e, certamente, fará com que alguns países saiam da crise antes que outros o que é auspicioso, sobretudo em anos eleitorais. Porém (e agora quero dizer um coisa bem simples) o sistema como um todo, só poderá ser dado como restabelecido, depois de que todos os almoços grátis – uma descomunal comilança – forem pagos pelos países centrais, acima de todos, os Estados Unidos. Enquanto isto não for feito, a economia continuará andando de lado, sendo certo que só se poderá dizer que o sistema como um todo voltou ao nível de acumulação anterior à crise, quando o setor de máquinas, equipamentos e insumos atingira um patamar de produção correspondente àquele nível. Lembremos que o capital (como um todo) só pode dizer que acumulou,depois que adquirir a capacidade de acumular mais. E resta o alerta de que se o Brasil, por exemplo, quiser sair antecipadamente e mais forte da crise, ele precisa concentrar suas atenções neste setor de máquinas e equipamentos. O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, felizmente, já demonstrou estar atento para o problema. Entretanto, neste capítulo, quem saiu na frente e já detém quilômetros de vantagem é a China que aproveita o estado letárgico do mercado e o barateamento das commodities para ampliar substancialmente as suas indústrias de base.

25-07-10

Obrama dá mais um passo em direção à guerra

Há exatos  quinze dias informamos neste blog, em absoluta primeira mão, que  o Itamaraty informara ao presidente  Lula que os Estados Unidos possivelmente   atacariam o Irã. A repercussão foi grande, mas alguns céticos desdenharam da notícia. Pois agora é oficial:  o próprio  chefe do Estado-Maior americano, almirante Michel Mullen, anunciou, ontem, que seu país  ultima os preparativos  para a guerra.

Informado,  desde  o início da semana  passada, de que  Obama estava na   iminência  de dar mais um passo em direção à guerra, o chanceler brasileiro Celso  Amorim entrou em contato com  o presidente Lula e, autorizado por este, retomou as negociações com o presidente  Mahmoud Ahmadinejad do Irã e com o primeiro-ministro da Turquia,  Recep  Erdogan, para tentar evitar a evolução do conflito em direção à guerra.

 Esta negociações estavam interrompidas  há dois meses, desde quando, após obter um acordo com o Irã e a  Turquia, mediante o qual Ahmadinejad  aceitava as condições impostas pelos EUA, o presidente  Lula foi “atropelado pelos fatos”, em função das declarações da secretária de  Estado, Hillary Clinton, de que  as concessões do Irã já não eram suficientes, embora fossem cópia fiel do que os EUA vinham  exigindo anteriormente. Então, Lula percebeu que  estava, na vida real, assistindo à Fábula do Lobo e do Cordeiro  e, para usar de sua expressão, “retirou o time de campo”.

Ainda na semana passada, durante viagem ao Oriente Médio, Amorim afirmou que ainda havia tempo e espaço para negociações que evitassem  o pior, o caminho da guerra. Nenhum grande jornal brasileiro, todos incompetentes e  engajados no esforço belicista americano,  publicou as declarações do ministro brasileiro. Entretanto, o jornal O Clárin de Buenos Aires, deu destaque à posição da diplomacia brasileira.   Quase  simultaneamente, o  presidente do Irã comunicou à AIEA, Agência Internacional de Energia Atômica , sua disposição de continuar negociando  um acordo para que o  seu país obtenha urânio enriquecido para  atividades  não militares.

 As declarações de Amorim

Eis o resumo da matéria publica  pelo Clárin:

“O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, está “muito otimista” em relação ao avanço que pode haver em breve para chegar a uma solução do conflito do Irã com a comunidade internacional por seu polêmico programa nuclear.

“É certo que o Irã começou a enriquecer (urânio) a 20%. Mas se há uma negociação, isso será suspenso. Há vários sinais que levam a pensar que isso é possível”, disse Amorim.

O ministro lembrou que, no domingo passado, se encontrou em Istambul com o chanceler turco e o iraniano, e na segunda-feira o Irã escreveu à AIEA – Agência Internacional de Energia Atômica – que está pronto para negociar incondicionalmente e sobre a base da declaração assinada com Brasil e Turquia.

O acordo assinado em maio prevê que o Irã ceda urânio pouco enriquecido a um terceiro país para que seja purificado no exterior e devolvido posteriormente para ser utilizado com fins científicos e não militares.

Apesar de seguir adiante com seu plano nuclear, o Irã manifestou à AIEA sua disponibilidade para continuar negociando a questão da troca de urânio.

Amorim compartilha as declarações do ex-presidente da AIEA Mohamed ElBaradei, que “reconhece que o grande problema destas negociações com o Irã foi buscar prevenir com excessiva antecipação coisas que supostamente poderiam  ocorrer no futuro”.

“Por isso, eu sou muito otimista em relação ao progresso que pode haver agora”, concluiu  Amorim.”

As declarações do militar americano

As declarações do chefe  do Estado-Maior americano são um espanto em termos de prepotência  e ambigüidade. Num parágrafo,  ele lamenta a possibilidade da guerra e  em outro afirma , ameaçador, que  já foram  concluídos os preparativos para ela.

O texto abaixo foi extraído do Site Terra.

O chefe do Estado-Maior americano assegurou neste domingo que um plano de ataque dos Estados Unidos contra o Irã está pronto caso Teerã produza a arma nuclear, mas que está “extremamente preocupado” com as consequências que uma ofensiva como essa pode ter.

Uma ação militar contra o Irã poderá ter “consequências não desejadas que são difíceis de prever em uma região tão incrivelmente instável”, declarou o almirante Michael Mullen à NBC.

Contudo, os Estados Unidos não podem deixar Teerã ter a arma nuclear, acrescentou. “Para ser muito franco, qualquer uma das opções me preocupa muito”, reconheceu.

Ele se disse “otimista” em relação aos esforços diplomáticos da comunidade internacional e às sanções impostas ao Irã, que, segundo ele, levarão a República Islâmica a abandonar seu programa de enriquecimento de urânio.

Apesar disso, “as opções militares estão sobre a mesa e permanecem sobre ela”. “Espero que não tenhamos que utilizá-las, mas elas são importantes e bem conhecidas”, acrescentou o almirante Mullen. Teerã afirma que seu programa de enriquecimento de urânio possui fins civis e pacíficos.

Todos os detalhes da crise Irã/EUA nas últimas semanas você encontra  na  matéria logo aí   em seguida.

19-07-10

Lula foi avisado de que Obama cedeu aos falcões e já
iniciou escalada que  pode resultar  em ataque ao Irã

Este blog está em condições de informar que o presidente  Lula não voltará  a tocar  na questão iraniana, pelo  menos até as eleições. Umas das razões é realmente eleitoral, a de evitar que recaia sobre Dilma Roussseff a pecha de radical de esquerda. Mas o principal motivo foi o   relatório que recebeu do Itamaraty dando conta de que Barack Obama cedeu aos falcões e já acionou os dispositivos que  geralmente resultam em ataque norteamericano, a menos que o adversário real ou fabricado ceda, o que parece não ser o caso do Irã.

Para os especialistas do Ministério das Relações Exteriores, Obama, com sua popularidade em baixa, ficou sem alternativas, diante  das insuportáveis pressões internas que vem sofrendo num ano   eleitoral e diante  da  possibilidade de que  os republicanos recuperem, em novembro, a maioria em pelo menos uma das casas  do Congresso.

Além  das formidáveis pressões exercidas pelos bilionários lobbies da indústria armamentista e da  defesa   do engajamento incondicional  na política expansionista de Israel, Obama  teria cedido, principalmente, diante da constatação  de que a  grande maioria da opinião  pública é favorável a uma ação “enérgica” contra o Iraque.

A História se repete com monotonia insuportável: primeiro se demoniza  o adversário que passa a categoria de  inimigo feroz e mortal. Em seguida vêm os ataques  maciços e indiscriminados, o massacre.

Vem sendo assim, há pelo menos duzentos anos desde que se lançou  a política de  extermínio sistemático das tribos indígenas norteamericanas. Na  época a palavra de  ordem,   ainda hoje  utilizada contra  inimigos  recentes era: “Índio  bom é índio morto”. E o general Sherman, um herói nacional até  hoje cultuado, proferiu, rigorosamente, estas palavras: “Quando digo extermínio, não estou falando apenas de soldados armados,  mas de  todos,  homens, mulheres, idosos e crianças”  Sherman  notabilizou-se também  como defensor da estratégia conhecida  como “Terra Arrasada” que consiste  em  destruir objetivos  civis e econômicos, para abater o  moral do inimigo.

Então, foi assim que ocorreram as bombas de   Hiroshima e Nagasaki. Foi assim com o uso do napalm  e dos bombardeios maciços no Vietnã. E foi assim quando se forneceu ao então aliado Saddam Hussein, armas  químicas para  dizimar populações civis do Irã.

A História, monótona,   esta prestes a se repetir: a mídia submissa e  venal  já  demonizou o  adversário. Segue-se o massacre.

13-07-10

O diálogo de surdos entre Esquerda e Direita

Quero me valer  do pequeno comentário que fiz sobre a  coluna O Terceiro Setor, comandada neste blog pela  brilhante Jade Romero, para usá-lo como introdução a este artigo que constata, com desgosto, a aridez da atual discussão ideológica. Eis o comentário:

“Jade

Quando a convidei para manter a coluna Terceiro Setor, sabia que o tema era extremamente polêmico e, o mais das vezes, tratado de forma preconceituosa, conforme a visão ideológica de cada um. O objetivo é exatamente desmitificar isso. Creio que os teóricos e formuladores de esquerda e de direita, ainda não sacaram que a organização, eu diria de forma terceirizada, deste setor, pode ser utilizada tanto por um estado neoliberal puro, como por um estado robusto com tendência à esquerda.
Mais do que isso: ainda não foi suficientemente percebido que o Terceiro Setor não foi invenção de um neoliberal esperto até porque Gramsci já falava dele, mas uma conseqüência natural de um modo de produção cambiante que vai mudando, por isso, suas relações entre o Estado e o Cidadão e entre o Capital e o Trabalho. De forma perigosamente sucinta, eu gosto de dizer que o Capitalismo está transitando para o Neofeudalismo, não apenas no que seria o retorno à barbárie (como pode se notado na questão ambiental), mas numa evolução destinada a compatibilizar as relações sociais com os novos meios de produção. Meios de produção estes, vertiginosamente concentrados, automatizados e cada vez mais excludentes da mão de obra tradicional.”

Então, o que temos? A meu ver, assistimos a um grotesco diálogo de surdos, mantido por uma Direita cada vez mais raivosa, já tocando na fronteira da insensibilidade animal e, de outro lado, uma esquerda congelada no tempo e que não consegui ainda  libertar-se  dos  paradigmas e das utopias soviéticos. Temos  enfim, uma Direita  que ficou sem discurso em função da Grande Crise Norteamericana em pleno curso. E temos uma esquerda ideologicamente precária e inconsistente que não está sabendo preencher este vazio.

É inacreditável que os  ideólogos e formuladores da esquerda, principalmente no Brasil, ainda subam no caixote para verbalizar frases  palavras de ordem marxistas e leninistas de  160 ou de 100 aos atrás. Marx e Lênin estão se revirando nos túmulos e desprezariam com enfado a ingenuidade infantil de seus  epígonos.

Epígonos que  ainda não compreenderam que o Centralismo  Democrático e o Estatismo de Planejamento Rígido, que serviram (e bem) a uma determinada fase histórica, mas que agora,  obsoletos, não se coadunam com o estágio superior, culminante, das contradições capitalistas.

É preciso e é possível pensar, então, numa ocupação gradativa do Poder. Não à moda revisionista de Berntein, cujos últimos rebentos sãos os ridículos tucanos tupiniquins, mas à moda de Gramsci, o primeiro a  ter uma  visão panorâmica  da sociedade em trânsito para o pós capitalismo. Uma sociedade, o Terceiro Setor, cada vez mais pluralista, na medida em que os dois personagens  centrais da cena social e econômica do capitalismo em seu apogeu, o proletariado e a burguesia, começam a revelar   seu estado de obsolescência e fenecimento. Uma decadência que apenas segue o passo do estado  de obsolescência e fenecimento do próprio modo de produção capitalista.

Quero repetir: o proletariado e burguesia já ingressaram em sua fase de obsolescência  e extinção, pela boa (aliás ótima) razão de que o modo de produção capitalista também já anunciou o seu crepúsculo.

E esse poente decorre  dos seguintes três fatores principais:  1-O Capital (enquanto sistema universal) já concluiu sua expansão horizontal, o que quer dizer que não tem mais como anexar novos territórios  ou submeter civilizações que ainda não haviam sido subjugadas pelas  leis do mercado. Seu domínio é, agora, absoluto e, portanto, estagnado. 2- A extrema centralização e concentração do grande capital produtivo (que detêm o monopólio do diferencial tecnológico) e sua  subordinação ao Capital Financeiro igualmente concentrado. 3- A vertiginosa  revolução tecnológica que em espaços de tempo cada vez menores, vai decretando a  extinção de  milhões de postos  de trabalho no setor produtivo, o chamado desemprego estrutural ou a exclusão. E, efetivamente, é  possível  prever  que, mesmo  com a duplicação da produção nos próximos dez anos, nesse período, o nível de emprego (sempre falando do setor  efetivamente produtivo) cairá pela metade. A mão de obra  tradicional vai sendo substituída pelo cérebro de obra.

De tudo isso  resultam dois  fenômenos:  a – o da terceirização dos setores intermediários ou de pequeno e médio portes; b –  a subordinação destes setores, como vassalos, aos grandes  monopólios e oligopólios.

E, disso tudo, extraímos, finalmente, que o grande monopólio financeiro, físico (propriedade de terras, minas e demais recursos naturais) e tecnológico, tanto pode ser exercido por gigantescas, impessoais e fantasmagóricas  empresas, como pelo Estado. Estado este, que se for efetivamente democrático poderá, deste modo,  permitir que o cidadão adquira o controle de seu próprio destino enquanto humanidade. Se for assim, ele  se libertará finalmente, deixando de seguir cegamente as leis do Mercado, totalmente irracionais (como comprova o Impasse Ecológico) e dissociadas das reais necessidade do ser humano.

Pensem nisso.

09-06-10 Atualizado em 10-06-10

 Irã: Obama faz novo apelo para que Lula
 atue como mediador no Irã. Lula diz não.

Quase nos mesmos termos da  carta  de  quinze dias atrás  em que solicitou a Lula sua mediação na crise do Irã, o presidente americano  fez novo apelo formal, terça-feira, através do general  Jim Jones, assessor de Segurança Nacional da Casa Branca. O não de Lula foi apresentado formalmente por Marco Aurélio Garcia, assessor diplomático do Palácio do Planalto.
Tudo isto no mesmo momento em que a  ONU aprova sanções econômicas contra o país de Ahamadinejad. O Irã já declarou que  não tomará conhecimento da resolução do Conselho de Segurança. Já a Rússia, que votou a favor  das sanções, disse que não interromperá a  contrução de uma usina  nuclear para a  geação de energia elétrica, próxima à Teerã. A rigor, não houve novas sanções, mas apenas a reiteração das já existentes.

Vitória de Pirro

No fim da tarde, em Natal, o presidente Lula partiu para a ofensiva. Lembrou Brizola e disse que a decisão dos que  são contra o diálogo desclassifica o Conselho de Segurança e é “uma  vitória de Pirro”.  Pirro foi o general grego que  após vencer  os romanos, ao custo de pesadas baixas, declarou: “Mais uma vitória como esta e  estamos perdidos.

As diplomacias do Brasil e dos Estados Unidos travam, hoje, no Conselho de Segurança da ONU, mais uma  batalha. Os americanos conseguiram arrancar  do Conselho  uma resolução  estabelecendo sanções econômicas ao Irã apesar de esse pais ter assinado, há duas semanas, um acordo com o Brasil e a Turquia, concordando com exigências anteriores das principais  potências atômicas.
Os  próprios aliados  dos  Estados Unidos advertem, no entanto, que essa resolução pode  resultar em nova  derrota para a diplomacia  americana, pelas seguintes razões: a- por influência da China, que  atendeu a ponderações do Brasil,  estas sanções  seão bem mais amenas, quase diluídas, se comparadas com as propostas originalmente pelo Departamento de Estado; b- a opinião pública mundial está convencida, hoje, de que a raiz da Crise no Oriente Médio é Israel e não o Irã e c- até diplomatas americanos, mais moderados, reconhecem que as sanções econômica não impedirão o Irã de prosseguir com suas pesquisas  nucleares, nem muito menos enfraquecerão o regime dos aiatolás, pelo contrário.
Como este blog  tem informado, desde a revelação da carta  de Obama sugerindo que Lula atuasse como moderador no Irã,  percebe-se que o presidente americano não detém o comando absoluto de sua política externa ou, no mínimo, age de forma ambígua. Está  claro que a secretaria de estado Hilary Clinton fala e atua de forma   muitas vezes contrárias à linha adotada pelo presidente. Foi assim em Honduras, foi assim   em relação ao acordo Irã-Brasil-Turquia  e está sendo assim na atual crise provocada pela violência de Israel contra os palestinos.
A principal explicação para o fenômeno é a de que  Obama não pode ou não quer contrariar  os  grandes lobbies belicistas e a espontânea opinião  pública americana, todos simpáticos a Israel. Com o acréscimo  de que também lá vive-se um ano eleitoral, com as pesquisas  prenunciado  uma importante vitória dos republicanos (radicais na política externa) que  deverão aumentar muito sua bancada na  Câmara dos Deputados. Sem conseguir apresentar resultados expressivos  na  luta contra a crise econômica, o presidente fica de mãos atadas.
Resta apenas comentar a vexatória posição de Merval Pereira, porta-voz do Globo que, por sua vez, é  aliado incondicional  da  política traçada pelo Departamento de Estado. Este arremedo de jornalista diz hoje em sua coluna que o Brasil sofrerá, hoje na ONU, mais (?) uma grande  derrota. É exatamente o contrário.
Sobre o mesmo tema, leia  também a coluna A Pátria Grande.

            25-05-10

            A academia dos homens bons  que, de repente, ficam maus

           Machado de Assis, em um de seus geniais contos, nos leva até o distante reino do Sião, onde o casal real, que havia trocado de sexo (vejam que tema atual), é assaltado por cruel dúvida e resolve consultar os maiores sábios da Terra que se reuniam na Real Academia.

            Por  prudência, Suas Majestades decidiram ouvir cada acadêmico em particular, sem que os outros soubessem da audiência. Ainda tateando,  procuraram saber a  opinião de cada um sobre os demais. E então, a bela rainha (na verdade o rei transposto para o corpo da esposa) descobriu, pasmada, que aquele aglomerado de luminares que é como, em conjunto, eles se auto-definiam, vistos individualmente, segundo a opinião isolada deles mesmos, não passavam de “um camelo  analfabeto”.

            Parece óbvio que Machado inspirou-se em sua própria academia – a Brasileira de Letras. Mas se conto esta breve história é para, além de  homenagear nosso maior  escritor (um mulato nascido  num morro carioca), estabelecer  um paralelo com os “luminares” de nossa época. Na verdade é um analogia invertida, mediante a qual, pasmados, ficamos sabendo  que os mais geniais jornalistas da atualidade e que individualmente  são uma flor de pessoa, quando se juntam para trabalhar nas Organizações Globo transformam-se num quadrilha de  malfeitores.

            17-05-10

            Acordo com o Irã. Uma façanha
            história do Itamaraty. O que
            a  mídia tucana vai dizer agora?

            Durante os quase oito anos do Governo Lula, a chamada  grande mídia, controlada por apenas sete famílias provincianas, negou sistematicamente  qualquer  avanço na área diplomática, setor que a mídia mundial, no sentido oposto, reconhece como dos mais bem sucedidos da administração petista. É preciso explicar este paradoxo que atinge a sua culminância, agora, quando numa façanha histórica – o Acordo com o Irã -, o Itamaraty credencia-se definitivamente como protagonista da  cena mundial.

            De início registre-se o óbvio de que nossa mídia  converteu-se num partido político que pretende usar o PSDB – e aliados -, como seu braço parlamentar. Ideologicamente, este partido, francamente neoliberal, reivindica o estado mínimo e respeito absoluto à vontade do Mercado, mesmo quando este mergulha num dos seus delírios cíclicos.  Aparentemente, os luminares  do jornalismo caboclo ainda não foram informados de que  O Planeja  enfrenta, hoje,  sua pior crise em oitenta anos,  justamente porque  tudo  foi deixado por conta desse mesmo Mercado.

            Estes, contudo, são apenas pecadilhos. O cartel midiátido brasileiro, envereda pelo crime quando sistematicamente sonega, distorce e manipula informações  que, assim, chegam ao público como alimento deteriorado, veneno puro. Como este cartel  monopoliza o mercado editorial jornalístico, não  ocorre o contraditório, condição essencial para que se caracterize a liberdade de imprensa, que as sete famílias defendem com tanto ardor.

            Mas este ainda não é o pecado maior. Vamos a ele: desde o Golpe Militar de 64 a imprensa, brasileira, antes  razoavelmente diversificada, foi personagem de um descomunal processo de concentração e crescente dependência do setor financeiro.

            Para ficarmos com apenas dois exemplos concretos, é notório que o Estado de São Paulo não teria sobrevivido  às suas  freqüentes crises de incompetência se não  recebesse o socorro fraterno do banqueiraço Olavo (Itaú) Setubal. Na mesma forma, a Folha de São Paulo  controlada pelo esperto negocista Otávio Frias de Oliveira, o Seu Frias – que administrava o jornal como quem lida com  um depósito de papel usado -,  não teria concretizado sua trajetória expansionista se não  tivesse o suporte financeiro do Bradesco, com a benção do então Tzar da Economia, Antônio Delfim Netto.

