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O Impasse Ecológico

Há uma evidente interação entre a questão ecológica e os fatos econômicos. Entretanto, a mídia de um modo geral e mesmo alguns especialistas, não expõem ou analisam estes temas de forma articulada. 

Nesta coluna procuraremos suprir esta lacuna. Então, estaremos sempre procurando responder às seguintes perguntas cruciais: 

. Por que os recursos naturais do Planeta estão sendo destruidos de forma ciclópica e absolutamente desnecessária? 

. Por que todas as mercadorias, bens de consumo e de produção, são feitas, atualmente de forma a durar menos, para ter um ciclo de vida menor? 

. Por que, mesmo quando a economia cresce, há cada vez menos postos de trabalho em todos os setores?    

 Veja video >http://youtu.be/Tckn3fwEGT0

03-06-12

“Cúpula do Rio+20” vai mostrar que Capitalismo
  é  incompatível  com  a  preservação  do  Planeta

Agora, existem muitos espertinhos oportunistas pegando carona na questão ecológica. Mas especialistas sérios sabem, há pelo menos 20 anos, que será impossível evitar uma catástrofe  ecológica sob o modo de produção capitalista. E isto será demonstrado mais uma vez , agora, no Rio+20 .

Quando  em 1994, expus esta questão no meu livro  O Impasse Ecológico, verifiquei que  muitos economistas e ecologistas já haviam percorrido este caminho. São aqueles aos quais  chamo de especialistas sérios.

Mas há uma curiosidade acadêmica que revelei no livro e que vale a  pena reproduzir: Na verdade, os dois primeiros grandes economistas a verificarem que a devastação da Natureza  imporia um limite à expansão capitalista, foram nada menos que Thomaz Malthus e  David Ricardo. Tudo isso, na primeira metade do Século XIX.

Malthus havia levantado a teoria “catastrófica” de que um dia a Terra seria pequena para abrigar a Humanidade, porque a produção agrícola cresce de forma aritmética enquanto a população humana se  multiplica de forma geométrica.

David Ricardo que pode se considerado, ao lado de  Adam Smith,  um  dos fundadores da teoria econômica moderna, concordou com seu amigo  Malthus e demonstrou que, em função do aumento de sua produtividade, o Capital  encontraria  seu limite de acumulação no limite dos recursos naturais por ele explorados (e destruídos, portanto).

Anos mais tarde, na segunda metade do Século XIX, Karl Marx, outro pilar da teoria econômica moderna, diria, contestando Ricardo, que o limite da expansão capitalista era o próprio Capital que, em função do aumento de sua produtividade, um dia, entraria  em declínio (obsolescência) por não ser  mais capaz de acumular o seu próprio excedente.

Hoje podemos dizer que ambos tinham razão: Há um limite (externo) em termos de recursos naturais. Mas há, também, um fator (endógeno) no interior do Capital, que limita sua expansão.

Como esses temas são naturalmente difíceis para o leitor não iniciado na literatura marxista reproduzo sempre um texto  onde procuro, de forma sintética,  expor as razões que levam o Capital a  entrar em seu crepúsculo, pela incapacidade de continuar se reproduzindo, através da  acumulação.

Eis o texto:

O Crepúsculo do Capital

Todos comentam a atual crise econômica mundial, mas poucos percebem que  ela é, na verdade, uma crise do próprio  modo de produção capitalista. Trata-se de um  sistêmico que aponta para crescente  incapacidade  de o Capital acumular o seu próprio excedente. É a fase crepuscular ou terminal. Entender isso não é muito complicado desde que se saiba, preliminarmente: 

1-O Capital é, em  si, um excedente. Excedente  de trabalho (próprio ou alheio) que não é consumido e sim acumulado. 

 2-O Capital só obtém lucro efetivo na sua parte variável, dinheiro vivo reservado para pagamento de salários. É essa a parte do Capital que retorna ao bolso no proprietário, inflado pelas horas excedentes (não confundir com horas extras) de trabalho não pagas, a famosa mais-valia. 

3-A parte fixa ou constante do Capital, máquinas e equipamentos (e insumos também)  não fornece, a rigor, nenhum lucro ao capitalista. Isto, pela boa razão de que ela  transfere o seu próprio valor para o valor da mercadoria que ajuda a produzir. No caso dos insumos (energia e matérias-primas) esta transferência é instantânea. No caso de máquinas  a transferência pode levar anos. Mas, inexoravelmente, insumos, máquinas  ou  equipamentos se exaurem, cedo ou tarde, na produção das mercadorias. Entretanto, é  aqui, na sua parte constante, que o Capital  acumula. 

4-A última frase do item anterior não é gratuita: o Capital só materializa e fixa os lucros obtidos com a rodada anterior de exploração do trabalho, quando investe em novas máquinas e em mais terrenos e edificações. É assim e só assim que ele realiza sua acumulação ou, mais propriamente, sua reprodução ampliada. Pois é assim que ele amplia sua capacidade de explorar mais trabalho a partir  da mesma base inicial. 

 Agora reparem (e isto  é estampado diariamente pela mídia) que o Capital está em permanente revolução interna, sempre substituindo sua  parte variável (salários e mão de obra) pela parte  constante (máquinas e equipamentos). É a  automação vertiginosa que acomete o Sistema nesta  sua fase terminal. Quando as máquinas e equipamentos perdem densidade de valor ou simplesmente tornam-se descartáveis (substituídas em prazos cada vez mais curtos), o Capital vai, concomitantemente, perdendo sua capacidade de acumulação.  

Então, fica nítida a noção de que, principalmente nos países  tecnologicamente mais adiantados, o Capital (entendido aqui como o conjunto de capitais – o Sistema), vai despregando-se daquela parte que dá lucro, bem como daquela onde  ocorre a acumulação efetiva. 

Quando isto ocorre, o Capital toma três rumos: a– deixa de ser produtivo e transforma-se em capital de serviços que dá lucro, mas não realiza a acumulação clássica que só ocorre (como foi exposto acima) no capital efetivamente produtivo, industrial ou agrícola; b– ingressa  no cassino especulativo e passa a obter a  maior parte de seus lucros não mais no  chão da fábrica, mas  no departamento financeiro e c– migra para a periferia do sistema, os países em desenvolvimento, onde ainda é possível  obter altas taxas de mais-valia, em função da mão de obra barata. Neste último caso, China, Índia e Brasil são três excelentes exemplos. 

Enfim, creio que aí está  um pequeno, porém eficiente, roteiro para acompanhar a  atual crise com melhor capacidade de percepção dos fenômenos que são subjacentes a ela e vão muito além das baboseiras repetidas à exaustão pela mídia pobre e podre. 

Reparem, ainda, que o que foi dito aí em cima, não é simples literatura marxista dogmática e sim leitura correta dos antigos clássicos da economia como Adam Smith, David Ricardo  e Jean-Baptiste Say,  em cujos textos Marx colheu os fundamentos para  desenvolver sua teorias sobre a acumulação capitalista. Um processo que chega agora à sua fase crepuscular.

O Neofeudalismo

A esta fase crepuscular eu dou o nome de Neofeudalismo, a etapa superior do Imperialismo.

O Neofeudalismo tem como principal característica a  monopolização  e/ou oligopolização extremas e a nível mundial. Some-se a isso, a terceirização da produção.  As grandes corporações cedem a terceiros avassalados, sua marca,  suas invenções e modos de produção e venda.  Assim, passam   (eis aí o aroma feudal) a  auferir renda com algo que é de sua propriedade, sem se imiscuirem na produção propriamente dita.

Com isso, como já é visível a olho nu,  há uma total revolução das relações  do trabalho, somada ao crescente descarte de mão de obra, por conta da vertiginosa automação. Nasce aí o chamado desemprego estrutural.

E desemprego estrutural é  um eufemismo, um nome técnico  que se dá a algo brutal: a exclusão definitiva de populações  inteiras ao redor do Mundo. Populações que se  tornam excedentes e descartáveis  enquanto elementos  do processo produtivo.

 

 

 

01-06-12

Para  promover o crescimento,  
governo rende-se aos usineiros

No modo de produção capitalista todos os empresários procuram comprar seus insumos e matérias primas a preços baixos e seguram a produção final até o momento que consideram bom para obter lucro. Todos fazem isso (com maior ou menor escrúpulo) e quando seus cálculos dão errado, fecham o negócio ou mudam de ramo.

Se determinado setor for bem quisto pelo Governo, este o olha com simpatia e, escrúpulos à parte, entenderá suas manobras como algo perfeitamente normal. Se o setor for antipático, o governo o tratará com desprezo e na forma da lei. Era assim que o os usineiros (biodiesel, álcool  e açúcar)  vinham sendo tratados.

Entretanto, há informações  de que  se prepara, em Brasília, um pacote de incentivos para estimular o investimento na área de biocombustíveis – especialmente no segmento de açúcar e etano. Parece que o governo deixou de ver o usineiro como mero especulador e oportunista. Agora ele é  mais um” agente do crescimento econômico”.

A verdade é que todo o setor de biocombustíveis e não só o do etanol, estará amarrado à política de tabelamento dos preços dos derivados de petróleo, sobretudo da gasolina e do óleo diesel. Essa circunstância não prejudica apenas a capacidade de investimento da Petrobrás.

 Como deprime também os preços do etanol, bloqueia investimentos tanto na cultura de cana-de-açúcar como na construção de usinas de destilação Disso decorre toda uma corrente negativa que atinge largos setores que orbitam em tono da produção de petróleo e do  etanol.

O Brasil precisa de um Estado forte para evitar excessos, desmandos e desnacionalizações de setores estratégicos. Mas o governo petista, embora concorde ideologicamente com isso, não possui um programa integrado e concatenado para transformar a ideologia em realidade.

Na verdade, não temos um Ministério do Planejamento digno desde nome e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, limita-se a correr atrás do prejuízo e vai tapando  buracos conforme forem surgindo.

As estatais e a Ecologia

Para não se render aos usineiros que, afinal, realmente abusam do direito de especular, usufruindo da sua condição latifundiária e de oligopólio, o governo tem uma arma poderosa à sua disposição: a Petrobras Biocombustível, uma subsidiária da grande estatal.

Esta subsidiária é uma contradição em si, porque o foco natural da Petrobras é, evidentemente, o dos combustíveis fósseis. Seria necessário, portanto, dar total autonomia administrativa à subsidiária, até mesmo promovendo a desvinculação e consequentea criação de uma nova empresa.

Essa empresa, em seguida, seria anabolizada pelo Governo e utilizada como importante instrumento de pesquisa na área dos biocombustíveis à base de  soja, dendê, mamona, etc. Uma ação, portanto ecologicamente correta. E, sobretudo, seria excelente alavanca para a política de fixação do homem à terra e de viabilização da reforma agrária.

28-04-12

A escolha entre a destruição e a harmonia

Desde o seu início, a discussão filosófica  entre socialismo e capitalismo,  no fundo, sempre girou em torno da predominância do coletivo sobre o indivíduo ou vice-versa. Isto poderia seguir assim até hoje. Mas há um porém: já existem elementos cientifico suficientes para demonstrar que  a solução  com predominância individual, pode levar à destruição da humanidade  a partir da destruição de seu habitat  natural.

Estou falando do já famoso Impasse Ecológico que, aliás, é titulo do livro que escrevi há oito anos. Na época muitos ecologistas importantes já sabiam e advertiam sobre esse impasse. Mas o primeiro a enunciar o problema de forma clara, foi Denis Meadows, no Clube de Roma,  nos aos  70. Ele disse que “é  impossível generalizaar e reproduzir em todo o Planeta o modo de produção e consumo do Primeijro Mundo”.

Hoje qualquer  burguesinho esperto metido a  antenado e politicamente correto diz isso com o olhar de que  esta deitando regra. Para ver como essa gentinha não tem vergonha de furar a fila.

Entretanto, para concluir o raciocínio iniciado no primeiro parágrafo, é preciso dizer que não  há mais como ocultar que se o homem quiser adquirir a harmonia  consigo mesmo e com  as  suas circunstâncias (os outros  homens e a Natureza) terá que abandonar, rapidinho, o atual modo de produção e  de consumo.

E lembremos que não há Capital bem comportado e preocupado com  a preservação. Isto porque ele só acumula destruindo todo o seu entorno, a começar pela  Natureza. É da sua essência. Está na sua gênese. Admitir Capital bonzinho é admitir o vampiro vegetariano.

 

 

27-09-11

Todos roubam, muito ou um pouco. E o Capital segue acumulando

O tenente-coronel Claudio Oliveira, que comandava o 22º Batalhão da Polícia Militar do Rio, na Maré (zona norte), foi exonerado do cargo nesta terça-feira (27) e está detido desde a madrugada na carceragem do Batalhão de Choque.

Ele é suspeito de ser o mandante da morte da juíza Patrícia Acioli, que foi baleada quando chegava em sua casa, em Niterói  no mês passado. Na época do assassinato, o oficial era comandante do 7º Batalhão, em São Gonçalo, cidade onde a juíza atuava e ia mandar prendê-lo por uma série de crimes anteriores.

Mais três PMs suspeitos de envolvimento no crime estão presos.

Na semana passada outras tantos PMs foram  exonerados e presos porque recebiam, mensalmente em casa, a remuneração do tráfico que  continuou agindo nas  favelas do Rio ocupadas recentemente para serem ”pacificadas”. Em muitos casos, o que houve foi a associação da policia com o tráfico. Qual a porcentagem de maçãs podres. Será que ainda há alguma sadia?

Vamos adiante:

Não é difícil citar dezenas de casos em que juízes vendem sentenças ou se associam a grileiros (os ruralista altamente empreendedores) e donos de cartório para roubar descaradamente terra da União ou de terceiros.

Médicos assinam presença em plantões aos quais não comparecem e pelos quais recebem religiosamente no fim do mês. Por conta disso, milhares de pessoas humildes sofrem dores desnecessárias e morrem quando não deviam morrer.

Donos de empresas de seguro saúde tratam vidas e dores humanas como mercadoria e exigem que os médicos e hospitais credenciados retirem paciente das UTIs antes do tempo exigido por um tratamento criterioso. Nas operações, anestesistas  cobram “um tanto por fora”. Você paga ou morre. Para toda essa gente, seu corpo (o nosso corpo) é como carne de açougue manipulado em função do custo benefício.

E você meu querido leitor e minha linda leitora, nunca molharam mão de  um fiscal, nem pagaram aquela cervejinha para o guarda quebrar o galho? Não tem também o seu Caixa 2?  Passa recibo de tudo? Não dá um extra para que seu contador burle o Imposto de Renda? Não leva vantagem em nada?

Ainda há quem  acredite que  a solução é exigir ficha limpa de políticos, como se não houvesse por trás de  todos eles, de cada um deles, um banqueiro e um empreiteiro ficha suja.

Mas não é tão difícil constar que vivemos uma sociedade corrompida de alto a baixo. Sem valores, a não ser os monetários. Onde tudo é feito, legalizado e justificado para que o Capital continue acumulando.

Este já seria um grande problema, Mas ele é tanto maior quando se sabe que o Capital só acumula destruindo todo os seu entorno, a começar pela Natureza. Ele degrada, também, as relações humanas, antagoniza as pessoas. Estimula a noção de que só a concorrência (que só termina com a derrota do adversário) é  a garantia do progresso.  Qualquer idéia  de solidariedade e visão coletiva e generosa é considerado pecado  capital contra o Sistema, cujo fundamento é o lucro.

Ninguém é maluco para propor aqui a implantação de uma ditadura do tipo soviético. Mas já é hora de pensar em algum sucedâneo para o modo de produção imposto pelo Capital, na verdade uma  fera solta ou uma gigantesca usina fumegante  autônoma, cuja única lógica é a da acumulação pela acumulação, cujo limite é a destruição do Planeta.

11-05-11

De trapalhada em trapalhada Rebelo dá a floresta para
 a bandidagem e provoca  um racha na base governista

É a velha história: pau que nasce torto… O gigantesco relatório de 800 páginas produzido pelo deputado Aldo Rebelo (PCdoB- SP) era, como dissemos em textos anteriores, um bestialógico (lei a matéria logo abaixo desta),  mas não era só isso.

Era um monstrengo malicioso, ou uma amadilha com múltiplas arapucas, onde, pode-se dizer, cada parágrafo destinava-se a abrir o caminho da Floresta Amazônica e do Cerrado (já quase totalmente destruído) para a implantação de projetos agro-pecuários de grande porte. Projetos estes que histórica e invariavelmente têm  a moto-serra como seu principal instrumento de  alavancagem.

Portanto, o que está em jogo aí não é apenas a preservação da biodiversidade (uma patrimônio descomunal e, sem neuras, cobiçado internacionalmente) desses dois biomas, bem como a salvação de todo um sistema de mananciais d’água que fazem  com que o Brasil  seja hoje o detentor de quase  20%  de toda a água doce mundial.

 O que está em discussão é a definição de um  novo modelo de ocupação de 60% do território nacional, já que  o modelo tradicional do simples desmatamento para implantação de monoculturas foi colocado em cheque. Ou, para dizer com poucas palavras, tornou-se inaceitável.

 Não se trata, então, de estabelecer tantos ou quantos  hectares podem ou não  ser desmatados ou quantos metros  da mata ciliar (nas margens dos rios) devem ser preservados. Aldo Rebelo não viu nada disso e, sem visão de conjunto, detalhista, serviu ao grande capital, a pretexto de servir ao agricultor familiar.

O governo só descobriu o tamanho do problema há uma semana, quando a ex-senadora Marina Silva fez uma advertência ao chefe da Casa Civil da Presidência,  Antônio Palocci.

Desde então, por ordem da presidenta Dilma, Palocci dedicou tempo integral à coordenação das ações políticas destinadas a evitar a aprovação do ”Relatorio Rebelo”, uma vez que os ruralistas, percebendo que estavam a um passo de obeter permissão para continuar desmatando, acionaram  o rolo compressor na Câmara. A idéia era aprovar o novo  Código Florestal a toque de caixa.

O principal parceiro de  Palocdci, nesta luta surda, que já dura uma semana, tem sido o líder do Governo na Câmara, deputado Cândido  Vaccarezza (PT-SP).

O triste e bizarro fim

Pois ontem, pouco antes da meia-noite e depois de exaustivas 14 horas de tensas negociações, Vaccarezza foi obrigado a dar ordem à bancada governista para abandonar o plenário.  O objetivo era o de, por falta de  quorum, sustar a votação que finalmente seria encaminhada.

É que ele descobriu uma manobra de última hora, envolvendo o DEM, o PSDB, os ruralistas e possivelmente o próprio Rebelo, destinada a neutralizar o acordo  aceito horas antes pelas  partes e que atendia algumas  exigências do governo, embora  ele também tenha cedido bastante. Na verdade,  restaurava-se parcialmente, através de emenda a ser votada em separado, alguns dos beneficios aos desmatadores (anistia, por exemplo) oferecidos  no texto original de Rebelo.

