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Sexo & Comércio

27-04-12

Sexo, escravidão remunerada e destruição ecológica

Sobre a liberação sexual ocorrida grosso modo a partir dos anos 60, já fiz vários comentários neste blog. Vale lembrar, contudo que o Capital (enquanto sistema social de exploração do trabalho) incorporou, em seu proveito, a dita liberação, transformado-a em porca libertinagem e prostituição indisfarçada.

Entretanto seria interessante estabelecer um nexo entre esta perversão e outra maior: a exploração desnecessária  de excedentes de trabalho que resultam na extração de forma irrecuperável de fatias cada vez maiores da Natureza.

E é bom esclarecer que o Capital  ou o capitalista não fazem isso por serem demasiado gulosos ou insensatos, posto que e visível a degradação vertiginosa do ambiente natural de todos nós. Eles fazem isso por que a exploração de excedentes de trabalho (e da Natureza) está na gênese do seu processo de acumulação.

Para fechar o raciocínio é necessário, então,  entender como se dá esta acumulação. Para isso, há algum tempo,  produzi  (tentei produzir) uma síntese desse bendito processo. É o que o amigo leitor lerá logo abaixo.

O Crepúsculo do Capital

 Todos comentam a atual crise econômica mundial, mas poucos percebem que  ela é, na verdade, uma crise do próprio  modo de produção capitalista. Trata-se de um  sistêmico que aponta para crescente  incapacidade  de o Capital acumular o seu próprio excedente. É a fase crepuscular ou terminal. Entender isso não é muito complicado desde que se saiba, preliminarmente: 

1-O Capital é, em  si, um excedente. Excedente  de trabalho (próprio ou alheio) que não é consumido e sim acumulado. 

 2-O Capital só obtém lucro efetivo na sua parte variável, dinheiro vivo reservado para pagamento de salários. É essa a parte do Capital que retorna ao bolso no proprietário, inflado pelas horas excedentes (não confundir com horas extras) de trabalho não pagas, a famosa mais-valia. 

3-A parte fixa ou constante do Capital, máquinas e equipamentos (e insumos também)  não fornece, a rigor, nenhum lucro ao capitalista. Isto, pela boa razão de que ela  transfere o seu próprio valor para o valor da mercadoria que ajuda a produzir. No caso dos insumos (energia e matérias-primas) esta transferência é instantânea. No caso de máquinas  a transferência pode levar anos. Mas, inexoravelmente, insumos, máquinas  ou  equipamentos se exaurem, cedo ou tarde, na produção das mercadorias. Entretanto, é  aqui, na sua parte constante, que o Capital  acumula. 

4-A última frase do item anterior não é gratuita: o Capital só materializa e fixa os lucros obtidos com a rodada anterior de exploração do trabalho, quando investe em novas máquinas e em mais terrenos e edificações. É assim e só assim que ele realiza sua acumulação ou, mais propriamente, sua reprodução ampliada. Pois é assim que ele amplia sua capacidade de explorar mais trabalho a partir  da mesma base inicial. 

 Agora reparem (e isto  é estampado diariamente pela mídia) que o Capital está em permanente revolução interna, sempre substituindo sua  parte variável (salários e mão de obra) pela parte  constante (máquinas e equipamentos). É a  automação vertiginosa que acomete o Sistema nesta  sua fase terminal. Quando as máquinas e equipamentos perdem densidade de valor ou simplesmente tornam-se descartáveis (substituídas em prazos cada vez mais curtos), o Capital vai, concomitantemente, perdendo sua capacidade de acumulação.  

Então, fica nítida a noção de que, principalmente nos países  tecnologicamente mais adiantados, o Capital (entendido aqui como o conjunto de capitais – o Sistema), vai despregando-se daquela parte que dá lucro, bem como daquela onde  ocorre a acumulação efetiva. 

Quando isto ocorre, o Capital toma três rumos: a– deixa de ser produtivo e transforma-se em capital de serviços que dá lucro, mas não realiza a acumulação clássica que só ocorre (como foi exposto acima) no capital efetivamente produtivo, industrial ou agrícola; b– ingressa  no cassino especulativo e passa a obter a  maior parte de seus lucros não mais no  chão da fábrica, mas  no departamento financeiro e c– migra para a periferia do sistema, os países em desenvolvimento, onde ainda é possível  obter altas taxas de mais-valia, em função da mão de obra barata. Neste último caso, China, Índia e Brasil são três excelentes exemplos. 

Enfim, creio que aí está  um pequeno, porém eficiente, roteiro para acompanhar a  atual crise com melhor capacidade de percepção dos fenômenos que são subjacentes a ela e vão muito além das baboseiras repetidas à exaustão pela mídia pobre e podre. 

Reparem, ainda, que o que foi dito aí em cima, não é simples literatura marxista dogmática e sim leitura correta dos antigos clássicos da economia como Adam Smith, David Ricardo  e Jean-Baptiste Say,  em cujos textos Marx colheu os fundamentos para  desenvolver sua teorias sobre a acumulação capitalista. Um processo que chega agora à sua fase crepuscular.

O Neofeudalismo

A esta fase crepuscular eu dou o nome de Neofeudalismo, a etapa superior do Imperialismo.

O Neofeudalismo tem como principal característica a  monopolização  e/ou oligopolização extremas e a nível mundial. Some-se a isso, a terceirização da produção.  As grandes corporações cedem a terceiros avassalados, sua marca,  suas invenções e modos de produção e venda.  Assim, passam   (eis aí o aroma feudal) a  auferir renda com algo que é de sua propriedade, sem se imiscuirem na produção propriamente dita.

Com isso, como já é visível a olho nu,  há uma total revolução das relações  do trabalho, somada ao crescente descarte de mão de obra, por conta da vertiginosa automação. Nasce aí o chamado desemprego estrutural.

E desemprego estrutural é  um eufemismo, um nome técnico  que se dá a algo brutal: a exclusão definitiva de populações  inteiras ao redor do Mundo. Populações que se  tornam excedentes e descartáveis  enquanto elementos  do processo produtivo.

 

 

 

 

 

   

19-02-12

A Globo é um prostíbulo e Bial o seu rufião

Por
Francisco Barreira

Prometi a mim mesmo que não  comentaria  essa  lama podre do BBB. Só um idiota não vê que é  simplesmente   uma escancarada exploração da prostituição, a chamada putaria vulgar, como se diz. O problema é que há no  Brasil há  uma multidão de analfabetos políticos sistematicamente imbecilizados exatamente pela mídia alienante e proxeneta , cujo carro chefe é a Globo.

 Então temos a seguinte situação grotesca: um gigantesco prostíbulo, a Globo, é, ao mesmo tempo, o maior e o melhor instrumento prático de formação massiva de opinião pública deste País.

Disso resulta que dezenas de milhões de idiota, idiotizados pela Globo e afins,  há dias discutem seriamente  se foi  justa ou injusta a expulsão  do prostíbulo de um modelo idiota bêbado e prostituído  pela Globo. A acusação é de estupro. Mas a vítima, uma coitada, embriagada e prostituída ao vivo pela Globo, declara peremptoriamente que” deu porque quis”.

Enfim, o episódio policial aumentou exponencialmente  a audiência do programa. Tanto que Boninho, o gerente do  prostíbulo (o dono é o Dr. Marinho e Bial é o rufião), já deve ter feito suas anotações para repetir a cena  em futuros programas.

E a legião de  imbecis ( gado marcado, gado feliz)  arrebanhada e  domada para ser exatamente assim, não percebe que a Globo, em si, é que é um caso de polícia.

Entretanto, é preciso ter cuidado ao condenar o prostíbulo, para não ser  confundido com  moralistas hipócritas ou retardados (provavelmente enrustidos) do tipo pastor Malafaia ou o energúmeno Jair Bolsonaro. Pode ficar parecendo que somos contra a liberação sexual.

No meu caso, é exatamente o oposto.  Sou veementemente favorável à liberação sexual, bem como aos movimentos de emancipação feminina, gay e masculina também. Por que não?

 O problema é que o Sistema (modo de produção Capitalista), que na sua origem era convenientemente puritano, agora que  a família tradicional passou a ser  indiferente para seu jeito de produzir e  forçar o consumo, encampou a liberação, mas  o fez como numa contrafação,  deturpando-a  e prostituindo-a.

A liberação virou libertinagem e um comércio como outro qualquer. Os negócios ligados ao sexo (incluindo ai o entretenimento do tipo BBB)  só é superado,  em nível planetário, pelo volume de venda de armas de guerra. E virou moda, ação corriqueira, vender, por exemplo,  produtos de maquiagem e  roupas íntimas com conotação claramente sexual, para meninas de seis anos.

No final da matéria que se segue a esta, o leitor encontrará uma síntese das razões sociológicas e econômicas que levaram O Capital (enquanto Sistema) a mudar  o seu comportamento em relação à família e sua prole. Essa síntese está contida no título O Crepúsculo do Capital.

05-12-11

Por
Francisco Barreira

Casamento a três. Da fantasia à realidade

Casamento a três ainda é dessas novidades que se prestam à indignação, à galhofa ou ao sussurro por parte da grande maioria da opinião pública. No entanto, já está sendo seriamente discutido por psicólogos, psicanalistas, sociólogos e por agitadores sociais ligados (principalmente estes últimos) aos movimentos gays.

E, para dizer a verdade, não é um tema tão novo assim. No Brasil, foi aberto ao grande público pelo romance e sobretudo pelo filme ”Dona Flor e seus  dois maridos”. Mas esta história é tão velha quanto a Idade da Pedra. Casamento a três, a dez ou grupal. São modalidades que evoluem com a evolução do homem. Nos anos 70 elas eram comuns nas comunidades   hippies. Agora tudo isso volta à tona.

E tudo isso é para dizer que cedo ou tarde, alguns adeptos dessas “novas” modalidades recorrerão ao Judiciário para  legitimar suas opções.  E o que, nesse momento, parece um absurdo é o mesmo “absurdo” do casamento gay se olhado pelo prisma de dez anos atrás. Vivemos dias vertiginosos. O tempo não para e jamais andou tão rápido.

Mas o que é casamento? Pelo viés etimológico, é  legitimação, regulamentação e condicionamento social do acasalamento praticado  de forma continuada por duas pessoas.

 Mas há outras definições: Machado de Assis, por exemplo (e como já lembramos em outro artigo desta coluna), dizia “é uma prostituição doméstica”. E é verdade ou era, quando a mulher era a rainha no lar ou a santa mãizinha, na verdade a Amélia, Hoje tudo isto é considerado risível.

O tempo não para. A mulher livrou-se da milenar dominação masculina e, graças a Deus, está cada vez mais poderosa, embora seu  salário ainda seja, em média, 20% menor do que o do homem.

Agora vejamos para que serve o casamento:

Em primeiro lugar ele é o matrimônio usado como defesa do patrimônio. Sua  finalidade,  desde o advento da propriedade privada (uma invenção relativamente recente da Humanidade) era  a de legaliza e proteger as terras e os  imóveis dos grandes proprietários, assegurando sua transferência pacífica para os “legítimos” herdeiros. E ainda hoje, com adaptações, é assim.

A segunda utilidade era a de  garantir a proliferação sob controle dos servos e posteriormente dos operários baratos, o proletariado, destinado a servir os novos barões da indústria, herdeiros ou sócios dos barões (feudais) da terra. E é exatamente isto que hoje está deixando de ser assim.

Com a vertiginosa evolução tecnológica (por isso tudo fica vertiginoso), o Capital não precisa mais ou já não depende tanto da mão de obra barata ou em grande quantidade. Ele prefere ou é forçado pela concorrência a preferir os cérebros de obra que, com suas máquinas altamente automatizadas e  robotizadas, fazem com que o operário barato torne-se obsoleto e descartável, a menos que  ele seja   transformado em consumidor.

Mas ai entra em cena o Impasse Ecológico, porque o dia  em que cada um dos sete bilhões de seres humanos adotar  o tipo de consumo  alucinado e perdulário dos norte-americanos, por exemplo, serão necessários quatro planetas do tamanho da Terra para dar conta de tudo isso.

Quando a gente vê jovens americanos ocupando as ruas para proclamar a  ocupação de Wall Street,  algo que a calhorda mídia  brasileira procura ocultar de seus incautos leitores, o que estamos vendo  é uma reedição atualizada dos grandes movimentos libertários dos anos  60/70.

A diferença  é que há  quarenta anos os jovens lutaram  pela  liberação sexual  e  sonhavam com paz e amor.  A liberação foi parcialmente conquistada. Mas hoje eles estão convencidos que paz e amor só serão alcançados quando  Wall Street  ou o Mercado ou o  Capital, o que vem a dar  no mesmo, for devidamente domado.

No  texto abaixo  já  postado algumas vezes neste blog, há uma discrição mais detalhada destes fenômenos concomitantes:  as obsolescências do proletariado  e da família (casamento) tradicional.  

O Crepúsculo do Capital

 Todos comentam a atual crise econômica mundial, mas poucos percebem que  ela é, na verdade, uma crise do próprio  modo de produção capitalista. Trata-se de um  sistêmico que aponta para crescente  incapacidade  de o Capital acumular o seu próprio excedente. É a fase crepuscular ou terminal. Entender isso não é muito complicado desde que se saiba, preliminarmente: 

1-O Capital é, em  si, um excedente. Excedente  de trabalho (próprio ou alheio) que não é consumido e sim acumulado. 

 2-O Capital só obtém lucro efetivo na sua parte variável, dinheiro vivo reservado para pagamento de salários. É essa a parte do Capital que retorna ao bolso no proprietário, inflado pelas horas excedentes (não confundir com horas extras) de trabalho não pagas, a famosa mais-valia. 

3-A parte fixa ou constante do Capital, máquinas e equipamentos (e insumos também)  não fornece, a rigor, nenhum lucro ao capitalista. Isto, pela boa razão de que ela  transfere o seu próprio valor para o valor da mercadoria que ajuda a produzir. No caso dos insumos (energia e matérias-primas) esta transferência é instantânea. No caso de máquinas  a transferência pode levar anos. Mas, inexoravelmente, insumos, máquinas  ou  equipamentos se exaurem, cedo ou tarde, na produção das mercadorias. Entretanto, é  aqui, na sua parte constante, que o Capital  acumula. 

4-A última frase do item anterior não é gratuita: o Capital só materializa e fixa os lucros obtidos com a rodada anterior de exploração do trabalho, quando investe em novas máquinas e em mais terrenos e edificações. É assim e só assim que ele realiza sua acumulação ou, mais propriamente, sua reprodução ampliada. Pois é assim que ele amplia sua capacidade de explorar mais trabalho a partir  da mesma base inicial. 

 Agora reparem (e isto  é estampado diariamente pela mídia) que o Capital está em permanente revolução interna, sempre substituindo sua  parte variável (salários e mão de obra) pela parte  constante (máquinas e equipamentos). É a  automação vertiginosa que acomete o Sistema nesta  sua fase terminal. Quando as máquinas e equipamentos perdem densidade de valor ou simplesmente tornam-se descartáveis (substituídas em prazos cada vez mais curtos), o Capital vai, concomitantemente, perdendo sua capacidade de acumulação.  

Então, fica nítida a noção de que, principalmente nos países  tecnologicamente mais adiantados, o Capital (entendido aqui como o conjunto de capitais – o Sistema), vai despregando-se daquela parte que dá lucro, bem como daquela onde  ocorre a acumulação efetiva. 

Quando isto ocorre, o Capital toma três rumos: a– deixa de ser produtivo e transforma-se em capital de serviços que dá lucro, mas não realiza a acumulação clássica que só ocorre (como foi exposto acima) no capital efetivamente produtivo, industrial ou agrícola; b– ingressa  no cassino especulativo e passa a obter a  maior parte de seus lucros não mais no  chão da fábrica, mas  no departamento financeiro e c– migra para a periferia do sistema, os países em desenvolvimento, onde ainda é possível  obter altas taxas de mais-valia, em função da mão de obra barata. Neste último caso, China, Índia e Brasil são três excelentes exemplos. 