            Para concluir: o leitor perspicaz – e os meus, felizmente, todos  o são – já  deve ter concluído que o Partido da  Mídia Brasileira é apenas  testa de ferra do Capital Financeiro. Apátrida e insensível este Capital é o principal responsável pelo atual processo de exclusão de bilhões de pessoas ao redor o Planeta e pela destruição ciclópica da Natureza.

            E não imaginem que as afirmações aí acima são gratuitas. O Capital Financeiro é o principal artífice das bolhas especulativas, que começam como bolhas de consumo exacerbado, acima das reais necessidades do homem. Seu destino é o estouro, como de fato estouraram agora, provocando desemprego e exclusão. Além disso, como o compromisso do Capital é com sua acumulação e não com  o bem estar do homem, ele já ingressou na fase  de produção pela produção. É a era da descartabilidade  e da produção redundante (reiteradamente inútil) que transforma a Natureza em sua fornalha.

            O leitor perspicaz  já deve ter inferido que, independente desse desfecho ecológico desastroso, o PSDB   e seus aliados são, na prática,  braços políticos terceirizados do Capital Financeiro sem  pátria.

            Se  quiser aprofundar mais este assunto, e só continuar lendo esta página por aí abaixo.

            14-05-10

            Uma vez tucano, sempre tucano:
             

            Na hora do aperto,  sociais democratas
            cortam salários e aposentadorias e
            deixam o Capital bem  livre, leve e solto

            Agora vejamos se o social democrata José Luiz Zapateiro, primeiro-ministro da Espanha, não é a cara do Fernando Henrique. Eis as  principais medidas que ele tomou, esta semana, para tentar evitar que seu país fique submerso por causa do tsunami financeiro europeu:

             1- Os salários do funcionalismo serão cortados em 5% este  ano e ficarão congelados em 2011.

            2- As aposentadorias serão congeladas. Só o piso será reajustado. É o fator previdenciário espanhol.

             3- O fim da aposentadoria proporcional, que seria gradual, foi antecipado.

             4- Fim da retroatividade no pagamento de pensões a inválidos e portadores de deficiências.

              5- Ajuda ao desenvolvimento e investimentos públicos serão cortados em 6,6 bilhões de euros.

               E é ou não é exatamente o que FHC vez por aqui, em situação semelhante, nos fim dos anos 9o. Ou seja, a crise é provocada pelos financistas e especuladores, mas na hora do vamos ver  eles são os únicos poupados e corta-se na carne da parte mais sofrida da população.

             É mentira deslavada dizer-se, como os neoliberais, que este é um remédio amargo, mas  o único possível. A  Argentina dos Kirchner, atingida pela mesma crise que  atingiu o Brasil há 11 anos, saiu dela fazendo com que  os financistas e especuladores pagassem o preço maior.

              Foi o famoso “Calote” como  a mídia calhorda gosta de dizer. Mas a verdade é que sobrou dinheiro para distribuir renda e promover o desenvolvimento. Na última década o país cresceu  à taxa média de 5% anuais.

              E é isto que explica a  grande popularidade de Néstor e Tereza Kirchner que só agora  começa a declinar, em função de crises de abastecimento ocorridas nos últimos dois anos. Crises estas, provocada, em boa parte, pelo boicote dos ruralistas. Mas a mídia indecente tenta  explicar tudo isto  com uma única  palavra: populismo. Se é assim, então viva o populismo.

              É como eu digo: uma vez tucano, sempre tucano. Só me admira o fato de ainda existirem trabalhadores e aposentados dispostos a votar  em José Serra. Memória curta.

              Veja mais sobre o mesmo tema, na matéria logo aí abaixo.

            10-05-10

             Lula já foi avisado de que vem Tsunami
             por aí. A Crise Grega virou Crise Européia

            Mantega e Meirelles divergem sobre as conseqüências para o Brasil. Mas ambos concordam que talvez sejam insuficientes os 700 bilhões de dólares separados para evitar que toda a  economia européia seja contaminada.

            O presidente Lula está sendo informado diariamente pela área econômica, inclusive pessoalmente por Mantega e Meirelles sobre a crise que está sufocando a Grécia e  já  é considerada como  a Grande Crise Européia.  Meirelles, mais  pessimista, acredita que  as medidas até agora adotadas são insuficientes para evitar o  Tsuname que se prenuncia. Para Mantega, mesmo que ocorra um agravamento da crise, suas repercussões no Brasil não seriam  imediatas nem  catastróficas e lembra que o Brasil contornou a Crise Americana, de  setembro de  2008,  graças, principalmente, à ampliação do mercado interno.

            Lula tem comentado  junto a seus auxiliares diretos que   não vê saída para a crise que é mundial, enquanto Obama e  Hu Jintao (presidente da China) “não  sentarem para conversar”. Para o presidente, a crise, na verdade é do  dólar que não se sustenta mais como moeda  universal de troca e do “engessamento” ( nos últimos  60 anos) das estruturas econômicas e da própria ONU. Ele acredita, finalmente, que  os EUA como maior devedor e consumidor do Planeta e a China como maior  credor (a caminho de ser o maior produtor), são os únicos com capacidade efetiva para evitar a expansão da crise até o limite do imprevisível.

            No plano interno, o presidente  concorda com Mantega. Ele  acredita que o Brasil não será fortemente atingido num primeiro momento e insiste na previsão de que o País crescerá mais de 6 % este ano.

            Na coluna O Impasse Ecológico, você encontrará mais informações sobre este mesmo tema.

             1-5-10

             Nota da Redação:

             A matéria sobre o fim da Era do Dólar está na sequência destas duas, logo aí abaixo.

           06-05-10

            Lula avisa que aceita os 7,7%, mas vetará a extinção do Fator Previdenciário

            Dilma, Serra e Marina congestionaram o topo do muro.

            O presidente Lula comunicou pessoalmente, ontem à noite,  à coordenação da campanha de Dilma Rousseff que  deverá aceitar o aumento de 7,7 por cento para  os aposentados, retroativo a janeiro, mas vetará  a extinção do Fator Previdenciários que, a cada ano, aumenta a defasagem entre  as  aposentadorias  em relação ao salário mínimo.

            Na avaliação dos  coordenadores da campanha (o que corresponde provavelmente ao pensamento do presidente), o veto aos 7,7% acarretaria um prejuízo eleitoral desproporcionalmente alto em relação ao rombo no Tesouro Nacional, de “apenas” um bilhão de reais. Já com o fim do Fator Previdenciário, a conta cresce para mais de 10 bilhões.

            Feitos os cálculos políticos, em articulação com os financeiros  chegou-se à conclusão de que o imbróglio vai dar soma  zero. Contrariar o interesse dos aposentados ( no caso do Fator) é, evidentemente, um prejuízo eleitoral, mas ganha-se passando a imagem de responsabilidade e compromisso com  a estabilidade  financeira. Além disso, no tiroteio eleitoral, sempre se  poderá dizer que o Fator é invenção de FHC e teve em  José Serra um dos principais defensores e articuladores.

           Finalmente,  Dilma foi aconselhada a (na verdade liberada para)  defender no palanque    os 7,7 por cento e  ficar  no muro em relação ao Fator. Até porque está é exatamente a posição de Serra que, ontem no Sul, mais lulista do que nunca, disse que  apoiará, nesse item, qualquer decisão do governo. Até Marina Silva, que pretende ser  politicamente mais correta que a concorrência, preferiu a ambigüidade. Haja muro!

            1-05-10            

             Marina critica bipolarização da campanha e adota
            discurso mais tucano do que o dos próprios tucanos

             Marina Silva cada vez menos Marina e cada vez mais clone de saias de José Serra, critica, com razão, a tentativa de bipolarização da campanha eleitoral, o que  sedimentaria artificialmente (questão do voto útil) as candidaturas do PT e do PSDB. Ocorrer que a candidata verde amadureceu muito de pressa na ânsia de  herdar os fotos de Ciro Gomes e avançar sobre os eleitores de Serra. Ela até tem potencial para isso, só que com esta postura,  não arranca, a não se no Acre, um único voto do chamado espectro de centro-esquerda, onde Dilma passa a navegar sozinha.

             Como este eleitorado de centra-esquerda representa hoje algo como 60 por cento do eleitorado, é só fazer as contas. O problema desses marqueteiros caros e que servem a qualquer patrão   é que eles são especialistas  do imediatismo e das baixarias de campanha e, por isso,  incapazes  de fazer uma leitura correta  e mais aprofundada do cenário econômico e social. Alguém precisa avisar a estes  espertinhos ignorantes que o eleitorado fez uma inflexão à esquerda não apenas   por causa do neogetulismso (populismo se quiserem) bem sucedido de Lula, mas porque os paradigmas neoliberais dançaram a partir da eclosão da Grande Crise Nortemericana.

             Na  matéria logo aí baixo, você pode ler mas sobre  o mesmo assunto.

               25-04-10

               Marina, esperta, corre para ficar com os votos de Ciro

              Martina Silva  não perdeu tempo e ontem mesmo “solidarizou-se” com o excluído Ciro Gomes que, como vimos, saiu atirando para todos os lados, inclusive contra o próprio pé. A candidata verde sabe, como dissemos na coluna Pérolas & Pílulas de ontem, que é a herdeira presumida dos votos do improvisado socialista.

             O problema da ex-discípula de Chico Mendes é que ela, a não ser no Acre,  é pouquíssimo conhecida do chamado povão que, segundo as pesquisas, apóia maciçamente o presidente Lula. Sendo assim, ela  segue , com ligeiras diferenças, a mesma tática de  Serra  e de Ciro: apresenta-se  não como oposição a Lula mas como uma pós-Lula, aquela que fará quase  tudo o que a atual presidente fez, só que mais e melhor. Ontem, Marina chegou a dizer que  não só não abandonará como acelerará as obras do PAC.

            Isto tudo é de uma obviedade marqueteira que só não é entediante porque representa um fantástico tiro no pé. Alguém precisa avisar aos estrategistas do Serra e da Marina (e de passagem ao Élio Gaspari  que acredita nestas  bobagens) que nada disso  surtirá efeito se não for  combinado com os russos. No caso, os russos são os marqueteiros de Dilma que não terão outro trabalho senão  fazer esta perguntinha simples: se todos querem ser continuadores de Lula, por que não perguntar ao próprio quem é que ele considera mais apto para fazer isto?

            Deixando estas infantilidades de lado, porque não perguntam a Marina se ela construiria ou não  a  gigantesca usina de Belo Monte. Serra já disse que não. E ela, espertamente, não toca no assunto. Se ainda fosse ministra  estaria na linha de frente ecológica colocando obstáculos à realização da obra. Mas agora, ela  e seus marqueteiros calam, porque sabem que, apesar das inevitáveis polêmicas que envolvem toda obra gigante, Belo Monte terá o apoio da maioria da população. Neste domingo (25) à noite, ela  fez breve menção ao projeto, não para descartá-lo, mas para denunciar a pressa com que está sendo tocado.

             Quanto à população, intuitiva, dificilmente ela se coloca contra a História. No passado, outras iniciativas audazes, como a criação da Petrobras e a construção de Brasília e de Itaipu também foram envolvidas em   fantásticas e emocionadas polêmicas. De Itaipu, pessoas sérias, diziam quem o peso das águas provocaria terremotos.

           Enfim, como decidiram angariar votos junto à classe média (burguesia, se quiserem)  Marina e Serra, inapelavelmente  vão ficando cada vez mais parecidos com  Lacerda e  mais distantes de Getúlio. Adivinhem com quem o povo ficará?

            20-04-10

            Se Serra fosse presidente, a usina de Belo Monte,
            a terceira maior do mundo, não seria construída

           E não pense que as razões são de ordem ecológica. Segunda-feira, em Belo Horizonte, o tucano garantiu que sob seu governo o Estado será apenas indutor, jamais executor.

            A usina de Melo Monte, no rio Xingu (Sul do Pará), com sua capacidade para produzir 11 mil MW será a maior obra de engenharia brasileira  nos últimos 30 anos. Só perde para Itaipu. Ela  será possível, porque, diante da timidez  do capital privado, o governo resolveu agir e, através de suas estatais e dos fundos de pensão a elas ligados vai investir perto de 10 bilhões de reais – fora os financiamentos do BNDS -, de um total estimado em 19 bilhões. O estado age, assim, não apenas como indutor, mas como executor de obras essenciais e estratégicas.
Foi assim durante o longo período, medido entre  os anos 30 e 80 do século passado, quando a economia brasileira foi simplesmente a que mais cresceu no Planeta. Deixou de ser assim  quando, em meados dos anos 80, passaram a imperar os paradigmas neoliberais que impuseram a redução do estado à sua dimensão mínima e incapaz de prover o desenvolvimento ou controlar os  destemperos  do Capital. Deu no que deu.
No Brasil, os principais defensores desta doutrina liberal, responsável por duas décadas perdidas, são, inequivocamente,  Fernando Henrique Cardoso e José Serra,  seu sucessor na hierarquia tucana. Recordo que este último, em 1995 foi o mais fervoroso defensor da privatização da Vale, um dos maiores crimes contra  o patrimônio público brasileiro.
Agora, para fugir de uma inevitável eleição plebiscitária, Serra garante que  não é contra Lula nem  contra sua política econômica e social, de cuja autoria os tucanos reclamam uma parte.  Tudo bem, mas e a questão do tamanho do Estado?
Vejamos: ontem, durante reunião com políticos e empresários mineiros, em Belo Horizonte, Serra disse com todas as letras que “o Estado todo-poderoso do passado não vinga” e que ele (o Estado) “deve  ser indutor, não executor”.
É aquela história do uso do cachimbo. Também se pode dizer que quem foi neoliberal durante  duas décadas (longas e trágicas décadas) não consegue mudar de pele como quem muda de camisa. A eleição será plebiscitária, sim.

            16-04-10

           Brasil, China, Rússia e Índia  anunciam o fim da Era do Dólar

          Mas a mídia brasileira, tacanha e mal intencionada nega esta informação a seus leitores.

          Juntos estes que são os quatro principais países emergentes do Planeta  representam quase a metade da população terrestre, pouco menos que um terço do Produto Bruto total e ninguém mais tem a menor dúvida   de que a recuperação  da economia global  depende deles de forma absoluta.
Ontem, reunidos em Brasília, por iniciativa  do Itamaraty, seus  governantes deram prazo  para a reestruturação dos mecanismos econômicos  internacionais o que passa pelas reformas radicais do FMI e do Banco Mundial. E o mais importante: defenderam a criação de uma moeda   de aceitação internacional que tenha maior fidúcia (credito e confiança) do que o dólar e  anunciaram que realizarão suas transações comerciais através de suas próprias moedas, sem a  intermediação da moeda americana, portanto.
Tudo isto  somado e bem pesado representa, na prática, o fim da Era do Dólar, mas o Globo de forma  tão grotesca quanto calhorda,  noticia este fato histórico  com um pequena  chamada de apenas cinco linha na primeira página.
Que a Família Marinho odeia o presidente Lula,  assim como odiou Getúlio e Brizola e tudo o que tenha cheiro de povo ou represente minimamente nossa nacionalidade, é mais do que  notório. Mas parece que  há algo além disso. Algo que representa um compromisso moral e/ou econômico com os  interesses estratégicos dos Estados Unidos. Com efeito, os  editoriais do jornal e os artigos de Merval Pereira, seu porta-voz, não discrepam em absolutamente nada da linha central do pensamento doutrinário  do Departamento de Estado.
Do ponto de vista estritamente econômico, registre-se a incapacidade  dos colunistas  globais Míram Leitão e Carlos Alberto Sardenberg que, cegos por sua histeria liberal, não percebem que a Grande Crise Norteamericana é estrutural e representa o fim de uma era. Então, o dólar está em queda livre, não apenas  pela conjunção do gigantesco  déficit orçamentário  de Washington com sua enorme dívida externa, ambos  medidos em mais de um  trilhão de  dólares. Só o Banco Central chinês possui um trilhão e quatrocentos bilhões de dólares em  títulos do Tesouro Norteamericano.
Eles não entendem, por exemplo, que  o déficit comercial americano não pode  ser atribuído apenas à manipulação (para baixo) da moeda chinesa, mas à falta de competitividade industrial dos Estados Unidos que há muito  passaram a ser uma sociedade predominantemente de consumo e de serviços. E o mais grave:  nem passa pela cabeça deles que os norteamericanos jamais recuperação o nível de emprego anterior  à crise,  mesmo que recuperem a atividade econômica. Isto porque o sistema como um todo, inexoravelmente,  sempre que sai de uma crise, ele o faz a partir de um patamar tecnológico superior (automação vertiginosa) que gera o chamado desemprego estrutural. E é isto, aliás, que anuncia o Crepúsculo do Capital,assinalado pela sua crescente incapacidade de acumular o próprio excedente.

         O leitor mais interessado poderá aprofundar este tema lendo  uma série de matérias que  encontrará nesta mesma coluna, editadas  ao longo dos últimos doze meses.

15-03-10, atualizado em 18-03-10

Meirelles enrola Mantega e começa a aumentar os juros

 Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, esperto,  passou a perna no Mantega, mais uma vez, e convenceu o presidente Lula de que  é melhor levantar os juros agora do que às vésperas das eleições, no segundo semestre. Com isso, na reunião do  COPOM (membros da Diretoria Colegiada do BC) realizada ontem, 17-3, foi sinalizado que provavelmente a partir do próximo mês, haverá alta  de  0,25 a o,50% da Selic  (taxa básica de juros).
Par o Mercado, a explicação   vem pelo viés técnico: O País já está crescendo a taxas anualizadas de seis por cento. Entretanto, este crescimento  concentra-se quase totalmente  no setor de serviços. Leia-se consumo. O setor produtivo  demanda  decisão para  investir e, em seguida,tempo para a  maturação dos investimentos, o que pode  levar em torno de dois anos, quando,  então,  começa a jorrar um número maior de  mercadorias   para responder ao aumento  do consumo.  Enquanto isso não acontece,  há um aumento das importações, o que é ruim para a Balança Comercial e, principalmente, ocorre uma pressão inflacionária. Assim,  é  necessária uma elevação dos juros preventiva e o quanto antes.
Tanto o papo político como o econômico têm sua lógica. O que é completamente ilógico é o Brasil manter um taxa de juros das maiores do mundo  enquanto o Governo Brasileiro proclama  a excelência  do atual momento da economia brasileira com o que  concordam todos os analistas  nacionais e internacionais. Que mistério é este?
Não chega a ser um mistério. É uma esperteza bem camuflada: Nos quase oito anos em que permaneceu à frente  do Banco Central, Meirelles perdeu ou descartou deliberadamente, todas as  chances que as circunstâncias de Mercado ofereceram para uma redução mais acelerada dos juros. A última  chance perdida correspondeu a um gigantesca barbeiragem, quando, no auge da crise, o Brasil aumentou substancialmente os juros no último  trimestre de 2008, enquanto o mundo inteiro (eu disse o mundo inteiro, sem exceção ) baixava os juros para  combater a recessão, uma receita clássica.
Com isso, criou-se  a questão  psicológica do patamar. Ou seja, quando você tem um juro civilizado de  dois por cento ao ano, ninguém vai estranhar  se o Banco Central , numa emergência, elevar a taxa em 50%, para 2,40%. Agora se o juro já estiver, próximo dos 20% ao ano, como esteve no início da década, no Brasil, o mesmo aumento levaria a taxa para  assustadores 24%  ao ano.
Qualquer pessoa sensata é capaz de compreender que  a partir de uma certa dose, o remédio vira veneno. E a explicação é simples: juros muito altos desorganizam o mercado, aumentam os custos dos produtos (mais inflação) estimulam a especulação e a agiotagem  desenfreada, além de desestimular absolutamente o investimento produtivo.
Com outras palavras: quando os juros superaram um certo patamar, eles se inviabilizam como instrumento de ação econômica, sobretudo no combate a inflação. O País comeu o pão que o diabo amassou para trazer a taxa para baixo dos dez por cento. Agora, nos vem o Meirelles e planeja  o retorno da taxa de dois dígitos nos próximos doze meses.
Isso é um despautério que só interessa a ele que é banqueiro. Para  o resto da Nação representa a inviabilização da retomada de um crescimento consistente e continuado  à base de pelo menos cinco por cento ao ano. Perto destes danos, os crimes atribuídos ao Sarney e ao   Arruda são coisas de pé de chinelo.  Mas a mídia (geneticamente subordinada ao capital financeiro) só gosta de  falar  nisso.

Voltaremos ao assunto amanhã.

 Com uma semana de atraso, mídia
retardada confirma furo deste blog

 A Ourobras deverá ser a primeira estatal a ser anunciada por Dilma Rousseff.