Vaccarezza temia  que  deputados da bancada governista votassem a favor da emenda, porque os ruralistas estão distribuidos por todos os partidos, iclusive, é claro, os que apoiam o Governo, como o PMDB.

Disso resultou um clima de desconfiança  e mau humor na base aliada. O líder do PMDB na Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves (RN),  cedeu ao apelo de Vacarrezza e retirou seus deputados do plenário, mas advertiu: “O PMDB não vota mais nada nesta Casa, se o Código Florestal não for votado na próxima semana”.

Para culminar houve, pouco antes,  a baixaria bizarra provocada  pelo próprio Rebelo que exausto pelo esforço e pela pressão psicológica, descontrolou-se  e da tribuna invetiu contra a ex-senadora  Marina Silva que assistia aos debates.

“Ela disse no Twitter – reclamou Rebelo aos  berros – que eu fraudei o relatório. Mas fraudador é o marido dela, envolvido em contrabando de  maderia e a quem eu salvei quando era líder do Governo, impedindo que ele viesse depor nesta Casa”.

Ato contínuo, o deputado Alfredo Sirkis (PV-RJ) agarrou o microfone mais próximo para destratar Rebelo: “Canalha, traidor, vendido aos ruralistas”.

Rabelo, entretanto foi socorrido  pelo aplauso massivo dos ruralistas que passaram  a gritar em coro seu nome. Foi uma solidariedade autêntica, daquelas  que só existem nas confrarias ou entre defensores de uma mesma causa.

E de tudo isto, restou a constatação constrangedora de que, sem notar, Rebelo confessou em público, o  delito de conspiração  para  ocultar um crime, no caso o contrabando de madeira que, segundo ele, foi cometido por Fábio Vaz de Lima, o marido de Marina.   

A matéria abaixo dá continuidade às informações desta. 

10-05-10 atualizado em 11-05-11

 Com apoio do comunista Aldo Rebelo,  ruralistas
 preparam-se  para o ataque  final contra a floresta

Hoje (11-05) pela manhã, enquanto o relator Aldo Rebelo e o líder do Governo, Cândido Vaccarezza, discutiam os últimos detalhes de um acordo, a  bancaeda do PT na Câmara rebelou-se e decidiu só votar depois de discutir a integra do relatório.

 Caíu a ficha e os petistas ao que parece descobriram, embora tardiamente, que um acordo com Rebelo e seus ruralistas é  um desastre para a imagem do partido, do Governo e  do próprio País no exterior. 

O projeto deve começar a ser debatido  no Plenário da Câmara às 15 horas.  Os ruralistas, que estão abrigados tanto do PMDB como no PSDB e  no DEM,  deverão vencer com  facilidade. A esperança do Governo é retirar alguns excessos quando o  ocorrer a votação no Senado. 

A posição de Rebelo só não é  indescritível porque pode ser classificada como obscena.

Texto de 10-05-11

 Tudo o que os ruralistas querem e avançar sobre  floresta e sobre o serrado, implantando seu modelo de devastação total da biodiversidade pré-exitente comprometendo, ao mesmo tempo, os mananciais d’água. Eles fazem isso, tradicionalmente, ocupando com uma monocultura a totalidide do terreno. Não fica uma árvore de pé.

Agora, pegam carona no relatório do deputado comunista  Aldo  Rebelo que a pretexto de proteger a agricultura familiar, principalmente de ribeirinhos, transforma o Còdigo Florestal em campo aberto para a consolidação do modelo agro-pecuário lucrativo porém altamente  destrutivo.

Como conseguiram cooptar  bom número de deputados da base de sustenção do Governo, inclusive o presidente da  Câmara,  deputado Marcos Maia ( PT gaucho), eles apostam  que conseguirão vencer a queda queda de braço contra os ambientalistas e contra o próprio Planalto que acordou tarde para  o problema.

O ministro  Antônio Palalocci, chefe da a Casa Civil, reuniu-se ontem durante várias horas com o líder do governo na Câmara Cândido Vaccarezza e  com os lideres   dos partidos da base aliada. E ficou claro o recado do Governo: se o deputado  comunista Aldo Rebelo, relator do texto e a Bancada Ruralista, não recurem, o Executivo  mela o jogo e  “vai trancar, por tempo indetermindo” a votação do Novo Gódigo Florestal.

Por seu lado, Rebelo  e os ruralistas  acreditam que o Governo  não tem forças para cumprir sua ameça e apostam que hoje mesmo resolverão “no voto” os pontos  de divergência entre eles, o Planalto e os ambientalistas.

O mais provável, porém, é que o deputado Marcos Maia  não coloque o projeto em votação, se não houver um acordo prévio.

A matéria abaixo dá mais detalhes sobre este mesmo assunto.

04-05-11 atualizado em  05-04-11

Aldo  Rebelo,  o  comunista  trapalhão,
soma com os ruralistas para desmatar

Rebelo produziu um texto tão retrógrado para relatar o projeto de reforma do Código Florestal que o governo teme pela imagem do Brasil no exterior.

 Por isso, suspendeu a votação no Congresso até a próxima terça-feira. Ontem (quarta, 04) Antônio Palocci, chefe da Casa Cilvil, e o líder da bancada governista  na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza,  em reunião à tarde no Palácio do Planalto, tentaram convencer o relator a produzir um texto pelo menos razoável.

Rebelo, entretanto, resistiu. Ele teme sair desmoralizado do episódio. Seu texto já foi alterado  tantas vezes e por tantas mãos, que poderia ser considerado uma coleção de remendos sem autor definido.

O governo também não aceita a transferência, aos estados e municípios, da  capacidade de definir o “interesse social” para justificar a não obediência ao  Código Floretal. Na prática, isto seria uma forma de liberar geral o desmatamento.

Veja, no final da matéria, os prontos mais polêmicos.

Texto de 04-05-11

O texto do deputado do PCdoB, como relator  da reforma do Código  Florestal, é um besteirol e uma afronta ao  pensamento moderno  sobre o Meio Ambiente.

Como comunista, Aldo Rebelo deveria ser versado em teoria marxista e, neste caso, deveria saber que a Ecologia é o  ponto crucial  que coloca em cheque todo o processo de desenvolvimento e acumulação capitalista.

 Isto deveria ser suficiente para que o deputado (PCdoB-SP), como relator, redigisse com seriedade e ponderação o texto final da Reforma do Código Florestal, ora em votação da Câmara.

No entando, ele produziu um documento ridiculamente arcaico e contraditório. Preocupado em antender a  gregos e troianos, errou a mão e ofereceu   um amontoado de despautérios.  E, a  pretexto de proteger os pequenos produtores, satisfez  as exigências do grande capital.

Ele não percebeu, enfim, que o Governo dispõe de recursos financeiros e tecnológicos para proteger a agricultura familiar, sem romper o que resta do equilíbrio ecológico. Além disso, sem visão do conjunto,  fixou-se em questões pontuais que se auto anulam.

O texto de  Rebelo é tão ruim que  a bandidagem rural (grandes grileiros e afins) ao perceber que o deputado comunista atendera a 80% de suas reividicações,  mobilizou o rolo compressor da Bancada Ruralista para aprovar  o projeto  de  reforma a toque de caixa.

O pior só não aconteceu ontem mesmo porque  o chefe da Casa Civil, Antônio  Palocci, deu o sinal de alarme e mandou dar um tempo para que o Governo pensasse melhor sobre a questão.

E é preciso registrar  que Palocci que, segundo a lenda representa, no miolo do Governo, o pensamento liberal e ortodoxo do Capital Finaceiro, só agiu porque foi alertado por Marina Silva. No início da tarde,  em nome do velho companherismo, ela  invadiu sua sala  e mostrou o tamanho da fria em que o  Executivo estava se metendo.

Em todo o caso, é bom lembrar que o governo  do PT só acordou para a questão ecológica às vésperas da Reunião de Copenhague, em novembro de 2009, quando Lula, o pragmático, percebeu o ganho político que  ele o País poderiam obter  ao adotar uma posição moderna  em relação ao Meio  Ambiente.

Até então, era consenso no Planalto que a Ecologia não passava de entretenimento para alguns  frescos focados no orgasmo de rãs exóticas.

Parece ser esta a noção  que ainda norteia  Rebelo e a direção de seu partido. Neste caso, talvez fosse  útil a leitura do  meu texto (logo aí abaixo) , para que  o parlamentar tome  conhecimento da existência do  impasse ecológico:

O Impasse Ecológico

Vejamos por que o Impasse Ecológico não só entrava, como inviabiliza  o atual modo de produção e consumo:

1- A acumulação capitalista só ocorre pela metabolização do homem (através de seu trabalho) com a Natureza. Mais precisamente, através de um excedente de trabalho, a mais valia. Este excedente é aquela parte sem a qual o trabalhador poderia sobreviver, mas sem a qual ele  não consegue poupar e/ou acumular. E é certo que a este excedente de esforço humano  corresponderá, obrigatoriamente, um excedente  a ser fornecido pela Natureza, os recursos naturais.

2- Por esta razão o Sistema  se utiliza daquilo que chamamos de consumo e produção redundantes, através da descartabilidade e da obsolescência prematura ou forçada.

Ou seja, mercadorias de todos os tipos, inclusive mecadorias produzidas para produzir outras mecadorias (insumos, máquinas e equipamentos) são elaboradas com todo o esmero pra serem  descartados ou substituídas no mais curto espaço de tempo. O  objetivo dessa pressa é o de dar  lugar  a outras mecadorias que já estão entrando na linha de produção.

É este carrossel diabólico que com seus giros intemináveis vai produzindo mercadorias apenas para produzir mais mercadorias, sem nenhuma conexão com as reais necessidades do homem em particular ou na Humanidade como um todo. E é isto que faz com que o Capital, enquanto sistema global, perca sua lógica ou sua racionalidade elementar, transformando-se em instrumento de destrição planetária.  

Obs.  – Esta é a parte final  de um artigo  que pode ser lido, na íntegra, na coluna O  Grande Debate,  sob o título “Por que Ming, Miriam Leitão e  Carlos Aberto Sardenberg…”

 Aqui os pontos polêmicos do projeto de novo Código Florestal:
 

1. Topos de morros e encostas, que via de regra são Áreas de Proteção Permanente (APP), poderiam ser utilizados para plantio de culturas que hoje já utilizam essas áreas, como café, maçã e pecuária extensiva.

2. O novo texto de Aldo Rebelo fixa uma área de preservação ao longo de cursos d’água. No caso de a exigência de preservação de 30 metros, por exemplo, não deixa claro se é obrigatória uma área de preservação de 15 metros de cada lado dos rios ou se é possível cumprir os 30 metros apenas em uma margem e utilizar o outro lado do rio para plantio à vontade.

3. O texto mais recente apresentado por Aldo Rebelo estabelece também que os proprietários de pequenos módulos rurais (de 20 a 400 hectares) poderão manter apenas o percentual de vegetação nativa que possuíam até 2008. A iniciativa acaba por penalizar aqueles que cumpriram a legislação ambiental no passado, uma vez que o reflorestamento de áreas degradadas nesses módulos fiscais não seria obrigatório.

4. O projeto daria ainda aval para que governos estaduais e municipais declarassem uma área como “interesse social” para produção de alimentos, abrindo brechas para mais desmatamento.

5. A proposta de Aldo Rebelo promove por fim uma anistia à multa de desmatadores, permitindo que as penalidades fiquem suspensas desde que o infrator se comprometa a recuperar a área degradada.

Transcrito do Site Terra.

26-08-10

A pobreza ideológica na campanha eleitoral

Que os marqueteiros são analfabetos políticos, isto é ponto pacífico. Agora, o que assusta mesmo é a precariedade ideológica dos candidatos. Não vou falar de Dilma e de Serra porque eles, independente de seus  dotes intelectuais e de sua visão de  mundo, deliberadamente, escondem-se por de trás de um  discurso pasteurizado, destinado a  demonstrar quem está mais apto a levar o lulismo adiante. Mas Marina e Plínio tinham  a  obrigação de  oferecer ao público, um discurso ideológico mais bem definido.

E o que  Marina  nos  oferece é um  discurso ecológico de terceira, chinfrim, que poderia   ser assinado por qualquer  Al Gore ou Mírima Leitão da vida. Um palavrório ginasiano que  diz o óbvio e o que todos querem ouvir: É possível  garantir o desenvolvimento acelerado, sem destruir a Natureza. Mentira deslavada. É exatamente isto que não é viável  e é exatamente isso que caracteriza o Impasse Ecológico.

É claro que  os ecologistas de araque que  apenas embarcaram  em mais um bonde da moda, não sabem nada disso. Mas é inconcebível que, sendo militante de esquerda e defensora do verde  há trinta anos, Marina não saiba que há uma incompatibilidade absoluta entre a preservação da Natureza e processo de acumulação do Capital, este acumulador de excedentes  desde sempre.

Pois é  o excedente de trabalho  (aquele que ultrapassa ao realmente  necessário)  e sem o qual  o capital não se reproduz (acumula) que  corresponde  exatamente ao  excedente de recurso naturais consumidos desnecessariamente, gastos em vão. Pobre Marina. E pobres eleitores incautos que,  bem intencionados, vão votar apenas na moça da Natura.

Quanto ao Plínio, embora o mais bem intencionado e aquele que defende claramente  os sem terra e a redução as  horas de trabalho, falta, infelizmente, consistência ao seu discurso. Dizer como ele disse ontem em Brasília que  é a favor da redução das horas trabalho porque o trabalhador tem direito ao lazer, corresponde  à verdade,  mas não abrange dez por cento do  problema.

A redução das horas de trabalho é um direito  inalienável do assalariado é uma inexorabilidade do Sistema. A vertiginosa automação  com o conseqüente desemprego estrutural (nome técnico da exclusão definitiva) clamam para o fato de que a diminuição da jornada é  o único meio e  minorar  o contínuo cancelamento de vagas. Só um total desinformado não percebe que o Capital já atingiu uma etapa (terminal) em que só cresce (acumula) provocando desemprego.

Mas não é só isso: No momento em que o Capital perde sua capacidade de acumulação (pelo excesso de  trabalho morto, máquinas e equipamentos dentro de si) ele  caminha para sua fase crepuscular e carrega com ele  seus dois personagens principais, o proletariado e a  burguesia. Personagens estes  que atualmente, já desfigurados, caminham para o fenecimento. A pergunta é: Que classe ou que  tipo de nova classe dominará o novo estado que  surgirá dos escombros do Estado Capitalista?

30-05-10 

Marina cresce e desaparce 

Enquanto a candidatura Serra  derrete, Marina vai  engordando com as sobras do tucano derramadas pelo caminho. Mas quem é está nova política conservadora?   

Ruim para Serra, bom para Marina. A candidata verde que adotou como  estratégia ir  comendo pelas beiradas os votos de classe média do tucano, só teve, neste final de semana razões para comemorar. Ela atingiu, nas pesquisas, a marca de 18 % no Rio e 16% em Brasília, exatamente as duas cidades que, por suas características  representam, na  vontade de seus eleitores, a tendência do eleitorado de todo  País. É claro que ela conseguiu isto ao custo  de ficar cada vez mais distante  de Chico Mendes e cada vez mais próxima de Al Gore. O primeiro sabia que  não há  salvação ecológica dentro do regime de exploração  capitalista. O segundo tenta  nos vender a farsa de que isto é possível. 

Há muitos  casos de políticos brasileiros que, nascidos na extrema  esquerda, transitaram para o centro e, na sequência,  bateram na extrema direita ou quase. Os exemplos emblemáticos são os de Carlos Lacerda e Fernando Henrique Cardoso. Serra é outro exemplo, mas não está entre os mais  importantes desse ranking.  O fenômeno mais vertiginoso e  extraordinário é, sem dúvida, o de Martina Silva. Em poucos meses ela evoluiu de uma posição que era considerada esquerdista dentro do próprio PT, para um posicionamento ideológico absolutamente compatível com o de Míriam Leitão convertida, hoje, em  um de seus seu principais cabos eleitorais. 

A História nos mostra, desde o socialista Mussolini  na  Itália, que este fenômeno de conversão é irreversível e cumulativo. Quando se envereda por ele,  ocorre uma síndrome comum aos cristãos  novos que consiste em  precisar  estar provando  continuamente que  sua adesão  é sincera, o que os leva, quase sempre, a ficarem mais realistas que o rei. No caso, Sua Majestade El Rei Mercado. 

O mais importante, contudo, é notar que tudo isto está acontecendo porque, em função da  Grande Crise  Norteamericana, ruíram  os paradigmas neoliberais. Ou seja, o eixo  ideológico flexionou para a esquerda.  Percebendo isso, Lula espertamente aproveitou a onda e demarcou plebiscitariamente a  eleição, reintroduzindo a questão ideológica (nacionalismo econômico, tamanho do estado, etc.) no discurso político. 

Serra  e Marina seguem a orientação de seus marqueteiros que são  espertinhos, porém redondos analfabetos políticos. Resultado:  ambos vão ficar dividindo o prato frio do discurso  pequeno burguês (vide  a cafajeste agressão de Serra à Bolívia) e  darão com os burros n’água. 

Leia mais sobre o mesmo tema na coluna  Coisas da Política. 

             24-05-10 

            Com quem Obama divide o poder nos Estados Unidos? 

            O ex-governador Roberto Requião, do Paraná, é um dos personagens do primeiro escalão da política nacional que me honram com sua leitura. Sei que ele me acompanha pelo Twitter. Mas não sei com que assiduidade   lê meu blog e o Boletim Semanal, resumo deste mesmo blog. Seja como for, neste último sábado (22), ele  transformou-se em importante  colaborador ao fazer a seguinte  observação perspicaz, quando comentou nossa matéria  sobre a Crise do Irã: “Não sabia que o Obama não manda nos Estados Unidos”. 

            Esta observação suscitou  a lembrança de uma velha constatação às vezes esquecida: há um poder paralelo (semi-oculto) na maior potência do Planeta. Nos anos 30 do século passado, Franklin Delano Roosevelt  já fizera a denúncia inusitada: “ Agora sabemos que o Capital Organizado é tão perigoso quanto o Crime Organizado”. Nos anos 50, Eisenhower denunciou o Complexo Industrial-Militar que forçava o presidente a adotar  medidas indesejadas. 