Enfim, creio que aí está  um pequeno, porém eficiente, roteiro para acompanhar a  atual crise com melhor capacidade de percepção dos fenômenos que são subjacentes a ela e vão muito além das baboseiras repetidas à exaustão pela mídia pobre e podre. 

Reparem, ainda, que o que foi dito aí em cima, não é simples literatura marxista dogmática e sim leitura correta dos antigos clássicos da economia como Adam Smith, David Ricardo  e Jean-Baptiste Say,  em cujos textos Marx colheu os fundamentos para  desenvolver sua teorias sobre a acumulação capitalista. Um processo que chega agora à sua fase crepuscular.

O Neofeudalismo

A esta fase crepuscular eu dou o nome de Neofeudalismo, a etapa superior do Imperialismo.

O Neofeudalismo tem como principal característica a  monopolização  e/ou oligopolização extremas e a nível mundial. Some-se a isso, a terceirização da produção.  As grandes corporações cedem a terceiros avassalados, sua marca,  suas invenções e modos de produção e venda.  Assim, passam   (eis aí o aroma feudal) a  auferir renda com algo que é de sua propriedade, sem se imiscuirem na produção propriamente dita.

Com isso, como já é visível a olho nu,  há uma total revolução das relações  do trabalho, somada ao crescente descarte de mão de obra, por conta da vertiginosa automação. Nasce aí o chamado desemprego estrutural.

E desemprego estrutural é  um eufemismo, um nome técnico  que se dá a algo brutal: a exclusão definitiva de populações  inteiras ao redor do Mundo. Populações que se  tornam excedentes e descartáveis  enquanto elementos  do processo produtivo.

 

 

02-02-11

Por
Francisco Barreira

Entre Freud e Marx, fiquemos com ambos

Wilhelm Reich foi um cara admirável. Sabe aquele tipo que de tão honesto chega a ser chato? Ele era assim. E fez de tudo (estamos nos anos 20 do século passado) para convencer os marxistas ortodoxos, não apenas os estalinistas, de que precisavam anexar as descobertas de Freud ao seu arsenal ideológico e da prática política.

Com igual esmero procurou demonstrar aos freudianos que sem um alicerce marxista suas construções teóricas eram castelos de areia. Ele estava absolutamente certo, mas tudo o que conseguiu foi ser renegado e, de certa forma, humilhado pelas duas facções. 

Em “A Psicologia de Massa do Fascismo”, Reich demonstrou que o operário médio não é nem  inequivocamente revolucionário, nem indiscutivelmente reacionário, pois carrega em si esta contradição:  De um lado integra uma classe naturalmente subversiva, porque seus interesses econômicos são  em tudo e por tudo antagônicos aos interesses das classes que a exploram.  De outro lado, como indivíduo, está sujeito a inibições burguesas, inculcadas pela doutrinação ideológica. É uma visão horizontal da questão.

O que tudo isso tem a ver com o sexo que é o objetivo desta coluna, veremos logo mais adiante.  Ates é preciso dizer que sem esta explicação acima, fica muito difícil entender, por exemplo, por que os trabalhadores paulistas têm uma certa queda  eleitoral por José Serra e até por Paulo Maluf.

 É claro que há também explicações fornecidas pelo leninismo clássico. É a visão vertical, segundo a qual, em  algumas situações, mais comuns nas sociedades industriais  avançadas,  surge uma “elite operária” que é cooptada pelo Sistema. E, além disso, tem que ser levada em conta  uma certa corrupção da burocracia sindical  que leva ao acomodamento.

Me parece  que o lógico e o honesto é cruzar estas duas linhas de pensamento,  a  horizontal e a vertical, para obter a síntese. Mas é preciso, também, atualizar os termos da questão. Os elementos constantes  nas duas teses  prevaleceram só até os anos 50 do século passado, que assinala o apogeu da produção/acumulação capitalista, a fase mecânica.

 Hoje, em seu crepúsculo (a fase micro-eletrônica), o Sistema  alterou substancialmente sua fórmula de  exploração/acumulação. A automação vertiginosa diminui drasticamente a exploração  direta do trabalho (única forma de acumulação) e o peso econômico e social da  chamada classe operária ficou reduzido em termos absolutos e relativos.

Estamos vivendo a fase de crescimento exponencial do Setor de Serviços, onde o Capital não tem como acumular efetivamente. Ele só faz isso, onde há exploração do trabalho material, a metabolização do homem  com a Natureza. Assistimos, então, ao crescimento espantoso dos oligopólios globais e ao domínio do Capital Financeiro  (não produtivo) que gera bolhas de consumo, mas não  enseja a  acumulação efetiva do Sistema como um todo.

Vivemos, enfim, uma fase com  predominância de ingredientes pós-capitalistas, como a das relações  terceirizadas  entre Capital e Trabalho. E esta terceirização tem um forte aroma neo-feudal, o da vassalagem.

Agora já podemos falar de sexo:

Exasperado  pelo fato de suas teorias não serem compreendidas, Reich radicalizou até o ponto em que essas teorias se transformaram no movimento  Sex-Pol  que procurava tornar visível  a conexão entre a repressão político-econômica e a sexual.

 É este movimento  que inspira, nos seus desdobramentos (Marcuse),  a Revolução Cultural dos anos 60. Ele dá primazia ao “princípio do prazer” e eleva o orgasmo à condição de suprema necessidade biológica. A palavra de ordem não deixava por menos: “Luta sexual da juventude operária”.  

Agora imaginem alguém gritando isso na primeira metade do século passado. Resultado: os partidos comunistas oficiais, escandalizados, o desautorizaram  e, do outro  lado, os psicologistas burgueses (freudianos)  o estigmatizaram como excêntrico e o isolaram.

Já comentamos  no artigo anterior, como se deu a Revolução Cultura (e sexual) dos anos  60/70. Anos Rebeldes e Dourados. Parecia que estávamos no limiar da libertação e do Paraíso.   No entanto, o modo de produção capitalista  encampou, digeriu e reciclou a liberação sexual, transformando-a na atual sordidez  da exploração (comercialização) liberada do sexo e seu fetiche. Sordidez esta, que  na Globo é insuperável.

 Se perguntarem o que acha disso ao  Luis Fernando Verissimo que tralhada  na casa, mas é independente e tem coragem, ele responderá como já respondeu em sua última crônica: Chegamos ao fundo do poço. É impossível descer mais.

Ora, como o modo de produção capitalista já ingressou em sua fase terminal (a Crise Americana e Européia é apenas o primeiro sintoma), me parece adequando atualizar a palavra de ordem de Reich. Ficaria mais ou menos assim: Liberação sexual, sim. Capitalismo não.

A matéria abaixo dá continuidade e melhor sentido à que você acaba de ler.                                

29-01-11

Como era bom meu sexo

Texto original postado em 10-01-11

Sob o Capital, a liberação sexual é a
farsa do comércio do sexo liberado

Por
Francisco Barreira

Todos nós, de esquerda ou direita, que fomos politizados em fases anteriores aos anos 70 do século passado, nos habituamos a antagonizar Freud e Marx. Ou vale um ou vale outro. Isto é obra dos epígonos dos dois lados, aqueles divulgadores medíocres que, por preguiça, malícia ou pura incompetência “reduzem” as teorias dos respectivos mestres a uma série indigesta de slogans ou palavras de ordem que passam a constar de cartilhas destinadas à conquista de novos militantes.
Assim, pela direita, defendia-se fervorosamente que a rebeldia contra Sistema, tinha muito mais a ver com um choque edipiano de gerações do que com a luta de classes e os fatores econômicos E, pela esquerda, os mais empedernidos, numa ação reflexa, ignoravam toda a teoria freudiana, assim como até hoje há ingênuos que ignoram Darwin.
De um lado, via-se a revolta juvenil, mesmo quando ela ganhava as ruas, como um distúrbio temporário de comportamento: nada que um bom divã ou uma boa carteira de trabalho não possam resolver. Do outro lado, torcia-se o nariz para a teoria dos complexos de infância: frescura de burguês: nada que uma enxada e uma vassoura na mão não possam resolver.
Não me tomem por leviano, nem pensem que pretendo reduzir nossa discussão a uma sucessão de frases jocosas. Só direi que um pouco de vaselina não faz mal a ninguém. E, dito isto, reparem na frase de Freud aí em baixo:
“A força propulsora básica da sociedade humana é, em última análise, econômica: já que a sociedade não possui reservas suficientes para manter seus membros sem que eles trabalhem, precisa limitar o número desses membros e desviar suas energias da atividade sexual para o trabalho. Esta é a eterna e básica exigência da vida, que persiste até hoje”. Assim, pois, ele explicava, nas razões econômicas (uma tese marxista), a origem primeira da repressão sexual que dá origem aos complexos por ele estudados.
Pelo lado de Marx, é conhecida sua teoria sobre a luta de classes, o motor da História. Luta esta que faz com que o Sistema internalize (geralmente via religião) no núcleo familiar básico, sua ideologia e, portanto, sua repressão. Eis ai como Marx antecipa, a figura repressora tão conhecida hoje do pai-patrão que, por sua vez, está no núcleo da teoria edipiana.
O leitor mais inteligente – e felizmente todos os meus o são – já deve ter concluído que não faz sentido falar em liberação sexual apenas, desvinculando-a da outra repressão (opressão) que corre em paralelo: a exploração do trabalho alienado, aquele que vendemos apenas para comer e dar de comer aos filhos, sem fazer qualquer tipo de consideração sobre se este tipo (ou quantidade) de trabalho é realmente necessário para a melhoria da qualidade de vida da humanidade como um todo.
Na verdade, o trabalho alienado e seu excedente têm como função essencial (exclusiva) propiciar a acumulação do Capital. Trata-se, portanto, de uma disfunção. Disfunção esta que destrói a Natureza, assim como o câncer (produção excedente de células) destrói o corpo humano.
De tudo isto, pode-se chegar à conclusão de que a liberação sexual,  representa importante avanço cultural, psicológico e também político, como é o caso das mulheres e dos homossexuais. Mas não é só isto: o realmente importante é que, cedo ou tarde, este processo é canalizado para a luta ideológica. Entretanto, na atual fase, a liberação sexual ainda está muito mais para a farsa que consiste em fazer supor que estamos sendo liberados, quando continuamos presos ao fetiche na maioria dos casos. E isto transforma a liberação em mera libertinagem.
Até agora, o que ocorreu de forma realmente consistente foi a liberação da comercialização degradante e desenfreada do sexo. Sexo que, enquanto mercadoria que é na sociedade dominada pelo Capital, representa um negócio planetário superior ao do petróleo.
A mídia capitalista aposta na nossa liberação para continuar com a venda crescente de suas mercadorias sexuais, principalmente as de carne e osso. Mas não quer que concluamos que a liberação real só ocorrerá quando mandarmos a exploração capitalista para o espaço.
Hoje, paramos por aqui, com a promessa de retomar o assunto muito em breve. Ocorre que tenho este compromisso com meus leitores: eu procuro não escrever muito mais que 30 linhas de cada vez . E eles prometem não bocejar enquanto estão lendo.

Leia também a matéria abaixo. Ela  complementa o raciocínio desta.

21-01-11

Texto originalmente  postado em 09-01-10

O que não querem que você saiba sobre o sexo

Um dos lugares comuns mais comuns nos diz que a prostituição é a profissão mais antiga do mundo. Deve ser verdade. Mas o que é mesmo prostituição? Aí varia. Dependendo da idade, da classe social e da cultura, o conceito vai cambiando. Ou melhor, vai mudando nossa opinião do que seja praticar a prostituição. Atitudes gestos, modos de vestir e de falar, hoje comuns até em crianças, há algumas décadas eram de forma unanime considerados “coisas de puta” ou de puto.
Machado de Assis cujo estilo é considerado austero e pudico, um dia jogou esta frase no papel: casamento, esta prostituição doméstica. Opa! Olha aí o gênio de um homem conservador, levantando uma tese revolucionária. A de que a prostituição é, antes de tudo, uma relação de poder.

Antes de prosseguir, consultemos o Houaiss:

prostituição – Atividade institucionalizada que visa ganhar dinheiro com a cobrança por atos sexuais. Exploração de prostitutas.
proxeneta – aquele que explora a prostituição de outrem.
Se levarmos ao pé da letra estes dois verbetes, como poderíamos, por exemplo, definir gente famosa que se expõe em fotos ou em filmes com o objetivo absolutamente indiscutível de provocar desejo sexual em outrem? Não se precipite amigo leitor. Retire a palavra prostituta(o) de sua boca. A famosa(o) só poderá ser assim denominada(o) se cobrar um dinheirinho (ou dinheirão) para posar para tais fotos ou interpretar tais filmes. O mesmo se poderá dizer com relação aos vetustos órgãos de nossa mídia que produzem e veiculam tais fotos e tais filmes: eles atuam como proxenetas.
É mais do que óbvio, portanto, que os dois verbetes mencionados acima não podem ser tomados ao pé da letra. Seria um Deus nos acuda. Ia sobrar pra todo mundo, Vige Santíssima! O que fazer então? Arrancar a página do dicionário? Não é preciso chegar a tanto, basta relativizar.
Esta é a palavra mágica. Tudo é relativo. Portanto, tudo pode eventualmente ser tolerável ou suportável. Se, no final, ainda metermos alguma grana no bolso, melhor ainda.
Agora voltemos ao velho Machado. Ele nos ensina que a prostituição é uma relação de poder. Como a prostituição já foi devidamente relativizada, sobra a noção elementar de que o sexo implica, inevitavelmente, uma relação de poder. Opa! Mas como se dão as relações de poder? Historicamente, através da luta de classes.
Isso tudo para dizer que a menos que se queira ser apenas um proxeneta e escrever livros ou matérias do tipo “Tudo o que você precisa saber sobre sexo”, com o objetivo exclusivo de levantar uma grana, é preciso estudar , minimamente, as relações de classe ao longo da História. Muita gente já fez isto de forma mais ou menos competente. No caso específico da exploração sexual selecionei quatro autores: Marx, Freud, Jung e Reich. Eles dissecam as relações entre o poder e o sexo na sociedade. E todos eles fixam-se na questão crucial: as relações de sexo e poder no interior do núcleo familiar.
Pelo menos uma vez por semana escreverei sobre este tema aqui no blog. Como não sou especialista nem pretensioso, vou me limitar a reproduzir ou resumir, de forma articulada, textos dos autores sitados acima.

 03-03-11

A  família  acabou  porque  o
Capital não precisa mais dela

Os falsos moralistas, por hipocrisia ou ignorância, atribuem a atual dilaceração da família tradicional aos programas de TV ou filmes americanos onde o núcleo familiar (a sacrossanta célula mater) é  retratado em suas diversas e heterodoxas formas atualmente em uso.

É claro que isso é apenas uma bobagem largamente utilizada nos púlpitos caça-níqueis. Então, devem haver outra ou outras razões.  Nos parágrafos seguintes vou tentar demonstrar que uma delas é a falta de utilidade da  família sob o ponto de vista do Capital ou mais precisamente, do modo de produção capitalista. É isso aí. Para o Sistema, a família tornou-se obsoleta.

Desde os tempos mais remotos, há uma inelutável concatenação ou sintonia entre o sistema econômico  e a moral e costumes (incluída aí, evidentemente, a organização familiar). Quando há uma desconexão entre estes dois fatores é porque a sociedade está em vias de  realizar uma revolução e evoluir para uma etapa  superior.