 Não é estultice e nem mesmo vaidade. E apenas   a constatação e a prestação de contas profissional: há exatamente uma semana e  dando  continuidade a matéria de um mês atrás,  informamos  neste blog em primeira mão (ver matéria  aí abaixo , na sequência desta) que, se eleita, Dilma Rousseff iria promover uma política de fortalecimento do estado, o que  incluiria a  criação de uma série de novas estatais.  Só ontem os grandes jornais deram informação idêntica.
Fiz a minha parte. Se  me perguntarem por que a milionária grande  mídia brasileira não fez a parte dela, eu diria que  há aí uma mistura de incompetência e má fé. Má fé que se revela na  intransigente negativa diária em admitir que  há algo  de novo e de bom acontecendo no País. E, creiam, os jornais não fazem isso apenas para prejudicar o governo, mas  porque se recusam a ver que o  Brasil pode dar  certo mesmo sem seguir ( ou exatamente por isto) a cartilha neoliberal. A incompetência  vem do fato de eles  terem-se  viciado da produção de  matérias escandalosas, pseudo-moralistas, muitas deles simples factóides.
Enfim, os brancos que se entendam. Vamos furá-los novamente, informando o seguinte aos nossos  fieis leitores: uma  das primeiras  novas estatal  a serem criadas  é a Ourobras, a menina dos olhos de Dilma Rousseff desde os  tempos em que era ministra das Minas e Energia.
O objetivo da empresa é o de sustar a extraordinária sangria a  que o País é submetido, principalmente na sua porção amazônica. Estamos falando do descomunal contrabando de ouro, diamantes e pedras preciosas. Dados do Ministério das Minas e Energia falam de números assustadores: na  hipótese menos alarmista,  perdemos três bilhões de dólares anuais que, quando não decolam de pistas clandestinas,  escorrem silenciosamente e em pequenas quantidades individuais, desde os igarapés passando pelos lentos e  caudalosos rios até  alcançar o mercado internacional.
Entretanto, não podemos deixar de comentar que, como dissemos  na matéria anterior e a assessoria de Dilma confirma  nas matérias  publicas ontem pelos grandes jornais, as estatais não serão criadas a esmo ou pelo simples desejo de criá-las. Na verdade, depois de identificados e demarcados (serão dez aos todo ) os pólos estratégicos de desenvolvimento econômico, técnico e cientifico, passam a ser escolhidas as empresas que  receberão  apoio federal preferencial.
O objetivo é dar musculatura suficiente para que estas empresas nacionais enfrentem as multinacionais no mercado interno e, principalmente, no externo. Exemplos típicos são os da Embraer e do grupo Perdigão/Sadia. Quando ficar constatado que, em determinado pólo, não há empresas  nacionais interessada ou habilitadas, as estatais entram em cena.
E o melhor, deixamos para o final: embora  ainda não haja nada decidido, nem mesmo  existe o esboço inicial de algum projeto, paira no ar a idéia de  criação de uma estatal gigante voltada para a exploração, via monopólio,  de toda a madeira extraída da Floresta Amazônica. O objetivo altamente  estratégico é o de calar, definitivamente,  qualquer insinuação  sobre nossa capacidade de preservar a floresta e exterminar a última  veleidade de internacionalização da região ou mesmo de qualquer ação internacional preservacionista. Some-se a isso,  a noção de que se estará criando um fantástico instrumento de criação e capitação de recursos para o desenvolvimento regional. Quem tiver capacidade para estimar o valor comercial da imensa floresta,  pode  imaginar que a  nova estatal (por enquanto apenas um sonho ou uma cogitação) já nascerá do tamanho  da Petrobras  que é responsável, hoje, por metade dos investimentos produtivos do governo.

Leia mais sobre estes temas na coluna Coisas da Política.

31-01-10

O Programa de Governo e
as novas estatais de Dilma

 Se eleita, a Chefe da Casa Civil promoverá uma retomada da intervenção do Estado na  economia, o que é compatível com a nova tendência mundial marcada pelo féretro da teoria neoliberal. Mesmo assim, oferecerá ao Mercado, como garantia, a permanência de Henrique Meirelles no governo: seja como vice-presidente, seja como capitão-mor do Banco Central.  

Um dos fatos mais assombrosos da recente política brasileira é o de o PT ter cumprido dois mandatos presidenciais sem  possuir absolutamente nenhum (eu disse nenhum!) plano de governo. Isto, ao que parece, será corrigido agora, caso Dilma Rousseff  seja eleita.
Mesmo assim, há um toque de improvisação, porque o Plano de Governo se  confunde e embaralha com o “ Programa de  Campanha”, ou que outro nome fantasia venha a ter, a ser lançado  em 30 dias. No fundo é uma questão de personalidade: centralizadora, no  que difere de Lula,  Dilma  (com equipe, naturalmente) é a autora intelectual dos dois textos básicos. É claro que  a Oposição dirá que o  Plano de  Governo,  não passa de uma peça de campanha eleitoral. E isto, em parte, é verdade. Ele é o PAC da Dilma.
Seja com o for, destes dois textos  preliminares embaralhados, pode-se antecipar, que  o Governo Dilma se caracterizará por uma notável retomada da intervenção do Estado na economia, inclusive diretamente, via novas estatais
A criação de estatais não será um objetivo em si,  mas aparece sempre como alternativa para o caso de o setor  privado nacional não reagir aos fortes estímulos que o governo proverá para que cada “núcleo básico estratégico” seja consolidado. Exemplo de núcleo básico: o setor automotivo ou de motores em geral.  A equipe de Dilma considera um absurdo que o Brasil possua  a quinto maior parque produtor  de veículos do mundo e o quarto maior mercado consumidor, sem possuir única fábrica nacional nesta área.
Como núcleo básico vizinho do de motores automotivos e com ele interagindo, aparece o destinado ao desenvolvimento, com autonomia, do setor aeronáutico militar. Neste caso específico, já esta consolidado o modelo desenvolvido  no atual governo. Nele, a Embraer fica responsável pala  montagem e comercialização do produto final, com apoio total de todos os órgãos de pesquisa estatais e mais as vitaminas fornecidas pelo acordo com a França.
Outro setor que é significativo destas preocupações estratégicas é o dos fármacos e da  pesquisa de ponta na área da saúde. Como o Brasil possui a maior biodiversidade do Planeta, sendo que a maior parte  ainda não  explorada ou até mesmo, suspeita-se, ainda não detectada, será inevitável a criação de uma estatal de grande porte,  compatível  com a magnitude do problema (uma descomunal pirataria internacional) e com  os retornos econômicos esperados. Ela atuaria prioritariamente na Amazônia,  onde, inclusive, ficaria sua sede.
A criação da empresa que supervisionará a construção e posterior expansão do trem bala, anunciada há meses por este blog, já está em andamento. A previsão  é a de que, depois do trecho Rio-Campinas, sejam construídas  as linhas São Paulo-Curitiba  e Campinas-Ribeirão Preto-Uberaba. Também antecipada por este blog  e agora já anunciada oficialmente, temos a ressurreição da Telebrás, que comandará a expansão da banda larga por todo o País.
Para concluir, uma pitada política: em função de a elaboração do Plano de Governo de Dilma ser realizada dentro do núcleo central  do atual governo, é impossível evitar que as necessidades imediatas e futuras  andem misturas. E aqui entra o sortudo  Henrique Meirelles:  embora a  maior atuação do estado na economia  seja  hoje uma tese mundialmente aceita, é sempre bom não assustar o arisco Mercado Financeiro/Especulador com suas constates  e repentinas mudanças de humor que evocam a ação de um conjunto de animais, o efeito manada. Sendo assim, o bicho bravo já esta sendo avisado de  que  Meirelles  continuará ao lado de Dilma, na vice-presidência da República ou no Banco Central que, por sua vez, continuará autônomo à moda   da casa. Sua autonomia termina quando  se inicia o embate eleitoral.

24-01-10

O DESTAQUE DO DIA

Procura-se uma nova moeda,
mais confiável do que dólar

Embora talvez se detestem  secretamente,  chineses e norte-americanos não podem se desentender. Eles estão acorrentados por mais de um trilhão de dólares e se um afundar, o outro vai junto. Mas os chineses insistirão, em Davos, na substituição do dólar por uma nova moeda mundial.

Na matéria de ontem que você pode ler aí embaixo,  logo após esta,  procurei mostrar que o dólar não tem mais como se sustentar na condição de moeda padrão de conversibilidade universalmente aceita. Isto aliás, está ficando  claro para a maioria dos especialistas, mesmo para aqueles que tem a visão mais burguesa e  superficial do  problema. Todos aceitam a tese não apenas acadêmica como  técnica de que a moeda americana já não contém  fidúcia ou seja, não vale  quanto  diz valer em sua face impressa. Os números estão na matéria de ontem.
E fácil prever, então, que este será o tema central do Fórum Econômico Mundial de Davos que se inicia  esta semana. Nem a dantesca situação haitiana, nem o Impasse Ecológico anunciado em  Copenhague poderão desviar  as atenções deste tema central: a necessidade de criação, no curto prazo, de uma  nova moeda de aceitação universal para substituir gradativamente o dólar.
Segundo  a proposta  chinesa apresentada discretamente (apenas nos bastidores), já na reunião do G-20 de abril de 2009, realizada em Londres, a transição seria administrada pelo Fundo Monetário  Internacional e a nova moeda, no início, seria apenas  “escritural”,  se não houver melhor maneira para descrever um instrumento de troca nas relações apenas interbancárias. O FMI, cumprindo o papel de fundo geral de compensação entre os bancos centrais, iria fazendo a conversão gradativa  até que os diretos especiais de saque fossem realizados exclusivamente pela nova moeda.  Como na reunião do G-20, a proposta contará com decidido apoio do Brasil. E isto explica a insistência com que   brasileiros e chineses  vêm  pleiteando uma maior participação nas decisões do Fundo, até hoje controlado, de fato, pelos EUA seu maior provedor.
O Diretos Especiais de Saque ou de Giro (SDRs) na sigla em inglês são  um dinheiro virtual emitido pelo FMI para socorrer bancos centrais em  dificuldades. Na ausência de ouro ou moedas fortes para cumprir suas  obrigações internacionais, BCs podem sacar estes diretos, na proporção de suas participações como  cotistas do Fundo, usando suas próprias moedas. Depois acertam suas contas com a Instituição. O Brasil dos tempos  bicudos conhece bem este mecanismo.
A última grande emissão, de  250 bilhões de dólares, foi realizada pelo FMI imediatamente depois da  reunião do G-20  em Londres, no auge da Crise Norteamericana.
Quanto ao entrevero entre China e EUA, é como dizia mestre Onça, professor de capoeira, “quem amarra amarrado está”. Então, evitando nocautear o adversário, Obama e Wen Jiabao, o primeiro-ministro chinês, insistirão, em Davos, nos seus respectivos velhos argumentos. O americano quer que a China valorize o Yuan, deixando, assim, de exercer notória concorrência  desleal no comércio internacional. E o chinês  exigirá que os EUA controlem melhor seus gastos e deixem de emitir  letras de seu Tesouro, como se fossem donos da galinha dos ovos de ouro.
O dado concreto é que a China é credora dos  Estados Unidos em  mais de um trilhão de dólares. Assim, se o Yuan  for valorizado, ele o será em relação ao dólar que ainda é a referência internacional. Nesse caso, supondo que a valorização seja de escassos 20  por cento,  o prejuízo seria de  200 bilhões de dólares, um ano inteiro das exportações brasileiras. Fica claro, assim, que  os chineses só alterarão seu câmbio quando for  criada uma nova moeda internacional , cujo valor será a média de uma cesta contendo as 20 principais moedas  do Planeta, incluído aí o Real.
Se você ler (deve ler) a matéria  aí embaixo desta, aproveite e avance um pouco mais, para ler ainda um outro texto, “O Crepúsculo do Capital”  que é a culminância de todos os raciocínios  até aqui expostos.

 23-01-10

O dólar furado e sua queda livre

 Nos dois últimos dias da semana, o dólar apresentou leve recuperação no Brasil ( voltou à casa do R$ 1,8) e  em boa parte do resto do mundo. Isto se deveu a duas notícias simultâneas que  exacerbaram  a chamada “aversão ao risco” do capital predominantemente especulativo: a- o anúncio por Barac Obama de  medidas econômicas que foram consideradas um “arrocho” nos grandes bancos norte-americanos, e b- o anúncio pelo governo chinês de que tentará  conter o crescimento econômico (considerado exagerado) de 10 por cento previsto pra este ano.
O extraordinário destas notícias é o de que apesar de  tecnicamente já ser considerado uma “moeda fraca”, dada suas desvalorização desde o inicio da Grande Crise (mais de 20 por cento no Brasil e 15 por cento em média no Planeta), o dólar  continua sendo o refúgio mais visível ou emocionalmente mais evidente quando ocorre a tal  aversão ao risco.
Esta é uma  situação  insustentável (uma contradição insanável) a médio e longo prazos, porque, subjetividades à parte, não faz sentido que a moeda de um país valorize, toda vez que este mesmo país parece estar ameaçado por alguma crise. Isto acontece  porque, na falta de alternativas, o dólar continua sendo a moeda (padrão) de conversibilidade  universal automática.
Mas é evidente, como os chineses vem reclamando a quase um ano (e o Brasil também) a necessidade de que se crie, provavelmente através do FMI, uma nova moeda padrão  de aceitação universal.
Os chineses estão particularmente  preocupados por que  mantém em caixa  uma dívida norte-americana (Títulos do Tesouro) superior  a um trilhão  dólares. E esta dívida só  tende a crescer,  trimestre após trimestre, porque os EUA continuam alimentando dois déficits cuja combinação é fatal: o fiscal e o da balança comercial.
Enfim, alguém  (de preferência o FMI porque é assim que ele faz com o resto mundo), precisa  avisar ao Obama que ele não pode deixa de fazer o dever de  casa  – conter gastos principalmente -, porque em economia não há almoço grátis.
Só para constar: Em dezembro de 2009, os EUA registraram déficit fiscal pelo décimo quinto mês consecutivo, totalizando U$ 91,5 bilhões. O Déficit da Balança Comercial atingiu U$ 24,6 bilhões em novembro de 2009. Em novembro de 2009 a Dívida Pública Federal Externa (DPFe) cresceu 0,36%  em relação a outubro, fazendo com que a Dívida Federal  Total  ficasse próxima dos U$ 900 bi.

2-01-10

O Crepúsculo do Capital

 Em seu peito há! vivem duas almas.
Goethe

Chegamos agora ao final de um pequeno ciclo de matérias iniciadas há três dias, quando analisamos, as origens  marxistas do PSDB,  o deslocamento do PT para o centro e, finalmente, ontem, o fenômeno do populismo. Hoje é a vez  do Crepúsculo do Capitalismo. Dei este título, meio poético, meio profético, na tentativa de amenizar um tema  bastante árido, que exige grande capacidade  de síntese e abstração. Deus sabe que,  quando enveredo pela teoria  marxista, na sua parte  mais  avançada e complexa,  a média de leitura do meu blog cai pela metade. Não faz  mal, promessa  é dívida. Vamos ao crepúsculo:
O Capital, antes de ser  algo material, palpável, é um processo. Processo este caracterizado pelo confronto de duas classes sociais antagônicas: a possuidora dos bens de produção (digamos fazendas e fábricas) e  a despossuída deste bens e que, por conta disso,  tem  que vender, sua essência, sua força de trabalho, a razão de tantas ou quantas horas diárias. Não importa o quão aparentemente pacífico ou mitigado for este confronto. O fato é que ele é  essencial: quanto menor o número de horas  de trabalho fornecidas  ou quando maior for o seu preço,  menor será o  lucro do Capital.
Convivem dentro do Capital (e esta é uma descoberta de Adam Smith e não de Marx) duas  características que estão em permanente confronto  entre si: a sua parte variável, composta pelos salários “adiantados” aos trabalhadores e a parte constante ( máquinas, equipamentos e instalações), chamada de capital fixo  pela economia burguesa.
A descoberta fundamental de Marx, a partir da primeira trilha desbravada por Smith é a de que o Capital  só consegue obter lucro na sua parte variável que é a que reúne condições para  a extração de excedentes de trabalho. A parte constante (máquinas e equipamentos), a rigor, não dá lucro algum, pela boa razão de que ela, cedo ou tarde, terá que ser substituída e, durante toda sua vida útil, através de seu desgaste,  apenas transfere o seu próprio valor para o valor das mercadorias que ajudou a produzir.
A partir de outra trilha também desbravada por Smith  e alargada por outro grande teórico  da ciência econômica em seus primórdios, David Ricardo, Marx pode desenvolver sua famosa teoria da mais-valia: um excedente de trabalho extraído de forma sub-reptícia, “pelas costas do trabalhador”.
Esta extração de excedente ocorre porque o trabalhador vende, digamos, 8 horas diárias de trabalho. Não importa, para o que estamos raciocinando aqui, se ele cobra muito ou pouco por estas horas. A noção que precisa ser fixada é a de que se trabalhasse por conta própria, nosso personagem, não precisaria trabalhar as tais 8 horas para  recuperar sua  força e  apresentar-se apto para o trabalho no dia seguinte. Então temos que ele trabalhou, digamos  4 horas, para ter condições de reproduzir a sua própria força de trabalho. As outras quatro  horas escorregaram para uma vala invisível onde  ocorre a formação, acumulação, do Capital.
Se esta parte mais difícil foi assimilada, então já podemos dizer que, na  sua  permanente queda de braço como o Trabalho, o Capital investe contínua e crescentemente em novas tecnologias, todas elas, invariavelmente, destinadas a eliminar  a utilização de mão de obra.
E aí está  a contradição essencial do Capital (uma contradição em processo): ele só obtém sua acumulação, explorado  o excedente de trabalho; no entanto faz o possível e o impossível para reduzir sua parte variável, onde se localiza  a mão de obra e, ao mesmo tempo, impulsiona  a sua parte constante (máquinas e  equipamentos) onde há um aumento vertiginoso da produtividade, mas, contraditoriamente, onde ocorre, concomitantemente,  a queda na taxa global de lucro.
O item acima parece desmentido pelos fatos, quando  olhamos individualmente para os lucros estratosféricos de algumas empresas que fazem valer, a seu favor, o  diferencial tecnológico. No entanto, é preciso notar que nos referimos ao lucro global. E  este, como comprovam as estatísticas, é  decrescente. Aliás, cada vez mais decrescente à medida em que avançam as novas tecnologias.
Esta taxa decrescente  do lucro pode ser vista a olho nu. Basta acompanharmos a vertiginosa migração de capitais, dos países mais avançados para os periféricos, em busca de mão de obra  barata e onde   são obtidos lucros maiores em que pese a produtividade menor. Note-se também, que a maioria das grandes empresas há muito tempo deixou  de obter a maior parte de seus lucros, na produção, no chão da fábrica. Os lucros principais são obtidos no Departamento Financeiro. São os chamados “lucros de caixa” que obedecem a uma certa engenharia especulativa. Engenharia esta, que constrói gigantescas bolhas  especulativas, as quais tem o mau gosto de, cedo tarde, explodir. Foi assim na  Ásia, a partir do Japão, nos anos 90. E foi assim, em setembro do  de 2008 nos Estados Unidos.
Para não alongarmos muito este artigo, nem  falarei aqui do Impasse Ecológico que  aponta claramente na direção do Crepúsculo do Capital. O importante é que fique claro que o modo de produção capitalista  (um processo em contradição)  carrega  nas sua entranhas, na sua formatação genética, os fatores que determinam a sua destruição Em seu peito, há! vivem duas almas.
Enfim está cumprida a promessa. E este, aliás, foi apenas um aperitivo. Se ele conseguiu  despertar seu apetite intelectual, você pode dirigir-se à coluna  Para Entender a Crise. Alí, há textos muito mais longos, quase que um livro completo à sua disposição. Seja como for, espero que o  prezado leitor reconheça que eu não estou aqui dizendo que o patrão é o bandido e o trabalhador  é o mocinho. Só estou tentando  mostrar que o Capital começa a  esvanecer.

15-01-10

A fase crepuscular

Nesta coluna estão inseridos textos  do livro “Para entender a crise” que estou desenvolvendo. Nela, a ordem lógica de raciocínio, acompanha a ordem cronológica. Assim, o ideal é que ela seja lida de baixo para  cima, a partir do pé, onde estão os textos mais antigos, todos datados. Seja como for, depois de fazer uma espécie de introdução onde analiso a superfície da crise, sua parte mais visível e a única discutida pelos economistas burgueses (o estouro da gigantesca bolha especulativo/financeira nos EUA), começo a estudar a parte subjacente, aquela onde se ocultam as contradições essenciais do sistema, uma contradição em processo. Basicamente, tento demonstrar que o modo de produção capitalista entra agora  no que chamo de etapa crepuscular, quando ele começa a renegar sua principal essência, a exploração do trabalho vivo ( excedente dele) e entra em nítido estágio de autodestruição. Antes, porém, o modo de produção capitalista expõe toda sua força destrutiva, numa  devastação, ciclópica e absolutamente inútil dos recursos naturais escassos. É o que chamo de  Impasse Ecológico.

29-4-09

O pesadelo chinês

No artigo “O dólar furado” de 6-4, eu afirmava que os chineses estão empenhados em convencer seus principais parceiros comerciais a criarem uma nova moeda (cujo peso corresponderia à média dos valores das principais moedas conversíveis), com o objetivo de substituir o dólar na sua função de principal instrumento das trocas internacionais de mercadorias. Uma nova moeda de aceitação internacional, portanto. Isso porque os chineses têm fortes razões para suspeitar que o dólar, cedo ou tarde, perderá a qualidade de “ moeda padrão “, como se tivesse valor invariável. Tudo, em virtude da monumental crise americana, o que faz com que suas dívidas externa e interna atinjam patamares altamente preocupantes, mesmo em se tratando do maior sistema econômico do planeta. Enfim, como notou recentemente o presidente Lula, todos continuam correndo para as letras do Tesouro americano, como se esta fosse a aplicação mais segura do universo. Será? Se não houvesse nenhuma dúvida sobre isto, os chineses não estariam preocupados. Mas eles estão.

Em todo o caso, os americanos acusaram o golpe chinês e contra-atacaram. No último dia 23, o Washington Post publicou um anúncio de página inteira, onde o U.S. Business and Industry Council ( espécie de Confederação das Indústrias), exige que Obama denuncie a China como manipuladora de taxas de câmbio.

O problema é que os norte-americanos já devem aos chineses em torno de US$ 1,trilhão e a dívida cresce ao ritmo vertiginoso de 50 bilhões de dólares por trimestre. Que ela terá que ser paga, não há dúvida. Mas é importante lembrar que os chineses mantêm sua moeda artificialmente desvalorizada e, com isto, conseguem inundar o mundo com suas mercadorias. Assim, eles vão acumulando saldos fantásticos em sua balança comercial e ficam abarrotados de moedas estrangeiras, principalmente dólares que, por sua vez, são aplicados em letras do Tesouro americano. E Washington vai respirando. Enfim, tudo vai bem enquanto tudo vai bem. Mas esta máxima dos arautos do livre mercado transforma-se em uma bobagem como outra qualquer, quando o próprio mercado inverte os sinais e em mais um de seus sucessivos efeitos manada, torna-se fortemente vendedor. É o momento, como o presente, em que as notas verdes, tão desejadas até a véspera, transforma-se em batatas quentes nas mãos dos chineses e outros credores. Todos gostariam de se desfazer dos incômodos dólares, mas falam baixam e andam pisando em ovos, para evitar que a tempestade vire dilúvio. Em todo o caso, é preciso esclarecer que no Brasil o enfraquecimento do dólar é menos sentido, porque, por razões locais e muito particulares – o fluxo e refluxo de aplicações especulativas -, a moeda americana valoriza-se diante do real, sempre que a Bolsa cai.
Quanto aos chineses, é preciso dizer ainda, que a barateza de suas mercadorias deve-se também à bagatelização de sua mão-de-obra. Na verdade, o país de Mao é hoje o maior quadrilátero de extração de mais-valia do planeta.