            Agora, com a revelação do teor da carta enviada  por Obama ao presidente Lula, há quinze dias, constata-se que o Departamento de Estado e  o representante dos EUA na ONU, simplesmente não obedecem a orientação do presidente. Não há como entender de outra forma o fato simples de que Obama claramente estimulou Lula a costurar o acordo com Ahmadinejad,  no mesmo momento em que a secretária de estado Hillary Clinton torpedeava este acordo e mobilizava a diplomacia  americana para conseguir a adesão de outras potências a esta posição radical e belicista. 

           Esta ambigüidade da política externa norte-americana já se apresentara na crise institucional de Honduras (setembro do ano passado) quando, nitidamente, havia duas correntes: uma que  de forma mal disfarçada apoiava o golpe contra  o presidente Manuel Zelaya, enquanto uma outra, envergonhada, tentava ser compreensiva  em relação a posição correta e legalista do governo brasileiro. 

            Mas a questão suscitada por nosso repórter involuntário, o polêmico e corajoso ex-governador paranaense,  está em aberto:  se  Obama não  exerce plenamente o poder, com quem ele o divide? 

            Os profissionais superficiais da imprensa superficial burguesa se enredarão em uma série de  conspirações palacianas que poderão render bons filmes no futuro. Como eles não vão além da superfície dos fatos, não vêm a resposta simples: quem divide com Washington o poder nos Estados Unidos e no Mundo é uma entidade etéria que, porém, produz resultados concretos e trágicos. É o Capital Financeiro globalizado, absolutamente  insensível e indiferente às vicissitudes  e ao próprio destino da Humanidade. E é a  esta besta-fera que a mídia brasileira medíocre, corrupta e provinciana serve fiel e cegamente. 

            A Matéria log aí abaixo é complemento desta.              

             22-05-10 

            Obama pediu para que Lula negociasse com o Irã. E agora trapalhões da Globo? 

            O primeiro erro é desatenção. O segundo é burrice. O terceiro é safadeza. 

            O pessoal da Globo é tão reincidente que  muitas vezes  eu nem comento nada, para não se repetitivo e  cansar o leitor.  Ontem mesmo, estava dizendo que só a mídia brasileira faz questão de não ver que, no Irã, a diplomacia brasileira não persegue o espalhafato e o sucesso fácil. Na verdade, nossa política ali  tem o sentido de preservar nossos interesses estratégicos (permanentes)  que são diferentes, quando  não forem opostos, aos  interesses norte-americanos do mesmo gênero. 

            Entretanto, a mídia nacional, sobretudo O Globo, persiste na posição grotescamente americanófila. Os profissionais dessa organização  estão tão habituados ao  permanente alinhamento com os interesses considerados vitais dos Estados Unidos (mesmo quando eles são frontalmente contrários aos interesses brasileiros) que denunciam como grave heresia qualquer ação que contrarie  minimamente as orientações do Departamento de Estado. 

             Mas é claro que eles não agem assim porque são lerdos ou mal informados. Agem assim, porque são tão mal intencionados quanto bem remunerados  e reduzem deliberadamente  sua clientela, os leitores,  a uma “legião de otários”. 

            Durante duas semanas estes calhordas vieram batendo monotonamente na mesma tecla. A de que nossa ação em Teerã foi  uma gafe ou mesmo uma rasa trapalhada. Por conta disso, o Itamaraty foi obrigado a deixar vazar a notícia da  existência de uma carta do presidente Obama (de quinze dias atrás) dirigida ao presidente Lula. Nela, o líder americano manifesta sua simpatia  e até estimula a ação brasileira junto aos dirigentes iranianos. 

            Ontem, finalmente,  vieram à tona alguns trechos da carta, dando conta de que a diplomacia brasileira estava agindo com competência e na direção correta. A gafe e as trapalhadas eram tão somente as da Direção e dos  profissionais da Organizações Globo. 

             Este assunto é tão sério e mexe de forma tão profunda com a honra, o sentimento e a própria  soberania nacional, que não podemos tratá-lo de forma leviana ou genérica. É necessário nomear, portanto, os principais personagens desta insólita aventura antinacional: Willian Waack, Alexandre Garcia, Míriam Leitão, Renato Machado  e o palhaço Jabor. No jornal O Globo, despontou Merval Pereira, na Rádio CBN, Carlos Alberto Sardenberg.  

            Habituados a, de forma arrogante e covarde,  nomear,  ridicularizar ou tratar como terroristas a todos os que se insurgem contra a hegemonia norte-americana,  eles precisam saber que o vento que venta lá, venta cá.       

            19-05-10 

            Para entender a  “crise” do Irã. O Brasil defende a sua própria indústria nuclear  

             A questão iraniana já está dominada pela emoção. É preciso, então, deputar o raciocínio para  que   a razão volte a preponderar. Para isso, vamos, inicialmente,  separar os dois aspectos que envolvem a mesma questão: a–  a espetacular  jogada da diplomacia brasileira que  com o Acordo de Teerã, assinado domingo, colocou em cheque e na defensiva toda a estrutura logística norte-americana de perpetuação de seu poder hegemônico global: b- os interesses estratégicos permanentes do Brasil (soberania nacional) que estão sob ameaça, tanto quanto os do Irã, no que diz respeito ao  direito de desenvolver, com autonomia, seus programas nucleares para fins pacíficos. 

            No item a que chamaremos de “jogo diplomático” e onde tem preponderado o estardalhaço, a diplomacia brasileira desnudou a farsa montada pelo Departamento de Estado norte-americano que visava constranger o governo iraniano a abrir mão de seu programa nuclear  fosse pacífico ou não, fosse militar ou não: o acordo assinado em Teerã por Lula, Ahmadinejad e  Recep Erdogan, o primeiro ministro turco, é  absolutamente igual ao proposto em outubro do ano passado pelas potencias ocidentais e que o Irã não assinou porque não confia nelas, na palavra delas. 

             Por que agora este acordo é considerado insuficiente?  Porque quando o propuseram, há  oito meses, os Estados Unidos sabiam que  Ahmadnejad não  o assinaria o que abriria caminho para as sanções econômicas, algo que já estava previamente decidido. Agora que o Irã o assinou, ele  não vale mais. É a velha historia do lobo dizendo  ao cordeiro,” se não foste tu que  turvaste minha água então foi teu pai e se  não foi teu pai foi teu avô. 

            Qual o motivo (pretexto) usando para invalidar  algo que eles mesmo  sugeriram e que agora é considerado  insuficiente? “Não se pode confiar na palavra dos aiatolás”, é a resposta. Mas surge a  questão: pode-se  confiar na palavra do Departamento de Estado? Onde estão as armas químicas denunciadas  para justificar  a invasão do Iraque? 

            Passemos ao ítem b : 

Há dois anos, as principais potencias ocidentais vêm tentado alterar (para ampliar) as normas  e exigências do Tratado  de Não Proliferação Nuclear (TNP), através da assinatura de um protocolo adicional que daria à Agência  Internacional de Energia  Atômica (AIEA) subordinada à ONU, mas controlada  pelos Estados Unidos, uma capacidade muito maior de inspeção  (e espionagem) dos programas nucleares de países emergentes. 

            No caso do Brasil que está a um passo de  obter tecnologia própria  para  efetivar o ciclo completo do enriquecimento do urânio, esse protocolo adicional fere de forma irreparável a  soberania nacional, criando um dependência eterna de  fontes  externas de tecnologia num setor (o atômico) que será, neste  século, vital para a produção de energia limpa e para o uso médico, especialmente no combate ao câncer. 

            Logo, ao defender o direto do Irã e de qualquer outro pais  de acesso à tecnologias nucleares, o Brasil defende essencialmente os seus interesses estratégicos e comerciais. Isto, pela boa razão de que possuímos mais de cinqüenta por cento das reservas  naturais de urânio do Planeta e estamos em vias de ingressa no seleto grupo de apenas seis países que controlam o  processo integral de enriquecimento do  desse minério. 

            Não é exagero dizer que por detrás do estardalhaço diplomático  envolvendo o Irã, o que há , na verdade, é uma guerra  comercial de grandes proporções cujo enredo é conhecido: uma  minoria detentora  de algo que a  diferencia  tecnologicamente  procura, por razões exclusivas de lucro, manter este status privilegiado. 

            José Serra e o Globo já mostraram suas posições a favor dos interesses  estratégicos norte-americanos. Lula e os nacionalistas brasileiros, a começar pelo ministro de Assuntos Estratégicos, Samuel Pinheiro  Guimarães (o primeiro a denunciar  a jogada comercial das grandes potências), defendem os interesses permanentes do Brasil. Escolha você o seu lado. 

          

             07-05-10 

            A tragédia grega do pensamento neoliberal 

            O que estamos assistindo esta semana na Grécia não é apenas mais um episódio de uma crise  sem fim, iniciada em setembro de  2008 em Wall   Street e que, próxima de seu segundo aniversário, não  consegue enxergar luz no fim do túnel. Na verdade, estamos testemunhando o funeral coletivo de um punhado de paradigmas neoliberais construídos há 30 anos sobre as ruínas  do modelo  soviético, mas que agora também vieram abaixo. 

            Na época alguns autores criativos chegaram a falar em Vingança  do Capital e Fukuyama extrapolou  anunciando o Fim da História. Como devemos chamar agora  esta nova fase em que ingressamos? Eu gosto do seguinte título que tenho usando   em alguns de meus artigos: O Crepúsculo do Capital, articulado com o Impasse Ecológico. Na seqüência, veremos por quê. 

          Desde os  sabichões de nossa mídia do tipo  Carlos Alberto Sardenberg e Míriam Leitão até alguns graduados economistas  burgueses  detentores  de  Prêmios Nobel, ninguém consegue ver além da superfície da crise. Seus diagnósticos são todos direcionados para as bolhas especulativas que um dia começaram a estourar. 

          A receita, óbvia nestes casos é: mais regulamentação do mercado financeiro e menor leniência dos bancos centrais. Para esta turma composta de  luminares  como Paul Krugman e Delfim Netto, tudo se resolverá e as águas voltarão ao leito normal quando governos um pouco menos liberais  fizerem uma  arrumação nas regras do Mercado. Quando muito, repete-se a frase batida de que “ em economia não há almoço grátis “, indicando que é preciso apertar o cinto.  

             Apertem o cinto e façam a lição de casa é o que o FMI e os ricos países falidos da Europa exigem de seus primos  pobres  como a Grécia internada na UTI e entubada para receber o oxigênio de 100 bilhões de dólares. Depois virão Portugal, Espanha e… Itália, por que não? Todos eles estão endividados além do  limite tolerável.  Quase todos devem mais que seu próprio BIP. A solução é o  calote do tipo argentino  ou a obediência brasileira que custou duas décadas de estagnação. 

            Mas reparem que não passa pela cabeça dos nossos ditadores de regra que a crise é muito mais séria, sistêmica e aponta para a incapacidade  de o Capital acumular o seu próprio excedente, a fase crepuscular ou terminal. Entender isso não é muito complicado desde que se saiba, preliminarmente: 

          1-O Capital é, em  si, um excedente. Excedente  de trabalho (próprio ou alheio) que não é consumido e sim acumulado. 

        2-O Capital só obtém lucro efetivo na sua parte variável, dinheiro vivo reservado para pagamento de salários. É essa a parte do Capital que retorna ao bolso no proprietário, inflado pelas horas excedentes ( não confundir com horas extras) de trabalho não pagas, a famosa mais-valia. 

         3-A parte fixa ou constante do Capital, máquinas e equipamentos (e insumos também)  não fornece, a rigor, nenhum lucro ao capitalista. Isto, pela boa razão de que ela  transfere o seu próprio valor para o valor da mercadoria que ajuda a produzir. No caso dos insumos (energia e matérias-primas) esta transferência é instantânea. No caso de  máquinas  a transferência pode levar anos. Mas, inexoravelmente,  insumos, máquinas  ou  equipamentos se exaurem, cedo ou tarde, na produção das mercadorias. Entretanto, é  aqui, na sua parte constante, que o Capital  acumula. 

            4-A última frase do item anterior não é gratuita: o Capital só materializa e fixa os lucros obtidos com a rodada anterior de exploração do trabalho, quando investe em novas máquinas e em mais terrenos e edificações. É assim e só assim que ele realiza sua acumulação ou, mais propriamente, sua reprodução ampliada. Pois é assim que ele amplia sua capacidade de explorar mais trabalho a partir  da mesma base inicial. 

            Agora reparem (e isto  é estampado diariamente pela mídia) que o Capital está em permanente revolução interna, sempre substituindo sua  parte variável (salários e mão de obra) pela parte  constante ( máquinas e equipamentos). É a  automação vertiginosa que acomete o Sistema nesta  sua fase terminal. Quando as máquinas e equipamentos perdem densidade de valor ou simplesmente tornam-se descartáveis (substituídas em prazos cada vez mais curtos, o Capital vai, concomitantemente, perdendo sua capacidade de acumulação.  

           Então, fica nítida a noção de que, principalmente nos países  tecnologicamente mais adiantados, o Capital (entendido aqui como o conjunto de capitais – o Sistema), vai despregando-se daquela parte que dá lucro, bem como daquela onde  ocorre a acumulação efetiva. 

         Quando isto ocorre, o Capital toma três rumos: a– deixa de ser produtivo e transforma-se em capital de serviços que dá lucro, mas não realiza a acumulação clássica que só ocorre (como foi exposto acima) no capital efetivamente produtivo, industrial ou agrícola;  b– ingressa  no cassino especulativo e passa a obter a  maior parte de seus lucros não mais no  chão da fábrica, mas  no departamento financeiro e c– migra para a periferia do sistema , os países em desenvolvimento, onde ainda é possível  obter altas taxas de mais-valia, em função da mão de obra barata. Neste último caso, China, Índia e Brasil são três excelentes exemplos. 

        Enfim, creio que aí está  um pequeno porém eficiente roteiro para acompanhar a  atual crise com melhor capacidade de percepção dos fenômenos que são subjacentes a ela e vão muito além das baboseiras repetidas à exaustão pela mídia pobre e podre. 

       Ainda esta semana voltaremos a este tema para falar do Impasse Ecológico e para esclarecer que o que foi dito aí em cima, não é literatura marxista e sim leitura correta dos antigos clássicos da economia como Adam Smith, David Ricardo  e Jean-Baptiste Say,  em cujos textos Marx colheu os fundamentos para  desenvolver sua teorias sobre a acumulação capitalista. 

  19-02-09 

Talvez fosse melhor ler as três matérias que se seguem a patir da III Parte.  Por uma questão cronológica e de arquivo mantivemos, contudo, a ordem original. 

19-12-09 

Copenhague anuncia o Crepúsculo do Capitalismo
Parte III 

O que sobrou da Reunião de Copenhague, um  dos maiores fiascos  coletivos  da História, foi a virada de mesa  do presidente Lula. Quebrando o protocolo (discursou uma segunda  vez sem pedir licença) e, falando de improviso como nos  tempos do Sindicato dos Metalúrgicos, ele  arrebentou a assembléia e saiu coberto de aplausos. 

Para que não digam que exagero, transcrevo  texto de Ancelmo Gois em sua coluna de hoje, no Globo: “Veja como Lula é inteligente. Um ecologista do governo diz que até dois meses atrás, o presidente pouco sabia  sobre o aquecimento global. Rapidamente aprendeu e, em Copenhague, brilhou merecidamente”. 

E seria pedir demais para que  o Globo publicasse  isto na primeira página. Mas olha só a manchete do jornalão na página  40, sobre Copenhague: “Lula ofusca Obama e atrai as atenções”. 

Salvou-se também o presidente boliviano Evo Morales que serenamente, em meio aos tumultos nas ruas e na assembléia, proferiu a frase que é a síntese histórica da reunião: Não percam vosso tempo com  mesquinharias  e  coisas periféricas. A Humanidade só estará a salvo do desastre ecológico, quando substituir o atual modo de  produção capitalista por outro mais inteligente e generoso, mais compatível com a dignidade  do homem. 

E até o Chávez conseguiu dizer uma frase inspirada chamado Obama de “Prêmio Nobel da Guerra”. 

O resto todos  já sabem: os chefes de estado retornaram a seus países sem nem mesmo  assinar uma declaração conjunta. 

Na matéria abaixo há a seqüência de  desencontros que resultaram no fracasso final e  as repercussões, passo a passo. 

18-12-09 

Copenhague anuncia o Crepúsculo do Capitalismo
Parte II  

O fracasso ou frustração da reunião que se prenuncia em Copenhague, não revela apenas o egoísmo de nações que querem empurrar para as outras os ônus principais no combate ao aquecimento global. Revela a incapacidade global de superar o que chamo de  Impasse Ecológico. E revela ainda a crise sistêmica do modo de produção capitalista. Em tempo: o discurso  de Lula (improviso) feito na  abertura da reunião , esta manhã, foi aplaudidíssimo, ao contrário  do de Obama.  Lula exigiu maior empenho e participação dos países desenvolvidos na luta contra o aquecimento global. Na rádio CBN, a insuspeita Lúcia Ipólito, disse que o discurso do presidente brasileiro,” sóbrio e objetivo foi, provavelmente, o mais importante de sua vida pública”.  Merval Pereira (O Globo), na mesma CBN, admite que “Lula assume papel de liderança e confronta com Obama” .  Brasil exige mais recursos para os pobres e não admite “monitoramento como o praticado pelo FMI ”. A sensação é a de que o Mundo ficou menos hipócrita na Dinamarca. 

 Em 2004 disse no meu livro “O Impasse Ecológico e o Terrorismo do Capital” que o dia  em que  todos os povos ( principalmente os da   China e da Índia) resolverem  e conseguirem adotar o modo de produção e de consumo dos EUA, seriam necessários quatro  planetas do tamanho da Terra. Não fui levado muito a sério e cheguei a ser  acusado de catastrofista. No entanto eu estava apenas ressoando noções difundias, por atores consagrados, desde a passagem dos anos 80 para os 90. Hoje tudo isto é corriqueiro e reparo, comovido, o esforço de estrelas do jornalismo econômico caboclo, como Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg fazem ingentes esforços para redescobrirem, com atraso de 20 anos, o Impasse Ecológico. 

 Entretanto, para organizarmos melhor nossas idéias se quisermos explicar o fracasso de Copenhague é preciso ir por etapas que são três: A Grande Crise Norteamericana, o já citado Impasse  Ecológico e o Crepúsculo do Capitalismo. Então: 

Seria pedir demais a políticos envolvidos com as crises internas de seus respectivos países, todas elas  oriundas da grande Crise Norteamericana, iniciada em setembro do ano passado, viessem a Copenhague para anunciar medidas que, na leitura imediatista de suas clientelas (eleitorado, mídia e financiadores de campanha), representam menos consumo e, por isso, menos emprego. Textos sobre a origem e o desenvolvimento da Crise Americana, o amigo leitor, poderá encontrar com  maior e melhor nível de desenvolvimento na Coluna  Para Entende a Crise, neste  blog. 