O modo de produção capitalista herdou de seu antecessor, o Mercantilismo e, a bem dizer, de todos os demais sistemas anteriores, a noção de que era importante aumentar a população ou a prole  se  quisermos nos referir ao aumento dos membros do núcleo familiar.

E isto valeu até o apogeu do capitalismo. Estamos  falando dos  anos 50 do século passado. De lá  para cá, há uma  que evidente inversão da norma. E o padrão passou a ser  o da contenção  do crescimento  populacional e, pois, nos membros do núcleo  familiar. As justificativas  para isso são as  mais  variadas  e  algumas até plausíveis.

Mas a verdadeira  razão dessa inversão está subjacente a todo o processo e diz respeito ao fato de  o aumento da mão de obra (que depende do aumento da prole, daí o nome proletariado) ter deixado de ser interessante. Passou, até, a ser inconveniente. Numa palavra:  no que diz respeito aos interesses essenciais do atual modo de produção, a família, enquanto incubadora  de mão de obra, tonou-se desnecessária, obsoleta.

Há poucos dias, produzi, para outra coluna do blog, um texto que pretende explicar as razões que levam o Capital a descartar a mão de obra. Veja  logo aí abaixo:

O Crepúsculo do Capital

 Todos comentam a atual crise econômica mundial, mas poucos percebem que  ela é, na verdade, uma crise do próprio  modo de produção capitalista. Trata-se de um  sistêmico que aponta para crescente  incapacidade  de o Capital acumular o seu próprio excedente. É a fase crepuscular ou terminal. Entender isso não é muito complicado desde que se saiba, preliminarmente: 

1-O Capital é, em  si, um excedente. Excedente  de trabalho (próprio ou alheio) que não é consumido e sim acumulado. 

 2-O Capital só obtém lucro efetivo na sua parte variável, dinheiro vivo reservado para pagamento de salários. É essa a parte do Capital que retorna ao bolso no proprietário, inflado pelas horas excedentes (não confundir com horas extras) de trabalho não pagas, a famosa mais-valia. 

3-A parte fixa ou constante do Capital, máquinas e equipamentos (e insumos também)  não fornece, a rigor, nenhum lucro ao capitalista. Isto, pela boa razão de que ela  transfere o seu próprio valor para o valor da mercadoria que ajuda a produzir. No caso dos insumos (energia e matérias-primas) esta transferência é instantânea. No caso de máquinas  a transferência pode levar anos. Mas, inexoravelmente, insumos, máquinas  ou  equipamentos se exaurem, cedo ou tarde, na produção das mercadorias. Entretanto, é  aqui, na sua parte constante, que o Capital  acumula. 

4-A última frase do item anterior não é gratuita: o Capital só materializa e fixa os lucros obtidos com a rodada anterior de exploração do trabalho, quando investe em novas máquinas e em mais terrenos e edificações. É assim e só assim que ele realiza sua acumulação ou, mais propriamente, sua reprodução ampliada. Pois é assim que ele amplia sua capacidade de explorar mais trabalho a partir  da mesma base inicial. 

 Agora reparem (e isto  é estampado diariamente pela mídia) que o Capital está em permanente revolução interna, sempre substituindo sua  parte variável (salários e mão de obra) pela parte  constante (máquinas e equipamentos). É a  automação vertiginosa que acomete o Sistema nesta  sua fase terminal. Quando as máquinas e equipamentos perdem densidade de valor ou simplesmente tornam-se descartáveis (substituídas em prazos cada vez mais curtos), o Capital vai, concomitantemente, perdendo sua capacidade de acumulação.  

Então, fica nítida a noção de que, principalmente nos países  tecnologicamente mais adiantados, o Capital (entendido aqui como o conjunto de capitais – o Sistema), vai despregando-se daquela parte que dá lucro, bem como daquela onde  ocorre a acumulação efetiva. 

Quando isto ocorre, o Capital toma três rumos: a– deixa de ser produtivo e transforma-se em capital de serviços que dá lucro, mas não realiza a acumulação clássica que só ocorre (como foi exposto acima) no capital efetivamente produtivo, industrial ou agrícola; b– ingressa  no cassino especulativo e passa a obter a  maior parte de seus lucros não mais no  chão da fábrica, mas  no departamento financeiro e c– migra para a periferia do sistema, os países em desenvolvimento, onde ainda é possível  obter altas taxas de mais-valia, em função da mão de obra barata. Neste último caso, China, Índia e Brasil são três excelentes exemplos. 

Enfim, creio que aí está  um pequeno, porém eficiente, roteiro para acompanhar a  atual crise com melhor capacidade de percepção dos fenômenos que são subjacentes a ela e vão muito além das baboseiras repetidas à exaustão pela mídia pobre e podre. 

Reparem, ainda, que o que foi dito aí em cima, não é simples literatura marxista dogmática e sim leitura correta dos antigos clássicos da economia como Adam Smith, David Ricardo  e Jean-Baptiste Say,  em cujos textos Marx colheu os fundamentos para  desenvolver sua teorias sobre a acumulação capitalista. Um processo que chega agora à sua fase crepuscular.

O Neofeudalismo

A esta fase crepuscular eu dou o nome de Neofeudalismo, a etapa superior do Imperialismo.

O Neofeudalismo tem como principal característica a  monopolização  e/ou oligopolização extremas e a nível mundial. Some-se a isso, a terceirização da produção.  As grandes corporações cedem a terceiros avassalados, sua marca,  suas invenções e modos de produção e venda.  Assim, passam   (eis aí o aroma feudal) a  auferir renda com algo que é de sua propriedade, sem se imiscuirem na produção propriamente dita.

Com isso, como já é visível a olho nu,  há uma total revolução das relações  do trabalho, somada ao crescente descarte de mão de obra, por conta da vertiginosa automação. Nasce aí o chamado desemprego estrutural.

E desemprego estrutural é  um eufemismo, um nome técnico  que se dá a algo brutal: a exclusão definitiva de populações  inteiras ao redor do Mundo. Populações que se  tornam excedentes e descartáveis  enquanto elementos  do processo produtivo.

18-02-11

 Os bispos católicos chiam, mas a  Globo não  está nem aí.

A Igreja  Católica, como todos  sabem, desde tempos longínquos  até hoje,  nunca foi santa. Nem em termos de  comportamento sexual, cujos membros cada vez mais amiúde se  envolvem em delito nesta área, nem em termos financeiros. Todo sabem, igualmente, que poucas  instituições de crédito estiveram e estão tão envolvidas em falcatruas  envolvendo lavagem de dinheiro  e associação com  Máfia, do que o Banco do Vaticano.

Em meados do século passado, a partir e João Paulo VI, a Igreja aproximou-se dos pobres do Mundo e, na América Latina, ganhou  extraordinária proeminência  moral e política, conquistando toda  uma geração de militantes libertários e generosos. Até Nelson Rodrigues, o Jabor da época (com muito mais talento é claro)  indignou-se contra a “militância de batina”.

 Entretanto,  com João Paulo II este caminho generoso e progressista foi revertido e o que se vê hoje é uma  igreja que perde vertiginosamente espaço para seitas protestantes, principalmente as Pentecostais, muitas delas ainda mais retrogradas. Há até a teoria conspirativa de que nos anos 70/80 estas seitas foram financiadas,na América Latina, a partir dos Estados Unidos, para tentar barrar o avanço da Esquerda Católica.

Seja como for, a sensação que se tem, hoje, é a de que a Igreja  Católica, para manter  índices mínimos de popularidade ou audiência  (já que a evangelização virou um grande show midiático), agarra-se, por falta de alternativas, a sucessos pop do tipo Padre Marcelo.  Eu, particularmente, tenho saudades de D. Helder.

 Agora, imaginando  possuir uma importância  e uma  influência que já não existem (o pastores Malafaia e R.R. Soares, sozinhos, formam mais opinião que todos os bispos brasileiros juntos) a CDBB divulgou, há dois dias, documento em que  condena  veementemente os programas tipo reality show,  sendo  certo que seu alvo principal era o BBB da Globo.

Depois de pedir maior rigor do Ministério O Público Federal, os bispos dizem que tais programas “atentam contra a dignidade da pessoa humana” e constituem “agressão aos valores morais que sustentam a sociedade”.

Em seguida, mencionam  que as emissoras de TV são concessões publicas, como a sugerir que elas são passíveis de censura. Desde a Inquisição, eles não  perdem essa mania.

Enfim, uma baboseira que ninguém levou muito à sério, nem muito menos a Globo que como maior  Casa de Prostituição Eletrônica do País praticamente não tomou conhecimento  do pronunciamento episcopal  e continuou exibindo à farta seios e bundas. Seios e bundas estes que são em seguida faturados via fotos e vídeos, o que caracteriza a prostituição e proxenetismo escancarados.

E, com a o cinismo de sempre, a  Casa dos Marinhos  informou que cabe os pais evitar que seus filhos tenham acesso a  esses tipos de programa. Mas que pais? Os ausentes? Os que  empurram suas filhas para dentro da casa de tolerância e depois chamam  parente, vizinhos e amigos para vê-la e  aplaudi-la em delírio enquanto ela se prostitui? Ou os pais que se masturbam vendo o programa?

Enfim estes são apenas pequenos apontamentos  desta  coluna Sexo & Comércio, criada  exatamente parar demonstrar que uma coisa é a bem vinda e benfazeja liberação sexual obtida a duras  penas nos Anos Rebeldes (70/80) do século passado. Outra coisa é a sórdida apropriação dessa liberação pelo Capital.

Apropriação que  transformou algo de bom que conquistamos para  nossa saúde física e mental em algo sórdido que  resgata para a corrupção o que já estava liberado para a vida e vilipendia algo de bom e generoso que por ventura ainda  exista dentro de nós.

Vale pena repetir a frase de artigos anteriores: Liberação Sexual sim. Capitalismo não.

Na  matéria abaixo você encontra mais elementos sobre esta questão.

08-02-11

Sexo, Amor e Grana

Em artigo recente eu disse que os Anos Rebeldes do  século passado  (décadas de 60/70) ainda nos parecem bem próximos, entre outras coisas, porque  o fundo musical sobreviveu.  Chico, Caetano, Beatles, estão todos ai, como se fosse ontem. Mas das músicas daquela época, a que mais me encantou  foi  “Casa no campo” do Zé Rodrix, com a Elis Regina.

Eu quero uma casa no campo do tamanho ideal para guardar meus amigos, meus discos e livros… E nada mais. Esse nada mais significava que não queríamos grana,  não queríamos viver em função dela. Parecia e parece um sonho. Mas os que continuaram correndo atrás da grana, começam a constatar agora, horrorizados, que tudo o que conseguiram foi chegar ao limear da destruição  da Terra.

Não, meu amigo Caetano,  a grana não constrói coisas belas. O que faz isso é arte e a manha do homem. A grana só destrói. Hoje, basta abrir a janela para ver, mas o maluco do Marx já sabia disso há 150 anos.

A grana só leva em conta  a sua própria acumulação, todo o resto lhe é indiferente. Para multiplicar-se ela não pestaneja ao  destruir o Pulmão do Mundo com a mesma e metódica  naturalidade com que destrói, pontualmente, cada um dos nossos pulmõezinhos. Ali, queimando a floresta, aqui, nos  fazendo fumar. Essa é sua lógica e sua deliberação implacável.

E nem é preciso dizer que ela, por necessidade e estratégia,  sempre começa  por destruir nossos melhores sentimentos. O mesmo Zé Rodrix, nos anos 80, já virava as costas para sua Casa no campo e  gritava no jingle de sucesso: ”Meu coração bate mais forte dentro de um Chevrolet”.  Esconjuro! Isto é como dizer que o sonho acabou.

Só que o sonho não acabou. O homem tem o tamanho de seu sonho ou de sua esperança que  não morre. Os idiotas da objetividade neoliberal ficaram martelando, durante longos 30 anos, que as utopias estavam mortas. Para ver como esses  fascistóides disfarçados detestam a vida. Não percebem que as utopias são a síntese dos sonhos do homem, a essência de sua própria vida, a razão de sua artimanha.

Isto tudo poderia ser tomado como mera divagação poética se o homem não tivesse descoberto (na verdade acaba de descobrir neste exato momento) que ficou a um passo da destruição do Planeta ao deixar-se guiar cegamente pela Grana  (podem chamar de Capital) e sua lógica destrutiva.

O Capital só acumula (cresce) quando agrega mais partículas de um capital novo. E só existe um jeito de se criar um capital novo: explorando um excedente de trabalho humano. Excedente este que acarreta uma consumo  igualmente excedente de recursos naturais.

Muitas vezes esse excedente  e sua acumulação foram necessários e ensejaram um prodigioso progresso. Hoje, porém, em 90% dos casos, eles são inúteis e redundantes, sendo jogados na  fogueira da descartabilidade: mercadorias produzias para serem destruídas e novamente produzidas, num carrossel infernal. Como parte desse carrossel, a reciclagem não só não corrige como eterniza  o processo, nos remetendo permanentemente do lixo ao lixo.

Até meados  do século passado, supunha-se que a Mãe Terra era inesgotável. Hoje uma criança sabe que a Natureza é finita e, a cada dia, torna-se mais escassa. Mas o modo de produção comandado pelo Capital é indiferente a tudo isso e age como uma gigantesca usina fumegante global que, fora de controle, abocanha  fatias cada vez maiores dos recursos naturais de forma crescentemente  inútil e perdulária.

Agora, querido e paciente leitor, já podemos  estabelecer  uma  conexão entre tudo isso e a liberação sexual. Então: nos Anos Rebeldes, as duas coisas andavam  juntas. Defendia-se a liberação sexual concomitante com a  desautorização da exploração (acumulação) capitalista. Cada letra de cada música frisava isso. Na simplificação, era uma luta contra o Sistema.

A vitória veio pela metade: o Sistema incorporou a liberação sexual e passou a explorá-la como mais um item da sua coleção de mercadorias. Pode-se dizer que a prostituição,  antes restrita, universalizou-se e   as grades redes  de TV transformaram-se em  gigantescos prostíbulos. Homens e mulheres são exibidos exatamente como num bordel convencional.

A novidade é que, como mercadorias, eles também são descartáveis.  A durabilidade de um participante  do BBB é pouco maior do que o de uma latinha de alumínio.

02-02-11

Por
Francisco Barreira

Entre Freud e Marx, fiquemos com ambos

Wilhelm Reich foi um cara admirável. Sabe aquele tipo que de tão honesto chega a ser chato? Ele era assim. E fez de tudo (estamos nos anos 20 do século passado) para convencer os marxistas ortodoxos, não apenas os estalinistas, de que precisavam anexar as descobertas de Freud ao seu arsenal ideológico e da prática política.

Com igual esmero procurou demonstrar aos freudianos que sem um alicerce marxista suas construções teóricas eram castelos de areia. Ele estava absolutamente certo, mas tudo o que conseguiu foi ser renegado e, de certa forma, humilhado pelas duas facções. 

Em “A Psicologia de Massa do Fascismo”, Reich demonstrou que o operário médio não é nem  inequivocamente revolucionário, nem indiscutivelmente reacionário, pois carrega em si esta contradição:  De um lado integra uma classe naturalmente subversiva, porque seus interesses econômicos são  em tudo e por tudo antagônicos aos interesses das classes que a exploram.  De outro lado, como indivíduo, está sujeito a inibições burguesas, inculcadas pela doutrinação ideológica. É uma visão horizontal da questão.

O que tudo isso tem a ver com o sexo que é o objetivo desta coluna, veremos logo mais adiante.  Ates é preciso dizer que sem esta explicação acima, fica muito difícil entender, por exemplo, por que os trabalhadores paulistas têm uma certa queda  eleitoral por José Serra e até por Paulo Maluf.