Mais-valia, esta palavra esquecida na poeira do tempo, mas que continua significando a forma pela qual extrai-se do trabalhador um excedente de trabalho que não lhe é restituído em forma de salário ou outro benefício qualquer. O excedente é, por assim dizer, plasmando na mercadoria produzida e que não pertence ao trabalhador , seu produtor ,mas ao capital que assim – e só assim – acumula. Já para os trabalhadores chineses não há alternativa para seus ínfimos salários, posto que a outra saída seria permanecer no campo, onde a remuneração mal ultrapassa o nível da subsistência elementar. Em outro contexto valeria a pena levantar e estudar melhor a questão do Impasse Ecológico, em cuja direção a China caminha com determinação oriental. Este impasse se instalaria, quando os setecentos milhões de chineses que ainda vivem no campo fossem transferidos para as cidades, como aconteceu com toda sociedade industrialmente avançada, e começassem a sonhar com um carro (por que não dois?) na garagem.

Até a próxima.

24-7-09

Os esquemas de Marx e
a ante-sala da Barbárie

Parte I

No artigo “Falando Sério”, de 23-4-09 , vimos como Marx, através de esquemas relativamente simples, expôs a mecânica interna, mais íntima, da acumulação capitalista. Neste presente artigo que será desdobrado em três partes, pretendo mostrar que Rosa Luxemburg estava absolutamente certa ao afirmar (o que não estava claro nos textos de Marx) que o Capital – o Sistema como um todo – só obtém sua reprodução ampliada – acumulação-, recorrendo a fatores ou recursos que lhe são externos. E pretendo esclarecer – o que não estava claro nos textos de Luxemburg – que estes recursos externos provém da Natureza que é externa (estranha) ao Sistema, porque lhe fornece mercadorias (bens não renováveis) que produzem outras mercadorias, mas não são produzidas por nenhuma outra mercadoria. São algo, portanto, que interagem com o Sistema, na verdade lhe fornecem os elementos materiais indispensáveis à sua expansão (acumulação), mas não são produzidas dentro deste mesmo Sistema. Não deixam de ser mercadorias , posto que tem valor de mercado, porém são peculiares, como vimos no artigo “A fase crepuscular e a eclosão das contradições essenciais do Capital” de 21-07-09

A 15 de janeiro de 1919, Rosa Kuxemburg é presa em Berlin, ao lado de outros integrantes da Liga Espártaco, por ela fundada para marcar a posição marxista-revolucionária, em oposição às lideranças da Social Democracia Alemã. Estas lideranças já haviam cometido “a grande traição” de agosto de 1914, quando abandonaram as posições internacionalistas anti-guerra e, em seguida, contribuíram para abortar a revolução alemã de 1918. Finalmente, estas mesmas lideranças, já agora no governo, adotaram a linha revisionista de Bernstein e caminharam abertamente na direção da “democracia burguesa” que , no plano externo, disputaria posições imperialistas e/ou colonialistas com as demais potências mundiais. Estes sociais democratas alemães são, digamos, bisavós de nossos tucanos. A plumagem é a mesma. E foram particularmente cruéis (Freud explica) com a ex-companheira Rosa Luxemburg: três dias após sua prisão ela foi morta a coronhadas. Ela tinha então 49 anos e seu corpo, lançado a um canal, só reapareceria quatro meses depois.

Em 1912, Luxemburg publicaria sua principal obra, “A Acumulação Capitalista” que provocou um das maiores polêmicas entre teóricos e divulgadores marxistas. Polêmica que, a bem dizer, perdura até hoje.

De início, Rosa Luxemburg reage com espanto à polêmica e às suas dimensões. Ela não conseguia compreender por que é que noções tão simples, quase óbvias, pudessem ocasionar tamanha reação que evoluiria, enquanto a autora viveu, para uma série infindável de réplicas.

Não há espaço aqui para inventariar esta incrível polêmica, onde os “marxistas ortodoxos” dogmatizaram os conceitos de Marx e jamais conseguiram entender que Rosa, a rigor, limitava-se a repetir a pergunta do próprio Marx: de onde vêm os recurso materiais adicionais que asseguram a acumulação? O fator externo.

A chave do problema está na leitura do Livro II de O Capital, mais exatamente no Capítulo XXI, “Acumulação e Reprodução Ampliada”. Luxemburg localiza aqui uma lacuna, senão um incongruência,. Porque nos famosos esquemas montados por Marx para demonstrar a reprodução ampliada (acumulação), de fato não fica claro de onde provêm os fatores (recursos materiais adicionais) indispensáveis para a consumação da ampliação do Sistema como um todo.

Disso, a autora inferiu que o modo de produção capitalista só obtém sua reprodução ampliada se incorporar elementos materiais que lhes são externos. O próprio Marx,em vários trechos de O Capital (não apenas neste capítulo em foco), pergunta-se como que pensando alto: De onde vem a prata que não cai do céu?

Cansada de procurar em vão, no miolo dos esquemas e nos textos do capítulo onde estão inseridos, uma resposta para esta pergunta simples, Luxemburg decidiu elaborar sua própria teoria e concluiu, com maestria, que o Capital, enquanto sistema global, só consegue acumular – expandir-se – anexando, crescentemnete, novos recursos materiais e humanos, quer sob o ponto de vista geográfico (anexação territorial), quer do ponto sócio-histórico (a aniquilação de sistemas econômico culturais não compatíveis com a produção capitalista). Um exemplo dado por Rosa que tornou-se clássico, embora nem sempre creditado à autora: ao incorporar regiões antes integradas ao Império Otomano, as nações desenvolvidas (imperialistas) retalharam e privatizaram extensas áreas rurais, antes exploradas comunitariamente. Estavam assim lançadas as bases teóricas para a conceituação do imperialismo, esta etapa superior do capitalismo. Foi nesta fonte que Lênin e Bukharin beberam para escrever livros sobre o tema e que tornaram-se igualmente clássicos. Mas não cessa ai a importância intelectual de Luxemburg. Já nos anos 30, Michal Kalecki , um estudioso da obra de de Luxemburg influenciaria a nada menos que Lord Keynes, de quem foi contemporâneo em Cambridge. e, por extensão, às correntes estruturalistas, desenvolvimentistas , cepalistas, etc. Tudo isto nos leva, aliás, a concluir que, agora, quando todos os recantos da Terra estão dominados pelo Capital e quase todas as instâciais sócio-culturais não capitalistas foram aniquiladas, o Sistema, como um todo, não tem mais onde, por onde, expandir-se. Neste caso, não estaríamos diante do fim de um ciclo histórico? A responta é sim, mas não totalmente ainda. Não totalmente ainda, porque o Capital, não mais podendo expandir-se horizontalmente, avança, agora verticalmente, sobre a Natureza como um todo, destruindo-a ciclopicamente à medida em que acumula. Eis ai mais uma conexão entre a teoria econômica marxista e a questão ecológica. Mas não precipitemos os fatos para não embaralhar os raciocínios centrais. Vamos avançar por etapas. Precisamos demonstrar ainda e com clareza, por que é que o avanço sobre a Natureza deve ser considerado como um fator externo.

a crise” e o “Impasse Ecológico”, procuramos estabelecer uma conexão entre o atual estágio do modo de produção capitalista, caracterizado pela descartabilidade e pela velocidade do giro do sistema como um todo – a produção redundante – e o limite da evolução deste sistema, em função da destruição ciclópica dos recursos naturais não renováveis, sem falar na degradação ambiental.

Entretanto, este não é o limite de nosso projeto teórico. Queremos demonstrar, também, que independente da questão ecológica, o atual modo de produção entra em sua fase crepuscular em função de alterações essenciais (ou mesmo de sua própria essência) no seu próprio interior, nos seus fundamentos mais íntimos. A propósito, vale lembrar que cinquenta anos antes de Marx, Ricardo e Malthus, de forma pioneira e verdadeiramente premunitória, desenvolveram a teoria de que os únicos limites para o processo de expansão e acumulação do capital eram os limites relacionados com a Natureza. Malthus levou suas teses mais a sério e Ricardo, seu contemporâneo e amigo, abordou o assunto, ao que parece, como mera curiosidade intelectual. Como não imaginava que um dia os colossais recursos naturais pudessem vir a ser considerados escassos, ele usou a teoria como uma espécie de demonstração cabal de que , na prática , não haveria limites para a expansão capitalista. É neste ponto, que, meio século depois, entra Marx para dizer que o verdadeiro limite para a expansão do capital está no seu âmago, onde se localiza sua contradição mais essencial: o capital caminha para sua auto-destruição, superação, à medida em que avança. Marx estava certo do ponto de vista absolutamente teórico, mas defendeu com tanta garra suas teses que ficou parecendo (apenas parecendo) que ele negligenciou a questão que hoje chamamos de ecológica. Disto decorre, alias, a cegueira de marxistas toscos (ditos ortodoxos) que até recentemente esnobavam solenemente os ecologistas que, por sua vez, em sua maioria vão tornando-se toscos à medida em que ignoram as teorias marxistas mais elementares.

Nos resta, portanto, a pedreira de tentar demonstrar não apenas para especialistas, por que é que o sistema capitalista caminha dialeticamente para a sua própria superação. Antes, porém, quero lembrar que no livro, “o Impasse Ecológico e o Terrorismo do Capital” (2004), onde examino exatamente esta superação, usei no título a palavra impasse e não limite ou barreira, exatamente porque concordo com a tese de Marx.

Se o leitor recorda, nos dois artigos anteriores procurei fazer com que chegássemos o mais próximo possível das noções de produção redundante e de queda permanente da taxa de lucro global, do sistema como um todo. Então: esta queda da taxa de lucro (que na verdade advém da queda da taxa global de extração de mais-valia) faz com que o capital tenha a necessidade vital de circular mais rapidamente, para compensar com o maior número de giros a sua perda de substância (densidade) a cada giro. Esta perda de densidade está diretamente relacionada com a queda da taxa global (e também da massa global de mais-valia). Pode-se dizer que o sistema , em função da menor taxa e massa de mais-valia, vai perdendo sua capacidade de acumular – reproduzir-se de forma ampliada – e, gradativamente, no limite, vai-se tornando pífio. Entretanto o que importa fixar é que para circular mais rapidamente, o capital se utiliza de expedientes escusos como a descartabilidade, a perecibilidade planejada, a fragilidade intencional e a obsolescência forçada, já citados nos artigos anteriores.Por outro lado, já vimos também, nesses artigos, que a perda de densidade pode ser explicada pelo aumento do agregado tecnológico (mais máquinas, aparelhos e sistemas mais eficazes) no lugar da mão-de-obra tradicional.

Tudo isto, cria um círculo vicioso: mais máquinas (capital constante) diminui a taxa de mais-valia, só obtida com o capital variável – salários – conforme vimos também nos artigos anteriores. A menor taxa de mais-valia leva à necessidade de aceleração do giro, que leva ( como também vimos anteriormente) a um maior agregado tecnológico – a obsolescência natural. Em suma, estaríamos diante de uma situação em que o aumento da velocidade faz com que o sistema requeira um novo e ainda maior aumento de velocidade. Se querem uma imagem forte, diríamos que estamos vendo um cão correr, com velocidade crescente, atrás do próprio rabo. Mas esta seria apenas um frase forte se não lembrarmos que a cada giro o capital vai perdendo mais densidade.

Se tentarmos reduzir estas questões a uma expressão mais simples, poderíamos dizer que ao longo de sua história, o Capital vai trocando – já agora vertiginosamente – trabalho vivo por trabalho morto, ou seja, mão-de-obra por máquinas, equipamentos e insumos que na sua composição já estão impregnados por um trabalho pretérito (máquinas e equipamentos que produziram outras máquinas e equipamentos no passado. O mais importante, porém, é lembrar que, como já vimos, máquinas, equipamentos e insumos, ao longo de sua vida útil, vão transferindo para a a nova mercadoria o seu valor (trabalho morto) para o valor da nova mercadoria. Elas, essencialmente, portanto, não geram lucro, embora dêem esta sensação temporária (até a hora de adquirir novas máquinas) aos seus proprietários. Quando, em artigos futuros, nosso raciocínio atingir níveis muito mais altos de complexidade e abstração, e nos fixarmos na questão, até hoje não suficientemente resolvida, da equivalência global entre preços e valores (de mercado), iremos lidar com o conceito de trabalho pretérito, aquele trabalho anterior contido nas máquinas produzidas por outras máquina que por sua vez foram produzidas por outras máquinas e assim sucessivamente.

Creio que já chegamos ao consenso de que para compensar sua perda de densidade (menor taxa de lucro) por giro (ciclo de cumulação) o capital total global acelera o seu ritmo de rotação, usando para isto o expediente da produção redundante ( descartabilidade, perecibilidade, etc.). Então podemos fechar o raciocínio de que esta aceleração geral do sistema global total aproxima, no tempo, uma crise cíclica da outra. Lembremos, por outro lado que, como foi visto em em artigos anteriores, o deflagrador das crises cíclicas, que são sempre de superprodução, é o setor de bens de produção (máquinas, equipamentos e insumos). Isto para dizer que as crises estão diretamente relacionadas com a longevidade das tais máquinas e equipamentos. Em seu tempo, Marx calculou, numa carta a Engels, que a duração deste capital fixo era de treze anos. Provavelmente em função disto, economistas, especialistas e divulgadores, combinaram que as crises cíclicas deveriam ocorrer, mais ou menos a cada dez anos. Com a onda longa de crescimento continuado, os Anos Dourados vividos do fim da Guerra a meados da década de 70 do século passado, o tema das crises cíclicas saiu da moda e deixou de ser estudado, inclusive nos meios acadêmicos. Entretanto, o assunto foi revivido durante os dois choques dos preços do petróleo (74 e 77). Não por acaso, verificaremos, que esta mesma época assinala o início efetivo da Terceira Revolução Industrial (microeletrônica, robótica e engenharia genética). E não menos por acaso, por esta mesma época dão ingresso no cenário, os conceitos de descartabilidade, perecibilidade, etc. Visivelmente o sistema como um todo, passou a acelerar, crescentemente, o seu giro. Então, se estamos bem entendidos até aqui, esta aceleração corresponde a uma menor vida útil das mercadorias, de todas as mercadorias, mas, para o que mais nos interessa, das mercadorias destinadas a produzir outras mercadorias, as máquinas e equipamentos. Ernest Mandel, já citado em artigos anteriores, calculou que , nos anos 70, a durabilidade média das máquinas e equipamentos havia caído para cinco anos. Seus números: “o ciclo de obsolescência de máquinas-ferramentas está em vias de diminuir rapidamente para cinco anos. (…) A vida média de um computador não é superior a cinco anos, a de um radar náutico, a sete anos. ( O Capitalismo Tardio, 1974).

Se estes números plausíveis de Mandel forem atualizados, não será exagerado dizer que a vida media de máquinas, equipamentos e aparelhos já baixou dos quatro anos. Neste caso, estaríamos, diante de um ciclo vertiginoso de substituição (redução da vida útil) do capital constante (fixo) global. Se raciocinarmos nos termos do capital fixo entendido pela economia burguesa, é preciso abstrair terrenos e instalações, embora estas últimas também venham sofrendo forte pressão no sentido da sua destruição para reconstrução logo em seguida. Diante de tudo isso, a mim particularmente, me parece muito estranho que luminares da economia moderna tentem analisar a atual crise (tudo o que eles querem é ser os primeiros a anunciar a luz no fundo do túnel) detendo-se apenas nos aspectos perfunctórios das estatísticas que revelem algum sinal de recuperação das vendas mundo afora. Creio que a análise séria desta crise, a maior em 70 anos, terá que incluir, minimamente, o estudo da interação e concomitância subjacente de alguns dos principais fundamentos do modo de produção capitalista. Se fizermos isto, talvez se descubra que, eventualmente, a luz no fundo do túnel é o farol de uma locomotiva vindo em direção contrária. Mas pode ser também que encontremos elementos para dizer que o atual modo de produção está ingressando em uma fase em que, superando-se em si, move-se para um andar superior. É o que começaremos a fazer no próximo artigo, quando tentaremos demonstrar que a aceleração global dos ciclos do sistema, aproxima, no tempo, um crise (cíclica) da outra, o que provocaria sua atenuação e, por isso, sua visibilidade. Em compensação ficariam potencializadas as mega crises como atual.

Antes de concluirmos, fica a promessa de que, em artigos futuros, procuraremos esclarece um dos temas mais controversos da literatura marxista: o da noção fundamental de que taxa de mais-valia é diferente da massa (que é sempre global) de mais-valia .

Até a próxima.

15-7-09

A produção redundante e as

duas faces das mercadorias

 

 

Há 700 anos, fosse para produzir um par de botas, fosse para construir uma catedral, o homem pensava na eternidade, queria que as coisas durassem para sempre. As mercadorias diziam respeito apenas aos mercadores que viviam num compartimento estanque da sociedade. A imensa maioria dos seres humanos, senhores ou servos, viam nos objetos apenas o seu sentido útil e com este objetivo os manufaturavam. A cama de madeira maciça, velha de mais de mil anos, onde Carlos Magno deitou por quatro décadas e finalmente veio a falecer, existe até hoje. Ela é desconsertantemente pequena e tosca. E o soberano a quem muitos atribuem o mérito de lançar as bases e garantir a existência do que hoje chamamos de Civilização Ocidental e Cristã, era analfabeto. Por esta época, o mundo conheceu (melhor dizer registrou) a sua primeira música pop, a Canção de Roland, um general de Magno, morto durante a infeliz campanha da Espanha, onde os visigodos romanizados haviam finalmente sido derrotados pelos muçulmanos. Depois disso (da popularização da canção) os menestréis e poetas foram-se profissionalizando ao longo dos séculos, até chegarem ao estágio institucionalizado da arte remunerada. Nasciam os direitos autorais e de arena que estão sendo enterrados hoje – curiosa ironia – pela Internet e pela pirataria incontrolável.

Hoje, edifícios de 20 andares vão ao chão para a construção de outros com 60 andares e cidades inteiras são construídas, destruídas e reconstruídas no espaço de uma geração. É a conhecida especulação imobiliária, acionada pelo valor de mercado e com poder de fogo mil vezes superior ao daquela bombinha lançada sobre Hiroshima E as mercadorias, do abridor de latas ao carro de luxo, são fabricadas para ter um vida útil a menor possível. Elas precisam desocupar, no mercado, o lugar de outras mercadorias que já estão sendo produzidas. É o conhecido fenômeno da descartabilidade. Entre o sentido de eternidade da Idade Média e o da perecibilidade obrigatória de nossos dias, media um conceito descrito por Karl Marx há 160 anos e que tanto pode ser estudado do âmbito da filosofia como no da economia. Estamos falando do duplo caráter da mercadoria: o seu valor de uso e o seu valor de mercado. Deste conceito, deriva outro, o da alienação que não cabe no espaço deste artigo. Por ora, digamos apenas que o homem moderno não consegue viver fora dos refrigerados corredores, chão de granito, dos shoppings. No fundo ele se envergonha um pouco disso, mas interna nos hospícios quem se recusa a passear com ele por cada clarão da galeria, pela vitrines feéricas e balcões modernosos, onde figuras mortas vendem o resto em liquidação. Entretanto, nos hospícios também há cantinas, onde podem ser encontrados cafés com gosto de azia, balas ordinárias e pasteis e coxinhas saturadas de óleo e bactérias – coisas sem nenhum valor de uso – pelo contrário – mas com valor de mercado.

Agora já podemos através de dez itens, degraus, tentar demonstrar em que ponto se fundem, confundem, a noção do duplo caráter da mercadoria com o da produção redundante:

1- Quando, em 2004, lancei meu livro O Impasse Ecológico e o Terrorismo do Capital, afirmei, sintonizado com outros autores, que no dia em que todos os países, mundo afora, adquirissem a capacidade de produzir e consumir na mesma proporção que os Estados Unidos, então seriam necessário quatro planetas do tamanho da Terra, para se evitar uma uma catástrofe global do meio ambiente. Foi um espanto e cheguei a ser apontado como catastrofista. Hoje estas e outras noções efetivamente catastróficas são corriqueiras. Ninguém mais duvida que o mundo está doente. Entretanto, as medidas universalmente aceitas para se conter o avanço do problema são inócuas, quando não forem hipócritas ou piegas. A meu ver, tamanha defasagem entre a realidade e as ações, se deve a um enorme erro essencial de diagnóstico. Não há apenas excessos pontuais, imprudências facilmente detectáveis ou falta de conscientização. Acima disto tudo há a incapacidade de perceber que o atual modo de produção que ocupa hoje todos os quadrantes da Terra atingiu um estágio de destruição sem precedentes e sem retorno. O capital global total não acumula a não ser destruindo e ele faz isto de forma cada vez mais veloz, mais feroz e mais autônoma.