O Impasse Ecológico (também melhor desenvolvido na coluna  do mesmo nome deste blog) pode ser resumido na notícia veiculada ontem, quinta-feira: A China  (que já é a campeã mundial da poluição) deverá ultrapassar em  2010 a marca extraordinária de 11 milhões de veículos produzidos em um só ano. 

Com isto ela consolida sua posição de terceira maior potência  mundial, em marcha batida para se tornar a segunda. E mais: torna-se a maior produtora de automóveis, um título que os EUA ostentavam  há 120 anos, desde as remotas origens desta indústria. O mais extraordinário, porém, é que mesmo  exibindo estes portentosos números, a China continua sendo um país emergente (subdesenvolvido). 

Os números provam: atualmente, nos EUA, há a relação de um carro para  cada dois habitantes. Na China esta proporção ainda é a de um veículo par cada 34 habitantes. Isto quer dizer que para atingir o atual nível de produção (não só de veículos  mas de  combustíveis, etc.) e de consumo norteamericanos,  a China ainda  precisa produzir e botar para andar  mais 350 milhões de unidades com tudo o que isto representa em termos de produção siderúrgica e emissão de gases e poluentes que destroem o habitat – o Impasse Ecológico

O Crepúsculo do Capitalismo está implícito na síntese dos quatro parágrafos anteriores: que futuro pode ter um modo de produção que só prospera (acumula) destruindo a Natureza de forma ciclópica e já agora vertiginosa? 

A matéria logo abaixo é, na  verdade, a primeira parte  do texto que você acabou de ler. Se você não a leu ontem, pode lê-la agora. 

17-12-09 

Copenhague anuncia o Crepúsculo do Capitalismo
Parte I  

A Bolívia é uma nação Aymara. Mas o Jabor e o Jô não têm a menor noção do que é isto.  

Como nos velhos filmes B americanos, vou começar esta história  adaptando um bordão que o protagonista  dizia em off, mais ou menos assim: só conheço dois tipos de homem, o otário e o vencedor. 

Então minha crônica começa deste modo: só conheço  dois tipos de homem, o que conta e o que faz a História . Entre os que contam, há pândegos como o Jabor que só vêem a parte superficial e gaiata da coisa. Entre os que fazem,  vou falar,  hoje, do presidente boliviano Evo Morales. 

E já que a linguagem é cinematográfica, façamos um flashback: 

Em 1975, o Cláudio Abramo me chamou lá da sala dele, uma espécie de aquário incrustado  na redação da Folha de São Paulo. Então, sem deixar de rabiscar um  pedaço de papel,  disse apenas: Você vai para a Bolívia. Parece que vão derrubar o Banzer. Eu disse tá legal e fui saindo, quando ele gritou: Olha, meu velho, sei que é bobagem dizer isto, mas manera na bebida. 

Não manerei. Fique um mês  regiamente instalado no Hilton de La Paz, bebendo pisco e  mascando folha de coca. Por isso não senti o efeito da altitude ou não me lembro de ter sentido. Além dessa vida boa,  namorei um punhado de moças paulistas e argentinas. Meio grã-finas meio hippies,  elas revoaram para os Andes e passavam pela  Bolívia a caminho  do Peru. Machu Picchu estava na moda. Creio que as mulheres  nunca foram tão deliciosamente inteligentes e sensuais como nesta época.  Eram antenadas e generosas, engajadas e liberadas. Ia dizer que já não se fazem mulheres assim. Bobagem, eu é que estou ficando velho e nostálgico. 

Com todo este trabalho ainda tive tempo para entrevistar os principais personagens políticos  do País,  até o cardeal e um certo coronel Gusman que, mesmo sem ser general, comandava uma temida divisão de blindados. Era evidente sua ligação com a CIA e o Departamento de Estado. E era ele quem estava armando o golpe que acabou não ocorrendo. 

Entrevistei também lideranças  indígenas  e da esquerda clandestina. Estas estavam  ainda perplexas pelo fato de o Che ter sido morto ali a seus pés, sem que elas soubessem. Lembro ainda que desci correndo as vielas de uma favela só porque  fotografei um velha senhora índia. Lá, eles acreditam, acho que com razão, que as fotos captam (capturam) não só nossas    imagens, como nossas almas. 

Quando voltei ao Brasil estava frustrado por não ter conseguido entrevistar o próprio Banzer e porque o golpe gorou. Então, sentei diante da velha, dura e barulhenta Olivetti   e escrevi uma matéria tão grande que precisou ser divida em três partes para ser editada, ao longo da semana, sob o título Bolívia, uma Nação Aymara. Ninguém jamais tinha ouvido falar disso. Mas o texto  rendeu um pequeno sucesso. Foi, durante alguns dias,  leitura obrigatória  em  cursos  de jornalismo e  fui convidado para duas ou três  palestras. Persistia, porém, o mistério:  Aymara. Que trem é  esse? Perguntavam  os colegas mineiros na redação. 

Aymara é uma civilização não só pré-colombina, como pré-incáica. Os aymaras foram salvos pelo gongo da História: estavam em vias de ser dominados pelos  poderosos invasores do Norte, os incas, quando estes, por sua vez, foram subjugados pelos espanhóis de Francisco Pizarro. 

Com isto, preservou-se uma língua (hoje oficial da Bolívia) e a  cultura de um povo que habita a região dos Altiplanos  Bolivianos, originariamente no entorno do Lago  Titicaca. Esta etnia, possivelmente, é  sucessora de uma das civilizações mais antigas do Mundo, a do Tiuanaco. 

Não perguntem nada disso ao Jabor, este sabichão que trata os bolivianos como vizinhos incômodos e mal cheirosos que nos  incomodam com  sua simples presença.  Nem perguntem nada ao  Jô, esta  outra figura global que  exibe, em cinco idiomas, sua vasta ignorância das coisas sulamericanas e brasileiras.  Durante anos ele sustentou que era impossível queimar a Floresta Amazônica porque ela é quase toda submersa e nesta madrugada de quinta-feira teve quer ser apresentado  por um entrevistado ao pequi, um dos   frutos brasileiros mais populares e importantes. 

Ocorre  que ontem, quarta-feira, em Copenhague, ouviu-se uma voz inteligente no meio de tumultos de rua e do grotesco egoísmo de líderes  mundiais que  tratam o destino na Humanidade com um olho  nas próximas eleições de seus países e compram oxigênio e vendem CO2  como  se estivessem numa feira furreca. 

Essa voz é a de um aymara chamado Evo Morales que acaba de ser consagrado pela votação de   65  por cento dos eleitores de seu país. Em seu discurso  que a mídia fez questão de não divulgar ele disse: Não percam vosso tempo com  mesquinharias  e  coisas periféricas. A Humanidade só estará a salvo do desastre ecológico, quando substituir o atual modo de  produção capitalista por outro mais inteligente e generoso, mais compatível com a dignidade  do homem 

17-8-09 

O Destaque do Dia

A produção redundante e as

duas faces das mercadorias

A descartabilidade

Há 700 anos, fosse para produzir um par de botas, fosse para construir uma catedral, o homem pensava na eternidade, queria que as coisas durassem para sempre. As mercadorias diziam respeito apenas aos mercadores que viviam num compartimento estanque da sociedade. A imensa maioria dos seres humanos, senhores ou servos, viam nos objetos apenas o seu sentido útil e com este objetivo os manufaturavam. A cama de madeira maciça, velha de mais de mil anos, onde Carlos Magno deitou por quatro décadas e finalmente veio a falecer, existe até hoje. Ela é desconsertantemente pequena e tosca. E o soberano a quem muitos atribuem o mérito de lançar as bases e garantir a existência do que hoje chamamos de Civilização Ocidental e Cristã, era analfabeto. Por esta época, o mundo conheceu (melhor dizer registrou) a sua primeira música pop, a Canção de Roland, um general de Magno, morto durante a infeliz campanha da Espanha, onde os visigodos romanizados haviam finalmente sido derrotados pelos muçulmanos. Depois disso (da popularização da canção) os menestréis e poetas foram-se profissionalizando ao longo dos séculos, até chegarem ao estágio institucionalizado da arte remunerada. Nasciam os direitos autorais e de arena que estão sendo enterrados hoje – curiosa ironia – pela Internet e pela pirataria incontrolável. 

Hoje, edifícios de 20 andares vão ao chão para a construção de outros com 60 andares e cidades inteiras são construídas, destruídas e reconstruídas no espaço de uma geração. É a conhecida especulação imobiliária, acionada pelo valor de mercado e com poder de fogo mil vezes superior ao daquela bombinha lançada sobre Hiroshima E as mercadorias, do abridor de latas ao carro de luxo, são fabricadas para ter um vida útil a menor possível. Elas precisam desocupar, no mercado, o lugar de outras mercadorias que já estão sendo produzidas. É o conhecido fenômeno da descartabilidade. Entre o sentido de eternidade da Idade Média e o da perecibilidade obrigatória de nossos dias, media um conceito descrito por Karl Marx há 160 anos e que tanto pode ser estudado do âmbito da filosofia como no da economia. Estamos falando do duplo caráter da mercadoria: o seu valor de uso e o seu valor de mercado. Deste conceito, deriva outro, o da alienação que não cabe no espaço deste artigo. Por ora, digamos apenas que o homem moderno não consegue viver fora dos refrigerados corredores, chão de granito, dos shoppings. No fundo ele se envergonha um pouco disso, mas interna nos hospícios quem se recusa a passear com ele por cada clarão da galeria, pela vitrines feéricas e balcões modernosos, onde figuras mortas vendem o resto em liquidação. Entretanto, nos hospícios também há cantinas, onde podem ser encontrados cafés com gosto de azia, balas ordinárias e pasteis e coxinhas saturadas de óleo e bactérias – coisas sem nenhum valor de uso – pelo contrário – mas com valor de mercado. 

Agora já podemos através de dez itens, degraus, tentar demonstrar em que ponto se fundem, confundem, a noção do duplo caráter da mercadoria com o da produção redundante

1- Quando, em 2004, lancei meu livro O Impasse Ecológico e o Terrorismo do Capital, afirmei, sintonizado com outros autores, que no dia em que todos os países, mundo afora, adquirissem a capacidade de produzir e consumir na mesma proporção que os Estados Unidos, então seriam necessário quatro planetas do tamanho da Terra, para se evitar uma uma catástrofe global do meio ambiente. Foi um espanto e cheguei a ser apontado como catastrofista. Hoje estas e outras noções efetivamente catastróficas são corriqueiras. Ninguém mais duvida que o mundo está doente. Entretanto, as medidas universalmente aceitas para se conter o avanço do problema são inócuas, quando não forem hipócritas ou piegas. A meu ver, tamanha defasagem entre a realidade e as ações, se deve a um enorme erro essencial de diagnóstico. Não há apenas excessos pontuais, imprudências facilmente detectáveis ou falta de conscientização. Acima disto tudo há a incapacidade de perceber que o atual modo de produção que ocupa hoje todos os quadrantes da Terra atingiu um estágio de destruição sem precedentes e sem retorno. O capital global total não acumula a não ser destruindo e ele faz isto de forma cada vez mais veloz, mais feroz e mais autônoma. 

2- Nos dois artigos imediatamente anteriores, procurei conduzir o raciocínio na direção do conceito de produção redundante que desenvolvi com maior profundidade do livro citado acima. Para se apreender a noção desta produção redundante, é preciso que se entenda, antes, que o capital total global sempre que acumula, não importa o quão útil ou inutilmente, ele faz isto, consome e, portanto, destroi, uma fatia correspondente de recursos naturais não renováveis. Já vimos que a acumulação se dá quando o capital (sempre falando em termos globais totais) amplia a capacidade de produzir mais capital, mais mercadorias. Quando esta produção se dá em função das reais necessidades da humanidade como um todo, tudo bem . Porém quando esta produção e consumo forem inúteis, perdulários, então estaremos assistindo a um consumo (destruição) inútil da Natureza. Esta é a produção perdulária, mas para chegarmos ao conceito dá produção redundante ainda faltam alguns passos. Então: 

3- Para acumular o capital individual (e, portanto, o global total) precisa ampliar a sua parte fixa (máquinas e equipamentos) que Marx chamou de Capital Constante. Ocorre quer esta parte constante, máquinas equipamentos e insumos, desgraçadamente não produz lucro (extração de mais-valia) pela simples razão de que ao longo de sua vida útil (digamos dez anos) ou imediatamente ( no caso dos insumos) ela doa, transfere, o seu próprio valor para o valor da mercadoria nova que ajuda a produzir. Isto quer dizer que todo o sinal de mais valor embutido na nova mercadoria, deverá corresponder a um sinal de menos valor na parte do capital constante (máquinas equipamentos e insumos). 

4- Onde, então, o capital produtivo obtém seu lucro? Naquela parte correspondente à exploração da mão-de-obra. Parte esta (salários e outros benefícios) à qual Marx deu o nome de Capital Variável. Este, ao contrário do Constante, renova-se permanentemente e acorda diariamente renovadamente capaz transferir o valor de seu esforço (trabalho) para o valor da mercadoria produzida por ele e pelas máquinas que, como vivos não são capazes de renovarem-se com uma noite de sono. 

5- Agora, uma questão crucial: em função da concorrência que é inerente ao sistema como um todo, os capitais particulares mantem uma corrida alucinada em busca de novas tecnologias (o diferencial tecnológico). Com isto eles abreviam fortemente o tempo de vida útil de suas máquinas e equipamentos. Elas, materialmente falando, poderiam durar mais. Entretanto são descartadas poque tornaram-se obsoletas tecnologicamente falando. Este é um fenômeno recente que data da Terceira Revolução Industrial, a da microeletrônica e da engenharia, da robótica e da engenharia genética que entraram em cena para valer a partir dos anos 70 do século passado. Esta é na sua essência, a obsolescência natural. A obsolescência forçada será conhecida melhor mais adiante. Por enquanto, basta dizer que não faz sentido produzir um aparelho com durabilidade superior a cinco anos se todos sabem que antes disso ele estará tecnologicamente obsoleto. As descomunais montanhas de lixo eletrônico acumuladas em todos os quadrantes são testemunhas deste fenômeno. 

6- Aos poucos, vamos percebendo que os capital particulares (e o total global) são constrangidos a renovar em espaços de tempo cada vez menores o seu capital constante (máquinas e equipamentos). Isto quer dizer que o seu giro completo ou mais precisamente o seu ciclo de acumulação se dá a uma velocidade cada vez maior. Se entendemos bem que a cada ciclo de acumulação ele devora uma parte importante dos recursos naturais não renováveis, vai ficando claro por que é que a Natureza esta sendo destruída de forma cada vez mais rápida, vertiginosa. 

7- Mas para alcançarmos o objetivo deste artigo ainda é necessário esclarecer que na busca desesperada de acelerar o seu próprio giro para consumar sua acumulação a partir de um patamar tecnológico mais alto, o capital como um todo, usa corriqueiramente um expediente já conhecido de todos, o da descartabilidade. Neste ponto, encareço ao leitor que se fixe bem nesta palavra, porque ela, articulada com o consumo perdulário, é a chave da redundância, a produção redundante

8- Em artigo anterior, de maio passado, usando o exemplo de um abridor de latas – que pode , por analogia , ser multiplicado por milhões de exemplos -, creio ter demonstrado que ao produzir uma mercadoria com durabilidade, digamos dez vezes menor em relação a uma outra, que teria com custo parecido, porém com valor de uso dez vezes maior, estamos obrigando o consumidor a , no mesmo espaço de tempo, digamos, dez anos ou dez meses, consumir dez mercadorias , pagar dez vezes o seu valor de mercado, para obter o mesmo (único) valor de uso. Vendo por outro ângulo: no mesmo espaço de tempo os produtores nos oferecem, dez produtos, cobram, evidentemente, dez vezes o preço de um único produto, mas nos dão em contrapartida apenas um valor de uso . Então temos que, a humanidade como um todo gasta dez vezes maias esforço humano e, principalmente, dez unidades de energia e insumos (recursos naturais não renováveis) para satisfazer uma única e e mesma necessidade (valor de uso). Para que este absurdo aconteça, os expedientes escusos, porém corriqueiros e universalmente aceitos, são a descartabilidade, a perecibilidade planejada e a fragilidade intencional. Tudo isto somado ao modismo e seu efeito psicológico. Mais um exemplo para fixar o raciocínio: neste exato momento, o consumidor brasileiro está sendo induzido a comprar um sapato chinês de couro sintético por 15 dólares. Com uso diário este produto não durará mais que quatro meses. No entanto o mesmo consumidor poderia comprar um sapato de couro legítimo por 30 dólares e usaria o produto durante quatro anos. Mas nem falemos neste logro ao consumidor, nos fixemos apenas na noção de que entre as duas alternativas o mesmo valor de uso custou uma quantidade dez vezes maior de recursos naturais não renováveis. 

9- Outro exemplo atual: estamos assistindo neste momento a intensa e louvável campanha para a substituição, nas compras diárias no varejo, de sacos plásticos não biodegradáveis e usados um única vez, por sacolas mais duráveis. Neste caso, toda a argumentação é direcionada no sentido de evitar a degradação ambiental. Isto mostra que mesmo os ecologistas mais ativos ainda estão cegos para o problema maior, o da produção redundante

10- Finalmente é preciso falar na reciclagem, outra campanha meritória dos ecologistas e que ganha, crescentemente, novos adeptos. Nada contra a reciclagem em si, mas é preciso que ela não oculte ou mesmo realimente o problema central: o uso desenfreado do expediente da descartabilidade. No circuito descartável-reciclagem-descartável , o que temos é que o sistema nos remete permanentemente do lixo ao lixo. Mercadorias que poderiam, com o mesmo custo e o mesmo valor de uso ser produzidas com maior durabilidade, são feitas para virar lixo o mais rapidamente possível, ser recicladas e retornar ao lixo. É o caso característico das latas de alumínio, que há vinte anos vem substituindo gradual mas inexoravelmente, os vasilhames de vidro que duram, em média cinco anos. É, a produção redundante assumida, o que nos leva a dizer que a reciclagem é o lado bonzinho do crime. O fundamental é que se veja que a produção e trasporte destas inocentes latinhas, feitas para virar lixo ao primeiro uso, tem um custo astronômico em termos de energia, combustíveis e água. Para a produção de uma tonelada de alumínio são consumidas 180 toneladas de água. E depois os brincalhões ainda vem nos dizer que devemos economizar água durante o banho. Apenas mais um dado: o consumo de água nas residências representa menos de 20 por cento do gasto global. Os mais de 80 por cento restantes, são consumidos pela indústria e pela agricultura, crescentemente voltada para a produção de combustíveis. Se considerarmos que 50 por cento da produção industrial e de combustíveis é redundante, ai temos para onde vai a nossa água cada vez mais escassa. 

