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Terras do Sem Fim

O  filme  Amanhecer  é uma droga.
E o Ministério da Cultura também

07-12-11

Em algum momento da discussão, alguém diz: É uma questão de gosto.

OK. Eu não gosto do filme Amanhecer, o quarto e último da saga Crepúsculo. Muita gente  não gosta e  muitos decepcionaram-se  no cinema. Foram ver porque é um campeão mundial de bilheteria e foi lançado do Brasil simultaneamente em 1.200 salas, a metade  de todas as disponíveis no País.

E o filme realmente é uma droga. Tanto que na primeira semana foi visto por cinco milhões de pessoas, movidas pela publicidade e pela superexposição.  É um recorde absoluto. Jamais um filme brasileiro conseguiu chegar perto disso. Mas na segunda semana, Amanhecer foi assistido por menos de um milhão. Sinal de que é uma droga mesmo.

 Então, vamos lá: Gosto não se discute… Mentira e bobagem. Cinema não é uma questão de gosto apenas. É uma questão de cultura que é uma questão política, social e econômica. Mais precisamente, é uma questão  industrial e de mercado. É claro que cinema é arte, mas uma arte que só  se viabiliza através  de uma poderosa indústria. Tão poderosa e importante que é considerada estratégica pelos governos que sabem defender os interesses de seu país, como o dos Estados Unidos, por exemplo.

Só a ministra da Cultura, a cândida Ana de Hollanda, aparentemente não sabe disso. E depois de um ano  à frente do Ministério, não foi capaz elaborar um programa sério de estímulo à nossa sempre claudicante indústria. O cinema é uma arte, mas como processo industrial é também uma questão de mercado.

E desde sempre o mercado cinematográfico brasileiro é controlado pelos americanos. Como a televisão também é vulnerável, pelo menos em relação aos filmes exibidos, toda uma geração de brasileiros de todas as classes é fã do Rambo e acredita que os Estados Unidos venceram a Guerra do Vietnã.

O próprio Governo Brasileiro, há uns dez anos, ingenuamente, veiculou uma campanha   publicitária contra a violência do trânsito, informando que anuamente 60 mil pessoas morrem nas estradas e ruas brasileiras. “Mais do que durante os dez anos da Guerra do Vietnã”, concluía.

Ocorre que morreram no Vietnã 40 mil soldados americanos que , entretanto,  mataram quatro milhões (!) de civis vietnamitas. Ou seja: o cinema, a indústria cinematográfica, aliena tanto, imbeciliza tanto, que até pessoas razoavelmente cultas e bem informadas deixam passar em branco (apagam de suas próprias memórias) o holocausto de  quatro milhões de almas.

Isso se obtém, repito, porque o cinema é cultura, mas é também indústria e instrumento de dominação política e econômica. Sua área de ação é o mercado consumidor e sua arma é a propaganda articulada com a marquetagem.

Mas nossa inocente Ana de Hollanda, aparentemente não percebe nada disso,  talvez porque entenda  muito pouco de Cultura. O pior é que aqueles que a torpedeiam e desejam sua fritura, fazem isso, na maioria dos casos,  por questões menores, pecuniárias e corporativistas.

1-9-10

Sob a responsabilidade do jornalista e pesquisador  André Bernado, damos inicio à esta coluna que, dentro do espírito geral do nosso blog, abre  mais um espaço para denunciar e corrigir as omissões, manipulações  e distorções  com que a  grande mídia, de forma aberrante, trata assuntos de interesse vital para o País, como por exemplo, a questão agrária.

Francisco Barreira

1-09-10

A questão agrária como ela é

Por André Bernado

Domingo último (30-09) o  Estado de S. Paulo  publicou uma matéria simples e  honesta sobre   uma das maiores e mais longas disputas de terra da  história  de São Paulo e do Brasil.  O texto assinado por José Maria Tomazela é  direto e correto. Não recebeu grande espaço ou destaque, mas,  pelo menos, revela que ainda há  resquícios de vida inteligente e sem malícia em algum recanto das redações  dos grandes jornais brasileiros.

Esta simples matéria tem  conteúdo suficiente para  desmontar  toda a sórdida campanha de  demonização que a  mídia vem lançando contra um dos mais legítimos e sentidos movimentos  sociais brasileiros, o movimento dos Sem Terra que não vai aqui mencionado como a sigla institucionalizada, mas em seu contexto amplo, histórico   e impessoal que se confunde  com a própria história do Pais: a luta pela  terra.

Hoje, nos limitaremos  a reproduzir a matéria, cuja notícia, embora crucial para o entendimento  de tema tão complexo e polêmico, não mereceu uma única linha por parte dos demais grandes jornais escritos e televisivos.

Este é apenas o início de uma longa série e convidamos os leitores deste blog a  avançar com a gente nesta caminhada.  Eis o texto:

  Área do Pontal,  do tamanho do
Rio, é considerada terra devoluta

Ao julgar um processo de mais de 50 anos, na última quinta-feira, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) considerou como terra devoluta uma área de 92,6 mil hectares do 15º Perímetro do Pontal do Paranapanema, no extremo oeste de São Paulo, ocupados por fazendeiros.

A área, quase do tamanho do município de Rio, compreende uma larga faixa de terra entre os Rios Paraná e Paranapanema que vai da cidade de Euclides da Cunha Paulista a Teodoro Sampaio.