2- Nos dois artigos imediatamente anteriores, procurei conduzir o raciocínio na direção do conceito de produção redundante que desenvolvi com maior profundidade do livro citado acima. Para se apreender a noção desta produção redundante, é preciso que se entenda, antes, que o capital total global sempre que acumula, não importa o quão útil ou inutilmente, ele faz isto, consome e, portanto, destroi, uma fatia correspondente de recursos naturais não renováveis. Já vimos que a acumulação se dá quando o capital (sempre falando em termos globais totais) amplia a capacidade de produzir mais capital, mais mercadorias. Quando esta produção se dá em função das reais necessidades da humanidade como um todo, tudo bem . Porém quando esta produção e consumo forem inúteis, perdulários, então estaremos assistindo a um consumo (destruição) inútil da Natureza. Esta é a produção perdulária, mas para chegarmos ao conceito dá produção redundante ainda faltam alguns passos. Então:

3- Para acumular o capital individual (e, portanto, o global total) precisa ampliar a sua parte fixa (máquinas e equipamentos) que Marx chamou de Capital Constante. Ocorre quer esta parte constante, máquinas equipamentos e insumos, desgraçadamente não produz lucro (extração de mais-valia) pela simples razão de que ao longo de sua vida útil (digamos dez anos) ou imediatamente ( no caso dos insumos) ela doa, transfere, o seu próprio valor para o valor da mercadoria nova que ajuda a produzir. Isto quer dizer que todo o sinal de mais valor embutido na nova mercadoria, deverá corresponder a um sinal de menos valor na parte do capital constante (máquinas equipamentos e insumos).

4- Onde, então, o capital produtivo obtém seu lucro? Naquela parte correspondente à exploração da mão-de-obra. Parte esta (salários e outros benefícios) à qual Marx deu o nome de Capital Variável. Este, ao contrário do Constante, renova-se permanentemente e acorda diariamente renovadamente capaz transferir o valor de seu esforço (trabalho) para o valor da mercadoria produzida por ele e pelas máquinas que, como vivos não são capazes de renovarem-se com uma noite de sono.

5- Agora, uma questão crucial: em função da concorrência que é inerente ao sistema como um todo, os capitais particulares mantem uma corrida alucinada em busca de novas tecnologias (o diferencial tecnológico). Com isto eles abreviam fortemente o tempo de vida útil de suas máquinas e equipamentos. Elas, materialmente falando, poderiam durar mais. Entretanto são descartadas poque tornaram-se obsoletas tecnologicamente falando. Este é um fenômeno recente que data da Terceira Revolução Industrial, a da microeletrônica e da engenharia, da robótica e da engenharia genética que entraram em cena para valer a partir dos anos 70 do século passado. Esta é na sua essência, a obsolescência natural. A obsolescência forçada será conhecida melhor mais adiante. Por enquanto, basta dizer que não faz sentido produzir um aparelho com durabilidade superior a cinco anos se todos sabem que antes disso ele estará tecnologicamente obsoleto. As descomunais montanhas de lixo eletrônico acumuladas em todos os quadrantes são testemunhas deste fenômeno.

6- Aos poucos, vamos percebendo que os capital particulares (e o total global) são constrangidos a renovar em espaços de tempo cada vez menores o seu capital constante (máquinas e equipamentos). Isto quer dizer que o seu giro completo ou mais precisamente o seu ciclo de acumulação se dá a uma velocidade cada vez maior. Se entendemos bem que a cada ciclo de acumulação ele devora uma parte importante dos recursos naturais não renováveis, vai ficando claro por que é que a Natureza esta sendo destruída de forma cada vez mais rápida, vertiginosa.

7- Mas para alcançarmos o objetivo deste artigo ainda é necessário esclarecer que na busca desesperada de acelerar o seu próprio giro para consumar sua acumulação a partir de um patamar tecnológico mais alto, o capital como um todo, usa corriqueiramente um expediente já conhecido de todos, o da descartabilidade. Neste ponto, encareço ao leitor que se fixe bem nesta palavra, porque ela, articulada com o consumo perdulário, é a chave da redundância, a produção redundante.

8- Em artigo anterior, de maio passado, usando o exemplo de um abridor de latas – que pode , por analogia , ser multiplicado por milhões de exemplos -, creio ter demonstrado que ao produzir uma mercadoria com durabilidade, digamos dez vezes menor em relação a uma outra, que teria com custo parecido, porém com valor de uso dez vezes maior, estamos obrigando o consumidor a , no mesmo espaço de tempo, digamos, dez anos ou dez meses, consumir dez mercadorias , pagar dez vezes o seu valor de mercado, para obter o mesmo (único) valor de uso. Vendo por outro ângulo: no mesmo espaço de tempo os produtores nos oferecem, dez produtos, cobram, evidentemente, dez vezes o preço de um único produto, mas nos dão em contrapartida apenas um valor de uso . Então temos que, a humanidade como um todo gasta dez vezes maias esforço humano e, principalmente, dez unidades de energia e insumos (recursos naturais não renováveis) para satisfazer uma única e e mesma necessidade (valor de uso). Para que este absurdo aconteça, os expedientes escusos, porém corriqueiros e universalmente aceitos, são a descartabilidade, a perecibilidade planejada e a fragilidade intencional. Tudo isto somado ao modismo e seu efeito psicológico. Mais um exemplo para fixar o raciocínio: neste exato momento, o consumidor brasileiro está sendo induzido a comprar um sapato chinês de couro sintético por 15 dólares. Com uso diário este produto não durará mais que quatro meses. No entanto o mesmo consumidor poderia comprar um sapato de couro legítimo por 30 dólares e usaria o produto durante quatro anos. Mas nem falemos neste logro ao consumidor, nos fixemos apenas na noção de que entre as duas alternativas o mesmo valor de uso custou uma quantidade dez vezes maior de recursos naturais não renováveis.

9- Outro exemplo atual: estamos assistindo neste momento a intensa e louvável campanha para a substituição, nas compras diárias no varejo, de sacos plásticos não biodegradáveis e usados um única vez, por sacolas mais duráveis. Neste caso, toda a argumentação é direcionada no sentido de evitar a degradação ambiental. Isto mostra que mesmo os ecologistas mais ativos ainda estão cegos para o problema maior, o da produção redundante.

10- Finalmente é preciso falar na reciclagem, outra campanha meritória dos ecologistas e que ganha, crescentemente, novos adeptos. Nada contra a reciclagem em si, mas é preciso que ela não oculte ou mesmo realimente o problema central: o uso desenfreado do expediente da descartabilidade. No circuito descartável-reciclagem-descartável , o que temos é que o sistema nos remete permanentemente do lixo ao lixo. Mercadorias que poderiam, com o mesmo custo e o mesmo valor de uso ser produzidas com maior durabilidade, são feitas para virar lixo o mais rapidamente possível, ser recicladas e retornar ao lixo. É o caso característico das latas de alumínio, que há vinte anos vem substituindo gradual mas inexoravelmente, os vasilhames de vidro que duram, em média cinco anos. É, a produção redundante assumida, o que nos leva a dizer que a reciclagem é o lado bonzinho do crime. O fundamental é que se veja que a produção e trasporte destas inocentes latinhas, feitas para virar lixo ao primeiro uso, tem um custo astronômico em termos de energia, combustíveis e água. Para a produção de uma tonelada de alumínio são consumidas 180 toneladas de água. E depois os brincalhões ainda vem nos dizer que devemos economizar água durante o banho. Apenas mais um dado: o consumo de água nas residências representa menos de 20 por cento do gasto global. Os mais de 80 por cento restantes, são consumidos pela indústria e pela agricultura, crescentemente voltada para a produção de combustíveis. Se considerarmos que 50 por cento da produção industrial e de combustíveis é redundante, ai temos para onde vai a nossa água cada vez mais escassa.

Até a próxima.

12-7-09

Mais dez estágios para
entender a grande crise

Este artigo dá continuidade ao anterior, de 7-7-09, “Dez degraus para entender a atual crise”. A compartimentação do raciocínio completo em itens numerados (degraus) parece ter agradado à maioria dos meus pouco leitores. Vamos persistir neste método. Por outro lado, como acontece na maioria dos blogs, os texto mais recentes encabeçam as colunas. Neste caso, porém seria conveniente que o leitor que acessa este blog pela primeira vez, leia antes o artigo anterior.

1- Se já concordamos que nas crises cíclicas, além dos aspectos apenas financeiros, o que deve nortear a análise são os substratos da produção efetiva (economia real) onde invariavelmente iremos registrar o fenômeno da superprodução, e se concordamos que é exclusivamente neste local (o da produção material) onde ocorre a acumulação capitalista, podemos seguir adiante para dizer que quanto maior (mais intensa) a crise, tanto maior será, na saída dela, o salto de qualidade a ser dado pelo sistema como um todo. É uma forma, digamos, de recuperar o terreno perdido. Com outras palavras: já vimos (itens 6 e 7 da matéria anterior) que o capital global, após cada crise, atinge um patamar superior em termos de sua própria concentração e de seu nível tecnológico . É o que chamamos de queda para cima. Há assim , um efetivo progresso, mais precisamente uma progressão. O capital global perde parte de sua essência anterior e adquire uma nova tonalidade. Fica, eu diria, mais leve ou menos denso. Em miúdos: emprega menos mão-de-obra e mais tecnologia e/ou automação. No jargão marxista, este capital, no seu movimento de exploração do trabalho, troca mais-valia absoluta por mais-valia relativa. Isto seria irrelevante ou mera curiosidade científica, se não fosse possível demonstrar, como pretendemos fazer na sequência, que nesta troca, embora o capital aumente o volume de mais-valia (sobretrabalho extraído) ele diminui a taxa de mais-valia. O que nos obrigará a demonstrar, também, que na soma de todos os capitais, a menor taxa de mais-valia total corresponderá, irremediavelmente a uma menor taxa de lucro total.

2- Esta degradação permanente da taxa global de lucro pode ser estatisticamente comprovada. Ninguém mais ignora que as taxas globais de lucro e, portanto de acumulação e, portanto, de crescimento econômico tem sido, nos últimos 20 anos, substancialmente menores nos países tecnologicamente mais desenvolvidos, na comparação com países mais atrasados ou onde as indústrias mesclam uso intensivo de tecnologia (mais-valia relativa) com uso maciço de mão-de-obra barata (mais-valia) absoluta. Exemplo emblemático disto é a China, para onde acorrem, vorazes, capitais produtivos de todo o planeta.

3- A não compreensão plena deste fenômeno crucial, é que leva renomados economistas como Delfim Netto e Luiz Gonzaga Belluzzo (para citar apenas dois dos mais competentes) a supor que o medíocre crescimento econômico do mundo desenvolvido nas duas últimas décadas – o que se reflete nas estatísticas globais – deve-se à prática exorbitante de métodos excessivamente ortodoxos (um padrão neoliberal) nas políticas monetárias e cambiais. Outros economistas, como os festejados Paul Krugman e Nouriel Roubini atribuem as misérias do atual sistema ao excesso de condescendência e ausência de regulamentação em relação aos capitais financeiros, em particular os especulativos,como se houvesse na face da Terra, um único capital financeiro que não especule. Seja como for, eles também não vêm que no mesmo passo em que aumenta sua capacitação tecnológica (mais máquia, menos homens) o capital global perde a velocidade de crescimento.

4- Então: o excepcional crescimento econômico da China nas últimas duas décadas, não se deve apenas à excelência da gestão macro-econômica do governo dito comunista, mas ao fato de o território chinês ser hoje o maior quadrilátero de extração de mais-valia do planeta. O custo ecológico disto tudo, já foi por nós analisados em outros artigos deste blog, mas cabe mencionar mais uma vez.

5- Vale destacar que quanto mais profunda e/ou intensa for a crise, tanto mais elevado será o nível tecnológico e o grau de concentração com que o capital global reiniciará

sua caminhada após a superação dos efeitos do cataclismo. Aqui temos o exemplo clássico de realimentação recíproca de fatores (vende mais porque é crocante e é crocante porque vende mais) Assim, a maior concentração (fusões e incorporações), decorrentes do maior número de concordatas e falências, permite, em função da concentração de capitais, esforços e material humano, um esforço concentrado na área de pesquisas e tecnologia. Disso sobressai um aumento do fosso tecnológico entre as mega empresas de um lado e as pequenas e médias de outro. Sendo que estas últimos tenderão a ser avassaladas (terceirizadas ou contratadas com vínculo exclusivo pelas primeiras). Na mesma proporção este fosso será maior na relação entre as economias centrais, tecnologicamente mais desenvolvidas e as periféricas, cuja autonomia vai, assim, se inviabilizando progressivamente.

6- Do que foi dito no item anterior resulta um fato muito comum na atualidade e que merece destaque: o surgimento dos superlucros provenientes do diferencial tecnológico articulado com a situação (muitas vezes temporária) de monopólio. E aqui tocamos num ponto crucial: estes superlucros, como uma densa neblina, dificultam a visibilidade (demonstração) da teoria da queda permanente (irrevogável) dos lucros, através da trajetória no modo de produção capitalista pela História. E esta , absolutamente não é uma questão menor, porque a ser verdadeira a teoria (da queda da taxa de lucro), fica demonstrado que, no limite, o capital caminha na direção do lucro pífio, o que fará com que ele próprio (o capital) torne-se, pífio, ou ultraleve ou ainda, sem densidade de valor, quando, na mesma medida, perderá a capacidade de acumular (reproduzir-se). Entretanto, se o aquecimento lógico do pensamento dissipar a neblina, ficará claro que os superlucros, que são reais, dizem respeito apenas a algumas grandes empresas em particular, empresas estas que só surgiram em situações também particulares. Trata-se de uma tendência, sim, mas uma tendência que afeta apenas a parte menor de universo empresarial, até porque estamos falando de um fenômeno articulado de concentração que tem como consequência óbvia a exclusão e/ou extinção de grande parte das empresas menos dotadas. Contudo, o raciocínio mais importante a ser feito é o de que ao falarmos em queda da taxa de lucro, não estamos falando de eventos que afetem esta ou aquela empresas ou este e aquele setor: estamos falando de algo global, universal, que afeta o sistema como um todo, na soma de todas as suas circunstâncias.

7- O que foi dito até aqui, parece indicar que a grande maioria dos estados nacionais vão perdendo a sua capacidade de operar com autonomia, por não reunirem as condições mínimas indispensáveis (volume total e densidade de capitais). Se for assim, estaríamos diante do que podemos chamar de obsolescência dos estados nacionais. Obsolescência esta que é combatível com dois outros fenômenos que precisam ser estudados isoladamente e com todo o cuidado: a irrelevância da política (diante do efeito prático avassalador de simples portarias da equipe econômica que não passa pelo crivo eleitoral) e a criação de blocos econômicos ( que proliferam mundo afora), o que reduz ainda mais as autonomias nacionais.

8- Entrementes, paira sobre o que foi dito nos itens 6 e 7 uma teoria muito mais instigante: a da concomitância entre os desvanecimentos dos estados nacionais burgueses (controlados pela burguesia) e o modo de produção burguês. Esta concomitância esta começando a aparecer com maior nitidez nesta atual fase, acentuada, mais ainda, pela crise econômica. Max Weber lembra que em seu nascedouro (em temos lógicos e não de sincronia absoluta) houve uma mútua adequação entre estados nacionais e o modo de produção capitalista. Neste caso, as articulações entre todas as obsolescências e desvanecimentos até aqui mencionados não seriam indicações de que estaríamos ingressando numa etapa de mútua inadequação entre estados nacionais, sua organização política e seu modo de produção?Voltaremos muitas vezes ainda a este tema.

9- Quanto à defasagem tecnológica, item 5, vale recordar que Ernedt Mandel, em seu último livro, “ O Capitalismo Tardio”, já afirmara que a partir dos anos 70 do século passado

, ficou bem evidente que as grandes empresas buscavam seus lucros, prioritariamente, no diferencial tecnológico. Podemos acrescentar que a partir dos anos 90 as empresas de um modo geral passaram

a complementar ou mesmo priorizar seus lucros não mais nos departamentos de produção apenas, mas na diretoria financeira, prioritariamente. Eram os chamados lucros de caixa. Na verdade falsos lucros, como a crise viria demonstrar. Na verdade eram apenas perspectivas de lucros obtidos no mercado financeiro, lucros futuros, ou promessas de lucros a partir da exploração futura de trabalho (produção) que jamais se realizaria. Pura fumaça. Quimeras de quem supõe ou finge supor que é possível construir algum tipo de valor sem passar pela elementar metabolização entre o trabalho (mão-de-obra) e a Natureza (recursos naturais convertidos em commodities mesmo quando ainda em estado bruto, nas minas e nas jazidas) Em meu livro O Impasse Ecológico e o Terrorismo do Capital” (2004) abri um capítulo apenas para analisar esta descomunal montanha de promessas que os especialistas insistiam em chamar de capital. Me ocorreu dizer, então, que quando houvesse a mínima suspeita de que tudo não passava de uma especie de “corrente da fortuna” ou “pirâmide”, destas passadas nas esquinas por malandros pés-de-chinelo, estaríamos diante de uma crise mãe.

10- Quando ficar completamente claro, compreendido e combinado que toda vez que completa um ciclo de acumulação o capital global total avança, consome e, portando, destrói um pedaço importante dos recursos naturais não renováveis,este será o momento de perguntarmos quão útil ou inutilmente a Natureza esta sendo consumida, destruída. E o momento de introduzirmos em nossos raciocínios o conceito da produção redundante, quando recursos naturais são consumidos, destruídos, na sua metabolização com o trabalho, sem que disto resulte o mais mínimo beneficio para a qualidade de vida ou para a evolução da humanidade como um todo.

 Até a próxima.

7-7-09

Dez degraus para
entender esta crise

Não quero, absolutamente, ser grosseiro com a Míriam Leitão. Minha birra com relação a ela se deve ao seus textos, mais precisamente ao estilo professoral e impositivo. No mais, creio que ela pessoalmente seja um simpática jovem senhora e boa colega, como me informam. O problema é que ela é paradigma de uma geração de jornalistas que incorporou, ao seu jeito de pensar e de escrever, algumas “verdades absolutas”, verdadeiros axiomas, que não são verdades nem absolutas. São – ou melhor, eram – fugazes imposições de um jeito fugaz de interpretar a economia e, por conta disso, a política e a vida: o jeito neoliberal ou, se quiserem, o modo como o Mercado passou a impor os seus pontos de vista a partir da crise que culminou com a derrocada da ex-União Soviética

Seja como for, Míriam me surpreendeu quando, em sua coluna do último dia 3 de julho disse que ainda não conseguiu entender a atual crise econômica “tão diferente” das outras. Em função disso, resolvi alinhar os dez primeiros passos a serem dados, segundo penso, para quem quiser digerir esta crise que, por suas dimensões e intensidade poderá significar o início de uma fase pós capitalista. Não que o atual modo de produção vá acabar amanhã. Mas é possível que , mais tarde, os historiadores apontem este período como o marco inicial de uma etapa de esvaecimento – gradual – do modo de produção e de consumo que se impôs ao mundo (e também não fez isto de uma hora para a outra) nos últimos trezentos anos. É claro que não pretendo dar uma de professor, mas escrevo com a segurança mínima de quem, nos últimos vinte anos debruçou-se sobre os textos marxistas, ironicamente, para tentar entender o fracasso soviético e acabou redescobrindo os mecanismos essenciais da acumulação capitalista que, por suas vez, gera , inexoravelmente, crises cíclicas de todos os tamanhos, inclusive as gigantescas como a atual. Então:

1- As crises econômicas cíclicas, todas elas, são crises de superprodução, embora os primeiros sintomas geralmente ocorram durante o estouro das bolhas especulativas no setor financeiro e se alastrem, na sequência, pelo setor imobiliário.

2- O desencadeamento das crises se dá, invariavelmente, a partir do que chamo de hiato de consumo (ver meus artigos na coluna “Para entender a crise” do meu blog) que se inicia, invariavelmente no setor de máquinas e equipamento, ou bens de capital ou, ainda, capital constante, no jargão marxista.

3- Este primeiro hiato (estacamento de encomendas) se dá quando o setor de máquinas e equipamentos deixar de comprar máquinas, equipamentos e insumos com os quais iria produzir mais máquinas, equipamentos e insumos. É por isto que , pelo menos os que entendem minimamente do assunto, dizem que o setor de bens de capital é o primeiro a entrar e o último a sair das crises econômicas.

4- Como numa reação em cadeia, este primeiro hiato desencadeado por produtores de máquinas, equipamentos e insumos (capital contante ou aquele capital que produz outros capitais) se propaga para os demais setores da economia. O economista burguês que só enxerga a superfície do fenômeno (os sintomas) dá a todos estes fatores concomitantes o nome genérico , simplificador, de “efeito manada”, o que é uma boa denominação, mas, em si, não explica nada.

5- Para quem nunca leu ( faz questão de não ler) os textos de Marx tudo isto tornar-se incompreensível e eles ficam imaginando que uma fada madrinha teria avisado aos produtores de bens de capital e insumos que haveria no mercado mais mercadorias do que demanda efetiva, o que levaria estes produtores a moderar ou suspender encomendas com as quais produziriam mais máquinas equipamentos e insumos. Mas não é isto. O que há é que a restrição de consumo (o hiato) decorre da necessidade de investimento. Investimento este que, a menos que se recorra novamente à fada madrinha, decorrer, obrigatoriamente, da restrição ao consumo. Não se imagine que um magnata produtor de aço vá deixar de almoçar só porque resolveu instalar mais um alto forno. Mas ele deixa de comprar jatos executivos, iates , coberturas, diamantes, etc. É claro ainda que esta simples e partircular restrição de consumo não explica a crise. Entretanto, a gente começa a entender melhora a coisa quando imagina que existem centenas de milhões de pequenos e médios produtores de bens de produção e, simultaneamente de consumo (agricultores e extrativistas, por exemplo) que também, em dado momento, precisam poupar, para, em seguida, produzir mais. Além disso, considere-se que o primeiro hiato começa a interagir dentro do próprio setor de bens de produção: O setor siderúrgico deixa de encomendar minérios que deixa de encomendar navios que deixam de consumir combustíveis, etc.; sendo certo que o desemprego será a consequência lógica disto tudo. Finalmente, lembre-se que quando os cidadãos de uma economia global são induzidos a consumir mais e poupar menos, sedo ou tarde o sistema (global) desemboca numa crise.