Até a próxima. 

24-7-09 

Os esquemas de Marx e
a ante-sala da Barbárie  

Parte I
 

No artigo “Falando Sério”, de 23-4-09 , vimos como Marx, através de esquemas relativamente simples, expôs a mecânica interna, mais íntima, da acumulação capitalista. Neste presente artigo que será desdobrado em três partes, pretendo mostrar que Rosa Luxemburg estava absolutamente certa ao afirmar (o que não estava claro nos textos de Marx) que o Capital – o Sistema como um todo – só obtém sua reprodução ampliada – acumulação-, recorrendo a fatores ou recursos que lhe são externos. E pretendo esclarecer – o que não estava claro nos textos de Luxemburg – que estes recursos externos provém da Natureza que é externa (estranha) ao Sistema, porque lhe fornece mercadorias (bens não renováveis) que produzem outras mercadorias, mas não são produzidas por nenhuma outra mercadoria. São algo, portanto, que interagem com o Sistema, na verdade lhe fornecem os elementos materiais indispensáveis à sua expansão (acumulação), mas não são produzidas dentro deste mesmo Sistema. Não deixam de ser mercadorias , posto que tem valor de mercado, porém são peculiares, como vimos no artigo “A fase crepuscular e a eclosão das contradições essenciais do Capital” de 21-07-09 

A l5 de janeiro de 1919, Rosa Kuxemburg é presa em Berlin, ao lado de outros integrantes da Liga Espártaco, por ela fundada para marcar a posição marxista-revolucionária, em oposição às lideranças da Social Democracia Alemã. Estas lideranças já haviam cometido “a grande traição” de agosto de 1914, quando abandonaram as posições internacionalistas anti-guerra e, em seguida, contribuíram para abortar a revolução alemã de 1918. Finalmente, estas mesmas lideranças, já agora no governo, adotaram a linha revisionista de Bernstein e caminharam abertamente na direção da “democracia burguesa” que , no plano externo, disputaria posições imperialistas e/ou colonialistas com as demais potências mundiais. Estes sociais democratas alemães são, digamos, bisavós de nossos tucanos. A plumagem é a mesma. E foram particularmente cruéis (Freud explica) com a ex-companheira Rosa Luxemburg: três dias após sua prisão ela foi morta a coronhadas. Ela tinha então 49 anos e seu corpo, lançado a um canal, só reapareceria quatro meses depois. 

Em 1912, Luxemburg publicaria sua principal obra, “A Acumulação Capitalista” que provocou um das maiores polêmicas entre teóricos e divulgadores marxistas. Polêmica que, a bem dizer, perdura até hoje 

De início, Rosa Luxemburg reage com espanto à polêmica e às suas dimensões. Ela não conseguia compreender por que é que noções tão simples, quase óbvias, pudessem ocasionar tamanha reação que evoluiria, enquanto a autora viveu, para uma série infindável de réplicas. 

Não há espaço aqui para inventariar esta incrível polêmica, onde os “marxistas ortodoxos” dogmatizaram os conceitos de Marx e jamais conseguiram entender que Rosa, a rigor, limitava-se a repetir a pergunta do próprio Marx: de onde vêm os recurso materiais adicionais que asseguram a acumulação? O fator externo

A chave do problema está na leitura do Livro II de O Capital, mais exatamente no Capítulo XXI, “Acumulação e Reprodução Ampliada”. Luxemburg localiza aqui uma lacuna, senão um incongruência,. Porque nos famosos esquemas montados por Marx para demonstrar a reprodução ampliada (acumulação), de fato não fica claro de onde provêm os fatores (recursos materiais adicionais) indispensáveis para a consumação da ampliação do Sistema como um todo. 

Disso, a autora inferiu que o modo de produção capitalista só obtém sua reprodução ampliada se incorporar elementos materiais que lhes são externos. O próprio Marx,em vários trechos de O Capital (não apenas neste capítulo em foco), pergunta-se como que pensando alto: De onde vem a prata que não cai do céu? 

Cansada de procurar em vão, no miolo dos esquemas e nos textos do capítulo onde estão inseridos, uma resposta para esta pergunta simples, Luxemburg decidiu elaborar sua própria teoria e concluiu, com maestria, que o Capital, enquanto sistema global, só consegue acumular – expandir-se – anexando, crescentemnete, novos recursos materiais e humanos, quer sob o ponto de vista geográfico (anexação territorial), quer do ponto sócio-histórico (a aniquilação de sistemas econômico culturais não compatíveis com a produção capitalista). Um exemplo dado por Rosa que tornou-se clássico, embora nem sempre creditado à autora: ao incorporar regiões antes integradas ao Império Otomano, as nações desenvolvidas (imperialistas) retalharam e privatizaram extensas áreas rurais, antes exploradas comunitariamente. Estavam assim lançadas as bases teóricas para a conceituação do imperialismo, esta etapa superior do capitalismo. Foi nesta fonte que Lênin e Bukharin beberam para escrever livros sobre o tema e que tornaram-se igualmente clássicos. Mas não cessa ai a importância intelectual de Luxemburg. Já nos anos 30, Michal Kalecki , um estudioso da obra de de Luxemburg influenciaria a nada menos que Lord Keynes, de quem foi contemporâneo em Cambridge. e, por extensão, às correntes estruturalistas, desenvolvimentistas , cepalistas, etc. Tudo isto nos leva, aliás, a concluir que, agora, quando todos os recantos da Terra estão dominados pelo Capital e quase todas as instâciais sócio-culturais não capitalistas foram aniquiladas, o Sistema, como um todo, não tem mais onde, por onde, expandir-se. Neste caso, não estaríamos diante do fim de um ciclo histórico? A responta é sim, mas não totalmente ainda. Não totalmente ainda, porque o Capital, não mais podendo expandir-se horizontalmente, avança, agora verticalmente, sobre a Natureza como um todo, destruindo-a ciclopicamente à medida em que acumula. Eis ai mais uma conexão entre a teoria econômica marxista e a questão ecológica. Mas não precipitemos os fatos para não embaralhar os raciocínios centrais. Vamos avançar por etapas. Precisamos demonstrar ainda e com clareza, por que é que o avanço sobre a Natureza deve ser considerado como um fator externo

25-7-09 

Os esquemas de Marx e
a ante-sala da Barbárie  

Parte II
 

Agora, teremos que ingressar no miolo dos esquemas de Marx, lembrando que c é Capital Constante, v é Capital Variável e m é mercadoria, que tanto pode estar na forma de meios de consumo como na de meios de produção. E lembremos ainda que sem a ampliação dos meios de produção (máquinas, equipamentos e insumos – o Capital Constante) não pode haver acumulação. O Sistema, como um todo, neste caso, gira em ponto morto ou, com outras palavras, consome todo o excedente produzido no ano (ciclo) anterior. Finalmente, diga-se que os números dos esquemas foram escolhidos aleatoriamente por Marx. Então:

Primeiro Ano (ou ciclo)  
                 
Dep. I 5000c + 1000v + 1000m = 7000 meios de produção
Dep. II 1430c + 285v + 285m = 2000 meios de consumo
            9000  
Segundo Ano (ou ciclo)  
                 
Dep. I 5417c + 1083v + 1083m = 7583 meios de produção
Dep. II 1583c + 316v + 316m = 2215 meios de consumo
            9798  
Terceiro Ano (ou ciclo)  
                 
Dep. I 5869c + 1173v + 1173m = 8215 meios de produção
Dep. II 1715c + 342v + 342m = 2399 meios de consumo
            10614  
Quarto Ano (ou ciclo)  
                 
Dep. I 3658c + 1271v + 1271m = 8900 meios de produção
Dep. II 1858c + 371v + 371m = 2600 meios de consumo
            11500  

Obs. – A acumulação do capital particular ou do total global, só por casualidade ocorre em exatamente um ano. Além disso, como se trata de um processo circular (na verdade espiral), contínuo, portanto sem início ou fim demarcados, preferimos acrescentar a palavra ciclo , entre parênteses, embora Marx tenha usado apenas a palavra ano. Na segunda linha do gráfico aparece o algarismo I que representa o Departamento I do capital global, aquele que se dedica (como já vimos no meu artigo Falando Sério) à produção de bens de produção – máquinas, equipamentos e insumos. O algarismo II representa o departamento que se dedica à produção de bens de consumo. 

Agora vejamos como Rosa Luxemburg, depois de ter notado em analises anteriores, que os esquemas não indicam de onde provem a base material necessária para assegurar a acumulação – nem tampouco apontam quem seriam os novos consumidores do capital global acrescido -, comenta agora a questão da composição técnica do capital, aquilo que já definimos como sua permanente troca de trabalho vivo por trabalho morto (máquinas no lugar de trabalhadores), mais Capital Constante e menos Capital Variável: 

“Neste caso a acumulação prossegue ininterruptamente, anos após ano, de modo que metade da mais-valia obtida é consumida pelos capitalistas, enquanto metade é capitalizada. Na capitalização mantêm-se a mesma base técnica, a mesma composição orgânica, ou divisão do capital constante e variável, tanto pra o capital original como para o adicional; mantêm-se, também, a mesma taxa de exploração (sempre igual a 100%). De acordo com a hipótese levantada por Marx no Volume I de O Capital, parte capitalizada já nasce sob a forma de meios adicionais de produção e de consumo dos operários. Ambos os meios, destinam-se a aumentar progressivamente, os Departamentos I e II”. 

E logo mais adiante: 

“Antes de mais nada, o esquema não leva absolutamente em consideração a produtividade crescente do trabalho. Anos após ano e apesar da acumulação, ele pressupõe sempre a mesma composição do capital, ou seja, a mesma base técnica do processo de produção. Em si este método é perfeitamente admissível, pois visa à simplificação da análise. A abstração, porém, das alterações técnicas, que dela são inseparáveis, tem de ser considerada no fim, pelo menos quando se investigam as condições concretas da realização do processo social total e da reprodução, levando-se, porém, em consideração os progressos das produtividade do trabalho. Daí se conclui que o conjunto material do produto social – os meios de produção e os meios de consumo – cresce ainda mais rapidamente que sua massa de valor, mais rapidamente do que o esquema indica. (…) Completando o esquema desta forma (sem levar em conta o aumento da produtividade), ficará evidente que com esse método de acumulação irá surgir, obrigatoriamente, a cada ano, um déficit crescente de meios de meios de produção e um excedente crescente dos meios de consumo. (…) Turgan-Baranovsky vê neste fato sua “prova” triunfal de que a acumulação pode prosseguir sem nenhum problema, mesmo com o retrocesso absoluto do consumo”. 

Aqui, para que não se embaralhem as coisas, é preciso dizer que ao referir-se ao déficit crescente dos bens de consumo, Rosa refere-se ao “defeito” dos esquemas que , por não corresponderem à realidade material, apontam numa direção não plausível. Quer disser: se não abstraíssem a questão da produtividade do trabalho (mais máquinas, menos homens), os esquemas deveriam demonstrar um crescente avantajamento do Departamento I ( meios de produção) em relação ao Departamento II, (bens de consumo). Esta lógica essencial do sistema levaria, portanto à situação limite ou absurda, onde mais máquinas são produzidas apenas para produzir mais máquinas. 

Então, o que Luxemburg não viu foi que apesar das manipulações para efeito de simplificação expositiva, os esquemas mostram exatamente o que deveriam mostrar: a crescente desproporcionalidade entre os dois departamentos que resulta da hipertrofia do Capital Constante (máquinas e equipamentos) e a correspondente hipotrofia do Capital Variável (força de trabalho diretamente humana). Mais do que isto, os esquemas expõem, numa fantástica premunição, que obedecendo cegamente à sua lógica imanente, mais íntima e essencial, o sistema (capital como um todo) caminha sim, na direção da produção pela produção. E já estamos convivendo com os primeiros sintomas visíveis do fenômeno, concentrados na produção redundante, aquela que sem levar em mínima consideração às reais necessidade do homem (humanidade), vão produzindo, descartando e novamente produzindo -num processo cada vez mais rápido -, apenas para ensejar a acumulação do capital. 

Assim, o absurdo deste “carrossel diabólico” que Luxemburg atribui a um fantasia de Tugan-Branovsky e ao seu “amor ao paradoxo”, é, na verdade, uma descrição fiel da evolução natural do sistema, ou seja, ele caminha cega e naturalmente para uma situação absurda. 

Na tentativa de corrigir os esquemas de Marx, Rosa elabora os seus próprio. Neles, o fator produtividade (aumento da) esta incluído. Então ela descobre, escandalizada, que os esquemas corrigidos apontam para uma aceleração não só acelerada, como vertiginosa, da desproporcionalidade entre os departamentos e para uma fantástica hipertrofia do capital constante, o que levaria não só a uma diminuição crescente, mas, no limite, à extinção da taxa de lucro. 

Então ela rejeita e renega os esquemas porque se recusa a admitir explicitamente, o que está implícito na teoria marxista e nos esquemas: o modo de produção capitalista constrói, no seu dia-a-dia, a sua própria destruição a longo prazo. Ela não vê no íntimo (fatores endógenos) do Sistema, aquilo que viu tão bem ao analisar os fatores externos: o caminho inexorável em direção à derrocada. No entanto ela provavelmente sabia que tudo que de uma forma ou de outra toca a matéria possui duas poderosas e antagônicas forças internas. No caso do Capital, uma busca cegamente a acumulação enquanto a outra cegamente destrói os elementos indispensáveis à esta acumulação. 

Não por acaso, no Livro I de O Capital, Marx cita Göeth: “Duas almas moram ah! em seu peito, e uma deseja separar-se da outra”. 

21-7-09 

A fase crepuscular e a eclosão das
contradições essenciais do Capital
 

Passo a passo, como numa escalada, chegamos à parte mais alta de nossos raciocínios, momento em que veremos que, como num movimento de virar-se pelo avesso, o Capital, expõem suas contradições essenciais, aquelas que assinalam a etapa final de sua passagem pela História. A primeira destas contradições, é a da incapacidade de o Capital acumular o seu próprio excedente. Isto decorre da perda crescente de sua densidade: mais trabalho morto que não gera novo valor e , evidentemente, menos trabalho vivo, o único que produz mais-valia. 

Já vimos que Marx localiza o trabalho morto nas máquinas, equipamentos e insumos, o Capital Constante onde jazem trabalhos pretéritos: mercadorias produzidas por outras mercadorias. Já o trabalho vivo esta radicado no Capital Variável (salários e outros benefícios), com os quais é comprada a força de trabalho, não de uma só vez, mas em parcelas , horas diárias. O que pouca gente sabe é que a fonte onde Marx bebeu para formular sua teoria foi nada menos que Adan Smith, o pai da economia política e que, quase um século antes, já dizia que com o trabalho que excede suas necessidade diárias, o trabalhador terá como se sustentar e , ao mesmo tempo, fornecer os recursos para ressarcir o investimento do proprietário. Este pensamento saboroso de Smith era destinado a estimular a poupança e o investimento, mas, inadvertidamente, talvez, pôs a nu o segredo da acumulação capitalista. Smith, aliás, era fértil em pensamentos e frases saborosos. Ele disse, por exemplo que “ao tornar-se proprietário da terra, o homem habituou-se a colher onde nunca plantou”, referindo-se aos recursos que a Natureza nos dá de graça. Basta serem recolhidos. Entretanto esta frase, nós a guardaremos para usar mais tarde, quando examinarmos a questão do valor (de mercado) intrínseco dos recursos naturais não renováveis. Marx, por escrúpulo, recusou-se a incluir em seus cálculos este tipo de valor, quando tentou (sem o conseguir plenamente) demonstrar a equivalência entre preços e valores de mercado. Trata-se de um tema polêmico, portanto. Seja como for, é bom fixar desde já a noção de que tais recursos naturais são mercadorias, porém peculiares: elas produzem (entram na composição) de outras mercadorias, mas não são produzidas por nenhuma outra mercadoria, a Natureza no-las dá de graça. 

A importância da precisa conceituação do Capital Variável, feita por Marx, está em que através dela desvenda-se o notável salto de qualidade dado pela humanidade, ao assumir gradativamente o modo de produção capitalista. Depois da exaustão do feudalismo e da extinção da escravatura moderna, o capital deixou de possuir o trabalhador em si, (Capital Constante) mas a apenas a sua força de trabalho, o Capital Variável. Marx advertiu, desde logo, que esta forma mais moderna de exploração deveria ser considerada como “escravidão remunerada”, mas foi inevitável o estabelecimento de uma conexão malandra entre o conceito amplo de democracia e o do modo de produção capitalista. Entretanto, mesmo sem tocar no conceito da alienação do qual trataremos com maior profundidade mais adiante, resta a evidência de que o capitalismo não inclui mecanismo algum que assegure genuinas decisões do povo (o conjunto anônimo da população) no sentido de poupar (ou não) uma parte de sua renda (excedente de trabalho); de se abster por um período unitário de tempo de gastar toda sua renda no consumo produtivo ou improdutivo. Ou seja ter o comando genuíno de seu próprio destino enquanto comunidade ou governar sua própria vida enquanto pessoa humana. O capital – já através dos mecanismo que lhe asseguram o comando das políticas estruturais, já porque sua acumulação (do sistema como um todo) se dá de forma autônoma, independente, muitas vezes da vontade dos próprios capitalista -, é que é genuinamente livre para expandir-se e seguir acumulando, mesmo quando esta acumulação seja sinônimo de devastação ciclópica. 

Mas não fujamos do tema central deste artigo: a exacerbação das contradições essenciais do capital, que o estão levando, nesta fase terminal de sua passagem pela História, a perder a capacidade de acumular o seu próprio excedente ou, mais precisamente, todo o excedente produzido pela humanidade, no seu exercício de metabolização entre o Trabalho e a Natureza. Veremos, então, não sem horror, que esta parte excessiva (trabalho inútil) é literalmente incinerada no fogo e na descarabilidade – a produção redundante. 

Então: se já vimos que, com o aumento da velocidade de rotação do sistema como um todo, as crise cíclicas vão-se aproximando, no tempo, umas das outras, tornando-se menos visíveis, quase imperceptíveis, não será difícil verificar que, por não serem solucionadas, natural ou artificialmente, elas ( as crises sucessivas) acumulam seus efeitos e potencializam crises de grandes proporções como a atual. Combinados em torno deste ponto, já podemos dizer (como já foi demonstrado em artigos anteiores) que, como numa espiral, sempre que sai de uma crise (das pequenas ou das grandes) o capital global total o faz a partir de uma patamar tecnológico mais elevado ( mais trabalho morto, menos trabalho vivo) o que corresponde a uma menor massa global de mais-valia, o que, finalmente, deprime a taxa global de lucro. O resto da história, já conhecemos: a menor taxa de lucro leva o capital a girar mais rapidamente para compensar, com maior número de giros, a menor taxa de lucro – o círculo vicioso. 