 É claro que há também explicações fornecidas pelo leninismo clássico. É a visão vertical, segundo a qual, em  algumas situações, mais comuns nas sociedades industriais  avançadas,  surge uma “elite operária” que é cooptada pelo Sistema. E, além disso, tem que ser levada em conta  uma certa corrupção da burocracia sindical  que leva ao acomodamento.

Me parece  que o lógico e o honesto é cruzar estas duas linhas de pensamento,  a  horizontal e a vertical, para obter a síntese. Mas é preciso, também, atualizar os termos da questão. Os elementos constantes  nas duas teses  prevaleceram só até os anos 50 do século passado, que assinala o apogeu da produção capitalista, a fase mecânica.

 Hoje, em seu crepúsculo (a fase micro-eletrônica), o Sistema  alterou substancialmente sua fórmula de  exploração/acumulação. A automação vertiginosa diminui drasticamente a exploração  direta do trabalho (única forma de acumulação) e o peso econômico e social da  chamada classe operária ficou reduzido em termos absolutos e relativos.

Estamos vivendo a fase de crescimento exponencial do Setor de Serviços, onde o Capital não tem como acumular efetivamente. Ele só faz isso, onde há exploração do trabalho material, a metabolização do homem  com a Natureza. Assistimos, então, ao crescimento espantoso dos oligopólios globais e ao domínio do Capital Financeiro  (não produtivo) que gera bolhas de consumo, mas não  enseja a  acumulação efetiva do Sistema como um todo.

Vivemos, enfim, uma fase com  predominância de ingredientes pós-capitalistas, como a das relações  terceirizadas  entre Capital e Trabalho. E esta terceirização tem um forte aroma neo-feudal, o da vassalagem.

Agora já podemos falar de sexo:

Exasperado  pelo fato de suas teorias não serem compreendidas, Reich radicalizou até o ponto em que essas teorias se transformaram no movimento  Sex-Pol  que procurava tornar visível  a conexão entre a repressão político-econômica e a sexual.

 É este movimento  que inspira, nos seus desdobramentos (Marcuse),  a Revolução Cultural dos anos 60. Ele dá primazia ao “princípio do prazer” e eleva o orgasmo à condição de suprema necessidade biológica. A palavra de ordem não deixava por menos: “Luta sexual da juventude operária”.  

Agora imaginem alguém gritando isso na primeira metade do século passado. Resultado: os partidos comunistas oficiais, escandalizados, o desautorizaram  e, do outro  lado, os psicologistas burgueses (freudianos)  o estigmatizaram como excêntrico e o isolaram.

Já comentamos  no artigo anterior, como se deu a Revolução Cultura (e sexual) dos anos  60/70. Anos Rebeldes e Dourados. Parecia que estávamos no limiar da libertação e do Paraíso.   No entanto, o modo de produção capitalista  encampou, digeriu e reciclou a liberação sexual, transformando-a na atual sordidez  da exploração (comercialização) liberada do sexo e seu fetiche. Sordidez esta, que  na Globo é insuperável.

 Se perguntarem o que acha disso ao  Luis Fernando Verissimo que tralhada  na casa, mas é independente e tem coragem, ele responderá como já respondeu em sua última crônica: Chegamos ao fundo do poço. É impossível descer mais.

Ora, como o modo de produção capitalista já ingressou em sua fase terminal (a Crise Americana e Européia é apenas o primeiro sintoma), me parece adequando atualizar a palavra de ordem de Reich. Ficaria mais ou menos assim: Liberação sexual, sim. Capitalismo não.

A matéria abaixo dá continuidade e melhor sentido à que você acaba de ler.

                                             

29-01-11

Como era bom meu sexo proibido

Por Francisco Barreira

Tudo o que os  hippies, os gays, as feministas e os socialistas genuínos propuseram sobre as relações sexuais nas revolucionárias décadas de 60 e 70 foi alcançado  pelas sociedades ditas avançadas. Pelo menos no âmbito legal, das legislações. Então, por que tanta frustração, tanta decepção e tanta prostração?

Não pretendo responder isso nas poucas  linhas que  meus leitores preguiçosos não permitem  que eu ultrapasse. Mas posso fazer algumas perguntas pertinentes que podem dar origem a uma boa discussão. E é claro que o título desta matéria é  uma provocação. Não sinto saudade do sexo reprimido, mas da ilusão de que  seriamos felizes quando ele fosse liberado.

O Futuro da Ilusão

Nós que éramos revolucionários e libertários naqueles anos que, afinal, parecem tão próximos (porque o fundo musical sobreviveu), temos a obrigação de perguntar: Por que não deu certo? E como evitar as decepções futuras que são filhas das ilusões do presente?

Basicamente e de forma simplificada, pode-se dizer que nas décadas  de 60/70 embora houvesse confraternização nos grandes eventos,  o que existia  eram inumeráveis tribos (uma para cada mesa de bar) que, donas da verdade, vanguardistas, messiânicas, proféticas e intolerantes, não articulavam, minimamente, um raciocínio globalizado.

Ainda de forma simplificada acrescentarei que embora todos lessem ou dissessem que liam Marcuse que transitava com desembaraço de Freud para Marx e vice versa, a verdade é que predominavam  duas  grandes hegemonias  que reduziam a discussão a dois pólos: de um lado os estalinistas toscos e tirânicos e de outro os freudianos  cínicos e manipuladores capazes de  transformar as idéias mais generosas em simples produtos de mercado. E até hoje é assim, né não?

 Freud e o Economismo

Sob o sugestivo título “O Futuro de uma Ilusão”, Freud reuniu uma série de textos nos quais fica  clara a vizinhança de sua  teorias  com as de Marx, algo que  marxistas e freudianos ao longo da vida negligenciaram ou, deliberadamente, ocultaram.

O líquido e certo  é que o “Pai da Psicanálise”, não só sabia como afirmava que a estrutura econômica é determinante da maior ou menor  liberdade sexual e que a Civilização Humana evolui no sentido de controlar a Natureza para satisfazer suas necessidades de um lado e, de outro, regulamentar,  na relação entre os homens, a distribuição da riqueza  obtida no processo de exploração dos recursos naturais.

Marx assinaria isso, mas é preciso reconhecer que Fred não chegou a conhecer ou compreender o pensamento marxista em sua dimensão mais ampla, a do imanentismo que, na concepção dialética e socialista, aponta  para a capacidade de o homem forjar seu próprio destino ou a si  mesmo. Ou para dizer de forma simplesinha: a vida ou a saga da humanidade não é um jogo de cartas marcadas, manipuladas por um Deus brincalhão.

Entretanto, para o que nos interessa, o importante é fixar a noção de que Freud não ignorava  a preeminência dos fatores  econômicos no jogo social (relação entre os homens) que se caracteriza pela exploração de umas classes sociais por outras. E o leitor mais espeto já deve ter sacado onde eu quero chegar: a exploração e a repressão (!) sexuais decorrem de um fator anterior e essencial, o da exploração do trabalho alienado.

Deixemos que  o próprio Freud fale:

“Um indivíduo (homem ou mulher) pode, ele próprio, vir a funcionar  como  riqueza em relação aos outros homens  uns aos outros, na medida em que a outra pessoa faz uso da sua capacidade de trabalho, ou o escolhe como objeto sexual”.

Temos então que o relacionamento ou posse do outro como objeto sexual, está relacionado, nos indivíduos e nas classes socais, com uma apropriação anterior, a da capacidade  ou força de trabalho do indivíduo compradas por tantas ou quantas moedas diárias. O fato de funcionar como objeto sexual para outrem coloca o ser humano na condição de um artigo material (mercadoria) que é  aquilo do que ele não passa desde o momento em que vende (aliena) sua   força de trabalho, sua essência. Quando  vende sua força de trabalho o homem, automaticamente  já está vendendo todo o resto. Por isso Marx o denominou “escravo remunerado”.

Para concluir de forma sempre simplesinha: enquanto houver exploração capitalista do trabalho, a liberação sexual será apenas a farsa da libertinagem grotesca como a que,  por exemplo, a Globo nos joga diariamente na cara e não apenas através da grossa cafetinagem do BBB, comandado pelo rufião Pedro Bial.

A matéria abaixo complementa o raciocínio desta.

23-01-11 

 Texto original postado em 10-01-11

Sob o Capital, a liberação sexual é a
farsa do comércio do sexo liberado

Por
Francisco Barreira

Todos nós, de esquerda ou direita, que fomos politizados em fases anteriores aos anos 70 do século passado, nos habituamos a antagonizar Freud e Marx. Ou vale um ou vale outro. Isto é obra dos epígonos dos dois lados, aqueles divulgadores medíocres que, por preguiça, malícia ou pura incompetência “reduzem” as teorias dos respectivos mestres a uma série indigesta de slogans ou palavras de ordem que passam a constar de cartilhas destinadas à conquista de novos militantes.
Assim, pela direita, defendia-se fervorosamente que a rebeldia contra Sistema, tinha muito mais a ver com um choque edipiano de gerações do que com a luta de classes e os fatores econômicos E, pela esquerda, os mais empedernidos, numa ação reflexa, ignoravam toda a teoria freudiana, assim como até hoje há ingênuos que ignoram Darwin.
De um lado, via-se a revolta juvenil, mesmo quando ela ganhava as ruas, como um distúrbio temporário de comportamento: nada que um bom divã ou uma boa carteira de trabalho não possam resolver. Do outro lado, torcia-se o nariz para a teoria dos complexos de infância: frescura de burguês: nada que uma enxada e uma vassoura na mão não possam resolver.
Não me tomem por leviano, nem pensem que pretendo reduzir nossa discussão a uma sucessão de frases jocosas. Só direi que um pouco de vaselina não faz mal a ninguém. E, dito isto, reparem na frase de Freud aí em baixo:
“A força propulsora básica da sociedade humana é, em última análise, econômica: já que a sociedade não possui reservas suficientes para manter seus membros sem que eles trabalhem, precisa limitar o número desses membros e desviar suas energias da atividade sexual para o trabalho. Esta é a eterna e básica exigência da vida, que persiste até hoje”. Assim, pois, ele explicava, nas razões econômicas (uma tese marxista), a origem primeira da repressão sexual que dá origem aos complexos por ele estudados.
Pelo lado de Marx, é conhecida sua teoria sobre a luta de classes, o motor da História. Luta esta que faz com que o Sistema internalize (geralmente via religião) no núcleo familiar básico, sua ideologia e, portanto, sua repressão. Eis ai como Marx antecipa, a figura repressora tão conhecida hoje do pai-patrão que, por sua vez, está no núcleo da teoria edipiana.
O leitor mais inteligente – e felizmente todos os meus o são – já deve ter concluído que não faz sentido falar em liberação sexual apenas, desvinculando-a da outra repressão (opressão) que corre em paralelo: a exploração do trabalho alienado, aquele que vendemos apenas para comer e dar de comer aos filhos, sem fazer qualquer tipo de consideração sobre se este tipo (ou quantidade) de trabalho é realmente necessário para a melhoria da qualidade de vida da humanidade como um todo.
Na verdade, o trabalho alienado e seu excedente têm como função essencial (exclusiva) propiciar a acumulação do Capital. Trata-se, portanto, de uma disfunção. Disfunção esta que destrói a Natureza, assim como o câncer (produção excedente de células) destrói o corpo humano.
De tudo isto, pode-se chegar à conclusão de que a liberação sexual,  representa importante avanço cultural, psicológico e também político, como é o caso das mulheres e dos homosexuais. Mas não é só isto: o realmente importante é que, cedo ou tarde, este processo é canalizado para a luta ideológica. Entretanto, na atual fase, a liberação sexual ainda está muito mais para a farsa que consiste em fazer supor que estamos sendo liberados, quando continuamos presos ao fetiche na maioria dos casos. E isto transforma a liberação em mera libertinagem.
Até agora, o que ocorreu de forma realmente consistente foi a liberação da comercialização degradante e desenfreada do sexo. Sexo que, enquanto mercadoria que é na sociedade dominada pelo Capital, representa um negócio planetário superior ao do petróleo.
A mídia capitalista aposta na nossa liberação para continuar com a venda crescente de suas mercadorias sexuais, principalmente as de carne e osso. Mas não quer que concluamos que a liberação real só ocorrerá quando mandarmos a exploração capitalista para o espaço.
Hoje, paramos por aqui, com a promessa de retomar o assunto muito em breve. Ocorre que tenho este compromisso com meus leitores: eu procuro não escrever muito mais que 30 linhas de cada vez . E eles prometem não bocejar enquanto estão lendo.

Leia também a matéria abaixo. Ela  complementa o raciocínio desta.

21-01-11

Texto originalmente  postado em 09-01-10

O que não querem que você saiba sobre o sexo

Um dos lugares comuns mais comuns nos diz que a prostituição é a profissão mais antiga do mundo. Deve ser verdade. Mas o que é mesmo prostituição? Aí varia. Dependendo da idade, da classe social e da cultura, o conceito vai cambiando. Ou melhor, vai mudando nossa opinião do que seja praticar a prostituição. Atitudes gestos, modos de vestir e de falar, hoje comuns até em crianças, há algumas décadas eram de forma unanime considerados “coisas de puta” ou de puto.
Machado de Assis cujo estilo é considerado austero e pudico, um dia jogou esta frase no papel: casamento, esta prostituição doméstica. Opa! Olha aí o gênio de um homem conservador, levantando uma tese revolucionária. A de que a prostituição é, antes de tudo, uma relação de poder.

Antes de prosseguir, consultemos o Houaiss:

prostituição – Atividade institucionalizada que visa ganhar dinheiro com a cobrança por atos sexuais. Exploração de prostitutas.
proxeneta – aquele que explora a prostituição de outrem.
Se levarmos ao pé da letra estes dois verbetes, como poderíamos, por exemplo, definir gente famosa que se expõe em fotos ou em filmes com o objetivo absolutamente indiscutível de provocar desejo sexual em outrem? Não se precipite amigo leitor. Retire a palavra prostituta(o) de sua boca. A famosa(o) só poderá ser assim denominada(o) se cobrar um dinheirinho (ou dinheirão) para posar para tais fotos ou interpretar tais filmes. O mesmo se poderá dizer com relação aos vetustos órgãos de nossa mídia que produzem e veiculam tais fotos e tais filmes: eles atuam como proxenetas.
É mais do que óbvio, portanto, que os dois verbetes mencionados acima não podem ser tomados ao pé da letra. Seria um Deus nos acuda. Ia sobrar pra todo mundo, Vige Santíssima! O que fazer então? Arrancar a página do dicionário? Não é preciso chegar a tanto, basta relativizar.
Esta é a palavra mágica. Tudo é relativo. Portanto, tudo pode eventualmente ser tolerável ou suportável. Se, no final, ainda metermos alguma grana no bolso, melhor ainda.
Agora voltemos ao velho Machado. Ele nos ensina que a prostituição é uma relação de poder. Como a prostituição já foi devidamente relativizada, sobra a noção elementar de que o sexo implica, inevitavelmente, uma relação de poder. Opa! Mas como se dão as relações de poder? Historicamente, através da luta de classes.
Isso tudo para dizer que a menos que se queira ser apenas um proxeneta e escrever livros ou matérias do tipo “Tudo o que você precisa saber sobre sexo”, com o objetivo exclusivo de levantar uma grana, é preciso estudar , minimamente, as relações de classe ao longo da História. Muita gente já fez isto de forma mais ou menos competente. No caso específico da exploração sexual selecionei quatro autores: Marx, Freud, Jung e Reich. Eles dissecam as relações entre o poder e o sexo na sociedade. E todos eles fixam-se na questão crucial: as relações de sexo e poder no interior do núcleo familiar.
Pelo menos uma vez por semana escreverei sobre este tema aqui no blog. Como não sou especialista nem pretensioso, vou me limitar a reproduzir ou resumir, de forma articulada, textos dos autores sitados acima.