6-Tudo isto para dizer que ( e antes de Marx, Adan Smith já ensinava isto) não há acumulação capitalista sem restrição do consumo. Esta, a contradição inata do atual modo de produção. Mas não estaríamos acrescentando muita coisa ao que outros autores já disseram, se não enfatizássemos que em função desta contradição inata (crônica), o sistema à medida em que avança – porque ele sempre supera suas crises a partir de um patamar mais alto – vai crescentemente acumulado as condições para a sua própria exaustão (superação).

7-Este patamar mais elevado (uma espécie de queda para cima), é toda a força, todo o mistério e toda a fraqueza do capital. Kalecki, de quem Keynes colheu boa parte de sua próprias teorias, demonstrou que , em sua dinâmica, ao sair de cada crise cíclica, o capital o faz com um nível maior de concentração (fusões, incorporações, etc.) e um patamar tecnológico superior. Sendo certo aqui também que este novo patamar ( mais automação e melhores métodos) vai gerar mais desemprego estrutural, aquele que veio para ficar. Se analisarmos o sistema como um único (planetário), que é como requer esta época globalizada, vamos constatar que na medida em que acumula, concentra, numa ponta, ele exclui na outra. São ações concomitantes e inevitáveis .Os analistas burgueses supõem (mais torcem do que supõem) que o desemprego estrutural – a eliminação definitiva de vagas de trabalho – no setor produtivo pode ser compensado pela abertura de outras vagas no setor de serviço. Isto corresponde a uma dupla ilusão. A primeira, porque também no setor de serviços há uma crescente automação. Segundo, porque fora do setor produtivo

o capital, em si, não acumula. Isto porque, na sua essência, ele só acumula quando transforma Natureza (matérias-primas) e Trabalho (mão-de-obra) em uma nova mercadoria, materialmente falando. Mas isto é tema para um artigo específico. Por hora, basta dizer que mercadoria, materialmente falando, vai impregnar, com sua materialidade, outras mercadorias, inclusive a mão-de-obra, esta mercadoria absolutamente essencial. Já os serviços ( embora possam provocar o enriquecimento individual de seus fornecedores o que não deve ser confundido com acumulação do capital) cessam seu efeito no momento em que é usufruído pelo seu eventual consumidor Não há aqui, portanto, materialização de uma novo capital a partir de um capital/mercadoria anterior. O fato concreto é que o capital só acumula efetivamente, quando ele efetivamente aumenta a sua materialidade, (capital fixo) o que ocorre primordialmente (o ponto de partida) no setor de bens de produção. Dizendo com outras palavras, para que fique bem claro: o capital (sistema global) completa um ciclo de acumulação quando, em dado momento, mais máquinas estão aptas para produzir mais máquinas .Enquanto isto não acontecer, poderá haver muitas transações, com muito consumo, muita destruição da Natureza e enriquecimento de pessoas e empresas . Mas não há acumulação do capital global.

8- Por conta do que foi dito acima, deve ser registrada a enorme distorção provocada pela noção de que o crescimento do BIP mundial ou de países em particular equivale ao mesmo tanto de acumulação capitalista. O BIP registra o aumento (digamos assim para simplificar) do faturamento geral das pessoas, das empresas e dos governos. Fica ai computado, por exemplo, o setor de serviços, onde há muito movimento financeiro, muito gasto pessoal, porém nenhuma acumulação. Já nos tempos de Adan Smith, os fisiocratas franceses ensinavam que “onde há consumo não pode haver acumulação”. São elementos antagônicos que não cabem dentro do mesmo conceito. O que enseja a acumulação é exatamente a ausência de consumo.

9- Entretanto, é dificílimo embutir no raciocínio das pessoas , tão longamente habituadas a essa conclusão automática, a noção de que desenvolvimento econômico é diferente de acumulação do capital. O consolo é o de que, com o avanço das preocupações ecológicas, mundo afora , as pessoas comecem a perceber, automaticamente, que muitas vezes desenvolvimento corresponde a devastação ou destruição de elementos naturais que, em função da apropriação privada, são elementos integrantes do capital e de sua acumulação. Mais uma vez: onde há apenas consumo ou destruição pura e simples, o capital, obviamente, não acumula, embora seu proprietário, cuja visão não vá além de seu próprio bolso num determinado momento, possa supor o contrário. Eis ai um bom exemplo da indispensável articulação entre o pesamento marxista e o ecológico.

10- Se quisermos retornar às coisas mais práticas e imediatas da vida, fica a lição de que não se sai da crise apenas estimulando o consumo, via baixa de juros e de impostos. Isto, embora tenha um custo inflacionário a ser pago mais adiante, ameniza os sintomas e dores da doença e, certamente, fará com que alguns países saiam da crise antes que outros o que é auspicioso, sobretudo em anos eleitorais. Porém (e agora quero dizer um coisa bem simples) o sistema como um todo, só poderá ser dado como restabelecido, depois de que todos os almoços grátis – uma descomunal comilança – forem pagos pelos países centrais, acima de todos, os Estados Unidos. Enquanto isto não for feito, a economia continuará andando de lado, sendo certo que só se poderá dizer que o sistema como um todo voltou ao nível de acumulação anterior à crise, quando o setor de máquinas, equipamentos e insumos atingira um patamar de produção correspondente àquele nível. Lembremos que o capital (como um todo) só pode dizer que acumulou, depois que adquirir a capacidade de acumular mais. E resta o alerta de que se o Brasil, por exemplo, quiser sair antecipadamente e mais forte da crise, ele precisa concentrar suas atenções neste setor de máquinas e equipamentos. O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, felizmente, já demonstrou estar atento para o problema. Entretanto, neste capítulo, quem saiu na frente e já detém quilômetros de vantagem é a China que aproveita o estado letárgico do mercado e o barateamento das commodities para ampliar substancialmente as suas indústrias de base.

19-6-09

Falando Sério II

Quem leu neste blog meu artigo Falando Sério de 23-4, há de lembrar que eu pretendi demonstrar ali que 1- é difícil senão impossível tentar entender as crises do capitalismo – que são cíclicas – sem conhecer os esquemas de reprodução do capital expostos por Marx há 150 anos. 2-Nestes esquemas ele demonstra que a reprodução ampliada do capital (acumulação) só ocorre a partir da ampliação do Capital Constante (máquinas equipamentos e insumos). 3-Tentar, portanto, sair da crise ou procurar adivinhar se já estamos saindo dela, manejando apenas dados sobre aumento (elasticidade) do crédito e do consumo, é conversa para diletantes, ainda que alguns deles ostentem o Premio Nobel de Economia que, de resto ,é concedido por economistas que igualmente jamais leram ou entenderam os textos de Marx, relegados, nos últimos 20 anos, à poeira dos sebos.4- Como resultado desta, digamos, ignorância deliberada ,assistimos, diariamente, à tentativa risível de especialistas que, nos jornais, tentam alternadamente, ora demonstrar que já batemos no fundo do poço, argumentando que há indícios de que as famílias americanas estão consumindo mais, ora tentam advertir que ainda é cedo para fazer qualquer previsão, porque, talvez a crise seja mais profundado que se imagina. Eles não confessam, mas estão tateando no escuro.

Então, se os textos de Marx estiverem certos – e eles estão – só se poderá dizer quer a economia global bateu no fundo do poço e reinicia a subida aos níveis anteriores a setembro de 2008, quando houver dados consistentes sobre a retomada global de investimentos no setor de máquinas e equipamentos.( Não valem, aqui, dados isolados sobre, por exemplo, a China e outros emergentes). Quando isto acontecer, pode-se dizer que se está diante de uma boa notícia. A noticia ruim é a de que esta recuperação plena poderá levar alguns anos (digamos cinco no mínimo) porque a extensão do caminho de volta a ser percorrido é concomitante com o excedente de produção, capacidade de produção, acumulado ( já que as crises cíclicas são sempre de superprodução) durante os recentes anos dourados ( ou seria doidos?) de “exuberância especulativa” que com suas bolhas de consumo sem relação com a economia real, criou a expectativa falsa de que existe a possibilidade de expansão infinita do consumo, através da elasticidade infinita do crédito. Uma bobagem em cima da outra. Seja como for, mesmo que China e emergentes saiam antes da crise e apresentem crescimento exponencial, os países onde a crise teve origem, Estados Unidos, Europa e Japão continuarão amargando crescimento pífio e deverão fazer a devida lição de casa se não quiserem descambar para uma catastrófica estagflação. Porque, como eles gostam de dizer, em economia não há almoço grátis.

Finalmente, para quem quiser garimpar alguns dados que indiquem algum vestígio de recuperação do setor de bens de capital (máquinas e equipamentos) a receita é ficar atento ao aumento de consumo e preço de commodities utilizadas preferencialmente ou exclusivamente como matéria prima nesta área. O cobre, por exemplo.

Até a próxima.

10-6-09

Por que falei da Petrobras
As utopias estão voltando

O meu artigo sobre a CPI da Petrobras “A nau dos insensatos” , de 16-4-09, deve ser considerado como um impulso ou um cacoete deste velho jornalista habituado à crônica política. Isto porque ele foge ao objetivo do meu blog que é o de discutir e aprofundar temas ligados à atual crise econômica global e ao impasse ecológico que se avizinha. E pretendo ir além disso. Pretendo chamar a atenção para o fato de que as velhas utopias que povoaram de generosidade a infância e a juventude daqueles que nasceram em meados do século passado , estão muito mais próximas do que se imagina.
Escrevendo como numa crônica, e não como num texto acadêmico, eu poderia dizer que uma das mais gratas daquelas utopias – a cada um segundo suas necessidades – já estaria técnica e materialmente ao alcance de nossas mãos, se dependesse apenas do estágio tecnológico e do grau de acumulação do capital global. A nossa Bolsa Família, tão elogiada mundo afora, é um bom exemplo. Se conseguirmos imaginá-la em escala global (e esta é a vantagem que uma crônica nos dá), veríamos que se ela fosse aplicada pela comunidade internacional, ao Continente Africano, isto não abalaria minimamente o processo de acumulação capitalista e, ao contrário, proporcionaria o acréscimo, quase imediato de seiscentos milhões de novos consumidores, tão necessários para que as economias industrializadas do Primeiro Mundo saiam da atual crise. Ouso dizer que se fosse vivo, Lord Keynes daria este conselho aos aturdidos governantes americanos, europeus e japoneses, os quais falam demasiado em globalização, mas não exergam um palmo além de suas fronteiras nacionais quando se trata de defender interesses econômicos imediatos e restritos. Além disso, estes dirigentes são aconselhados por economistas neoliberais que vêem na crise apenas o seu aspecto financeiro, que é mero sintoma. Eles não percebem, assim, os fatores subjacentes que desencadearam a crise: fatores que apontam para uma situação generalizada de superprodução, característica das famosas crises cíclicas tão bem examinadas por Marx há cento e cinquenta anos e tão bem esquecidas pelos que supõem que tudo se resolve com a elasticidade (infinita?) do crédito e consequente criação de bolhas de consumo na verdade supérfluo. Aliás, quanto mais esticado (anabolizado) for este consumo artificial, maior será o tombo quando a crise se declara.
Estes são temas áridos, eu bem sei. Mas é impossível não ver, mesmo para um leigo, que o consumo vertiginoso e redundante de produtos totalmente alienados (deslocados) das reais necessidades do homem provocam não apenas as tais bolhas de consumo, mas, principalmente, acarretam, na outra ponta, uma destruição ciclópica de recursos naturais cada vez mais escassos – o impasse ecológico.

Um esclarecimento final: ao me referir à produção redundante de mercadorias, estou falando da atualíssima questão da descartabilidade, quando objetos dos mais diferentes usos, são fabricados para ter uma vida útil mínima ( um ciclo de existência drásticamente mais curto), proporcionando, assim, um giro mais rápido do capital ( mercadorias são prematuramente descartadas para que mercadorias idênticas ocupem seu lugar), capital este que ao acumular mais depressa, provoca, concomitantemente, um saque descomunal – descomunalmente inútil – contra a Natureza.

24-4-09

Para o menor e para o maior, não há almoço grátis

Há seis meses, boa parte dos especialistas acreditava que este velho ditado não combina muito bem com análises e teorias econômicas. Afinal, a potência do planeta fazia e desfazia, gastava como se possuísse a galinha dos ovos de ouro e deixava conta, como que esquecida sobre a mesa, para ser paga por bilhões de anônimos espalhados pelo mundo. De tanto verem a economia norte-americana contrariar todos os manuais, todos foram se habituando com aquilo, que ficou parecendo natural.

E os norte-americanos, acostumados com este bem-bom , alegremente, continuaram gastando mais do que podiam , um verdadeiro milagre. Tudo consistia em emitir , indefinidamente, títulos sem outras garantias ou exigências além de serem “do Tesouro Norte-Americano” o que proporcionava a aura de absolutamente garantido. Afinal, os Estados Unidos eram e são uma potência sem termos de comparação , tanto que sua moeda possui (quase disse possuía) aceitação universal indiscutida, sendo a preferida para transações internacionais e empréstimos. O dólar, portanto, também não precisava de lastro.

Vamos procurar entender isto melhor: durante décadas a moeda norte-americana foi o lastro e a garantia de si mesma , mais precisamente ou de forma quase oficial, a partir de 1971 quando Richard Nixon rompeu com as convenções internacionais escritas ou tacitamente aceitas e comunicou unilateralmente que não se sentia mais obrigado a lastrear novas emissões com o ouro guardado no lendário Fort Knox .

Com outras palavras: o lastro e a garantia da moeda norte-americana passaria a ser a própria economia norte-americana . Esta era tão pujante e, digamos, armada até os dentes , que o mundo aceitou a nova ordem com grande passividade, com exceção dos franceses que procuraram honrar seu nacionalismo gaullista.

Desde então e de forma mais evidente nas últimas três décadas, os americanos sentiram-se à vontade para realizar uma gastança homérica não só com carrões sedentos mas, principalmente com gastos militares para os quais, literalmente, o céu era o limite. Que o digam os soviéticos que, mesmo sem cacife tentaram manter-se vivos na insana corrida armamentista e pagaram a fatura com sua derrocada. Do outro lado Ronald Reagan, o velho canastrão de Hollywood, levava sua Guerra nas Estrelas às últimas consequências e passaria à História americana como “o último grande estadista”.
Durante todo este tempo, até os dias atuais, os descomunais gastos americanos foram sendo pendurados num cabide invisível porém eficiente,para que nos todos pagássemos de acordo com nossa cota parte, o que não impediu que alguns incautos pagassem mais, como foi o caso dos japoneses há duas décadas e poderá ser a dos chineses agora, a menos que eles consigam se livrar de títulos tóxicos americanos que se aproximam vertiginosamente do trilhão de dólares. Enfim, a nação que segundo o consenso unânime não quebraria nunca, não podia quebrar, está quebrando. O tamanho do rombo, segundo Ken Rogof, professor de Harvard e ex-economista chefe do FMI é de prováveis 7 trilhões de dólares, metade do PIB americano ou seis Brasis mais uma Argentina.
Agora vejamos por que as economias quebram, sejam elas pequenas ou grandes. Tomemos o exemplo da Islândia: esta ilha do Atlântico Norte, berço da cantora Björk e conhecida como a nação mais gelada do mundo, conheceu seu “milagre econômico” a partir dos anos 90 do século passado. Na época, seus escassos 300 mil habitantes usufruíam de um sistema de saúde impecável e sua expectativa de vida era a segunda maior da Terra. A energia era fornecida , inusitadamente, pelo calor de duzentos vulcões ativos. A renda per capita era de 25 mil dólares. Uma bela renda, considerando-se, ademais, que a principal atividade econômica do país era a pesca.
Então, a partir do ano 2000, o país é agradavelmente invadido por uma enorme nuvem de capitais especulativos e tem início um inacreditável crescimento econômico, vertiginoso mesmo. Como resultado, em 2007 a renda per capita chegou aos 65 mil dólares. Que milagre é este?! Todavia, os milagres, quase sempre, acabam encontrando um explicação decepcionante. O islandês não era milagre. Era uma mágica besta.

Não obstante, a Islândia até o início do ano passado nos era apresentada pela mídia especializada como a mais nova vitrine a exibir as virtudes do modelo neoliberal. Todos apontavam aquele estrondoso sucesso às privatizações e a drástica desregulamentação da economia, ocorridas na virada do século. Particularmente festejadas, as privatizações dos bancos, funcionaram como uma senha para que o pais trilhasse a senda da prosperidade infinita. E, com efeito, na sequência, a ilha foi rapidamente ocupada por capitais vorazes , nada comprometidos com a produção, mas dotados da fé inquebrantável de que é possível acumular indefinidamente, desde que os governos não se metam e deixem fluir livremente as leis do mercado.

Os novos executivos privados do setor financeiro, agraciados com a regulamentação mínima de suas atividades e articulados (bem relacionados) com a banca internacional, iniciaram, praticamente a partir do nada , uma alavancagem totalmente desproporcional à realidade de suas caixas. Por sua vez, a até então frugal sociedade islandesa foi instigada a cair na farra consumista que, movida a crédito farto, fez a economia dar grandes saltos, quase que exclusivamente no setor de serviços que ,como Marx já sabia, estimula a circulação de capitais, mas não enseja a acumulação do capital em si. Esta acumulação só ocorre nos setores efetivamente produtivos.
Entretanto, em meio à euforia , objetava-se, sem muita convicção, que o crédito fácil e o consumo cresciam concomitantemente com o aumento das dividas, particulares, bancárias e estatais. “Sem problema “ garantiam impávidos executivos. “O importante é garantir o fluxo de caixa”, diziam. Ah, o fluxo de caixa ! Que o digam os executivos da Sadia e da Votorantim.
Enfim, tudo vai bem enquanto tudo vai bem; esta a suprema lei do Mercado. Assim, quando estourou a crise de setembro do ano passado e o crédito bancário congelou instantaneamente mundo afora, a fonte que abastecia o consumo islandês deixou de jorrar. Os três maiores bancos do país faliram com estrondo e foram prontamente estatizados, que é para as tetas da vaca chamada Contribuinte que correm – esta é outra lei do Mercado – os falidos arautos da desregulamentação neoliberal, os mesmos que sentenciavam: o governo já faz muito quando não atrapalha. Resta dizer que o débito dos três bancos falidos era equivalente a dez (!) produtos brutos da Islândia.

Alguma semelhança com a crise norte-americana? Toda. Na verdade, nos utilizamos aqui de um exemplo microscópico para demonstrar como funciona a acumulação capitalista, ancorada, basicamente, no binômio crédito/consumo. Em economia, pois, não há almoço grátis. Um dia a casa cai, seja um iglu nas bordas do Círculo Polar, seja um imponente edifício de Nova Iorque. Quando isto acontece, todos, pequenos ou grandes terão que fazer o dever de casa. E é exatamente isto que, nestes dois últimos dias em Londres – fora dos holofotes, evidentemente – Obama esta ouvindo de seus angustiados sócios (sócios e credores!) do G-20.

Até a próxima.

6-4-09

O Dólar Furado

Quem leu minha coluna do último dia 2, há de lembrar que a conclui dizendo que Obama foi discretamente instado por seus colegas do G-20 , durante a reunião de Londres, a primeiro fazer a lição de casa e consertar a economia norte-americana para, só depois, tentar liderar a arrumação da economia mundial. Este fato, aliás, foi solenemente ignorado pela nossa grande mídia.
Entretanto, os grandes jornais brasileiros não puderam deixar de noticiar , ainda que às escondidas nas páginas internas, que , no dia seguinte à reunião, o presidente Lula proporia ao presidente chinês, Hu Jintao, a adoção de um mecanismo que permitisse a utilização das moedas de seus países no seu comercio bilateral. A proposta traz, implícita, a ideia de destronar o dólar como moeda irrestritamente aceita no comercio internacional. O mais surpreendente, porém, foi a pronta adesão de Jintao ao projeto, tanto que ele e Lula agendaram para as próximas semanas uma reunião entre seus respectivos ministros da fazenda, para tratar do assunto, em Pequim. Recorde-se que desde o ano passado Brasil e Argentina já haviam oficializado este mecanismo bilateral.
Em circunstâncias normais, a proposta de Lula aos chineses não seria levada muito a sério e receberia de seu interlocutor um sorriso oriental com o seguinte significado: será que você está com esta bola toda? Mas o chinês tem fortes razões para agarrar-se a propostas desse tipo. A primeira delas é a de que guarda em seus cofres uma quantidade exagerada de títulos tóxicos norte-americanos. Algo que se aproxima do trilhão de dólares. A segunda razão é ainda mais angustiante: as reservas chinesas em moeda americana já bateram na casa dos 2 trilhões de dólares e cresce à razão de 50 bilhões por trimestre, já que os Estados Unidos são , de longe, os maiores compradores de suas mercadorias. Por tudo isso, ainda em Londres, o presidemte do Banco Central chinês, Zhou Xiaochang, diria que seu país contribuiria para o fortalecimento do FMI (anabolizado na reunião do G-20, com uma injeção de um trilhão de dólares para fazer frente à crise mundial), com a condição de que as obrigações do Fundo fossem denominadas em uma nova moeda internacional. Esta nova moeda seria baseada nos Direitos Especiais de Saque do fundo, tradicionalmente garantidos por títulos do Tesouro americano, agora considerados insuficientes. Na verdade, os norte-americanos vinham bancando o Fundo, desde 1944, quando de sua criação em Bretton Wood e, por esta razão, sempre mandaram e desmandaram nele. O acordo de Bretton Wood pode ser descrito como uma reunião semelhante a esta do G-20 agora realizada em Londres. Com ela instalou-se uma nova ordem econômica mundial que garantiu, no Ocidente e sob a hegemonia americana, três décadas de forte crescimento econômico , dando início aos “anos dourados” do pós-guerra , sendo que, tanto naquela época, como se espera agora, a superação da crise inicial foi obtida graças a uma pesada intervenção estatal, inspirada em Lord Keynes, aquele brilhante economista inglês que ensinou aos burgueses de todo o mundo como consertar com a mão visível do estado, os estragos provocados pela mão invisível do mercado. Mas voltemos ao drama chinês.