Particularmente, creio – e já disse isto – que esta atual crise será apontada no futuro, como marco inicial na transição entre o atual modo de produção e aquele que o sucedeu. Mas são coisas futuras. O homem raramente percebe nos transcurso das crises , no calor dos episódios fortes, que esta encerrando uma etapa de sua trajetória. Por outro lado – e os psicólogos sabem muito bem disto – este mesmo homem execra o sistema em que é obrigado a viver, mas quando se depara com um mundo novo, treme de medo e agarra-se nostalgicamente ao velho e ao iníquo. Na simplificação colocada ai para consumo genérico, é o medo de ser feliz. No entanto – e esta é a tragedia atual – a humanidade já adquiriu a capacidade física e tecnológica para evitar ou minorar grande parte de seus males e, no entanto, exatamente neste momento, afunda na iniquidade e na miséria inaudita de bilhões de pessoas. Haveria uma certa lógica nisto, se a miséria de uns correspondesse, no cômputo geral, ao fausto de outros. Mas não é isto. Como estamos vendo e insistiremos ao longo dos próximos artigos, o excedente não distribuído não entra, como muitos supõem, numa cota global de acumulação. Ele é simplesmente incinerado ( inclusive aquela parte colossal que a Natureza nos dá de graça) no altar da produção redundante ou, se quiserem, da produção pelaprodução. É esta insanidade – este cúmulo da alienação coletiva – que, sob o ponto de vista existencial, decreta a caducidade do atual sistema. 

Até a próxima. 

18-7-09 

A grande crise e o limite do
desenvolvimento do sistema
 

Nos três últimos artigos inseridos nas colunas “Para entender a crise” e o “Impasse Ecológico”, procuramos estabelecer uma conexão entre o atual estágio do modo de produção capitalista, caracterizado pela descartabilidade e pela velocidade do giro do sistema como um todo – a produção redundante – e o limite da evolução deste sistema, em função da destruição ciclópica dos recursos naturais não renováveis, sem falar na degradação ambiental. 

Entretanto, este não é o limite de nosso projeto teórico. Queremos demonstrar, também, que independente da questão ecológica, o atual modo de produção entra em sua fase crepuscular em função de alterações essenciais (ou mesmo de sua própria essência) no seu próprio interior, nos seus fundamentos mais íntimos. A propósito, vale lembrar que cinquenta anos antes de Marx, Ricardo e Malthus, de forma pioneira e verdadeiramente premunitória, desenvolveram a teoria de que os únicos limites para o processo de expansão e acumulação do capital eram os limites relacionados com a Natureza. Malthus levou suas teses mais a sério e Ricardo, seu contemporâneo e amigo, abordou o assunto, ao que parece, como mera curiosidade intelectual. Como não imaginava que um dia os colossais recursos naturais pudessem vir a ser considerados escassos, ele usou a teoria como uma espécie de demonstração cabal de que , na prática , não haveria limites para a expansão capitalista. É neste ponto, que, meio século depois, entra Marx para dizer que o verdadeiro limite para a expansão do capital está no seu âmago, onde se localiza sua contradição mais essencial: o capital caminha para sua auto-destruição, superação, à medida em que avança. Marx estava certo do ponto de vista absolutamente teórico, mas defendeu com tanta garra suas teses que ficou parecendo (apenas parecendo) que ele negligenciou a questão que hoje chamamos de ecológica. Disto decorre, alias, a cegueira de marxistas toscos (ditos ortodoxos) que até recentemente esnobavam solenemente os ecologistas que, por sua vez, em sua maioria vão tornando-se toscos à medida em que ignoram as teorias marxistas mais elementares. 

Nos resta, portanto, a pedreira de tentar demonstrar não apenas para especialistas, por que é que o sistema capitalista caminha dialeticamente para a sua própria superação. Antes, porém, quero lembrar que no livro, “o Impasse Ecológico e o Terrorismo do Capital” (2004), onde examino exatamente esta superação, usei no título a palavra impasse e não limite ou barreira, exatamente porque concordo com a tese de Marx. 

Se o leitor recorda, nos dois artigos anteriores procurei fazer com que chegássemos o mais próximo possível das noções de produção redundante e de queda permanente da taxa de lucro global, do sistema como um todo. Então: esta queda da taxa de lucro (que na verdade advém da queda da taxa global de extração de mais-valia) faz com que o capital tenha a necessidade vital de circular mais rapidamente, para compensar com o maior número de giros a sua perda de substância (densidade) a cada giro. Esta perda de densidade está diretamente relacionada com a queda da taxa global (e também da massa global de mais-valia). Pode-se dizer que o sistema , em função da menor taxa e massa de mais-valia, vai perdendo sua capacidade de acumular – reproduzir-se de forma ampliada – e, gradativamente, no limite, vai-se tornando pífio. Entretanto o que importa fixar é que para circular mais rapidamente, o capital se utiliza de expedientes escusos como a descartabilidade, a perecibilidade planejada, a fragilidade intencional e a obsolescência forçada, já citados nos artigos anteriores. Por outro lado, já vimos também, nesses artigos, que a perda de densidade pode ser explicada pelo aumento do agregado tecnológico (mais máquinas, aparelhos e sistemas mais eficazes) no lugar da mão-de-obra tradicional. 

Tudo isto, cria um círculo vicioso: mais máquinas (capital constante) diminui a taxa de mais-valia, só obtida com o capital variável – salários – conforme vimos também nos artigos anteriores. A menor taxa de mais-valia leva à necessidade de aceleração do giro, que leva ( como também vimos anteriormente) a um maior agregado tecnológico – a obsolescência natural. Em suma, estaríamos diante de uma situação em que o aumento da velocidade faz com que o sistema requeira um novo e ainda maior aumento de velocidade. Se querem uma imagem forte, diríamos que estamos vendo um cão correr, com velocidade crescente, atrás do próprio rabo. Mas esta seria apenas um frase forte se não lembrarmos que a cada giro o capital vai perdendo mais densidade. 

Se tentarmos reduzir estas questões a uma expressão mais simples, poderíamos dizer que ao longo de sua história, o Capital vai trocando – já agora vertiginosamente – trabalho vivo por trabalho morto, ou seja, mão-de-obra por máquinas, equipamentos e insumos que na sua composição já estão impregnados por um trabalho pretérito (máquinas e equipamentos que produziram outras máquinas e equipamentos no passado. O mais importante, porém, é lembrar que, como já vimos, máquinas, equipamentos e insumos, ao longo de sua vida útil, vão transferindo para a a nova mercadoria o seu valor (trabalho morto) para o valor da nova mercadoria. Elas, essencialmente, portanto, não geram lucro, embora dêem esta sensação temporária (até a hora de adquirir novas máquinas) aos seus proprietários. Quando, em artigos futuros, nosso raciocínio atingir níveis muito mais altos de complexidade e abstração, e nos fixarmos na questão, até hoje não suficientemente resolvida, da equivalência global entre preços e valores (de mercado), iremos lidar com o conceito de trabalho pretérito, aquele trabalho anterior contido nas máquinas produzidas por outras máquina que por sua vez foram produzidas por outras máquinas e assim sucessivamente. 

Creio que já chegamos ao consenso de que para compensar sua perda de densidade (menor taxa de lucro) por giro (ciclo de cumulação) o capital total global acelera o seu ritmo de rotação, usando para isto o expediente da produção redundante ( descartabilidade, perecibilidade, etc.). Então podemos fechar o raciocínio de que esta aceleração geral do sistema global total aproxima, no tempo, uma crise cíclica da outra. Lembremos, por outro lado que, como foi visto em em artigos anteriores, o deflagrador das crises cíclicas, que são sempre de superprodução, é o setor de bens de produção (máquinas, equipamentos e insumos). Isto para dizer que as crises estão diretamente relacionadas com a longevidade das tais máquinas e equipamentos. Em seu tempo, Marx calculou, numa carta a Engels, que a duração deste capital fixo era de treze anos. Provavelmente em função disto, economistas, especialistas e divulgadores, combinaram que as crises cíclicas deveriam ocorrer, mais ou menos a cada dez anos. Com a onda longa de crescimento continuado, os Anos Dourados vividos do fim da Guerra a meados da década de 70 do século passado, o tema das crises cíclicas saiu da moda e deixou de ser estudado, inclusive nos meios acadêmicos. Entretanto, o assunto foi revivido durante os dois choques dos preços do petróleo (74 e 77). Não por acaso, verificaremos, que esta mesma época assinala o início efetivo da Terceira Revolução Industrial (microeletrônica, robótica e engenharia genética). E não menos por acaso, por esta mesma época dão ingresso no cenário, os conceitos de descartabilidade, perecibilidade, etc. Visivelmente o sistema como um todo, passou a acelerar, crescentemente, o seu giro. Então, se estamos bem entendidos até aqui, esta aceleração corresponde a uma menor vida útil das mercadorias, de todas as mercadorias, mas, para o que mais nos interessa, das mercadorias destinadas a produzir outras mercadorias, as máquinas e equipamentos. Ernest Mandel, já citado em artigos anteriores, calculou que , nos anos 70, a durabilidade média das máquinas e equipamentos havia caído para cinco anos. Seus números: “o ciclo de obsolescência de máquinas-ferramentas está em vias de diminuir rapidamente para cinco anos. (…) A vida média de um computador não é superior a cinco anos, a de um radar náutico, a sete anos. ( O Capitalismo Tardio, 1974). 

Se estes números plausíveis de Mandel forem atualizados, não será exagerado dizer que a vida media de máquinas, equipamentos e aparelhos já baixou dos quatro anos. Neste caso, estaríamos, diante de um ciclo vertiginoso de substituição (redução da vida útil) do capital constante (fixo) global. Se raciocinarmos nos termos do capital fixo entendido pela economia burguesa, é preciso abstrair terrenos e instalações, embora estas últimas também venham sofrendo forte pressão no sentido da sua destruição para reconstrução logo em seguida. Diante de tudo isso, a mim particularmente, me parece muito estranho que luminares da economia moderna tentem analisar a atual crise (tudo o que eles querem é ser os primeiros a anunciar a luz no fundo do túnel) detendo-se apenas nos aspectos perfunctórios das estatísticas que revelem algum sinal de recuperação das vendas mundo afora. Creio que a análise séria desta crise, a maior em 70 anos, terá que incluir, minimamente, o estudo da interação e concomitância subjacente de alguns dos principais fundamentos do modo de produção capitalista. Se fizermos isto, talvez se descubra que, eventualmente, a luz no fundo do túnel é o farol de uma locomotiva vindo em direção contrária. Mas pode ser também que encontremos elementos para dizer que o atual modo de produção está ingressando em uma fase em que, superando-se em si, move-se para um andar superior. É o que começaremos a fazer no próximo artigo, quando tentaremos demonstrar que a aceleração global dos ciclos do sistema, aproxima, no tempo, um crise (cíclica) da outra, o que provocaria sua atenuação e, por isso, sua visibilidade. Em compensação ficariam potencializadas as mega crises como atual. 

Antes de concluirmos, fica a promessa de que, em artigos futuros, procuraremos esclarece um dos temas mais controversos da literatura marxista: o da noção fundamental de que taxa de mais-valia é diferente da massa (que é sempre global) de mais-valia . 

Até a próxima. 

15-8-09 

O Destaque do Dia 

A produção redundante e as
duas faces das mercadorias 

A descartabilidade
 

Há 700 anos, fosse para produzir um par de botas, fosse para construir uma catedral, o homem pensava na eternidade, queria que as coisas durassem para sempre. As mercadorias diziam respeito apenas aos mercadores que viviam num compartimento estanque da sociedade. A imensa maioria dos seres humanos, senhores ou servos, viam nos objetos apenas o seu sentido útil e com este objetivo os manufaturavam. A cama de madeira maciça, velha de mais de mil anos, onde Carlos Magno deitou por quatro décadas e finalmente veio a falecer, existe até hoje. Ela é desconsertantemente pequena e tosca. E o soberano a quem muitos atribuem o mérito de lançar as bases e garantir a existência do que hoje chamamos de Civilização Ocidental e Cristã, era analfabeto. Por esta época, o mundo conheceu (melhor dizer registrou) a sua primeira música pop, a Canção de Roland, um general de Magno, morto durante a infeliz campanha da Espanha, onde os visigodos romanizados haviam finalmente sido derrotados pelos muçulmanos. Depois disso (da popularização da canção) os menestréis e poetas foram-se profissionalizando ao longo dos séculos, até chegarem ao estágio institucionalizado da arte remunerada. Nasciam os direitos autorais e de arena que estão sendo enterrados hoje – curiosa ironia – pela Internet e pela pirataria incontrolável. 

Hoje, edifícios de 20 andares vão ao chão para a construção de outros com 60 andares e cidades inteiras são construídas, destruídas e reconstruídas no espaço de uma geração. É a conhecida especulação imobiliária, acionada pelo valor de mercado e com poder de fogo mil vezes superior ao daquela bombinha lançada sobre Hiroshima E as mercadorias, do abridor de latas ao carro de luxo, são fabricadas para ter um vida útil a menor possível. Elas precisam desocupar, no mercado, o lugar de outras mercadorias que já estão sendo produzidas. É o conhecido fenômeno da descartabilidade. Entre o sentido de eternidade da Idade Média e o da perecibilidade obrigatória de nossos dias, media um conceito descrito por Karl Marx há 160 anos e que tanto pode ser estudado do âmbito da filosofia como no da economia. Estamos falando do duplo caráter da mercadoria: o seu valor de uso e o seu valor de mercado. Deste conceito, deriva outro, o da alienação que não cabe no espaço deste artigo. Por ora, digamos apenas que o homem moderno não consegue viver fora dos refrigerados corredores, chão de granito, dos shoppings. No fundo ele se envergonha um pouco disso, mas interna nos hospícios quem se recusa a passear com ele por cada clarão da galeria, pela vitrines feéricas e balcões modernosos, onde figuras mortas vendem o resto em liquidação. Entretanto, nos hospícios também há cantinas, onde podem ser encontrados cafés com gosto de azia, balas ordinárias e pasteis e coxinhas saturadas de óleo e bactérias – coisas sem nenhum valor de uso – pelo contrário – mas com valor de mercado. 

Agora já podemos através de dez itens, degraus, tentar demonstrar em que ponto se fundem, confundem, a noção do duplo caráter da mercadoria com o da produção redundante

1- Quando, em 2004, lancei meu livro O Impasse Ecológico e o Terrorismo do Capital, afirmei, sintonizado com outros autores, que no dia em que todos os países, mundo afora, adquirissem a capacidade de produzir e consumir na mesma proporção que os Estados Unidos, então seriam necessário quatro planetas do tamanho da Terra, para se evitar uma uma catástrofe global do meio ambiente. Foi um espanto e cheguei a ser apontado como catastrofista. Hoje estas e outras noções efetivamente catastróficas são corriqueiras. Ninguém mais duvida que o mundo está doente. Entretanto, as medidas universalmente aceitas para se conter o avanço do problema são inócuas, quando não forem hipócritas ou piegas. A meu ver, tamanha defasagem entre a realidade e as ações, se deve a um enorme erro essencial de diagnóstico. Não há apenas excessos pontuais, imprudências facilmente detectáveis ou falta de conscientização. Acima disto tudo há a incapacidade de perceber que o atual modo de produção que ocupa hoje todos os quadrantes da Terra atingiu um estágio de destruição sem precedentes e sem retorno. O capital global total não acumula a não ser destruindo e ele faz isto de forma cada vez mais veloz, mais feroz e mais autônoma. 

2- Nos dois artigos imediatamente anteriores, procurei conduzir o raciocínio na direção do conceito de produção redundante que desenvolvi com maior profundidade do livro citado acima. Para se apreender a noção desta produção redundante, é preciso que se entenda, antes, que o capital total global sempre que acumula, não importa o quão útil ou inutilmente, ele faz isto, consome e, portanto, destroi, uma fatia correspondente de recursos naturais não renováveis. Já vimos que a acumulação se dá quando o capital (sempre falando em termos globais totais) amplia a capacidade de produzir mais capital, mais mercadorias. Quando esta produção se dá em função das reais necessidades da humanidade como um todo, tudo bem . Porém quando esta produção e consumo forem inúteis, perdulários, então estaremos assistindo a um consumo (destruição) inútil da Natureza. Esta é a produção perdulária, mas para chegarmos ao conceito dá produção redundante ainda faltam alguns passos. Então: 

3- Para acumular o capital individual (e, portanto, o global total) precisa ampliar a sua parte fixa (máquinas e equipamentos) que Marx chamou de Capital Constante. Ocorre quer esta parte constante, máquinas equipamentos e insumos, desgraçadamente não produz lucro (extração de mais-valia) pela simples razão de que ao longo de sua vida útil (digamos dez anos) ou imediatamente ( no caso dos insumos) ela doa, transfere, o seu próprio valor para o valor da mercadoria nova que ajuda a produzir. Isto quer dizer que todo o sinal de mais valor embutido na nova mercadoria, deverá corresponder a um sinal de menos valor na parte do capital constante (máquinas equipamentos e insumos). 

4- Onde, então, o capital produtivo obtém seu lucro? Naquela parte correspondente à exploração da mão-de-obra. Parte esta (salários e outros benefícios) à qual Marx deu o nome de Capital Variável. Este, ao contrário do Constante, renova-se permanentemente e acorda diariamente renovadamente capaz transferir o valor de seu esforço (trabalho) para o valor da mercadoria produzida por ele e pelas máquinas que, como vivos não são capazes de renovarem-se com uma noite de sono. 

5- Agora, uma questão crucial: em função da concorrência que é inerente ao sistema como um todo, os capitais particulares mantem uma corrida alucinada em busca de novas tecnologias (o diferencial tecnológico). Com isto eles abreviam fortemente o tempo de vida útil de suas máquinas e equipamentos. Elas, materialmente falando, poderiam durar mais. Entretanto são descartadas poque tornaram-se obsoletas tecnologicamente falando. Este é um fenômeno recente que data da Terceira Revolução Industrial, a da microeletrônica e da engenharia, da robótica e da engenharia genética que entraram em cena para valer a partir dos anos 70 do século passado. Esta é na sua essência, a obsolescência natural. A obsolescência forçada será conhecida melhor mais adiante. Por enquanto, basta dizer que não faz sentido produzir um aparelho com durabilidade superior a cinco anos se todos sabem que antes disso ele estará tecnologicamente obsoleto. As descomunais montanhas de lixo eletrônico acumuladas em todos os quadrantes são testemunhas deste fenômeno. 