 Nota da Redação

O texto abaixo é de uma das melhores escritoras paulistas da nova geração.
FB

25-07-10

O vital e a honestidade, gatinha

Por
Bruna Scarpioni

Para ler ouvindo: Cher – ‘Song For The Lonely’

Sou muito tímida quando não estou escrevendo. Nunca fui popular nem tive muitos amigos, e minha vida amorosa pôde, muitas vezes, ser chamada de inexistente. Sempre fui a amigona dos garotos, a divertida, inteligente, que passa as colas e joga Supertrunfo. Impegável, coitadinha, afinal, ela é um de nós. Cresci cheia (eu disse CHEIA) de complexos em relação à minha aparência. Muito alta, muito baixa, barrigudinha, cabelo indefinidamente ondulado, olho sem graça e muita, muita acne. Absolutamente sem graça. E tímida. E grossa sem querer, porque chucra. Matuta mesmo, sabe? Não tá acostumada com humanos, caipira, puxa a faca por qualquer coisa, irrita e se irrita fácil.
Muito disso não passou ainda. Muito, provavelmente, pode não passar nunca.
Passou só aquela ânsia assassina de tentar fazer as coisas certas e parecer com as coisas certas pra atrair os caras.

Algumas vezes, tive a “sorte” de ser a menina sem graça que o garoto mais bonito fica. E isso só acontecia quando eu desencanava completamente de parecer qualquer coisa legal ou interessante; quando eu era eu mesma sem pestanejar (o que não inclui comentar com sele sobre Madonna, mas isso, acho válido represar quando você está com o bophynho). É uma sensação maravilhosa. Envolve desde pensar que pior não fica, então foda-se, até concluir que ele não é ninguém realmente melhor ou inacessível. O grande catalisador é cansar de tentar parecer legal.Resolver que você agora vai ser quem é, o que quer que você seja. Nem que isso exija uma ida ao banheiro, uma respirada, e um volta com cara de poucos amigos. Era o que acontecia comigo. Ficava lá, rindo das piadas de merda do sujeito, e não abria a boca. Todo mundo conversando, supostamente alegre, e eu hihihi. Não vou falar nada porque eu sou estabanada e sempre sai merda. Mano, que porre que tá isso, vou pegar um suco. Ah, you know what? Dane-se. E voltar sem rir quando todo mundo riu mesmo com todo mundo sabendo que não era engraçado. Voltar com cara de ‘esperando algo legal acontecer nessa porra’. Porque é o que eu estou sentindo. Até o fulaninho centro das atenções vir falar com você. Ele, ou um outro pra quem ninguém liga, o amigo do centro das atenções, que sempre fica na sombra (e é, por magia, sempre um cara legal pra caralho). Cê troca duas palavras com o astro rei. Duas palavras absolutamente honestas. Cê se permite dizer o que você realmente quer dizer, o que você diria a uma amiga com quem pode ser você mesma. Ele te acha interessante. E tem razão de achar, você é mesmo. Quando você é você, claro.
Do contrário, você é um porre como qualquer outra.
A gente cresce ouvindo que tem que ser difícil, que não pode dar na primeira, que não deve chegar nele, que tem que ter essa cara, essa bunda e esse peso pro cara olhar e querer.
Tem meninas que tem a cara, a bunda e o peso certos, e ainda se comportam direitinho. Óbvio que fazem sucesso. Mas a diferença delas pra você, que é uma louca cheia de coisa pra falar e pra pensar e é cheia de abalar e de rir e da porra toda, é que ela está sendo ela mesma. Ela tem o corpo que tem e pensa como pensa. Não se força a isso. E todo mundo sente. Nego fica seguro e tranquilo perto dela. Ela é aquilo ali, e tem todo direito.
Cê, sua anta, fica contando os dias pra dar pra ele. Fica calculando derivada e integral pra cada movimento que faz. Pensando na reação dele a cada coisa que vai dizer. E fica estranha, muito estranha, e sem graça de verdade. Fica que nem a Cinderela: Seu pé tem que caber no sapato de cristal. Ele quer só aquele pé, o pé certo. Porque ele é homem. Ele vai te salvar. Salvar de toda a dor e tristeza e solidão, e vai ser o seu esteio. E te preencher. A sua vida é só trabalhar que nem um camelo no meio de um monte de gente má, e você, talvez por covardia, não abre a boca. Não vira pra madrasta, taca a panela na cara dela, e diz que num vai lavar mais porra nenhuma hoje, e quer ver alguém te obrigar. Não. Cê faz tudo certinho pra todo mundo o tempo todo, represa todo o seu ser, e aguenta todo tipo de contrariedade quieta. Logo, esperou a vida toda por esse momento, por alguém que resolvesse isso no seu lugar, sem dor nem gritos. Ele vai resolver tudo, toda a dor possível e imaginável, com um amor constante e absoluto, que vai preencher vocês dois pra sempre e absolutamente.

Essa merda toda do parágrafo acima foi o que te ensinaram, e o que ensinaram pra quem te ensinou.
Sei que é revoltante ver que você é carente e “reservada” hoje por uma lavagem cerebral. Se serve de consolo, não é culpa de quem te ensinou. Acreditava-se que, com muito esforço, isso conseguia-se, e era o melhor que podia acontecer. A humanidade, persistente que é, tentou muito e viu que não rola. Não tem como alguém resolver a sua vida por você, deixar tudo bem sem dor nem sofrimento, e você, infelizmente, não ganha nada engolindo desrespeito.
Pare de culpar essa sociedade. Cê não é burra. Pode viver da forma que quiser e ainda ser feliz assim. Pode mudar tudo. Inclusive essa sociedade, feita de humanos como você.
“Ah, você não pode mudar o mundo, nem a consciência das pessoas, tudo vai sempre continuar como está”. Foi o que disseram pra Galileu. Por sorte, ele não acreditou em gente besta, danado que era.

Experimenta ignorar a sua mãe, a sua amiga, a revista Nova e os brilhantes conselhos delas. Experimenta estar em um lugar com uma pessoa e colocar a sua cabeça ali, permitir-se sentir de verdade aquela situação. Experimenta pensar que não há regras pra nada nas relações humanas, porque nós, os humanos, ainda não nos conhecemos direito, nem a nós, nem ao outro. Experimenta pensar na quantidade enorme de casais “inconvencionais” que estão por aí aos montes. E felizes. Experimenta procurar, de verdade, uma conversa que te interesse e parar de aturar o engraçadão porque isso é alguma espécie de responsabilidade social. Experimenta largar o engraçadão ou o fodão falando sozinho. Vai pro banheiro, pro balcão do bar. Escuta uma coisa dentro dizendo o que você quer fazer de verdade. Brigitte Bardot disse só ter tido alegrias desde que começou a escutar seu coração. Eu quero chegar no DJ, no segurança, quero ir embora, quero ir pra pista, quero a hostess. Escutar a você mesma antes de dar atenção a qualquer outra voz. Escutar a mulher que você e cagar pra o que uma mulher deve fazer, como conseguir o que uma mulher quer e outras besteiras. Vai lá e diz o exatamente o que você quer e precisa dizer. Experimenta ser honesta consigo. E, por tabela, com os outros. Experimenta dar um espaço pra você nesse mundo. Experimenta não pensar em mais ninguém enquanto pensa no seu espaço.
Fala, de uma vez, que quer ir pra cama com ele.

Para, de uma vez, de esperar ele ligar no outro dia, porque, afinal, você sabe que não se apaixonou.
Diz, de uma vez, que vocês não combinam e que você não quer ver ele de novo.
Vê se mostra, de uma vez, que você é melhor em Álgebra do que ele. Paciência.
Chama, de uma vez, esse cara bonito do escritório pra um café. E sorri de leve, só porque está feliz de ser corajosa. Sua amiga gostosona não tem nada a ver com o que você faz, oras. Cê tá chamando ele e não ela. E não seja presunçosa de adivinhar que tipo de mulher ele gosta. Deixa, de uma vez por todas, algo legal e diferente acontecer com você.
Deixa entrar um ar aí, oras. Cê seguiu todas as receitas de amor e sexo bem-sucedidos que existem nesse mundo, nenhuma funcionou. Relaxa. Não posso afirmar com certeza, mas, talvez, achem a legal a pessoa que realmente é. E se não acharem, cê não ficou com aquele peso, aquela chatice de se fingir de sonsa.

Se gostarem, vê se SÓ fica, conversa, permanece ao lado se sentir o mesmo. Se não, responde qualquer merda e some. Se não gostarem, vê se se pergunta por que você deseja tão obsessivamente agradar todos eles, incluindo os babacas, os que não te interessam.
Define logo quem você é, amiga, ou alguém vai definir pra você. Com um sapatinho de cristal.

17-07-10

De Onde Vem Bebel Que A Cidade Comeu

Por
Bruna Scarpioni

Bebéus existem e existiram de todos os tipos na história: Marilyn, Madonna, Brigitte, Britney, Geisy, Xuxa. Sex symbols politizadas, inteiramente sexuais, angelicais, agressivas. Mas o que faz delas Bebéus é o sexo. É como o sexo (no sentido de gênero e no sentido de sexualidade) é proeminente na imagem que a sociedade fez dessas mulheres. O sexo e o ódio. Haja ódio! O sexo é o que a sociedade busca em uma Bebel, o que a sociedade vasculha avidamente dentro das vidas dessas mulheres. Não importa o que ela diga, pense, será desconstruída e remexida até que chegue-se em sexo. A busca ávida e cíclica que sociedade faz por Bebéus tem origem no ódio.
Cêis nunca repararam que a mulher que vocês veem na TV é redondamente diferente das mulheres que vocês veem no cotidiano? A moça da TV ri muito, sempre risadinhas baixas, discretas e com um ar meio débil, como aquelas meninas que dançam atrás do Faustão e seu sorriso bobo. Vestem roupas muito coloridas e mínimas. Falam pouco ou nada. Ou falam  sobre nada disfarçado de entretenimento, como as apresentadoras de domingo à tarde. Fazem piadas sem graça, riem sem vontade. Não oferecem perigo nenhum, como as moças da Playboy, ali, paradas, quietinhas. As mulheres, ao vivo, são muito diferentes, como você, rapaz, deve concordar. Falam muito ou são tímidas. Ou falam muito e são tímidas. Falam sobre seus projetos, sobre o que vão fazer no próximo mês, sobre o que estão pensando, sobre o que não devem contar. Riem numa altura audível, tem um sorriso ocasional. Sorte do cara que conseguir decifrar o que causou aquele sorriso. Tem alegria de viver ou não. Reclamam constantemente do que os homens estão se tornando, de que não tem mais homem nesse mundo. As meninas e mulheres da vida real tem cada uma uma característica forte dentre tantas outras reconhecíveis, como os personagens de livros. Uma característica associada devido a algo que ela faça ou seja. Cê deve ter a amiga intelectual, a amiga engraçada, a amiga gostosa, etc. Sim, são estereótipos. Estereótipos que todos criamos, porque é impossível pra um cérebro humano conhecer a fundo qualquer ser humano, incluindo o humano cuja caixa craniana lhe carrega. O estereótipo simplifica. Ás vezes, limita. Mas vai do objeto a estereotipar e do estereotipador. As meninas da vida real tem diversos estereótipos. As meninas da TV só tem um. São meninas da TV. Todas são lindas, engraçadinhas, mansas. As meninas que você conhece, até dá pra dar uma imagem mental que represente, mas essa imagem não é a mesma pra todas elas. Pegaram? A gente conhece meninas que trabalham em casa, na rua, que estudam, cozinham, falam coisas brilhantes, falam um monte de besteira. E são incrivelmente  diferentes das meninas da TV. Concorda que a TV não mostra a realidade? Ótimo. Cêis já se perguntaram o porquê? O porquê dela não mostrar a realidade e o porque dela mostrar apenas um perfil de mulher (gatinha alegrinha)?
Por ódio.
As mocinhas, antes das duas grandes guerras e da revolução sexual que as seguiu, eram mansinhas. Se vestiam igual, tinham penteados esculturais, eram muito femininas, falavam pouco, liam romances estilo banca de jornal. Esperavam o príncipe prometido por Cinderela aparecer e tirá-las daquela existência insuportável. Eles apareciam. Mas, surpreendentemente, era verdadeiros zumbis, panacas sem graça. E a vida de cuidar da casa e do rapaz era mais chata do que antes.
Aí, aparece um livro de nome “A Mística Feminina’ e trata a mulher como um ser humano. Aponta os erros grotescos do brilhante (sem ironia) Freud ao dizer que a raiz dessa infelicidade feminina que atravessava os séculos era a ausência de pênis. O problema da mulher era, na verdade, não ser tratada como humano. Ser uma metade da humanidade condenada a um trabalho repetitivo e estéril, o do lar, enquanto a outra metade ia à Lua, ganhava prêmios em Cannes, estabelecia a Física Quântica, coisas incríveis que davam a essa metade privilegiada um senso de identidade e permitiam-lhe superar limites enormes, o que traz uma sensação incrível de poder, de capacidade, de Rambo em final de filme. O seu Rambo terminando a missão nos laboratórios, nas indústrias, nos palcos, e você lavando louça. Todas vocês lavando louças, e os príncipes dividindo-se em atividades que lhes davam dinheiro, realização, sentido. Coisas que eram únicas pra eles. “O que você faz?” “Sou engenheiro, e você?” “Sou ator”, bláblábláblá. Agora, a Cinderela e a Branca de Neve: “O que você faz?” “Sou uma princesa, e você?” “Ah, sou uma princesa também”. A conversa morria, obviamente. Nenhuma das duas tinha nada pra contar. A dor era ter negado o instinto humano mais simples e mais bonito, mais visceral, mais necessário: Criar. Seja criar a estrutura atômica, seja escrever uma canção. Acreditava-se que a satisfação vinda da criação e da satisfação estava reservada ao homem, enquanto que a felicidade da mulher seria dar condições a seu companheiro ou família de serem futuros criadores. Era abrir mão de si mesma. Felicidade era abrir mão de si mesma.
Como pode? Como alguém pode acreditar que algo na vida pode dar certo abrindo mão da existência?
Se hoje isso me parece absurdo, é porque tive sorte.
Cinderelas e Brancas de Neve vestem calças e esquecem os vestidos, porque eles atrapalham a agilidade. Invadem as universidades, os cursos de alfabetização, as bibliotecas, os ginásios de esporte. Provam-se, contra todas as probabilidades, competentes, apaixonadas, destemidas. Ganham dinheiro com o que aprendem. O conhecimento abre os fundos empoeirados dos seus sótãos. O dinheiro abre a cela do lar. Não é preciso se sujeitar a um cara sem graça, a sexo mecânico. Você pode se sustentar. Não precisa aceitar a mais antiga chantagem social: Me dá, que eu te protejo. Antes, ele protegia do leão. Depois, da fome. Acabou. Os leões ficaram lá longe na floresta e você pode pagar pelas necessidades de sua vida. Acabou. Agora, sexo vai ser prazer. Amor, talvez. Amor é um conceito muito recente. Até então, amor era só um verniz cor de rosa na parede opaca do casamento, do contrato, da associação. Agora, você ia dar casada, solteira, divorciada. Ia dar pros caras que sua mãe não gostava. Ia escolher os caras. Não ia dar quando não quisesse. Não ia mostrar nem os ombros se não quisesse. E ia mostrar pro escolhido o que quisesse quando quisesse. Ia julgar o desempenho do escolhido de acordo com o prazer que ele lhe dava, psicológica ou físicamente. Não ia mais cumprir ordens, porra. Isso aqui é o capitalismo, não é? Então tá. Eu comprei minha liberdade. Agora fora do meu apartamento, gato.
E vai ficar assim? Tá pensando que a máquina social é bagunça?
Bom, é. Mas não ia ficar assim. Não ia mesmo. Se agora ela pode trabalhar, pensar, não são todas que podem. Ainda deve existir mulheres que não podem, por qualquer razão. E ainda tem a força física. E ainda tem a religião. E ainda tem a publicidade. Ainda tem “moral e os bons costumes”. Não é preciso sair do apartamento dela assim tão fácil.
Dá pra propagar valores antigos de novas formas. Se antes ela era Maria, a Virgem, hoje, a gente transmite isso como a menina “decente”. A menina que “se dá valor”. Que não se masturba porque isso é “coisa de menino”. A menina que se reprime porque dar solteira leva pro inferno, “te afasta de Deus” (claro que há meninas que escolhem esperar. E são felizes assim. Isso é fabuloso, é parte da liberdade que conquistamos. Mas não são elas que “tem poblema”, como diz o poeta. E eu trato das que tem poblema). A menina que mora com os pais até os trinta (Desculpaê, amiga, mas não é saudável. Não é mesmo). Que não volta tarde pra casa. Que não dirige à noite, porque é perigoso. A menina que cresceu ouvindo pra  ter cuidado quando andasse por aí, porque o mundo está cheio de tarados. Toma cuidado com o que fala, com o que veste, com como senta. Por qualquer coisa, ele pode te atacar e te fazer mal. Porque ele não é obrigado a se controlar. Ah, e tem também as coisas que só ele pode fazer, porque, “biologicamente”, ele é melhor nisso: Ser engenheiro (a mina que escreve isso estuda engenharia e já perdeu candidatos por eles se sentirem diminuídos), entender de carro, pegar várias. Você não pode. É a biologia. O cérebro masculino é pra Exatas. Vai fazer Letras, que aí você arruma namorado (todo engenheiro/a já ouviu a piadinha preconceituosa: “A Letras é a alegria da Engenharia”. Foi uma amiga minha que me contou, toda orgulhosa e feliz: Ela estuda Letras).  Olha quantos óvulos você tem por mês. Olha quantos espermatozóides um homem carrega no saco. Ele precisa ter muitas. Você, não. E tem a clássica: Mulher é criatura de amor, por isso espera. Por isso só faz com amor. Mulher busca amor em tudo, busca namoro em cada fresta. Como um cachorro vira lata atrás de sopa velha.Paradigmas ensinados em casa, pelas pessoas que a amam e que ela ama. Ela terá mais dificuldade confrontá-los, portanto.
E a antiga Eva? Ah, essa a gente vende. Essa vai ser aquela da frase da vovó: “Deixa ele dormir com ela. É com você que ele vai casar, é você que ele ama. Ela vai morrer sozinha, porque homem não gosta de mulher assim pra ter filhos”. Essa aí vai ser a mina das revistas, do cinema, da televisão. Essa aí, como disse a vovó (uma brilhante publicitária), serve pra consumo. Consumo gera dinheiro. Essa aí, a gente vende. A mocinha decente, se defendendo da concorrência, vai se apegar ainda mais aos valores “de respeito”. A outra, vai encher bolsos. E com a vantagem de que essa pode ser condenada pela opinião pública, afinal, é uma “vaca”.
Chegamos. Chegamos a Bebel.
Sabe esse ódio que a gente tem delas terem ido viver a própria vida e pararem de servir a gente? Sabe esse ódio que muitas tem por terem aberto mão da própria vida? Então. A gente resolve isso. A gente coloca umas bem “moderninhas”, que são só sexo, como nenhum ser humano consegue ser. A gente escolhe algumas e reduz a sexo. E exibe-as até cansar, esgota-as. As beatas vão colocar pra fora todo o ódio que a infelicidade profunda pode causar; os machos vão usar-se dela, de sua imagem, de seu corpo, de todo o sexo que ela tiver pra vender, ganhando dinheiro e ainda colocando pra fora todo o ódio que sentem do que acham ter sido uma traição. Traição, ela ter trocado-os por uma vida legítima. E ainda vão mostrar que, não importa o que ela realize, quem ela se torne, quão genial ela possa ser, ela serve ao macho. Como pilar de moral, como gostosa de borracharia, como prostituta, como “modelo e atriz”. As que forem artistas, professoras, industriais, cientistas, psicólogas, revolucionária, qualquer outra coisa, vão ficar sozinhas. Ninguém quer saber de autogestão aqui. Porque, afinal, a gente tem que nos sirva, em pleno século XXI. E você, que pensou que ia ser tão feliz seguindo seu coração, realizando e produzindo, satisfazendo a voz interior, vai acabar como vovó disse. Sozinha. Sem amor. Sozinha e sem amor não são antônimos, só que você, bobinha que é, não sabe disso.
Bebel é o bode expiatório de gente medrosa de felicidade verdadeira, de sentimentos e satisfação genuínos. Dessa sociedade que se apoia em dogmas e receitas pra alcançar a felicidade, morrendo de medo de se aventurar a viver a própria vida. Dessa sociedade que morre de medo do novo, do diferente, do orgânico. Dessa sociedade que faz dos estereótipos um altar, e não um facilitador pra algo maior, porque morre de medo. Tem medo de tudo. Medo de largar toda essa tristeza e ser feliz de verdade. É dolorido, afinal, retirar o espartinlho, mesmo que ele não deixe respirar. O sufocamento é cômodo.