“Quem amarra, amarrado está”, dizem os mestres de capoeira e a teoria cabe como uma luva nas relações entre credores e devedores. Há três semanas o presidente chinês já havia proposto a criação de uma nova moeda internacional, em substituição ao dólar. Este tema, com certeza, foi discretamente tratado nos bastidores da reunião do G-20. Tratar do assunto em público, mais do que uma gafe, seria uma catástrofe. Seja como for, Hu Jintao está tentando levar sua ideia adiante, já que as batatas estão cada vez mais quentes em suas mãos. Tudo porque os incautos chineses, abandonando milenar sabedoria, deixaram-se encantar pelo principal símbolo do poderio ocidental, um pedaço de papel tingido de verde.

Quanto a transformação do real em moeda conversível, isto soaria, num primeiro momento, como uma típica” malandragem carioca”, o famoso 171, imortalizado pela antiga lenda da venda de bondes a caipiras paulistas e mineiros. Mas o mundo está, digamos, de cabeça para baixo… Além disso, é preciso reconhecer que a moeda brasileira vem mantendo uma suficiente estabilidade, desde sua criação há quatorze anos pela dupla FHC-Malan. Também não há como ignorar as estatísticas que descrevem apenas oscilações suportáveis da moeda desde 1998, quando foi descongelada. Desde então , ela só uma vez bateu nas três unidades por dólar e raramente veio abaixo de 1,5 unidade. Com a inflação brasileira reconhecidamente sob controle, com confortáveis reservas em moedas estrangeiras e com uma balança comercial que ainda não compromete, parece ser esta a hora de os brasileiros começarem a levar a serio a sua própria moeda.
Mas a proposta de Lula a seu colega chinês não deixa de ser mais uma de suas espertezas. Afinal, ninguém pode dizer com segurança qual será o ritmo e a intensidade das oscilações da nossa moeda nos próximos meses. Enquanto isso, os especialistas são unânimes em afirmar que, cedo ou tarde , a China terá que permitir a valorização de sua moeda, mantida artificialmente abaixo de seu verdadeiro peso, para garantir o estupendo desempenho das exportações chinesas. Quem amarra, amarrado está.

Até a próxima.

29-4-09

O Globo de sempre

Ao retornar da reunião do G-20, em Londres, o presidente Lula disse não entender como o dinheiro do mundo corre para os títulos do Tesouro americano,embora esteja nos Estados Unidos o epicentro da crise.

Em resposta, o Globo,cujo esporte favorito é corrigir o presidente, disse que “a explicação é simples: a segurança jurídica de um país com uma constituição com mais de dois séculos de vigência, que jamais deu calote nos credores – sem falar no tamanho e na capacidade de reação de sua economia”.

Sem falar nos dois primeiros argumentos, para não alongar a discussão, fiquemos com o terceiro tópico do raciocínio. Aqui o Globo parece desconhecer que tanto em Economia quanto nas coisas mais simples da vida, os problemas são sempre proporcionais ao tamanho da pessoa ou entidade que eles afligem, caso contrário não seriam problemas.
Enfim, ninguém está discutindo o tamanho da economia americana e o que parece certo é que o articulista do jornal carioca não avaliou bem o tamanho da crise que atinge os irmãos do Norte. Se quisesse contraditar o presidente, ele poderia ter dito que na verdade o dinheiro do mundo, que não é infinito, já não flui para o Tesouro americano com a mesma espontaneidade de tempos atrás. E isto pode nos estar dizendo que tal tesouro já não possui a fidúcia necessária. Que o digam os chineses, maiores credores dos Estados Unidos na atualidade e que tentam, com indisfarçada angustia, encontrar uma forma de receber a dívida , sem empurrar o devedor para mais perto das bordas do buraco. Buraco este, estimado em 7 trilhões de dólares, proporcionalmente suficientes para serem considerados um magnífico problema.

Nas circunstâncias, Obama deveria anunciar, mas não parece disposto a fazê-lo, um corte radical nos descomunais gastos militares de seu país. Quem emprestaria dinheiro para um lunático que acumula bombas no porão de sua casa, para atacar inimigos que já não existem. Não faz sentido, a menos que ele considere que inimigos venham a ser, eventualmente, os seus próprios credores.

Até a próxima.

17-8-09

O destaque  do dia

29-4-09

O pesadelo chinês

No artigo “O dólar furado” de 6-4, eu afirmava que os chineses estão empenhados em convencer seus principais parceiros comerciais a criarem uma nova moeda (cujo peso corresponderia à média dos valores das principais moedas conversíveis), com o objetivo de substituir o dólar na sua função de principal instrumento das trocas internacionais de mercadorias. Uma nova moeda de aceitação internacional, portanto. Isso porque os chineses têm fortes razões para suspeitar que o dólar, cedo ou tarde, perderá a qualidade de “ moeda padrão “, como se tivesse valor invariável. Tudo, em virtude da monumental crise americana, o que faz com que suas dívidas externa e interna atinjam patamares altamente preocupantes, mesmo em se tratando do maior sistema econômico do planeta. Enfim, como notou recentemente o presidente Lula, todos continuam correndo para as letras do Tesouro americano, como se esta fosse a aplicação mais segura do universo. Será? Se não houvesse nenhuma dúvida sobre isto, os chineses não estariam preocupados. Mas eles estão.

Em todo o caso, os americanos acusaram o golpe chinês e contra-atacaram. No último dia 23, o Washington Post publicou um anúncio de página inteira, onde o U.S. Business and Industry Council ( espécie de Confederação das Indústrias), exige que Obama denuncie a China como manipuladora de taxas de câmbio.

O problema é que os norte-americanos já devem aos chineses em torno de US$ 1,trilhão e a dívida cresce ao ritmo vertiginoso de 50 bilhões de dólares por trimestre. Que ela terá que ser paga, não há dúvida. Mas é importante lembrar que os chineses mantêm sua moeda artificialmente desvalorizada e, com isto, conseguem inundar o mundo com suas mercadorias. Assim, eles vão acumulando saldos fantásticos em sua balança comercial e ficam abarrotados de moedas estrangeiras, principalmente dólares que, por sua vez, são aplicados em letras do Tesouro americano. E Washington vai respirando. Enfim, tudo vai bem enquanto tudo vai bem. Mas esta máxima dos arautos do livre mercado transforma-se em uma bobagem como outra qualquer, quando o próprio mercado inverte os sinais e em mais um de seus sucessivos efeitos manada, torna-se fortemente vendedor. É o momento, como o presente, em que as notas verdes, tão desejadas até a véspera, transforma-se em batatas quentes nas mãos dos chineses e outros credores. Todos gostariam de se desfazer dos incômodos dólares, mas falam baixam e andam pisando em ovos, para evitar que a tempestade vire dilúvio. Em todo o caso, é preciso esclarecer que no Brasil o enfraquecimento do dólar é menos sentido, porque, por razões locais e muito particulares – o fluxo e refluxo de aplicações especulativas -, a moeda americana valoriza-se diante do real, sempre que a Bolsa cai.
Quanto aos chineses, é preciso dizer ainda, que a barateza de suas mercadorias deve-se também à bagatelização de sua mão-de-obra. Na verdade, o país de Mao é hoje o maior quadrilátero de extração de mais-valia do planeta.

Mais-valia, esta palavra esquecida na poeira do tempo, mas que continua significando a forma pela qual extrai-se do trabalhador um excedente de trabalho que não lhe é restituído em forma de salário ou outro benefício qualquer. O excedente é, por assim dizer, plasmando na mercadoria produzida e que não pertence ao trabalhador , seu produtor ,mas ao capital que assim – e só assim – acumula. Já para os trabalhadores chineses não há alternativa para seus ínfimos salários, posto que a outra saída seria permanecer no campo, onde a remuneração mal ultrapassa o nível da subsistência elementar. Em outro contexto valeria a pena levantar e estudar melhor a questão do Impasse Ecológico, em cuja direção a China caminha com determinação oriental. Este impasse se instalaria, quando os setecentos milhões de chineses que ainda vivem no campo fossem transferidos para as cidades, como aconteceu com toda sociedade industrialmente avançada, e começassem a sonhar com um carro (por que não dois?) na garagem.

Até a próxima.

24-4-09

Falando sério

Desde o início deste blog, há 15 dias, já falamos algumas vezes sobre a crise econômica iniciada em setembro do ano passado. Noto agora que ela não recebeu um nome. Como todas as outras , no passado, foram devidamente personalizadas, creio que esta também merece ser batizada: Crise Americana. Dá um certo calafrio, mas me parece adequado, embora possam argumentar que a crise é global. Mas insisto. É global porque é americana.

Pois bem. Até aqui, ao analisarmos esta que é mais espetacular de todas as crises, abordamos apenas os aspectos ligados à macroeconomia burguesa, uma espécie de derivativo da economia clássica inaugurada por Smith e consolidada por Ricardo, para citar apenas os dois grandes vultos dos primórdios da ciência econômica. Confesso que nem sempre consigo levar a sério o macroeconomês da atualidade, encontradiço nas colunas especializadas dos grandes jornais. Muitas vezes me parece estar diante de uma coletânea de obviedades, quase resvalando para a tagarelice, tanto que ao escrever meu livro O Impasse Ecológico e o Terrorismo do Capital, em 2004, procurei , com poucas palavras , cravar minha opinião sobre este amontoado de superficialidades, transformado em ciência desde que nos anos 80,um bando de neoliberais fanáticos tomaram de assalto as academias, mundo afora. Neste meu livro eu dizia: Quando acompanhamos a ação dos ministros da fazenda e dos presidentes de bancos centrais, até parece que eles comandam a economia com segurança e proficiência e que as crises têm sido evitadas graças a eficiência destes profissionais. Contudo, eles só possuem duas alternativas essenciais: inflação ou crescimento medíocre. Como os antigos condutores de bonde, eles só operam com duas alavancas, a do freio e a do acelerador. Sua margem de manobra é, portanto, mínima. Ao primeiro sinal de inflação eles freiam, usando invariavelmente dois instrumentos, aumentos de juros ou de impostos que serão automaticamente reduzidos ante a ameaça de recessão. Mas, convenhamos, para fazer isto não se requer nenhum Delfim Netto, basta um Palocci.

Um dia, se houver tempo, falaremos aqui do Meirelles e suas trapalhadas que condenaram o Brasil a não colher os frutos possíveis nos anos deleitosos de 2002 a 2008, quando o presidente Lula poderia, efetivamente, ter revivido JK e comandado um crescimento superior a 6% ao ano. Durante todo este tempo, o mundo mandou para cá caminhões de dólares, mas tudo virou fumaça, que é o destino em última instância de toda aplicação especulativa. Enfim, quem seria tolo suficiente para investir no setor produtivo de um país cujo governo pagava juros reais de 15% ao ano e onde os empréstimos pessoais rendem 10% ao mês. E dizer que a esta agiotagem escancarada dava-se o nome de “política monetária consistente”.

Ainda agora, o respeitado professor Ricardo Haismann da Universidade de Harvard, revelava seu pasmo, durante o Fórum Econômico Mundial no Rio, dizendo que o Brasil é um quebra-cabeça, pois recebe enormes volumes de capital internacional e poderia crescer a 7% ao ano, mas não cresce.
Já o supracitado Delfim Netto, sempre arguto, define em sua página na Carta Capital da última semana de março: a tragédia é que os movimentos do Banco Central sempre foram na direção correta, mas, invariavelmente, atrasados e homeopáticos .

Durante a longa noite neoliberal, também conhecida como “a vingança do capital”,alguns textos clássicos foram relegados, primeiro ao ridículo, depois ao esquecimento. Porém, para falar sério, é fundamental que se compreenda o mecanismo cíclico das crises capitalistas. Para isto, perdão, é indispensável recuperar, nas empoiradas prateleiras, um certo livro de um certo Karl Marx. Não – tenham calma por favor -, eu não vou iniciar nenhum proselitismo de alguma revolução leninista. Só pretendo ajudar a entender a Crise Americana.

Então, no livro II de O Capital, Marx descreve com precisão e desconcertante simplicidade, a inevitabilidade e o caráter cíclico das crises do modo de produção capitalista e de seu processo de acumulação. Advirta-se, porém, que ele demonstrou a inexorabilidade e não a exata periodicidade destas crises, embora muitos especialistas tenham-se habituado a supor que elas ocorreriam mais ou menos a cada dez anos, umas suaves, quase imperceptíveis, outras tenebrosas, como a atual.
Em seus textos, Marx, para expor a mecânica da acumulação, primeiro divide o modo de produção capitalista em dois departamentos essenciais, o I que produz bens de produção (insumos e instrumentos ou máquinas para a indústria e a agricultura) e o II onde se encaixam os produtores de bens de consumo ( alimentos, roupas, remédios, carros de passeio, eletrodomésticos, etc.).
Feito isto, ele montou dois esquemas, um para demonstrar a reprodução simples do capital, quando não há acumulação, mas apenas reposição dos elementos materiais gastos em um giro do processo produtivo; o outro revela a reprodução ampliada, quando se dá a acumulação ou seja, o retorno do capital que após o giro produtivo, retorna acrescido ao bolso do capitalista.

Mais tarde, em outros textos, poderemos aprofundar e dar maior precisão a este fenômeno que passa por uma espécie de segredo da acumulação, o da extração da mais-valia que é obtida de forma oculta, pelas costas do trabalhador. Neste momento, entretanto, ficaremos apenas com a parte relativa aos esquemas.

Então, quem sempre dá o primeiro passo , materialmente falando, é o Produtor Ia. Ele pertence ao Departamento I (bens de produção), mas tem uma característica própria: produz bens de produção destinados a produzir outros bens de produção – máquinas produzidas para produzir mais máquinas. Isto diferencia o produtor Ia do produtor Ib que produz bens de produção destinados a produzir bens de consumo – máquinas produzidas para produzir tecidos, por exemplo. Este Ib, portanto, pode fazer encomendas tanto no seu próprio Departamento I, adquirindo máquinas operatrizes, em Ia, com no Departamento II, onde adquirirá bens de consumo para o capitalista e para seus trabalhadores.
Muito bem: em determinado momento, os produtores Ia, instigados por encomendas dos produtores Ib, decidem produzir mais máquinas e contratam mais trabalhadores que demandarão mais bens de consumo, produzidos, como já vimos no Dep. II. O trem apitou e partiu.
Sempre de forma simplificada, diremos agora que, agraciado com novas encomendas, o Departamento II trata de contratar mais trabalhadores e, principalmente, encomenda mais máquinas junto ao Departamento I. O trem ganha velocidade.

Seria bom se tudo continuasse assim, indefinidamente. Mas não é o que ocorre. Tudo porque , em dado momento, os produtores do Dep. I (lembremos que o movimento inicial é sempre deles) percebem ou imaginam que o mercado está superaquecido. Os estoques estão abarrotados e, em função disso, novas encomendas, tanto em I como em II diminuem ou são canceladas. É o que chamo de hiato de consumo que é consequência da crise de superprodução. Mas por que ela é cíclica?
Em primeiro lugar, porque em algum momento ao longo de, digamos, dez anos, embora não simultaneamente, os produtores Ia e Ib terão que adquirir novas máquinas para substituir as antigas já desgastadas ou que se tornaram obsoletas. Este, pode parecer um movimento rotineiro, mas não é. Na verdade, ele representa o ponto de partida de um novo giro (ciclo) produtivo. Sem ele não haverá acumulação É por isto, aliás, que se pode dizer que o capital só acumula, verdadeiramente, quando se transforma em bens de produção, chamados por Marx de capital constante. É aqui e só aqui, que o sistema adquire capacidade efetiva para produzir mais, para reproduzir-se de forma ampliada. Em todos os outros setores ele, a rigor, é apenas consumido.

O fundamental, contudo, é fixar a noção de que os produtores do Dep. I terão, de tempos em tempos, que decidir entre apenas renovar sua maquinária. Isto pode acontecer, digamos, a cada dez anos, sem nos fixarmos religiosamente neste número. Este seria o espaço de tempo durante o qual todo o parque industrial (suas máquinas operatrizes) terá que ser substituído, não simultaneamente, é claro . Mas pode-se dizer que todo ano é o ano da morte e do renascimento de parte substancial da indústria. Agora, temos que nos deter um pouco mais no Departamento I que comanda o processo. Então, verificaremos que os produtores Ia e Ib reduzirão, por um certo período, seus gastos com consumo pessoal e aplicam mais capitais na aquisição de novas máquinas, equipamentos e até instalações. Como é fácil verificar, durante este período, curto que seja, tais capitais circularão apenas no Departamento I. As compras no Departamento II ( produtor de bens de consumo) são canceladas ou fortemente reduzidas . Na sequência , como que movido por uma mola, este Dep. II devolve a peteca para o Dep. I e, posto que produzirá menos , cancela ou reduz as compras de máquinas e insumos, junto ao Dep. I. Esta dado, assim, o hiato de consumo a que nos referimos acima. N continuidade, como num efeito cascata, o Dep. Constata qua suas novas máquinas estão condenadas à ociosidade e, por precausão reduzusem os gastos com consumo. Assim , estoques invendáveis começam a se acumular e declara-se uma crise de superprodução.

Esta é a essência inexorável da crise capitalista, variam apenas a sua intensidade e sua periodicidade, o intervalo de tempo entre duas crises . Estas variáveis, contudo, pertencem à superfície do processo e, por serem mais vis, passam a ser o único objeto de estudo. Nestas épocas aparecem os peritos, especializados nas receitas de como contornar ou protelar as crises. Na verdade, eles trabalham, como veremos, apenas com os sintomas e têm o hábito de confundir gastos com prosperidade . Então eles liberam o crédito e estimulam o consumo por todos os meios. As bolsas , os mercados futuros e os derivativos começam a bombar. Até que… Note-se que toda grande crise é imediatamente antecedida de uma euforia de mercado de dimensões proporcionais às dela. Na verdade, este magos da macroeconomia ignoram a noção elementar ensinada pelos fundadores da ciência econômica que, muito antes de Marx, já diziam não há acumulação sem prévio período de parcimônia que enseja a bendita poupança, sem a qual não há aumento efetivo dos setores efetivamente produtivos (máquinas, equipamentos e insumos)ou seja, não há acumulação capitalista.

Antes de seguirmos adiante , um esclarecimento necessário: quando dissemos, parágrafos acima, que os produtores de máquinas , para aumentar sua produção devem restringir o consumo, isto não deve ser tomado ao pé da letra. É evitende que um industrial não vai deixar de almoça só porque pretende ampliar sus instalações. O que é preciso ter em vista é um processo global, um sistema único , dentro do qual, em determinados instantes, capitais genéricos são desviados da rota do consumo para convergir para o incremento do processo efetivamente produtivo. Ocorrerá, então o fenômeno da superprodução, porque, como não admite peias, o mercado só nota o seu próprio excesso quando engasga.

Vista de forma global (universal), a dura realidade – com Keynes ou sem Keynes, com ou sem inflação – é que a economia só volta a crescer, efetivamente, quando a produção for compatível com o nível de consumo ou seja, quando os estoques excessivos forem queimados. Só então o trem partirá novamente. Até lá, o capital terá que cortar na própria carne, destruindo estoques, empregos e até mesmo máquinas e instalações, aplainando, assim, o terreno para uma nova fase de crescimento.
Contudo, na saída da crise, a nova fase expansionista ,há uma corrida às compras , porque os preços relativos estão mais baixos, em função da capacidade ociosa que se instalou no sistema ou seja, o sistema – agora no sentido inverso – só se dá conta, com algum atraso, de que pode voltar a crescer. É quando os sinais são trocacados e superprodução vira subconsumo.

Nestes momentos, as políticas keynesianas podem, efetivamente, fazer com que alguns países liderem a retomada do crescimento. Mas aqui, já não estamos vendo o sistema como um todo em seu mecanismo mais essencial, e sim casos nacionais particulares. Seja como for, nesta fase, as lições de Keynes não devem ser descartadas.

Falta esclarecer que as crises sempre eclodem em primeiro lugar no setor financeiro, onde são infladas as bolhas especulativas. Contudo, o estouro financeiro é apenas, como já vimos, o sintoma, a febre (altíssima no presente momento). A verdadeira causa é subjacente e diz respeito à superprodução.
Nas crises menores , localizadas geograficamente ou por setor de produção, já se pode notar a insensibilidade do sistema/mercado e seu completo descolamento em relação as reais necessidades do homem. É quando assistimos à perversa destruição de gigantescas quantidades de alimentos, por exemplo, com o propósito simples de elevar os preços.

Isto, entretanto, discutiremos em outro texto. Agora, quero lembrar que Obama já gastou dois trilhões de dólares, fora os 700 bilhões gastos por Bush e o trilhão conseguidos junto a seus sócios do G-20, na reunião de Londres, na primeira semana de abril. Tudo isso, para tentar salvar instituições financeiras tecnicamente quebradas, embora ele diga que não quer jogar o dinheiro do contribuinte num saco sem fundo. Como os teóricos keynesianos estão mortos ou no ostracismo, o poderoso presidente não tem a que recorrer, senão aos conselhos de petulantes neoliberais, os mesmos que conduziram a crise ao estágio atual. E eles já anunciam (23 de abril) que serão necessários mais quatro trilhões de dólares para tirar a vaca bancária do brejo, enquanto o FMI estima que os EUA amargarão, este ano, uma depressão econômica de 2,9% , enquanto Europa e Japão verão seus PIBs despencar 4%.