6- Aos poucos, vamos percebendo que os capital particulares (e o total global) são constrangidos a renovar em espaços de tempo cada vez menores o seu capital constante (máquinas e equipamentos). Isto quer dizer que o seu giro completo ou mais precisamente o seu ciclo de acumulação se dá a uma velocidade cada vez maior. Se entendemos bem que a cada ciclo de acumulação ele devora uma parte importante dos recursos naturais não renováveis, vai ficando claro por que é que a Natureza esta sendo destruída de forma cada vez mais rápida, vertiginosa. 

7- Mas para alcançarmos o objetivo deste artigo ainda é necessário esclarecer que na busca desesperada de acelerar o seu próprio giro para consumar sua acumulação a partir de um patamar tecnológico mais alto, o capital como um todo, usa corriqueiramente um expediente já conhecido de todos, o da descartabilidade. Neste ponto, encareço ao leitor que se fixe bem nesta palavra, porque ela, articulada com o consumo perdulário, é a chave da redundância, a produção redundante

8- Em artigo anterior, de maio passado, usando o exemplo de um abridor de latas – que pode , por analogia , ser multiplicado por milhões de exemplos -, creio ter demonstrado que ao produzir uma mercadoria com durabilidade, digamos dez vezes menor em relação a uma outra, que teria com custo parecido, porém com valor de uso dez vezes maior, estamos obrigando o consumidor a , no mesmo espaço de tempo, digamos, dez anos ou dez meses, consumir dez mercadorias , pagar dez vezes o seu valor de mercado, para obter o mesmo (único) valor de uso. Vendo por outro ângulo: no mesmo espaço de tempo os produtores nos oferecem, dez produtos, cobram, evidentemente, dez vezes o preço de um único produto, mas nos dão em contrapartida apenas um valor de uso . Então temos que, a humanidade como um todo gasta dez vezes maias esforço humano e, principalmente, dez unidades de energia e insumos (recursos naturais não renováveis) para satisfazer uma única e e mesma necessidade (valor de uso). Para que este absurdo aconteça, os expedientes escusos, porém corriqueiros e universalmente aceitos, são a descartabilidade, a perecibilidadeplanejada e a fragilidade intencional. Tudo isto somado ao modismo e seu efeito psicológico. Mais um exemplo para fixar o raciocínio: neste exato momento, o consumidor brasileiro está sendo induzido a comprar um sapato chinês de couro sintético por 15 dólares. Com uso diário este produto não durará mais que quatro meses. No entanto o mesmo consumidor poderia comprar um sapato de couro legítimo por 30 dólares e usaria o produto durante quatro anos. Mas nem falemos neste logro ao consumidor, nos fixemos apenas na noção de que entre as duas alternativas o mesmo valor de uso custou uma quantidade dez vezes maior de recursos naturais não renováveis. 

9- Outro exemplo atual: estamos assistindo neste momento a intensa e louvável campanha para a substituição, nas compras diárias no varejo, de sacos plásticos não biodegradáveis e usados um única vez, por sacolas mais duráveis. Neste caso, toda a argumentação é direcionada no sentido de evitar a degradação ambiental. Isto mostra que mesmo os ecologistas mais ativos ainda estão cegos para o problema maior, o da produção redundante

10- Finalmente é preciso falar na reciclagem, outra campanha meritória dos ecologistas e que ganha, crescentemente, novos adeptos. Nada contra a reciclagem em si, mas é preciso que ela não oculte ou mesmo realimente o problema central: o uso desenfreado do expediente da descartabilidade. No circuito descartável-reciclagem-descartável , o que temos é que o sistema nos remete permanentemente do lixo ao lixo. Mercadorias que poderiam, com o mesmo custo e o mesmo valor de uso ser produzidas com maior durabilidade, são feitas para virar lixo o mais rapidamente possível, ser recicladas e retornar ao lixo. É o caso característico das latas de alumínio, que há vinte anos vem substituindo gradual mas inexoravelmente, os vasilhames de vidro que duram, em média cinco anos. É, a produção redundante assumida, o que nos leva a dizer que a reciclagem é o lado bonzinho do crime. O fundamental é que se veja que a produção e trasporte destas inocentes latinhas, feitas para virar lixo ao primeiro uso, tem um custo astronômico em termos de energia, combustíveis e água. Para a produção de uma tonelada de alumínio são consumidas 180 toneladas de água. E depois os brincalhões ainda vem nos dizer que devemos economizar água durante o banho. Apenas mais um dado: o consumo de água nas residências representa menos de 20 por cento do gasto global. Os mais de 80 por cento restantes, são consumidos pela indústria e pela agricultura, crescentemente voltada para a produção de combustíveis. Se considerarmos que 50 por cento da produção industrial e de combustíveis é redundante, ai temos para onde vai a nossa água cada vez mais escassa. 

Até a próxima. 

12-7-09 

Mais dez estágios para
entender a grande crise
 

Este artigo dá continuidade ao anterior, de 7-7-09, “Dez degraus para entender a atual crise”. A compartimentação do raciocínio completo em itens numerados (degraus) parece ter agradado à maioria dos meus pouco leitores. Vamos persistir neste método. Por outro lado, como acontece na maioria dos blogs, os texto mais recentes encabeçam as colunas. Neste caso, porém seria conveniente que o leitor que acessa este blog pela primeira vez, leia antes o artigo anterior. 

1- Se já concordamos que nas crises cíclicas, além dos aspectos apenas financeiros, o que deve nortear a análise são os substratos da produção efetiva (economia real) onde invariavelmente iremos registrar o fenômeno da superprodução, e se concordamos que é exclusivamente neste local (o da produção material) onde ocorre a acumulação capitalista, podemos seguir adiante para dizer que quanto maior (mais intensa) a crise, tanto maior será, na saída dela, o salto de qualidade a ser dado pelo sistema como um todo. É uma forma, digamos, de recuperar o terreno perdido. Com outras palavras: já vimos (itens 6 e 7 da matéria anterior) que o capital global, após cada crise, atinge um patamar superior em termos de sua própria concentração e de seu nível tecnológico . É o que chamamos de queda para cima. Há assim , um efetivo progresso, mais precisamente uma progressão. O capital global perde parte de sua essência anterior e adquire uma nova tonalidade. Fica, eu diria, mais leve ou menos denso. Em miúdos: emprega menos mão-de-obra e mais tecnologia e/ou automação. No jargão marxista, este capital, no seu movimento de exploração do trabalho, troca mais-valia absoluta por mais-valia relativa. Isto seria irrelevante ou mera curiosidade científica, se não fosse possível demonstrar, como pretendemos fazer na sequência, que nesta troca, embora o capital aumente o volume de mais-valia (sobretrabalho extraído) ele diminui a taxa de mais-valia. O que nos obrigará a demonstrar, também, que na soma de todos os capitais, a menor taxa de mais-valia total corresponderá, irremediavelmente a uma menor taxa de lucro total. 

2- Esta degradação permanente da taxa global de lucro pode ser estatisticamente comprovada. Ninguém mais ignora que as taxas globais de lucro e, portanto de acumulação e, portanto, de crescimento econômico tem sido, nos últimos 20 anos, substancialmente menores nos países tecnologicamente mais desenvolvidos, na comparação com países mais atrasados ou onde as indústrias mesclam uso intensivo de tecnologia (mais-valia relativa) com uso maciço de mão-de-obra barata (mais-valia) absoluta. Exemplo emblemático disto é a China, para onde acorrem, vorazes, capitais produtivos de todo o planeta. 

3- A não compreensão plena deste fenômeno crucial, é que leva renomados economistas como Delfim Netto e Luiz Gonzaga Belluzzo (para citar apenas dois dos mais competentes) a supor que o medíocre crescimento econômico do mundo desenvolvido nas duas últimas décadas – o que se reflete nas estatísticas globais – deve-se à prática exorbitante de métodos excessivamente ortodoxos (um padrão neoliberal) nas políticas monetárias e cambiais. Outros economistas, como os festejados Paul Krugman e Nouriel Roubini atribuem as misérias do atual sistema ao excesso de condescendência e ausência de regulamentação em relação aos capitais financeiros, em particular os especulativos,como se houvesse na face da Terra, um único capital financeiro que não especule. Seja como for, eles também não vêm que no mesmo passo em que aumenta sua capacitação tecnológica (mais máquia, menos homens) o capital global perde a velocidade de crescimento. 

4- Então: o excepcional crescimento econômico da China nas últimas duas décadas, não se deve apenas à excelência da gestão macro-econômica do governo dito comunista, mas ao fato de o território chinês ser hoje o maior quadrilátero de extração de mais-valia do planeta. O custo ecológico disto tudo, já foi por nós analisados em outros artigos deste blog, mas cabe mencionar mais uma vez. 

5- Vale destacar que quanto mais profunda e/ou intensa for a crise, tanto mais elevado será o nível tecnológico e o grau de concentração com que o capital global reiniciará 

sua caminhada após a superação dos efeitos do cataclismo. Aqui temos o exemplo clássico de realimentação recíproca de fatores (vende mais porque é crocante e é crocante porque vende mais) Assim, a maior concentração (fusões e incorporações), decorrentes do maior número de concordatas e falências, permite, em função da concentração de capitais, esforços e material humano, um esforço concentrado na área de pesquisas e tecnologia. Disso sobressai um aumento do fosso tecnológico entre as mega empresas de um lado e as pequenas e médias de outro. Sendo que estas últimos tenderão a ser avassaladas (terceirizadas ou contratadas com vínculo exclusivo pelas primeiras). Na mesma proporção este fosso será maior na relação entre as economias centrais, tecnologicamente mais desenvolvidas e as periféricas, cuja autonomia vai, assim, se inviabilizando progressivamente. 

6- Do que foi dito no item anterior resulta um fato muito comum na atualidade e que merece destaque: o surgimento dos superlucros provenientes do diferencial tecnológico articulado com a situação (muitas vezes temporária) de monopólio. E aqui tocamos num ponto crucial: estes superlucros, como uma densa neblina, dificultam a visibilidade (demonstração) da teoria da queda permanente (irrevogável) dos lucros, através da trajetória no modo de produção capitalista pela História. E esta , absolutamente não é uma questão menor, porque a ser verdadeira a teoria (da queda da taxa de lucro), fica demonstrado que, no limite, o capital caminha na direção do lucro pífio, o que fará com que ele próprio (o capital) torne-se, pífio, ou ultraleve ou ainda, sem densidade de valor, quando, na mesma medida, perderá a capacidade de acumular (reproduzir-se). Entretanto, se o aquecimento lógico do pensamento dissipar a neblina, ficará claro que os superlucros, que são reais, dizem respeito apenas a algumas grandes empresas em particular, empresas estas que só surgiram em situações também particulares. Trata-se de uma tendência, sim, mas uma tendência que afeta apenas a parte menor de universo empresarial, até porque estamos falando de um fenômeno articulado de concentração que tem como consequência óbvia a exclusão e/ou extinção de grande parte das empresas menos dotadas. Contudo, o raciocínio mais importante a ser feito é o de que ao falarmos em queda da taxa de lucro, não estamos falando de eventos que afetem esta ou aquela empresas ou este e aquele setor: estamos falando de algo global, universal, que afeta o sistema como um todo, na soma de todas as suas circunstâncias. 

7- O que foi dito até aqui, parece indicar que a grande maioria dos estados nacionais vão perdendo a sua capacidade de operar com autonomia, por não reunirem as condições mínimas indispensáveis (volume total e densidade de capitais). Se for assim, estaríamos diante do que podemos chamar de obsolescência dos estados nacionais. Obsolescência esta que é combatível com dois outros fenômenos que precisam ser estudados isoladamente e com todo o cuidado: a irrelevância da política (diante do efeito prático avassalador de simples portarias da equipe econômica que não passa pelo crivo eleitoral) e a criação de blocos econômicos ( que proliferam mundo afora), o que reduz ainda mais as autonomias nacionais. 

8- Entrementes, paira sobre o que foi dito nos itens 6 e 7 uma teoria muito mais instigante: a da concomitância entre os desvanecimentos dos estados nacionais burgueses (controlados pela burguesia) e o modo de produção burguês. Esta concomitância esta começando a aparecer com maior nitidez nesta atual fase, acentuada, mais ainda, pela crise econômica. Max Weber lembra que em seu nascedouro (em temos lógicos e não de sincronia absoluta) houve uma mútua adequação entre estados nacionais e o modo de produção capitalista. Neste caso, as articulações entre todas as obsolescências e desvanecimentos até aqui mencionados não seriam indicações de que estaríamos ingressando numa etapa de mútua inadequação entre estados nacionais, sua organização política e seu modo de produção? Voltaremos muitas vezes ainda a este tema. 

9- Quanto à defasagem tecnológica, item 5, vale recordar que Ernedt Mandel, em seu último livro, “ O Capitalismo Tardio”, já afirmara que a partir dos anos 70 do século passado 

, ficou bem evidente que as grandes empresas buscavam seus lucros, prioritariamente, no diferencial tecnológico. Podemos acrescentar que a partir dos anos 90 as empresas de um modo geral passaram 

a complementar ou mesmo priorizar seus lucros não mais nos departamentos de produção apenas, mas na diretoria financeira, prioritariamente. Eram os chamados lucros de caixa. Na verdade falsos lucros, como a crise viria demonstrar. Na verdade eram apenas perspectivas de lucros obtidos no mercado financeiro, lucros futuros, ou promessas de lucros a partir da exploração futura de trabalho (produção) que jamais se realizaria. Pura fumaça. Quimeras de quem supõe ou finge supor que é possível construir algum tipo de valor sem passar pela elementar metabolização entre o trabalho (mão-de-obra) e a Natureza (recursos naturais convertidos em commodities mesmo quando ainda em estado bruto, nas minas e nas jazidas) Em meu livro O Impasse Ecológico e o Terrorismo do Capital” (2004) abri um capítulo apenas para analisar esta descomunal montanha de promessas que os especialistas insistiam em chamar de capital. Me ocorreu dizer, então, que quando houvesse a mínima suspeita de que tudo não passava de uma especie de “corrente da fortuna” ou “pirâmide”, destas passadas nas esquinas por malandros pés-de-chinelo, estaríamos diante de uma crise mãe

10- Quando ficar completamente claro, compreendido e combinado que toda vez que completa um ciclo de acumulação o capital global total avança, consome e, portando, destrói um pedaço importante dos recursos naturais não renováveis, este será o momento de perguntarmos quão útil ou inutilmente a Natureza está sendo consumida, destruída. É o momento de introduzirmos em nossos raciocínios o conceito da produção redundante, quando recursos naturais são consumidos, destruídos, na sua metabolização com o trabalho, sem que disto resulte o mais mínimo beneficio para a qualidade de vida ou para a evolução da humanidade como um todo.  

 Até a próxima. 

7-7-09 

Dez degraus para
entender esta crise
 

Não quero, absolutamente, ser grosseiro com a Míriam Leitão. Minha birra com relação a ela se deve ao seus textos, mais precisamente ao estilo professoral e impositivo. No mais, creio que ela pessoalmente seja um simpática jovem senhora e boa colega, como me informam. O problema é que ela é paradigma de uma geração de jornalistas que incorporou, ao seu jeito de pensar e de escrever, algumas “verdades absolutas”, verdadeiros axiomas, que não são verdades nem absolutas. São – ou melhor, eram – fugazes imposições de um jeito fugaz de interpretar a economia e, por conta disso, a política e a vida: o jeito neoliberal ou, se quiserem, o modo como o Mercado passou a impor os seus pontos de vista a partir da crise que culminou com a derrocada da ex-União Soviética 

Seja como for, Míriam me surpreendeu quando, em sua coluna do último dia 3 de julho disse que ainda não conseguiu entender a atual crise econômica “tão diferente” das outras. Em função disso, resolvi alinhar os dez primeiros passos a serem dados, segundo penso, para quem quiser digerir esta crise que, por suas dimensões e intensidade poderá significar o início de uma fase pós capitalista. Não que o atual modo de produção vá acabar amanhã. Mas é possível que , mais tarde, os historiadores apontem este período como o marco inicial de uma etapa de esvaecimento – gradual – do modo de produção e de consumo que se impôs ao mundo (e também não fez isto de uma hora para a outra) nos últimos trezentos anos. É claro que não pretendo dar uma de professor, mas escrevo com a segurança mínima de quem, nos últimos vinte anos debruçou-se sobre os textos marxistas, ironicamente, para tentar entender o fracasso soviético e acabou redescobrindo os mecanismos essenciais da acumulação capitalista que, por suas vez, gera , inexoravelmente, crises cíclicas de todos os tamanhos, inclusive as gigantescas como a atual. Então: 

1- As crises econômicas cíclicas, todas elas, são crises de superprodução, embora os primeiros sintomas geralmente ocorram durante o estouro das bolhas especulativas no setor financeiro e se alastrem, na sequência, pelo setor imobiliário. 

2- O desencadeamento das crises se dá, invariavelmente, a partir do que chamo de hiatode consumo (ver meus artigos na coluna “Para entender a crise” do meu blog) que se inicia, invariavelmente no setor de máquinas e equipamento, ou bens de capital ou, ainda, capital constante, no jargão marxista. 

3- Este primeiro hiato (estacamento de encomendas) se dá quando o setor de máquinas e equipamentos deixar de comprar máquinas, equipamentos e insumos com os quais iria produzir mais máquinas, equipamentos e insumos. É por isto que , pelo menos os que entendem minimamente do assunto, dizem que o setor de bens de capital é o primeiro a entrar e o último a sair das crises econômicas. 

4- Como numa reação em cadeia, este primeiro hiato desencadeado por produtores de máquinas, equipamentos e insumos (capital contante ou aquele capital que produz outros capitais) se propaga para os demais setores da economia. O economista burguês que só enxerga a superfície do fenômeno (os sintomas) dá a todos estes fatores concomitantes o nome genérico , simplificador, de “efeito manada”, o que é uma boa denominação, mas, em si, não explica nada. 