 11-07-10

Eliza Samudio sou eu; Eliza Samudio somos nós, queiramos ou não

Por
Bruna Scarpioni

A gente já conversou bastante sobre Bebel aqui. Há muito pouco tempo atrás, Bebel era Geisy. Hoje, num fenômeno inédito na escala de Bebéus que presencio há 18 anos, a Bebel da vez foi morta, esquartejada e devorada por cães.
Dá pra fazer um paralelo entre Eliza Samudio e Eva Perón, sabia? Éééé, olha só. Ambas, pelo visto, usavam um homem. Ambas era, logo, desonestas. Queriam dinheiro através desse homens. E foram socialmente condenadas, não por serem desonestas, mas por serem mulheres desonestas. A sociedade em que a gente vive permite a desonestidade, mas não na mulher. Tanto que ninguém no Twitter pede a morte de Zé Sarney. Da puta esquartejada, sim. Ser puta muda tudo. É um agravante monstruoso. O que é mandar espancar, matar, esquartejar, dar o corpo a cães perto de ser puta?
Fato é que putas existem, seja na esquina de casa, seja a menininha putinha da sua sala, sejam as de luxo, sejam as maria chuteiras, sejam Sônias, sejam Marcelas. Mais paralelos: Eu, Bruna, não uso drogas. Imagine que seria do tráfico se ninguém no planeta usasse. Acho que, pra sobreviver, a galera ia vender outra coisa. Se ser puta não desse dinheiro, não tivesse mercado, ninguém ia ser puta. Na hora de culpar mulher por engravidar e dar golpe, ninguém culpa jogador de futebol por não usar camisinha na orgia. O cliente faz o negócio. Se pagar pensão incomoda tanto assim, pra resolver isso existem camisinhas. E pra prevenir doenças muito sérias pras quais esse elementos nem ligam. Numa sociedade em que usar camisinha é ‘chupar bala com papel’, sendo que deveria ser hábito de higiene, ninguém lembra disso. Depois de tantos e tantos e tantos jogadores com filhos e pensões pra pagar, os profissionais do futebol deveriam abrir o olho pra essa maravilha libertadora de problemas que é a camisinha. É muito, muito fácil dizer que ela é uma golpista, e era, pelo que parece. Mas ele podia cair no golpe ou não. Não era um golpe tão difícil assim de se identificar. Caiu porque quis. Bruna, sua louca, homem não tem responsabilidade pelo que faz, esqueceu? Se estuprou, é porque ela provocou e ele não conseguiu ‘se segurar’. Se espanca, é porque ela dá motivo. Mulher tem que se contentar com o que tem, ser desrespeitada e julgada. Ser homem absolve o sexo forte de qualquer responsabilidade com respeito, consigo mesmo, com a lei. Ele tinha o direito de ser irresponsável; por ser mulher, não admite-se que ela seja “esperta” com alguém que é superior, um homem. Como ela ousa?
Duas coisas com as quais eu não negocio são honestidade e humanidade. Sensibilidade a sofrimento. Como diz Blache DuBois em ‘Um Bonde Chamado Desejo”, abomino crueldade. Abomino quem é capaz de causar sofrimento a um ser humano, a um animal, ao meio que habita, seja qual for o motivo. Abomino gente que, durante uma discussão, diz o que não sente só pra magoar. Nunca fui capaz de fazer isso, verdade. Eu magoava sem querer, mas por querer, nunca fiz. Abomino crueldade. Abomino gente que vê preço nas vidas. Vê um preço mais alto no senador, um preço mais baixo na puta, um preço mais alto na menininha virgenzinha de hímen (de outros buracos, eu sempre desconfio), um preço mais baixo na piriguete de Dyadema. Abomino. E abomino ver que eu vivo numa sociedade em que não estou segura, não importa o alto grau de virgindade e “decência” (falta de oportunidade, que fique claro) que eu tenha. Afinal, decência e castidade são passaportes pra uma mulher poder viver em paz (?) nessa sociedade psicopata. Eu não compreendo gente desonesta, cruel. Me digam vocês então, grandes moralistas, qual vai ser o limite. Hoje, pode esquartejar maria chuteira. Amanhã, como fica? Matar não é crime, pecado? Por que existem pessoas que ‘pode’ matar e pessoas que não ‘pode’ matar? Por que maria chuteira, puta, o que for, pode? Como vocês, psicopatas da moral e dos bons costumes, estabelecem os critérios? Hoje é a maria chuteira. Dado o nível de desonestidade, hipocrisia, indulgência e imundície em geral, quem garante que uma mulher está segura? Amanhã podem ser engenheiras as escolhidas para morrer, e eu danço. Ou qualquer uma de vocês. Morrer com o aval de uma sociedade de homicidas. Eu não tenho como medir onde vai os critérios de gente doente da cabeça. Afinal, amanhã, o meu preço pode ser baixo pra essa gente de coração podre e argumento fraco, de valores torpes, baseados no que instituição tal falou. Valores repetidos bovinamente. Repetidos sem o menor questionamento, sem que se saiba seu sentido. Doce costume dos imbecis. Pra quê, afinal, servem valores? Perguntem a si mesmos. Qual o sentido dissáqui que eu penso? Eu acredito no que acredito porque essas crenças fazem a mim e aos meus próximos viver melhor. Viver de formas diferentes, e viver bem. Meu maior valor é respeito. Questionei o que me ensinaram e entendi que o que me faz feliz é ver todo mundo feliz, com espaço pra viver. É isso que norteia minhas ações, e é por isso que escrevo: Pra não ficar quieta quando vejo o espaço de alguém sendo violado. Talvez essa pessoa não possa falar, como Eliza não pode. E se um dia, pra dizer o mínimo, o espaço dela foi violado, amanhã pode ser o meu, o da minha mãe ou das minhas amigas-irmãs. Não precisa ser PhD pra entender que meu bem estar depende do bem estar do outro. Meu nome é Bruna e esses são os meus valores.
O homicídio brutal não é assunto porque é brutal. Acontece diariamente com gente comum e não causa o mínimo desconforto, que dirá estardalhaço. A sociedade não liga pra crueldade, não. Não se iluda. Violentam criança diariamente. O conflito em Gaza vai fazer 70 anos, ou já vez, não sei de cor. A África passa fome desde que foi ocupada por brancos, e ninguém se importa. O negócio é que o crime foi cometido por um homem rico com a profissão dos ídolos nacionais: Jogador de futebol. E foi uma atriz pornô, uma maria chuteira quem morreu. O que é delicioso. Antes que as pessoas boas se assustem com o que digo, e antes que os psicopatas achem que eu também sou “decente”, explico: Cêis tem ideia de quanta gente tá segurando os preconceitos nessa nossa era de liberdade? Milhões. Milhões se seguram pra não falar que não acham negro bonito, que acham que gay é “invertido, doente”, que mulher ou é “vagabunda” ou é “decente”, e que as decentes estão em casa, obedecendo, e que as vagabundas tem mais é que sofrer, morrer, serem dadas aos cães. O BBB que deu um milhão de reais a um ignorante homofóbico, ao estereótipo perfeito de machão, Sir Marcelo Dourado, que caiu nas graças do nosso país cristão mesmo dizendo que apenas os gays transmitem AIDS, cumpriu a mesma função que o assassinato de Eliza: Dar uma oportunidade de respirar, de sair da toca, de falar besteira e ser aceito pros cruéis e anacrônicos, num mundo cada vez mais cercado de leis protegendo as minorias, as maiorias disfarçadas de minorias e as pessoas boas e esclarecidas.
Agora, vamos forçar o amiguinho psicopata, que faz piadinha sobre um esquartejamento no Twitter, que não questiona o fato de Bruno trair a esposa em orgias, que atenderam Bruno na delegacia e passaram um tempo conversando com ele sobre FUTEBOL!…Vamos ajudar o amiguinho que culpa Eliza pela própria morte a raciocinar, a se colocar um pouquinho no nosso lugar, o das pessoas de coração: Sabe os filmes pornôs da Eliza que estão circulando por aí? E sabe aquela pintura de Tiradentes esquartejado? Coloque a foto do rosto da sua mamãe nos rostos de Eliza e de Tiradentes.
É. Táticas Bakunin de Fazer o Leitor Pensar © 2010.
Pessoas boas do mundo, uní-vos enquanto é tempo. 