A região do Pontal concentra o maior número de conflitos fundiários do Estado. As glebas são disputadas para a instalação de assentamentos de sem-terra.

Líderes do Movimento dos Sem-Terra (MST) vão pressionar o governo para que a decisão seja executada de imediato, com a destinação das áreas para a reforma agrária.

O acórdão, que ainda não foi publicado, teve aprovação unânime, com votos favoráveis dos ministros Herman de Vasconcelos Benjamin (relator), Eliana Calmon Alves, José de Castro Meira e Humberto Soares Martins. A medida atinge mais de cem propriedades rurais, entre elas dezenas de fazendas agrícolas e de criação de gado, além de uma usina de açúcar e álcool.

Recurso. A decisão pode ser reformada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Se for mantida, os ocupantes terão de entregar as terras ao Estado para que sejam distribuídas aos sem-terra. “Vamos fazer uma grande mobilização, montando acampamentos em volta dessas áreas para que todos saibam quais são e o governo apresse a realização dos assentamentos”, prometeu José Rainha Júnior, líder da dissidência conhecida como MST da Base. Segundo ele, a usina instalada na região recebeu financiamento do governo.

A União Democrática Ruralista (UDR) informou que a decisão não é definitiva. O advogado da UDR, Fernando Neves Baptista, vai entrar com recurso no próprio STJ. Caso seja indeferido, o caso será mandado para o Supremo. “É um processo muito antigo e já tem vários recursos pendentes.”

Ele contou que a ação foi iniciada em dezembro de 1957 e somente este julgamento mais recente consumiu quase dois anos. De acordo com o advogado, o acórdão estabelece ressalvas para a decisão, como a obrigação do Estado de indenizar os ocupantes da área. “Só por isso já sabemos que o processo está longe de terminar.”

Segundo Baptista, a região foi ocupada em meados do século 19 e um século depois o governo decidiu questionar a origem das propriedades.

Movimentos. “É indisfarçável que o objetivo do Estado era retomar as propriedades e redistribuí-las entre os chamados sem-terra”, diz o advogado.

O MST se instalou na região no início dos anos 90 e, nesse período, realizou mais de 500 invasões de fazendas. Muitas delas foram transformadas em assentamentos. Das 10 mil famílias assentadas em São Paulo, 5,6 mil estão no Pontal.

Além do MST, atuam na região o MST da Base, Movimento dos Agricultores Sem-Terra (Mast), Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST), Unidos pela Terra (Uniterra).

3 Comentários leave one →
  1. Professor Adail Link Permanente
    03/09/2010 12:06 pm

    Chico. Achei-me na obrigação de deixar registrado a minha satisfação de você ter trazido à tona, esta tão importante matéria, sobre o Portal do Paranápanema, quetão esta que venho acompanhando há tanto tempo , e sempre levando a minha torcida por um desfecho pacifico e favoravel ao MST.

    Como foi muito bem lembrado por você , questão com esta magnitude e tão importente para a história deste país, jamais passaria desaperbida pelos olhares dos melhores jornalista deste país assim como você, investido com compromissos sérios e democráticos.

    Como sempre, os senhores feudais vão procurarfazer de tudo, nãoso tenho duvidas, para desligitimar uma ação tão importante que ao longo do processo foi escrita com sangue de muita gente, derramado em troca de uma mísera gleba, que muitas vezes vem desassistida.

  2. 15/10/2010 2:03 pm

    AMEI!

    A Terra do Sem Fim é um dos ícones da minha poesia.
    Caramba! e agora o vejo aqui, neste ambiente de puro jornalismo
    de primeira.
    Muito bom ler essa matéria sobre o Pontal do Paranapanema,
    nasci ali perto, ô terra abençoada!

    muito obrigada

    carmen

  3. 16/05/2012 1:41 am

    ALÉM DO FERNANDO NEVES BAPTISTA SER MEU AMIGO PESSOAL, É UM ADVOGADO CIVILISTA DE EXCELENTE NÍVEL, A MEU VER SENDO UM DOS MELHORES NA ATUALIDADE, VOLTADO A QUESTÕES AGRÁRIAS E IMOBILIÁRIAS.

    O PONTAL DO PARANAPANEMA ENVOLVE QUESTÕES SOCIAIS E PRINCIPALMENTE E INFELISMENTE POLITICA, DEIXANDO CLARO QUE O BRASIL ESTA MUITO LONGE DE SER UM PAIS EM DESENVOLVIMENTO, POIS O ESTADO SÓ INTERCEDE ONDE NÃO DEVERIA INTERCEDER E O PIOR , ONDE DEVE INTERCEDER FAZ VISTAS GROSSAS, COMO OS PAGAMENTOS DE DESAPROPRIAÇÕES, QUE SE FEITOS DE FORMA HONESTA E CORRETA SOBRARIAM ÁREAS PARA SERVIREM DE ASSENTAMENTOS E RESOLVERIA O PROBLEMA DA REFORMA AGRÁRIA.

    A QUESTÃO DE ÁREAS COMO A DO PONTAL CAEM EM DESCRÉDITO AO PODER JUDICIÁRIO, INFLAMAM UMA DISPUTA POR POSSE, LANÇANDO O BRASIL NO ROL DOS PAISES SEM LEI, ONDE NÃO SE RESPEITA O DIREITO DE PROPRIEDADE, ENFIM…

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