5- Para quem nunca leu ( faz questão de não ler) os textos de Marx tudo isto tornar-se incompreensível e eles ficam imaginando que uma fada madrinha teria avisado aos produtores de bens de capital e insumos que haveria no mercado mais mercadorias do que demanda efetiva, o que levaria estes produtores a moderar ou suspender encomendas com as quais produziriam mais máquinas equipamentos e insumos. Mas não é isto. O que há é que a restrição de consumo (o hiato) decorre da necessidade de investimento. Investimento este que, a menos que se recorra novamente à fada madrinha, decorrer, obrigatoriamente, da restrição ao consumo. Não se imagine que um magnata produtor de aço vá deixar de almoçar só porque resolveu instalar mais um alto forno. Mas ele deixa de comprar jatos executivos, iates , coberturas, diamantes, etc. É claro ainda que esta simples e partircular restrição de consumo não explica a crise. Entretanto, a gente começa a entender melhora a coisa quando imagina que existem centenas de milhões de pequenos e médios produtores de bens de produção e, simultaneamente de consumo (agricultores e extrativistas, por exemplo) que também, em dado momento, precisam poupar, para, em seguida, produzir mais. Além disso, considere-se que o primeiro hiato começa a interagir dentro do próprio setor de bens de produção: O setor siderúrgico deixa de encomendar minérios que deixa de encomendar navios que deixam de consumir combustíveis, etc.; sendo certo que o desemprego será a consequência lógica disto tudo. Finalmente, lembre-se que quando os cidadãos de uma economia global são induzidos a consumir mais e poupar menos, sedo ou tarde o sistema (global) desemboca numa crise. 

6-Tudo isto para dizer que ( e antes de Marx, Adan Smith já ensinava isto) não há acumulação capitalista sem restrição do consumo. Esta, a contradição inata do atual modo de produção. Mas não estaríamos acrescentando muita coisa ao que outros autores já disseram, se não enfatizássemos que em função desta contradição inata (crônica), o sistema à medida em que avança – porque ele sempre supera suas crises a partir de um patamar mais alto – vai crescentemente acumulado as condições para a sua própria exaustão (superação). 

7-Este patamar mais elevado (uma espécie de queda para cima), é toda a força, todo o mistério e toda a fraqueza do capital. Kalecki, de quem Keynes colheu boa parte de sua próprias teorias, demonstrou que , em sua dinâmica, ao sair de cada crise cíclica, o capital o faz com um nível maior de concentração (fusões, incorporações, etc.) e um patamar tecnológico superior. Sendo certo aqui também que este novo patamar ( mais automação e melhores métodos) vai gerar mais desemprego estrutural, aquele que veio para ficar. Se analisarmos o sistema como um único (planetário), que é como requer esta época globalizada, vamos constatar que na medida em que acumula, concentra, numa ponta, ele exclui na outra. São ações concomitantes e inevitáveis .Os analistas burgueses supõem (mais torcem do que supõem) que o desemprego estrutural – a eliminação definitiva de vagas de trabalho – no setor produtivo pode ser compensado pela abertura de outras vagas no setor de serviço. Isto corresponde a uma dupla ilusão. A primeira, porque também no setor de serviços há uma crescente automação. Segundo, porque fora do setor produtivo 

o capital, em si, não acumula. Isto porque, na sua essência, ele só acumula quando transforma Natureza (matérias-primas) e Trabalho (mão-de-obra) em uma nova mercadoria, materialmente falando. Mas isto é tema para um artigo específico. Por hora, basta dizer que mercadoria, materialmente falando, vai impregnar, com sua materialidade, outras mercadorias, inclusive a mão-de-obra, esta mercadoria absolutamente essencial. Já os serviços ( embora possam provocar o enriquecimento individual de seus fornecedores o que não deve ser confundido com acumulação do capital) cessam seu efeito no momento em que é usufruído pelo seu eventual consumidor Não há aqui, portanto, materialização de uma novo capital a partir de um capital/mercadoria anterior. O fato concreto é que o capital só acumula efetivamente, quando ele efetivamente aumenta a sua materialidade, (capital fixo) o que ocorre primordialmente (o ponto de partida) no setor de bens de produção. Dizendo com outras palavras, para que fique bem claro: o capital (sistema global) completa um ciclo de acumulação quando, em dado momento, mais máquinas estão aptas para produzir mais máquinas .Enquanto isto não acontecer, poderá haver muitas transações, com muito consumo, muita destruição da Natureza e enriquecimento de pessoas e empresas . Mas não há acumulação do capital global. 

8- Por conta do que foi dito acima, deve ser registrada a enorme distorção provocada pela noção de que o crescimento do BIP mundial ou de países em particular equivale ao mesmo tanto de acumulação capitalista. O BIP registra o aumento (digamos assim para simplificar) do faturamento geral das pessoas, das empresas e dos governos. Fica ai computado, por exemplo, o setor de serviços, onde há muito movimento financeiro, muito gasto pessoal, porém nenhuma acumulação. Já nos tempos de Adan Smith, os fisiocratas franceses ensinavam que “onde há consumo não pode haver acumulação”. São elementos antagônicos que não cabem dentro do mesmo conceito. O que enseja a acumulação é exatamente a ausência de consumo. 

9- Entretanto, é dificílimo embutir no raciocínio das pessoas , tão longamente habituadas a essa conclusão automática, a noção de que desenvolvimento econômico é diferente de acumulação do capital. O consolo é o de que, com o avanço das preocupações ecológicas, mundo afora , as pessoas comecem a perceber, automaticamente, que muitas vezes desenvolvimento corresponde a devastação ou destruição de elementos naturais que, em função da apropriação privada, são elementos integrantes do capital e de sua acumulação. Mais uma vez: onde há apenas consumo ou destruição pura e simples, o capital, obviamente, não acumula, embora seu proprietário, cuja visão não vá além de seu próprio bolso num determinado momento, possa supor o contrário. Eis ai um bom exemplo da indispensável articulação entre o pesamento marxista e o ecológico. 

10- Se quisermos retornar às coisas mais práticas e imediatas da vida, fica a lição de que não se sai da crise apenas estimulando o consumo, via baixa de juros e de impostos. Isto, embora tenha um custo inflacionário a ser pago mais adiante, ameniza os sintomas e dores da doença e, certamente, fará com que alguns países saiam da crise antes que outros o que é auspicioso, sobretudo em anos eleitorais. Porém (e agora quero dizer um coisa bem simples) o sistema como um todo, só poderá ser dado como restabelecido, depois de que todos os almoços grátis – uma descomunal comilança – forem pagos pelos países centrais, acima de todos, os Estados Unidos. Enquanto isto não for feito, a economia continuará andando de lado, sendo certo que só se poderá dizer que o sistema como um todo voltou ao nível de acumulação anterior à crise, quando o setor de máquinas, equipamentos e insumos atingira um patamar de produção correspondente àquele nível. Lembremos que o capital (como um todo) só pode dizer que acumulou, depois que adquirir a capacidade de acumular mais. E resta o alerta de que se o Brasil, por exemplo, quiser sair antecipadamente e mais forte da crise, ele precisa concentrar suas atenções neste setor de máquinas e equipamentos. O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, felizmente, já demonstrou estar atento para o problema. Entretanto, neste capítulo, quem saiu na frente e já detém quilômetros de vantagem é a China que aproveita o estado letárgico do mercado e o barateamento das commodities para ampliar substancialmente as suas indústrias de base. 

Até a próxima. 

1-5-09 

Filosofias
 

Os especialistas em simplificação da ciência econômica gostam de dizer que o processo de desenvolvimento econômico é pouco mais que a soma de inovação com crédito. Isto é simples, mas não é verdadeiro. Quem pensa assim, imagina ingenuamente que estes dois elementos estão situados no núcleo central, essencial, do processo. Mas não é assim. 

O desenvolvimento econômico ou progresso só é isto, no contexto do modo de produção capitalista, quando houver acumulação do capital. Acumulação esta que só ocorrerá quando parte da produção não for consumida. Ao contrário, ela deve ser reinvestida no processo produtivo para o capital, depois de um giro pelo mercado, adquira a capacidade de produzir mais. 

A tecnologia é algo inocente nesse processo elementar. Ela está fora dele. No entanto, o desenvolvimento tecnológico torna-se inevitável durante o desenvolvimento do processo, quando capitais da mesma magnitude só avançam, uns em relação aos outros, através da inovação tecnológica ou metodológica. Então, a essência é a restrição do consumo. A tecnologia é o diferencial que só aparecerá a posteriori e o crédito é algo que dá fluidez e acelera o processo, mas não é o desencadeador, não dá o arranco incial. 

Enfim, crédito e tecnologia utilizados como se fossem essenciais podem até destruir o Planeta, quando colocados como origem única e objetivo final da economia ou seja ,do trabalho ou seja ainda, da existência humana. Aliás e exatamente isto que estamos assistindo neste preciso momento. Felizmente , o verdadeiro progresso ou, se quiserem, desenvolvimento econômico passa longe de toda esta ciclópica destruição da Natureza e de nós mesmos, embora os economistas burgueses não consigam ver isto. Portanto, não estamos aqui lidando com filigranas. Ao contrário.
E agora podemos simplificar: o verdadeiro desenvolvimento – progresso se quiserem – está em nós mesmos e não nas mercadorias. Com outras palavras: quando produzimos objetos úteis ou inúteis aos quais damos o nome de mercadorias e que queimaremos , em seguida, no altar do consumo, estaremos ( com crédito e tecnologia ou sem eles ) apenas queimando a nós mesmos, à nossa essência que vem a ser o nosso trabalho, com o qual metabolizamos com a Natureza. Em suma, trabalho inútil, porque dispendido na produção de mercadorias inúteis provoca a irremediavelmente inútil destruição de recursos naturais escassos. Que progresso é este? 

Até a próxima. 

Crise de consciência 

13/04/2009 

A cidade de São Paulo possui seis milhões de veículos. É a maior frota do mundo e isto, evidentemente, infla o orgulho nacional. Porém, o trânsito paulistano é um dos mais lentos do planeta. Três horas em média para o percurso casa-trabalho-casa. O orgulho despenca. Mas o entupimento das arterias da megalópolis ensejam outro record : como as pessoas indispensáveis (que se acham) vão pelo ar, ninguém possuiu mais helicópteros do que os paulistas. A crise do trânsito é um benefício para a indústria aeronáutica. 

Os chineses, aliás, gostam de dizer que as crises são necessárias. Para eles, crise e nascimento são uma única mesma coisa. Em todo caso, Heráclito, um filósofo pré socrático,considerado avô da dialética marxista – o pai é o Hegel -, já dizia mais ou menos a mesma coisa, uns mil anos antes de Cristo : a crise (ou a guerra ou a fogueira) é a parteira de todas as coisas. 

Enfim, é comum ouvirmos na TV, nas esquinas ou nas filas de banco frases do tipo “esta crise nos trará ensinamentos” ou “ sairemos dela mais fortes”. São obviedades exasperantes, primas do óbvio ululante que tanto exasperava Nelson Rodrigues. Os dois tipos descendem de uma casta de raciocínios ( mais estados de espírito que raciocínios) respeitavelmente chamados de axiomas implícitos,aqueles que, por serem considerados inquestionáveis, sequer são colocados em discussão. 

Então, para sairmos da crise,o governo, obviamente, alivia os impostos sobre a produção de automóveis, os quais, incontinente, serão adquiridos por consumidores emergentes sempre dispostos a contribuir para a rápida coagulação do trânsito. Nem falaremos aqui da poluição, do CO2, do efeito estufa e de outras mazelas decorrentes da utilização do automóvel como transporte de massa . Tudo isto que há dez anos era tema restrito a especialistas, já virou conversa de bar e promessa de político . Todos já estão cansados de ouvir falar disso, mas ninguém suporta o incômodo de possuir menos de dois carros na garangem. A vida sem eles fica sem sentido. 

No mês passado, comemorou-se a Semana da Água. Os especialistas aproveitaram para nos ensinar que este elemento natural precisa ser economizado porque tornou-se escasso, tanto que é comercializado mundo afora como uma commodity qualquer. E aqui cabe uma pergunta que não me parece óbvia: quem são os donos da água, este recurso fornecido pela Natureza, como um obséquio de Deus? O fato é que se ela esta sendo vendida é porque alguém se apropriou dela. Enfim,talvez devêssemos achar tudo isto muito natural, uma questão fora de questão – o axioma implícito. 

Nesta Semana da Água, você provavelmente foi intimado a moderar o uso da ´água dentro de sua própria casa. Seu banho, por exemplo, para ser ecologicamente correto, não deve ultrapassar os cinco minutos. Talvez fosse o caso, porém, de os entendidos em ecologia informarem ao distinto público que o consumo doméstico de água corresponde a apenas 10% do total. Os outros 90% são utilizados pela agricultura e pela inquedústria. Assim, para produzir uma tonelada de aço, usado na fabricação do automóvel, são necessárias 150 toneladas de água. E para que os veículos andem , são necessárias 180 toneladas de água para a produção de uma tonelada de petróleo refinado. Da mesma forma, são utilizadas 100 toneladas do líquido, para se obter uma tonelada de milho que está abandonando as galinhas para ser queimado como etanol pelos nossos potentes motores automobilísticos para os quais transferimos a razão de nossa existência. Quanto ao etanol proveniente da cana, ele consumirá menos água, quando não houver irrigação, mas é certo que ele ocupará e literalmente destruirá terras férteis que teriam melhor uso na produção de alimentos. Em todo caso, registre-se que um quilo de agrotóxico é suficiente para contaminar um bilhão de litros d’água. 

E será assim, enquanto estivermos mansamente subordinados ao atual modo de produção e de consumo das coisas, todas transformadas em mercadorias, inclusive a força do trabalho que vem a ser a nossa própria essência. Será assim, enquanto enquanto nos deixarmos embalar preguiçosamente nesta cômoda falta de liberdade – posto que não há opções – e que nos desobriga de qualquer responsabilidade. Entretanto, se você quiser ser esperto , comece, mesmo sem entender nada do assunto, a defender a necessidade de preservação da Natureza. Seu ibop vai bombar. 

Até a próxima. 

 

 

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7 Comentários leave one →
  1. 09/05/2010 10:27 pm

    Muito elucidativa sua reflexão O Impasse Ecológico.
    Sou Matemático, e entendo um pouquinho de economia.
    Tenho certeza q as premissas econômicas que nos são “vendidas” estão equivocadas.
    Podem funcionar para quem é dono do dinheiro. Até quando?
    Estou seguro que estas perturbações estão relacionadas com emissão desenfreada de moeda.
    O conceito de Lastro mudou. É preciso redefiní-lo. Estão emitindo moeda sem lastro.
    Para quem pode emitir moeda, parece ótimo. Até quando?
    Vc me deu algumas idéias aqui e vou explorá-las.
    Pq o dinheiro q Grécia emprestou desintegrou?
    Não teve ROI, talvez nem tudo foi investido, o que foi investido foi mal investido, ou foi gasto com futilidades, ou ainda teve muito desvio de finalidade.
    Enfim, não gerou lucro para pagar a dívida. O DINHEIRO SUMIU!
    Para sua reflexão deixo este artigo. Talvez possamos fundamentar, modelar isto junto.

    A MAIOR FRAUDE DA HISTÓRIA
    http://www.alfredo-braga.pro.br/discussoes/fraudegananciaeusura.html

    Obrigado,
    edgaarcia@gmail.com

  2. robertocarlosrangel permalink
    21/05/2010 5:01 pm

    Sobre “O Impasse Ecológico”: ISSO PARESSE UM PASSE, NÃO UM IMPASSE…
    Esclarecedor, Chico.
    Blog: http://migre.me/G6r8

  3. robertocarlosrangel permalink
    21/05/2010 5:02 pm

    Corrigindo acima: “PARECE” – desculpem… kkk

  4. Narley permalink
    22/05/2010 1:13 pm

    Olá Chico. Como já havia comentado no twitter, tenho algumas sugestões para o seu Blog. Minha intenção é fazer com que mais pessoas leiam os seus textos. Dê uma olhada nesse blog de direita aqui: http://www.bemparana.com.br/politicaemdebate/

    Você diz a verdade e vejo que explora bastante a internet.

    Sei que é ofensivo mas os textos de internet tem que seguir aquele modelinho mastigado.

    1) Não adianta.. Se você quer que mais gente leia tem que diminuir o texto(internet). Mas como você tem muito a dizer, a ideia é escrever uma introdução de 10 a 15 linhas e um link de “leia mais” abaixo…

    2) Imagem Chico, Tem que ter imagem. Nem que seja o bordão do Che, mas tem que ter imagem nos textos.. Qualquer coisa. Salve do Google imagem.

    3) Todos os textos tem que ter espaço para os comentários abaixo. Não adianta por lá no final da página…

    Ao meu gosto resto é perfeito…

    Desculpe se estou sendo intrometido, mas acredito que assim mais gente irá ler o que você escreve. E é essa a intenção, não é verdade?

    Temos que lutar com todas as armas se quisermos que a verdade seja divulgada. E é o que você faz. É o mais próximo da verdade. Vamos encher o país com seus textos.

    Um abraço!

  5. 25/05/2010 6:42 am

    Também achei muito estranha a notícia sobre a carta do Obama para o Lula.
    Mas considere que o Obama não goza de muita popularidade entre a direita, e que a direita americana não é como a “direita” brasileira. Ouça a rádio WABC, de Nova York, para ter um exemplo.
    Tenho a impressão de que a Hillary desempenha o papel do agente mau, para que o Obama possa desempenhar o do agente bom. Não é uma questão de forças ocultas.
    É muito simplista achar que um governo nasce exclusivamente da vontade do presidente. Ocorre um somatório de forças. Tenha certeza de que quando/se os EUA invadirem o Irã, isto não será completamente contrário aos interesses do Obama.

    A participação dos emergente é muito legal, mas já pensou se isto, a médio prazo, causar um racha no conselho de segurança? Lembre que a velha ONU não foi feita para dar voz aos pobres, como gostariam os pobres, mas para evitar a terceira guerra.

    Abração!

  6. Marnice Braga Lopes permalink
    01/01/2011 2:09 pm

    As questões ambientais referentes a preservação ambiental são complexas, a natureza não é algo pra ser intocável . O homem precisa aprender a viver em simbiose com a mesma, dessa forma cultivaremos o desenvolvimento saudável caso contrário estaremos regredindo. Tudo deve acontecer sim comedidamente. nem muito a terra nem muito ao mar, deve existir um meio termo para que haja equilibro do ser humano e meio ambiente.

  7. Paula Santos Nascimento permalink
    21/05/2011 8:47 pm

    A parti do instante que nos colocarmos dentro de uma perspectiva holísca, enxergando a Natureza humana e não-humana como partes que integram um Todo maior, começaremos a perceber o meio ambiente natural de nossas sociedades articulado a uma questão ético-política. A esse novo viés integrador Guattari (1990) chamou de Ecosofia, cuja pretensão é entender a Ecologia como algo que vai além das questões ambientais, já que “não é justo separar a ação sobre a psique daquela sobre o socius e o ambiente” Guattari (1990, p. 24). Nesse sentido, “menos do que nunca a natureza pode ser separada da cultura, e precisamos aprender a “transversalmente” as interações entre ecossistemas, mecanosfera e Universos de referência sociais e individuais” Guattari (1990, p. 25).

    GUATTARI, Félix. As três ecologias. Campinas, SP: Papirus, 1990.

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