04-07-10

Se ela era Sônia, nós nunca saberemos…

Por
Bruna Scarpioni

Há prostitutas que caíram por alguma razão no que fazem e não querem parar. Algumas, porque gostam. Outras porque precisam. Eu achava que a prostituta que gosta do que faz era uma mito. Não é, elas existem. Nunca conversei com uma. Gostaria. O que li sobre elas me pareceu interessante, porque elas tem dignidade. Dignidade no falar, no dizer o que são e como são, como vivem. Gosto de ver essa dignidade de quem sabe que não é nada do que dizem por aí. Dignidade que emana de quem sabe que não está fazendo mal nenhum; de quem está vivendo a vida segura de suas escolhas. Há prostitutas que acreditam terem vocação pra o que fazem e sentem-se realizadas, deixam isso transparecer. Magnífico, porque eu só respeito quem se faz respeitar. Quem precisa fazer tudo certinho, fazer as escolhas certas, dizer as coisas certas, vestir as coisas certas e ser as coisas certas, não considero. Quem vai anulando lentamente o que tem de humano, de orgânico, de duro, de triste, de bom, de forte, eu desprezo. Gosto de gente que se impõe, e não há gente pra se impor nesse mundo como as prostitutas. As que gostam do que fazem, geralmente caíram no negócio por algum motivo que não a ‘vocação’. Financeiro. E aí, a moça veste a sua vocação e será feliz. Histórias muito bonitas. Pessoas que olham e falam com dignidade do que fazem. Não se deixam pisar por fazem algo que a boa sociedade execra. Não deixam o brilho dos olhos apagar só porque um fulaninho que nunca passou pela experiência que elas passam diariamente decidiu que elas devem permanecer à margem de tudo. Prostitutas que não se dobram diante da ignorância, dos preconceitos e da palpitice alheia. Não deixam que as olha por fora do brilho dos olhos afetar o que tem atrás deles. E essa força é algo que todos nós, “decentes” (odeio essa palavra) ou não, vamos ter que ter em algum momento da vida. Faz parte de crescer, de se afirmar como ser humano. Sorte de quem aprender pelo amor.
Prostitutas há de tudo quanto é jeito: Amam o que fazem, odeiam o que fazem, são de luxo, são de beira de estrada, as que estão nessa por necessidade, outras por ganância, outras por prazer. Sexo, pra mulher, não é a mesma coisa que pra homem, e não me refiro a esse delírio de que buscamos amor no sexo e os homens não. A César, o que é de César; a Deus, o que é de Deus. É que nós recebemos um corpo em nosso corpo, o que causa uma enorme diferença na concepção de sexo. Imagine, você rapaz, ter um buraco em si. Um buraco que deve abrigar um bastão quando você estiver madura para abrigá-lo e sentir vontade de. Imagine o que deve significar guardar esse bastão em si por alguns instantes. Sexo pra uma mulher significa deixar-se introduzir para sentir prazer. É preciso o mínimo de tranquilidade e confiança. É preciso estar à vontade, excitada. Qualquer vacilo pode representar uma violência a si mesma, um desrespeito marcado pra sempre. Frise-se que desrespeito é diferente de transa falida. Sentir-se violada, com consentimento ou não (é, é possível), é diferente de querer realmente estar ali, fazer, tentar com toda a boa vontade, e dar errado. Logo, imagine agora ter que receber bastões dentro de você noite após noite. Bastões de procedência desconhecida. Bastões de homens altos, magros, gordos, jovens, velhos, gentis, arrogantes, porcos, perfumados, doentes, violentos ou simplesmente babacas. E agora calcule a quantia que você toparia receber pra fazer isso. Os michês e as travestis também ganham a vida assim. Mas, por uma questão anatômica e também de inconsciente coletivo, não é a mesma coisa. A prostituta é execrada pela sociedade, o michê é uma figura mítica glorificada, e a travesti é objeto de riso. E isso nos é ensinado, por lição de moral ou por exemplo, desde o nascimento. Dos três citados acima, o único que é tido como pilar social de ‘virtude’, o único que é estereotipado por uma moralidade é a mulher. O sofrimento, com certeza, não é menor que o dos travestis, mas do sofrimento destes, eu não posso falar muito. Posso falar da experiência de me colocar no lugar de uma prostituta por um segundo. E de como dói. De como deve doer. De todas essas histórias de moças que se drogam pra aguentar se prostituir, de prostitutas que pedem força a Deus, de tantas moças que precisam se prostituir pra sustentar os filhos ou os pais. De todas essas mulheres que conhecem muita psicose, desamor, solidão de outra pessoa em mais ou menos uma hora. Mulheres que suportam suor, cheiro, bafo, caspa, tudo de quem não lhes desperta poesia nem excitação. Suportam conversas tediosas, desabafos torpes, mãos desconhecidas e geladas em seu corpo. Tem que suportar. E tem uma coragem monstruosa pra isso. Tem que ser muito macho.
Tem as meninas que fazem porque gostam, e essas eu respeito e me orgulho de sua firmeza. Tem as que não gostam, não precisam, mas fazem por ganância. Essas me dão dó, porque são completamente loucas. Tem as que precisam fazer pra sobreviver, e essas… essas são Sônia. Sônia de ‘Crime e Castigo’, que se prostituía pra dar de comer aos irmãos pequenos e à madrasta tuberculosa. E cujo pai bêbado e inconstante não se esforça pra tomar jeito na vida e retirar seu nome dos livros amarelos de São Petersburgo, cadernos nos quais os policias anotavam os nomes das prostitutas. Sônia é inabalavelmente católica…mais que isso, mais que cristã: crística. É uma analogia deprimente com o sacrifício de Cristo. Uma Maria Madalena crística. Capaz de, com amor, com o amor inesgotável que carrega em si apesar da vida que leva, conduzir o amado a uma reconciliação com a própria consciência. Uma moça que, apesar da imundície do meio em que é forçada a viver, conserva o coração puro, e isso é só pra os muito fortes, porque nós, os humanos, tiramos D na prova de Bases Matemáticas e saímos por aí nos lamentando. Eu, pelo menos, sou assim. E olha que fui eu mesma a responsável pelo cataclismo que é um D. Sônia, não. Ela é forçada por tudo e todos. E escarram-lhe na cara. A sociedade escarra-lhe na cara. Como o avô de Bebel, a Bebel de Ignácio de Loyola Brandão, escarra-lhe na cara, perto do nariz, um ranho quente e doentio, dando a Bebel uma cena pra lembrar-se sempre que estiver triste.
Uns dias atrás, eu estava voltando da faculdade de carro com a minha mãe. Perto de casa, num beco escuro, ela comentou: ‘Tem uma moça que trabalha aí’. Uma moça que trabalha num beco. Datilógrafa e virgem é que ela não deve ser. Fiquei procurando com aquela curiosidade característica das virgens, das mocinhas de bem, das meninas que não sabem de nada. Ela estava perto de uma oficina, acho, perto daquelas portas de ferro que descem do teto (sabem?). Uma minissaia rosa de gosto duvidoso. Meia parecida com arrastão (era de noite eu, como sempre, estava sem óculos). Cabelos negros longos retos, como a franja. Jaqueta escura pesada, couro falso, provavelmente. Botas que lembravam um coturno. Foi o que eu consegui, na minha miopia, apreender naquela escuridão. Soltei um ‘Que Deus a abençoe e proteja’. Frase de primeira-dama querendo socializar. Mas não era. Saiu do meu coração. Eu não preciso fazer a boazinha com ninguém, e vocês sabem disso. A imagem daquela moça me doeu, me deu aflição. Eu ia pra casa comer frango com arroz, e ela ia passar a noite naquele beco, exposta a tudo, sozinha, sem ninguém por ela, sem um agasalho decente. Minha mãe, uma senhora de moral evangélica incorruptível, exclamou um desesperado: “Credo! Deus não gosta dessas coisas” que interpretei como “Deus quer distância dessa gente”. Acho que a interpretação tá próxima do sentido original, que, provavelmente, minha mãe desconhecia. As pessoas, especialmente as que tem opiniões formuladas por outrem, desconhecem o que dizem. Eu acredito em Deus, e acredito muito, mesmo que seja cafona acreditar em Deus. A diferença é que o meu Deus é um cara simplesmente genial, diferente desse ícone fascista sanguinário que adoram em muitos templos por aí. E eu acredito piamente que ele vê o coração das pessoas. E se essa moça que estava lá fosse Sônia Siemionovna? Uma personagem lendária da literatura mundial, uma personagem marcada por uma benevolência estoica, uma generosidade e uma força que cortam o coração. Como é que a gente trataria Sônia se ela existisse de verdade? E talvez, muito provavelmente, ela exista. Como está sendo tratada? Que você faria se encontrasse com uma menina de 18 anos que se prostitui pra sustentar a família?
Ah, eu sei.
E o que você faria quando encontrasse uma puta que adora o que faz? Que tem orgulho de ser puta, que desperta a maior raiva possível na nossa moral de gente decente?
É, né? Eu sabia.
E o porque você faz diferença entre as duas?
Cê já se prostituiu? Eu não. Eu só me enfio por baixo da pele das pessoas, às vezes, pra ver qualé. Mas eu sou mulher. Acho que posso falar por elas. E, se não posso compreender a dor de ter que me prostituir, eu posso sentir o medo que uma mulher tem de ser vista como vagabunda, de contrariar toda essa moral que lhe domesticou a vida toda, de deixar de ser vista como um ser humano por causa da forma como conduz sua sexualidade, coisa que é impensável pra um homem. E que eu estou tentando dar uma aproximada, uma ajudinha pra entrar em contato com, aqui nessa coluna. A gente pode suportar a figura de Sônia por motivos óbvios. Mas porque não pode suportar a figura de Marcela, a prostituta que amou Brás Cubas “durante quinze meses e onze contos de réis”? “Ah, porque a Sônia é um ser humano extraordinário”. É. A Marcela pode não ser um ser humano tão brilhante, mas ainda é um ser humano, e nenhum de nós sabe, na pele, o que é viver como ela vive. Ambas são humanas. Ambas tem dignidade. Força pra viver como vivem. Ambas merecem o mesmo respeito. Sem contar que só sabemos delas o que o autor, Dostoiévski ou Machado de Assis, nos conta. Assim como, da moça do beco, eu só sei o que meus olhos míopes viram. Não sei o que ela viveu, vive ou pensou e pensa. Ela não faz mal a mim nem a minha sociedade. Eu tenho a obrigação de respeitá-la.
A nossa sociedade tolera e sustenta o traficante, mas sustenta e expia sua sujeira na prostituta. Liberar as drogas, que nos fazem esquecer um pouco da miséria que é essa vida de gado, pode. Legalizar a prostituição, impedir que essas moças sejam vítimas de violência impune, exploração, tenham direitos trabalhistas pelo trabalho muito árduo que fazem, não pode; essa sociedade não vê nada de errado em filmes e programas de televisão sobre crânios explodindo, mas não suporta cenas de dois homens se beijando. Acredita que direito à vida limita-se a direito a um parto, porque no seu conceito de vida não entra a família, o amor, a educação acadêmica e as condições mais básicas de desenvolvimento humano. Nasceu. É uma vitória da vida. Pronto. Não é problema nosso. A sociedade em que a gente vive, por desconhecer totalmente o amor e o sexo, plastifica-os, embala e vende pela televisão. Cria um exército de infelizes que trabalha pra manter seu cativeiro. E as prostitutas são o mais óbvio exemplo de como a humanidade ainda despreza, teme e desrespeita o feminino.
Alguma coisa está muito errada. Muito. E eu espero que essa coluna sirva pra que a gente, vocês e eu, reflita sobre respeito. Sobre nossos conceitos de respeito.

26-06-10

Se acaba o carinho, sobra o quê, sabidões?

 Por
 Bruna Scarpioni
 
Constance Reid era uma menina escocesa inteligente e livre. Experimentou sexo antes de casar-se e concluiu que não passava de uma bobagem incapaz de equiparar-se com o que ela chamava de ‘vida intelectual’. O que importava mesmo era um homem com quem fosse possível conversar, desenvolver-se como pensante. Casa-se com Clifford Chatterley, um rapaz inteligente e nobre, com quem ela interage mentalmente, ainda que a vida sexual-amorosa dos dois seja medíocre. Torna-se Lady Chatterley e Clifford volta da guerra paralítico, o que é um golpe de soco inglês no estômago de seu orgulho masculino e aristocrata. Constance isola-se do mundo, presa em Wragby, casa vizinha das minas de Tevershall, pertencentes à família do marido. Marido esse que exercita a megalomania e a depressão, a arrogância e a infantilidade depois do acidente. Connie era uma escocesa alegre e robusta, com corpo e personalidade moldadas para gozar do mais orgânico que a vida oferece. E vai murchando ao lado de Clifford, um aristocrata obcecado por dinheiro e status como último recurso para mostrar-se digno e respeitável aos outros. O pai de Connie farejava algo errado. Farejava com sua natureza bonachona e sensual, orgânica e doce, e com uma sabedoria de lobo do mar. Clifford era paraplégico. Não podia trepar. E permitia que Connie engravidasse de outro homem e desse ‘um herdeiro a Wragby’ sem que o ‘entendimento intelectual’ entre eles fosse prejudicado. Mas não era carinhoso com Connie. O pai dela sabia ser carinhoso. Clifford, não. Uma mulher pode conseguir experiências sexuais. Pode conseguir prazer até mesmo sozinha. Mas carinho…carinho é o que a gente precisa pra viver. Carinho é aconchego em outros humanos, aconchego físico ou psicológico. Carinho é o que faz a gente ter vontade de ficar ali. De ficar com ele, com ela. Carinho é calor. O calor que a gente passa a vida buscando, calor que leva a verdadeiras crises de solidão quando a gente constata que está há muito tempo sem algo que precisa mas não sabe o que é. Carinho é o que Brigitte Bardot experimentou quando chegou chorando no set de A Verdade, após uma briga violenta com Jacques Charrier, seu marido, e o ator Samy Frei, que nunca tinha lhe dirigido a palavra, tocou sua mão enquanto ela segurava o choro. Carinho é aquele momento em que vocês sustentam o olhar sem ter medo, se assustam com tudo o que veem e descobrem, sem palavras, que tem muito. Carinho foi quando Bebel, saindo da sede da televisão, foi comprar uma ficha de ônibus mas não tinha troco. Marcelo, um rapaz robusto, beirando o rude, cheio de sonhos e de bondade, disse pra ela trazer depois. Ela disse que ele nem parecia funcionário público, e eles sorriram como há muito num sorriam, num entendimento imediato, inquestionável, silencioso, que durou até que ela afundasse no lodo da cidade e que ele morresse nas mãos dos militares, com uma foto dela trincada nas mãos.
Carinho é essa ligação instantânea, mais forte do que tudo, esclarecedora de tudo, capaz de aquecer o coração da gente sem que a gente perca a identidade, como prega o amor romântico. Carinho é o laço mais doce que pode unir humanos. Carinho se manifesta entre amigos. Carinho se manifesta onde há honestidade destemida, onde os dois se mostram, talvez não muito confiantes, mas se mostram. E gostam do que veem, sem perceber que gostam. Desarmam-se, sem pensar em se defender ou esconder-se, porque não dá tempo de pensar. Um conhecimento milenar sobre o outro que manifesta-se de súbito, e os dois tem a coragem de seguir esse ímpeto, sem se questionar, sem julgamento. O carinho lhes basta.
Moralistas: Favor não confundir o tema desta coluna com essa baboseira de romance de banca de jornal que vocês chama de amor à primeira vista. Ain, que ânsia que me dá!
Carinho brota entre dois desconhecidos. Entre inimigos declarados. Entre professor e aluno. Entre hetéro e homo. Qualquer coisa, qualquer pessoa. Duram uma noite, uma tarde, dez minutos, o tempo do ônibus chegar, um beijo, ou nada. É uma experiência única. Ou se repete pra alguns sortudos que a deixam entrar. Carinho acontece. Não sei como, mas acontece. De súbito. Sem regras. Sem o monte de formas e fórmulas que nós aplicamos ao amor. Sem o monte de merda que jogamos em cima do sexo. Sem regras. E isso dá um medinho em quem tá acostumado a teorizar tudo, a procurar as melhores formas de viver os sentimentos e os melhores sentimentos, os melhores modelos de felicidade. Isso assusta quem é bombardeado por uma série de conceitos e preconceitos sobre amor. O que a gente nem sabia definir acaba sendo definido pelo que é a aparência correta, os hábitos corretos, o comportamento correto, as técnicas corretas de atração, o parceiro correto, tudo por uma módica quantia que, na maioria das vezes, a gente nem percebe que está pagando. Uma receita matemática disfarçada de simples e infalível. Não é. Não funciona. E é preciso mais uma. E as fórmulas vão mudando na velocidade da luz, após serem consumidas. Precisamos de ilusões novas, galãs novos, mais dinheiro. Afinal, o que a gente tem em casa, ou nem tem, não tem a menor graça. Porque, desde não sei que momento nefasto, a humanidade desaprendeu a amar, a trepar e a gozar de verdade a bênção da vida.
A gente comercializa amor e sexo. E esquece completamente de carinho porque, se se lembrasse, ia simplesmente abandonar todas essas besteiras e conselhos e análises brilhantes dos especialistas da Revista Nova e dos “autores de novelas”, que gabam-se de “responsabilidade social” e “verossimilhança” em suas obras. Meu cu pra tudo isso, meus amores.
Carinho é o que Constance Chatterley encontrou em Oliver Mellors, couteiro de seu marido. Um homem aparentemente rude, isolado e esclarecido, que preservava-se de ser engolido pelo dinheiro, pelo espírito pequeno-burguês medíocre da Inglaterra, e pela maneira como os humanos tratam seu corpo como um monte de lama valioso. Um homem organicamente rude, impossível de comprar, destemido, incapaz de enxergar cargos, classes e qualquer coisa que transcendesse o mais importante da vida, a ternura. Ternura que, ele tinha certeza, não existia em lugar algum. Uma mulher que fosse doce, que não tivesse medo de ser fêmea. Que não fosse vazia por ser fêmea, que gozasse seu sexo livre e digna. Que respeitasse um homem. Que o respeitasse inteiramente e não o invadisse, o violasse psicologicamente, que não tivesse esse prazer perverso que as mulheres tem em machucar seus homens, em testá-los, em levá-los ao limite. Mellors e Constance estão no mais absoluto abismo psicológico, descrentes de qualquer tipo de relação humana bem sucedida. Cansados dessa máquina de emoções humanas, desse triturador de emoções que é a sociedade e seus dogmas. Desses homens e mulheres triturados, congelados, defendendo-se do perigo que é viver sentimentos genuínos nessa selva. E irmanam-se nessas dores. Mellors leva Constance a redescobrir sua feminilidade orgânica, a reviver por dentro, sexual e emocionalmente. A acreditar em ternura. Mellors é, acima de tudo, um homem terno. A seu modo. O que não impede que Connie sinta essa ternura, e que ela lhe devolva a vida. Mellors é forçado por uma mulher forte, íntegra e corajosa o suficiente pra ser doce a entrar em contato com suas emoções. E a ama. Ama novamente. Ama de verdade. E o autor nos dá pérolas como ‘ela abraçou seu corpo, o único lar que havia conhecido’.
O amor de Constance e Oliver é de poucas palavras. É, para alguns, de palavras rudes, até. Para os padrões de romantismo de folhetim barato que vivemos, é anti-romântico. O sexo ocupa o papel de religar os personagens a suas emoções, a sua fé nas emoções, o papel de meio de troca de carinho. O carinho traz os personagens de volta à plenitude emocional, à plenitude de sentimentos, de vigor na vida. Ainda que tudo, absolutamente tudo seja-lhes proibido pela máquina de respeitabilidade social.
Mas vivem com carinho. O carinho os uniu e mantém unidos. Pagam os preços por isso, porque calculam que vale a pena.
Eu não busco amor. Acho que é muito raro, sério, muito sagrado pra ser pensado e vivido aos 18 anos de idade. Acho amor muito denso, muito especial, muito inesperado, muito importante. Tenho um respeito enorme pelo amor, uma verdadeira reverência. E não posso vivê-lo num momento em que estou me despindo de uma série de enganos que me ensinaram com a melhor das intenções. Quero me apresentar pura para o amor. Pureza mental, emocional. E até física. E isso exige provar sexo. Está na hora. Madonna disse que fez sexo pela primeira vez, mas continuou virgem até entender o que tinha feito. Acontece comigo o contrário. Sexo é prazer. É uma integração física que pouco ou nada tem a ver com amor. Sexo puro é triste. Mecânico. É como comer um prato de arroz, feijão, farinha e bife. Uma delícia. Saiu dali, acabou. Nada. Eu espero carinho da minha primeira relação sexual. Eu espero intimidade física completa. Generosidade. Vontade de fazer bem ao outro, de deixar o outro bem. Criatividade. Espontaneidade. Carinho, muito carinho. Um carinho capaz de me levar a uma feminilidade adormecida em mim. Um carinho capaz de me tocar bem fundo no coração sem me privar da minha liberdade e das minhas escolhas. Um carinho descompromissado, sem obrigações nem procedimentos. Acho que eu mereço. Estou idealizando? Será que ainda sobra um rapaz orgânico, corajoso e terno pra isso? Não é um convite. É uma indagação. O carinho está se perdendo, na melhor das hipóteses. Ou já está perdido ou não chegou nem a se desenvolver. E eu quero mover a minha vida a carinho e a criação.
O negócio é não desistir e ter coragem, né?