Nos anos 30 do século passado, com Roosevelt – o populista -, os norte-americanos se reergueram dos destroços da grande crise, investindo maciçamente nas camadas pobres de sua população, criando frentes de trabalho onde aparentemente não havia trabalho a ser realizado ( os famosos buracos keynesianos descritos de forma radical como aqueles que são abertos por uma turma, apenas para que outra venham fechá-los). No pós-guerra, os mesmos americanos, conseguiram reerguer – e talvez salvar – o mundo capitalista – apostando e jogando pesado na reconstrução da Europa devastada. Era o Plano Marshal, também de inspiração keynesiana.
Se fosse vivo, talvez Keynes sugerisse, hoje, que pelo menos uma pequena de todos estes trilhões que estão sendo lançados em um buraco negro, fossem usados – não por questões humanitárias, que isto nem passa pela cabeça dos homens de mercado – para livrar a África do presente holocausto. Seria uma idéia plausível, cordata. O problema é que a Míriam Leitão e o Sardemberg iriam denunciá-la como mais um absurdo heterodóxico. Até já os estou vendo verberar:
_ Se já não bastassem o Lula, o Chávez e os Kirchner, agora inventam este populismo globalizado.

Até a próxima.

7-7-09

Dez degraus para
entender esta crise

Não quero, absolutamente, ser grosseiro com a Míriam Leitão. Minha birra com relação a ela se deve ao seus textos, mais precisamente ao estilo professoral e impositivo. No mais, creio que ela pessoalmente seja um simpática jovem senhora e boa colega, como me informam. O problema é que ela é paradigma de uma geração de jornalistas que incorporou, ao seu jeito de pensar e de escrever, algumas “verdades absolutas”, verdadeiros axiomas, que não são verdades nem absolutas. São – ou melhor, eram – fugazes imposições de um jeito fugaz de interpretar a economia e, por conta disso, a política e a vida: o jeito neoliberal ou, se quiserem, o modo como o Mercado passou a impor os seus pontos de vista a partir da crise que culminou com a derrocada da ex-União Soviética

Seja como for, Míriam me surpreendeu quando, em sua coluna do último dia 3 de julho disse que ainda não conseguiu entender a atual crise econômica “tão diferente” das outras. Em função disso, resolvi alinhar os dez primeiros passos a serem dados, segundo penso, para quem quiser digerir esta crise que, por suas dimensões e intensidade poderá significar o início de uma fase pós capitalista. Não que o atual modo de produção vá acabar amanhã. Mas é possível que , mais tarde, os historiadores apontem este período como o marco inicial de uma etapa de esvaecimento – gradual – do modo de produção e de consumo que se impôs ao mundo (e também não fez isto de uma hora para a outra) nos últimos trezentos anos. É claro que não pretendo dar uma de professor, mas escrevo com a segurança mínima de quem, nos últimos vinte anos debruçou-se sobre os textos marxistas, ironicamente, para tentar entender o fracasso soviético e acabou redescobrindo os mecanismos essenciais da acumulação capitalista que, por suas vez, gera , inexoravelmente, crises cíclicas de todos os tamanhos, inclusive as gigantescas como a atual. Então:

1- As crises econômicas cíclicas, todas elas, são crises de superprodução, embora os primeiros sintomas geralmente ocorram durante o estouro das bolhas especulativas no setor financeiro e se alastrem, na sequência, pelo setor imobiliário.

2- O desencadeamento das crises se dá, invariavelmente, a partir do que chamo de hiato de consumo (ver meus artigos na coluna “Para entender a crise” do meu blog) que se inicia, invariavelmente no setor de máquinas e equipamento, ou bens de capital ou, ainda, capital constante, no jargão marxista.

3- Este primeiro hiato (estacamento de encomendas) se dá quando o setor de máquinas e equipamentos deixar de comprar máquinas, equipamentos e insumos com os quais iria produzir mais máquinas, equipamentos e insumos. É por isto que , pelo menos os que entendem minimamente do assunto, dizem que o setor de bens de capital é o primeiro a entrar e o último a sair das crises econômicas.

4- Como numa reação em cadeia, este primeiro hiato desencadeado por produtores de máquinas, equipamentos e insumos (capital contante ou aquele capital que produz outros capitais) se propaga para os demais setores da economia. O economista burguês que só enxerga a superfície do fenômeno (os sintomas) dá a todos estes fatores concomitantes o nome genérico , simplificador, de “efeito manada”, o que é uma boa denominação, mas, em si, não explica nada.

5- Para quem nunca leu ( faz questão de não ler) os textos de Marx tudo isto tornar-se incompreensível e eles ficam imaginando que uma fada madrinha teria avisado aos produtores de bens de capital e insumos que haveria no mercado mais mercadorias do que demanda efetiva, o que levaria estes produtores a moderar ou suspender encomendas com as quais produziriam mais máquinas equipamentos e insumos. Mas não é isto. O que há é que a restrição de consumo (o hiato) decorre da necessidade de investimento. Investimento este que, a menos que se recorra novamente à fada madrinha, decorrer, obrigatoriamente, da restrição ao consumo. Não se imagine que um magnata produtor de aço vá deixar de almoçar só porque resolveu instalar mais um alto forno. Mas ele deixa de comprar jatos executivos, iates , coberturas, diamantes, etc. É claro ainda que esta simples e partircular restrição de consumo não explica a crise. Entretanto, a gente começa a entender melhora a coisa quando imagina que existem centenas de milhões de pequenos e médios produtores de bens de produção e, simultaneamente de consumo (agricultores e extrativistas, por exemplo) que também, em dado momento, precisam poupar, para, em seguida, produzir mais. Além disso, considere-se que o primeiro hiato começa a interagir dentro do próprio setor de bens de produção: O setor siderúrgico deixa de encomendar minérios que deixa de encomendar navios que deixam de consumir combustíveis, etc.; sendo certo que o desemprego será a consequência lógica disto tudo. Finalmente, lembre-se que quando os cidadãos de uma economia global são induzidos a consumir mais e poupar menos, sedo ou tarde o sistema (global) desemboca numa crise.

6-Tudo isto para dizer que ( e antes de Marx, Adan Smith já ensinava isto) não há acumulação capitalista sem restrição do consumo. Esta, a contradição inata do atual modo de produção. Mas não estaríamos acrescentando muita coisa ao que outros autores já disseram, se não enfatizássemos que em função desta contradição inata (crônica), o sistema à medida em que avança – porque ele sempre supera suas crises a partir de um patamar mais alto – vai crescentemente acumulado as condições para a sua própria exaustão (superação).

7-Este patamar mais elevado (uma espécie de queda para cima), é toda a força, todo o mistério e toda a fraqueza do capital. Kalecki, de quem Keynes colheu boa parte de sua próprias teorias, demonstrou que , em sua dinâmica, ao sair de cada crise cíclica, o capital o faz com um nível maior de concentração (fusões, incorporações, etc.) e um patamar tecnológico superior. Sendo certo aqui também que este novo patamar ( mais automação e melhores métodos) vai gerar mais desemprego estrutural, aquele que veio para ficar. Se analisarmos o sistema como um único (planetário), que é como requer esta época globalizada, vamos constatar que na medida em que acumula, concentra, numa ponta, ele exclui na outra. São ações concomitantes e inevitáveis .Os analistas burgueses supõem (mais torcem do que supõem) que o desemprego estrutural – a eliminação definitiva de vagas de trabalho – no setor produtivo pode ser compensado pela abertura de outras vagas no setor de serviço. Isto corresponde a uma dupla ilusão. A primeira, porque também no setor de serviços há uma crescente automação. Segundo, porque fora do setor produtivo

o capital, em si, não acumula. Isto porque, na sua essência, ele só acumula quando transforma Natureza (matérias-primas) e Trabalho (mão-de-obra) em uma nova mercadoria, materialmente falando. Mas isto é tema para um artigo específico. Por hora, basta dizer que mercadoria, materialmente falando, vai impregnar, com sua materialidade, outras mercadorias, inclusive a mão-de-obra, esta mercadoria absolutamente essencial. Já os serviços ( embora possam provocar o enriquecimento individual de seus fornecedores o que não deve ser confundido com acumulação do capital) cessam seu efeito no momento em que é usufruído pelo seu eventual consumidor Não há aqui, portanto, materialização de uma novo capital a partir de um capital/mercadoria anterior. O fato concreto é que o capital só acumula efetivamente, quando ele efetivamente aumenta a sua materialidade, (capital fixo) o que ocorre primordialmente (o ponto de partida) no setor de bens de produção. Dizendo com outras palavras, para que fique bem claro: o capital (sistema global) completa um ciclo de acumulação quando, em dado momento, mais máquinas estão aptas para produzir mais máquinas .Enquanto isto não acontecer, poderá haver muitas transações, com muito consumo, muita destruição da Natureza e enriquecimento de pessoas e empresas . Mas não há acumulação do capital global.

8- Por conta do que foi dito acima, deve ser registrada a enorme distorção provocada pela noção de que o crescimento do BIP mundial ou de países em particular equivale ao mesmo tanto de acumulação capitalista. O BIP registra o aumento (digamos assim para simplificar) do faturamento geral das pessoas, das empresas e dos governos. Fica ai computado, por exemplo, o setor de serviços, onde há muito movimento financeiro, muito gasto pessoal, porém nenhuma acumulação. Já nos tempos de Adan Smith, os fisiocratas franceses ensinavam que “onde há consumo não pode haver acumulação”. São elementos antagônicos que não cabem dentro do mesmo conceito. O que enseja a acumulação é exatamente a ausência de consumo.

9- Entretanto, é dificílimo embutir no raciocínio das pessoas , tão longamente habituadas a essa conclusão automática, a noção de que desenvolvimento econômico é diferente de acumulação do capital. O consolo é o de que, com o avanço das preocupações ecológicas, mundo afora , as pessoas comecem a perceber, automaticamente, que muitas vezes desenvolvimento corresponde a devastação ou destruição de elementos naturais que, em função da apropriação privada, são elementos integrantes do capital e de sua acumulação. Mais uma vez: onde há apenas consumo ou destruição pura e simples, o capital, obviamente, não acumula, embora seu proprietário, cuja visão não vá além de seu próprio bolso num determinado momento, possa supor o contrário. Eis ai um bom exemplo da indispensável articulação entre o pesamento marxista e o ecológico.

10- Se quisermos retornar às coisas mais práticas e imediatas da vida, fica a lição de que não se sai da crise apenas estimulando o consumo, via baixa de juros e de impostos. Isto, embora tenha um custo inflacionário a ser pago mais adiante, ameniza os sintomas e dores da doença e, certamente, fará com que alguns países saiam da crise antes que outros o que é auspicioso, sobretudo em anos eleitorais. Porém (e agora quero dizer um coisa bem simples) o sistema como um todo, só poderá ser dado como restabelecido, depois de que todos os almoços grátis – uma descomunal comilança – forem pagos pelos países centrais, acima de todos, os Estados Unidos. Enquanto isto não for feito, a economia continuará andando de lado, sendo certo que só se poderá dizer que o sistema como um todo voltou ao nível de acumulação anterior à crise, quando o setor de máquinas, equipamentos e insumos atingira um patamar de produção correspondente àquele nível. Lembremos que o capital (como um todo) só pode dizer que acumulou, depois que adquirir a capacidade de acumular mais. E resta o alerta de que se o Brasil, por exemplo, quiser sair antecipadamente e mais forte da crise, ele precisa concentrar suas atenções neste setor de máquinas e equipamentos. O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, felizmente, já demonstrou estar atento para o problema. Entretanto, neste capítulo, quem saiu na frente e já detém quilômetros de vantagem é a China que aproveita o estado letárgico do mercado e o barateamento das commodities para ampliar substancialmente as suas indústrias de base.

Até a próxima.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

16 Comentários leave one →
  1. robertocarlosrangel permalink
    10/06/2010 3:53 pm

    Muito bem visto, Chico. Muito ainda terá que ser descortinado nesse cenário que sempre sobreviveu da maquiagem(mackup) a que nos obrigaram assistir esses mau-feitores da politicagem estrangeira. Com responsabilidade, o Brasil tem que se impor, ocupar seus espaços e agir com independência e soberania se quiser, um dia, gozar de algum verdadeiro prestígio na política mundial. E assim, vamos quebrando alguns grilhões que teimam em nos manter de pires na mão ante a soberba de alguns países hegemônicos.
    Blog: http://bit.ly/7h7t0

  2. 27/09/2010 7:10 pm

    Bom assunto. Tópicos sobre a crise chamam-me a atenção. Com o mesmo em mente criei um artigo do gênero ainda ontem:
    http://ikunumistas.wordpress.com/2010/09/26/crise-economica-catastrofe-alimentar-malthus/

  3. Tania R Guimaraes permalink
    13/11/2010 12:25 am

    nao acredito que venha nenhum choque, porem sim alguns reajustes e promocao de reformas. nada de medinhos nem de comparacoes e paralelos onde nao existe

  4. Tania R Guimaraes permalink
    22/11/2010 1:22 pm

    Infelizmente nao conegui ler tudo pois tenho de sair para o trabalho. Mais li o suficiente para detectar algo que geralmente vejo como sendo um equivoco. Tratase de uma significativa anulacao em quando se define a funcao interna da economia USA. Muitos ou ao conhecem, ou nao acham importante o fator subsidio nos USA, eu sim. Mesmo nao sendo uma economista, eu leio muito a respeito destes subsidios por curiosidade e interesse social.
    Eu nao acho que ele afeta tanto fora de USA, mais nao tenho certeza e por isto gostaria de saber de alguem que saiba mais que eu.
    Aqui nos USA, onde vivo, trabalho e estudei por muitos anos, todas as grandes iniciativas privadas sao subsidiadas pelo governo. Parece que fora daqui so se discutem as grandes industrais e os grandes negocios como sendo beneficiados por este subsidio. Porem todos os grande empreendimentos internos tambem sao altamente subsidiados. Em contra mao todos os chamados servicos publicos USA sao, em parte bancados por quem paga imposto duas vezes. A primeira vez quando paga o imposto, a segunda quando usa o servico. Eu sei, por exeplo que: Quando vou tirar uma carteira de identidade no Brasil, ou tratar de CPF irregular eu pago uma taxa. Mais ela e insignificante comparados com o que pagamos aqui.
    Aqui as universidades estaduais sao pagas pelo estudante. elas custam um terco das particulares, mais as particulares sao bem caras, entao este terco pesa. Pagamos o transporte publico e bem caro. Pagamos pela coleta de lixo, e bem caro. So nao pagamos por da queixa na policia ou usar a biblioteca. O resto pagamos e pagamos alto. O mesmo ocorre quando compramos qualuqer produto ou servico. Os donos receberam super vantagens em formas de isencao de impostos, ou emprestimos de juros irrisorios, presentes como propriedade, etc. E depois pagamos pelo produto ou servico.
    A respeito do almoco gratis. leiam um livro que tem o titulo; Free Lunch. nao tenho aqui o nome do autor ou editora. Veras que nao so o almoco e de graca, mais e um verdadeiro banquete.

  5. 17/06/2011 9:09 pm

    É público e notório que o problema fiscal americano está nos gastos militares do país. O custo de manter duas guerras simultâneas foi muito elevado, em um momento em que a economia americana não cresceu, e isso culminou com o estouro da bolha imobiliária, que deixou exposto um outro eixo crucial da irresponsabilidade financeira dos gestores macoreconômicos da era Bush: A desregulamentação do sistema financeiro americano.

    Como a maior parte das reservas mundiais está em dólares, isso não significa risco à economia americana no curto prazo pois eles contam com financiamento ilimitado para o déficit fiscal. Contudo, com a contínua corrosão do dólar frente as outras moedas, os bancos centrais dos países que estão atualmente acumulando reservas, como China e Brasil, podem decidir alterar a composição de suas reservas internacionais, aplicando em outras moedas e ativos e desta forma reduzindo os custos de carregamento de suas reservas, que é definido pelo diferencial de suas próprias taxas de juros e das taxas de juros americanas, as quais são atualmente negativas em termos reais.

    É preciso compreender que esta é uma mudança de longo prazo, que depende não apenas da vontade destes países mas também da oferta de ativos substitutos. A alta do ouro nos mercados internacionais pode dar uma indicação de movimentos similares a estes, pois em tempos de corrosão do dólar o bom e velho metal se mostra como um porto seguro para aplicações. Porém a oferta mundial de ouro é limitada, e pressões de demanda sobre a cotação do metal podem trazer outros tipos de desequilíbrios macroeconômicos.

    Investir em ativos nacionais também não é uma saída viável para países como China e Brazil, o que poderia levá-los a sofrer de males macroeconômicos como a doença holandesa, mal indesejável para exportadores que poderíam ver o crescimento da inflação em seus países.

    O fato é que a irresponsabilidade fiscal americana releva que num mundo multipolar não há espaço para um único xerife mundial nem para uma única moeda de conversão global, é preciso que as nações compreendam este recado e uma nova ordem econômica mundial seja pactuada, o que passa pela revisão de Breton Woods e do peso relativo das nações em instituições como o Bando Mundial e o Fundo Monetário Internacional.

    Como consequência dessa nova ordem econômica, surge também a necessidade de construção de uma nova ordem geopolítica mundial, onde o multilateralismo ganha maior peso, instituições como a ONU e OMC tem um papel mais relevante e as disputas tendem a ser resolvidas através de negociações diplomáticas e não pela pressão militar.

    Mas como tudo na política, são mudanças lentas. Não será rápida a transição para este contexto multilateral onde o G7 dá lugar ao G20, tampouco será sem crises.

  6. 06/08/2011 8:18 pm

    Análise e conclusões ‘perfeitas’ (se é q podemos usar esse termo rs)
    Aqui: http://www.fooledbyrandomness.com/souk.pdf 1 contraponto referente à 1 das características implícitas dos Mercados, sua volatilidade e a forma c/q a mesma poderia ser tratada, forma em geral desprezada pelas abordagens ortodoxas e neoliberais

  7. 17/11/2011 3:18 am

    Tudo isso confirma, em parte, meus temores em http://pt.shvoong.com/social-sciences/1848092-caiu-wall-street-caiu-caiu/ . Dá gosto e exercita o raciocínio quando lemos jornalistas como Francisco Barreira.

    • Glosvalda permalink
      12/01/2012 9:18 pm

      Né?Dá um nó no meu juízo,mas eu adoro!Sempre que acabo de ler uma escrita dele,corro pro botão de seguir…aí vejo que já sigo,há seculos! Ô caba bom! E sempre diz a que veio!

  8. Carlos Pommer JR permalink
    05/03/2012 11:20 pm

    Velha ladainha de sempre, que o vilão são os bancos. Neoliberalismo, que nunca houve na prática, só na cabeça de quem não observa que os governos se intrometem direto na economia.
    Mas qualquer um sabe que se gastar demais e quiser manter seu padrão de consumo, vai ter de pedir empréstimo a bancos. É facílimo não precisar de banco, basta só gastar o que ganha. E principalmente um pouco menos para formar uma poupança.
    Acontece que os governos não fazem isso. E para conseguir gastar mais do que arrecadam, têm de aumentar a base monetária ou pegar dinheiro emprestado. Acontece que aumentar a base monetária gera inflação, corroendo o valor do dinheiro. A outra saída é pegar dinheiro emprestado com bancos. Só que existe um limite para isso. O que existe hoje é um cuidadoso equilíbrio de oferta e demanda de dinheiro entre governo e bancos.
    O que aconteceria se o governo brasileiro gastasse só o que arrecada?
    Muitos comentaristas econômicos de esquerda ficariam muito mal. Não teriam mais como reclamar do maléfico setor financeiro internacional.
    Muda o disco. Pede para a Dilma gastar apenas do que arrecada. Aliás, menos, para poder pagar a dívida que está aí.

    • carlos roberto lopes permalink
      15/05/2012 8:14 am

      gostei de ler o texto acima a grande verdade e que concordo plenamente e e claro que crise so se combate com produçao e nao juros cada ves mais alto afinal especulaçao nao deixa paiz nenhum rico parabens pelo texto tambem acho que o capitalismo esta demorando pra ter uma restruturaçao pq a continuar assim o mundo vai cada ves pior ou seja cada ves mais pobre um abraço

  9. Aias permalink
    15/06/2012 2:08 pm

    Achei muito interessante o artigo principalmente quando você aborda o ponto crucial do capitalismo que tanto Marx citou que é a tendência da taxa de queda do lucro no sistema capitalista. Porem você não elencou no seu artigo as sugestões que o próprio marx trabalhou. O Marx sugeriu entorno de 6 fatores de compensação. Será que você poderia trabalhar estes tópicos no seu próximo artigo.

    Aias – BH

  10. Andrea S.de Loreto permalink
    17/06/2012 9:47 pm

    Um análise clara onde você demonstra que, desenvolvimento econômico é diferente de acumulação do capital. E que esse desenvolvimento está, intimamente ligado à devastação (ou extinção) dos recursos naturais em prol de poucos, e em detrimento da humanidade. Minha definição para o que acontece é APROPRIAÇÃO INDÉBITA. Adorei o artigo, nada a responder, vim aqui aprender. Abraços. Andrea S. de Loreto @deinhaloreto

  11. Octa permalink
    03/07/2012 7:41 pm

    “mais valia” é oque o governo consumindo quase 40% do PIB tem feito com nos brasileiros, e vai alem do ” chao de fabrica”, mas no solo desse pais! O capital perde densidade de valor mas isso reflete nos precos de prodtuos e serviços, teoricamente tambem se tornam mais baratos. O capital nao tem como crescer infinitamente, a riqueza do mundo multiplicou mais de 20 vezes em 30 anos, se for pegar o valor financeiro que existe hoje se poderia comprar 4 vezes o nosso proprio planeta – entao, claro que vai vir crise, tem capital excedente para investimento, a concentracao de renda é que me parece ser um grande problema, trava o fluxo de distribuicao de riqueza. Mas enfim, distribuir renda e aumentar consumo, totalmente contra metas ambientais e de sustentabilidade, a verdade é que o modelo como um todo é predatorio e uma hora nao vai ter como se expandir!

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