22-06-10

Nem sexy ela é, mas vai
ser comida pela cidade

Por
Bruna Scarpioni

 Eu passo um tempo lendo o Twitter da Geisy Arruda, acredita? Pois é. A Geisy me surpreende quando fala. Bom, ela não é bonita. Não é bonita porque é sem graça. Sem um pingo de graça. O problema não é ser gordinha nem ter o cabelo suspeito nem nada. É ser absolutamente sem graça, ter um conjunto sem graça e uma personalidade mais sem graça ainda. Mas, pra quem saiu da Uniban, morava em Dyadema (e não venha com “sua preconceituosa”. Eu sou de Mauá. Também sou da quebrada), trabalhava num mercadinho por 400 pila e blás, ela surpreende porque fala corretamente e tem um mínimo de criatividade a articulação. Fazia inglês e informática enquanto estudava na… naquilo lá. Solta uns ‘pra mim me articular melhor’ que são absolutamente perdoáveis dadas as circunstâncias. E acho absolutamente natural que ela lucre com tudo o que o machismo lhe causou. Nas condições dela, é o que qualquer um faria, e negar isso é moralismo de boteco. É a história de Bebel. De Bebel Que a Cidade Comeu. E vida longa a Ignácio de Loyola Brandão. É bom mesmo que ela ganhe grana. Quem sabe os elementos que chamam a si mesmos de estudantes não resolvem estudar ao invés de perseguir tentativas de gostosa? E, quem sabe, não se arrependem do que fizeram? Porque, afinal, é por causa deles que a gente tem que aguentar a Geisy. A Jay-Z Arruda.
Interessante ver como a sociedade odeia essa menina. É interessante voltar na história e perceber como a sociedade sempre produziu loiras de apelo sexual (Geisy? Eu sei. Calma, eu explico) pra usar de Anti-Cristo. Jayne Mansfield (‘o busto’ que falava seis idiomas), Marilyn Monroe (excelente comediante, aliás. E excelente atriz. Esnobada pelos críticos e pela Academia por tem encarnado o personagem em sua vida, ainda que quase contra a própria vontade. Quase.), Brigitte Bardot (que seria uma atriz séria com facilidade, se quisesse. Mas nããããão. Melhor trocar de amante freneticamente e se dedicar a maldizer o cinema dia após dia. Precisam ver o ódio de minha Brizzy pelo cinema), Madonna (a primeira que sabia o que estava fazendo) e seguem-se outras, dentre as deusas que citei, e mais algumas fast-food de ódio, como Jay-Z Arruda.
Todas ganharam dinheiro, eram morenas e foram massacradas pela mídia e pelas mulheres.
Madonna e Jay-Z nunca despertaram o desejo masculino. Madonna não é um ícone pra machões. Por mais “jovem” que seja o corpo, ela é ativa demais. Ativa psicologicamente. É ativa demais, inteligente demais, forte demais, articulada demais e isso transparece nas letras, nas melodias, no sucesso dos negócios. Machão não gosta disso. E Geisy…bom, Geisy é personagem de Superpop. Força algo que ela sabe que não é. Força uma sensualidade que não existe. Precisa da grana (acho razoável), e precisa (o que me pareceu, à primeira vista uma necessidade adolescente, mas que revela ser Geisy uma vítima do biótipo e do sucesso feminino mostrado nas revistas) acreditar na sua “beleza”, encarnar, na marra, a gostosa, uma gostosa que todo mundo sabe que não existe. Afinal, ser gostosa exige muito. Cêis já viram a tal da Mulher Melancia falando? A maneira como a menina se impõe e como transmite uma segurança que cativa um homem? Segurança essa que vem de uma enorme confiança na atração que exerce. Coisa que, nem precisa ser psicólogo, sabemos que Geisy não tem. Nem atração, nem confiança na atração. Ignorada pelos homens, apesar do marketing nesse sentido, e odiada, inútil e rancorosamente odiada pelas mulheres.
Vejo montes de meninas jovens encarnando freiras medievais (daquelas que nem tomavam banho pra não pecar) quando a coitada da Geisy aparece. A Geisy, Jay-Z, não tem porra de sex appeal, sensualidade nenhuma. Mas parece uma heresia que uma gordinha de Dyadema esteja vivendo seus momentos de princesa do Netinho. Irritar-se com a Jay-Z porque ela chama atenção masculina, porque ela explora o corpo, porque ela não tem nada mais a oferecer, porque isso e aquilo e por outras frases de coroa mal-amada não cola, né? Geisy, repito, não chama atenção dos homens. Nem tem corpo pra explorar. Mas as tiazonas de 20 anos indignadas se justificam com esses argumentos.
Eu vejo uma ranhetice danada, uma misoginia danada e uma inveja danada.
Imagine que Jay-Z Arruda fosse uma menininha de sexualidade aparentemente indefesa, uma Miley Cyrus barata e tupiniquin, uma ex-BBB, uma menininha loirinha que foi Miss Colégio/Escola/Primário/CursodeInglês a vida toda. Uma menininha limpinha de classe média. Estudadinha na Metô. Uma menininha digna de merecer solidariedade diante de uma perseguição sexual que poderia ter terminado em estupro. Uma menininha passivinha, limpinha de papai e mamãezinhos, “decente”, “direita”. Uma moça tem que ser “direita” pra merecer a proteção da sociedade. Não pode “provocar”. Se provocar, que arque com as consequências: O homem não é obrigado a se controlar.
Mas é uma menina gordinha, de Dyadema, com um nome cafona e sem graça pra cacete que sai na mídia. Se Geisy não parecesse/fosse o que se chama de ‘mina do povo’, qual seria a reação das mocinhas limpinhas decentinhas? A perseguição a ela seria a mesma?
E não pára aí: Impressionante ver como as mulheres jovens do século XXI uniram-se pra demonizá-la. Pra dizer que aquilo não é roupa pra se andar na faculdade, e que ela deu razão pra tanto escândalo, que a faculdade estava certa em expulsá-la. É aterrorizante.
Em velório, a gente não vai de minissaia e camiseta do Mickey. Advogado não vai ao tribunal de Havaianas no pé. E nossos caros senadores não usam os macacões laranja que lhes cairiam perfeitamente. Existem códigos sociais de vestuário que devem ser seguidos para que a vida transcorra tranquilamente. Mas são códigos. Você usa código Morse pra escrever? Não. Por quê? Porque não quer. Se quiser ir de camisa do Mickey no velório, pode ir. Poder, pode. Não é recomendado, mas o que chamam de Estado de Direito permite que você se vista como quiser e vá aonde quiser vestida assim. Ninguém tem o direito de interferir nisso, a menos que haja crianças perto ou que você vá a um templo religioso. E, entrando com trajes sumários num templo religioso, o sacerdote vai te convidar educadamente a se retirar. Você não vai sofrer violência alguma pelo que veste.
Não foi o que aconteceu. Um vestido que, só porque “sobe”, mostra exageradamente as coxas, chama a atenção dos homens, é motivo de violência moral e ameaça. Geisy podia até querer atenção. Poderia até estar conseguindo. Mas isso justifica? Justifica coação, assédio, violência? É esse o país em que vivo? País que condena mulheres por terem corpos de mulheres. Corpo que cometeu a asneira de ser atraente pros homens, então não pode ser mostrado, porque os homens não tem a obrigação de se controlar. A responsabilidade por sua segurança, “reputação” ou sei lá que porra de termo os moralistas usam, é toda da mulher. As instituições, a “moral”, os códigos de conduta e tudo mais não asseguram o menor respeito à mulher. Por quê? Porque homem é, acima de tudo, um ser humano. Uma mulher, não. Uma mulher é uma mulher em qualquer circunstância. Uma fêmea, por mais que disfarce. E é bom que disfarce direito, porque, senão, está sujeita a tudo. Geisy tinha o direito de ir vestida como quisesse. Direito. Estado de Direito, caríssimos. Se ela queria atenção, fama, popularidade, não interessa. É direito dela vestir o trapo que quiser. É direito de qualquer um, inclusive de seus perseguidores. É direito meu. E se um dia perseguiram uma menina por um vestido, violaram seu direito por um vestido, por que isso não poderia acontecer comigo amanhã? Ou com você? Por que seria diferente? Talvez, até por uma mera calça jeans? Um casaco listrado? Ou vocês conseguem ver limite pra ignorância. Hoje, foi a menininha encardida de Dyadema. E amanhã? E qual o critério que escolhe as vítimas? É bom pensar nisso, ameega.
E essa Brigada Pela Moral e Bons Costumes das Mulheres de Respeito que Geisy movimentou?  Mulheres armado-se de sua moralidade, de sua ‘intelectualidade’, de seu ódio de ser mulher e da mulher e vão massacrar Geisy Arruda, Madonna, Brigitte Bardot, Marilyn Monroe, e mais outras Bebéus. Bebéus Que a Cidade Comeu E Come. Come, mastiga e vomita, pra pedir mais uma, e mais uma e mais outra, sem ficar satisfeita nunca. E pede mais porque ódio não tem fundo, a menos que haja reflexão e boa vontade. Não há. A sociedade/cidade precisa dessas “vagabundas” pra vomitar todo o que ainda sente pela Eva. Eva que sou eu e você, humano dotado de vagina que lê este post. Ódio reprimido pelas conquistas de mulheres comuns que não desistem, e que se destacam onde os machões perdem espaço. Que estão por aí fazendo e acontecendo. Que impõem um respeito que emana dos seres humanos que são e não do quão cobertas estão. Que se impõem com inteligência, cultura, esforço, coragem. E como assém? Vai ficar assém?
Não.
Vamos produzir símbolos. Símbolos da Eva. Vamos fabricá-los. E depois vamos demonizá-los. Pra que fique bem claro pra todas as mocinhas como elas tem que se comportar: Não importa o quão brilhante você pode ser, vai ser sempre submetida por um XY. Um homem. Vai ser subjugada no seu trabalho, ganhando menos e trabalhando e estudando mais, sendo assediada como se, por ser mulher, não importa o ambiente em que está, serve pra satisfazer desejos sexuais. Na sua diversão, porque não pode falar alto, não pode pensar isso nem dizer aquilo, porque ‘pega mal’. Não pode sentar assim, e precisa saber jogar o cabelo. Vai ser subjugada no teu corpo, se moldando aos ditames do momento, vendidos como a chave da beleza. Sem que você tenha nem mesmo um conceito de beleza. Sem permitir aos garotos jovens formular um conceito de e lavar-lhes a sexualidade ditando o que eles devem querer. Vai ser subjugada no teu sexo, moldado na posição certa pra ele, na bunda certa pra ele, mas “com classe”, porque homem não gosta que a namorada seja “uma vagabunda” na cama. Tudo pra ele. Pra causar um orgasmo que não existe. E pra se condenar à frigidez. Vai ser subjugada pela tua família, pela tua religião (que, na maioria das vezes, não é tua), pelos contos de fada, pelo teu macho (que não é homem. Frise-se), por te ensinarem que um dia ELE vai aparecer e te salvar. Sente e espere. Faça cara de coitadinha ou de safadinha porque também pega bem.
Porque não importa quão brilhantes artistas (com exceção da Jay-Z, tadinha) essas mulheres tenham sido, quanto dinheiro tenham feito, quanta gente tenham desafiado (“Se o Papa quer me ver, ele que venha ao meu show”), quantas consciências tenham expandido ou inspirado com suas próprias vidas, nós sempre as demonizamos e circundamos a discussão de seus símbolos ao “fato” de elas serem um bando de “vagabundas sem-vergonha”. E as mocinhas de bem crescem acreditando que elas são apenas isso. E veem o que acontece com mocinhas que se comportam mal: Solidão, suicídio, “má fama”. Deixem claro que elas só chegaram onde chegaram porque pularam de cama em cama, afinal, o mundo é dos homens. Reduzam-nas. Omitam as dificuldades enormes que as “vagabundas” atravessaram pra serem quem foram, omitam sua coragem, suas palavras, os seus livros preferidos, seus grandes trabalhos. Assim a gente seguirá criando mitos femininos, que tem que ser fortes e inteligentes pra alcançarem esse posto, mas também tem que ser imediatamente aniquilados assim que prontos. Pra que sigam-se de um mito mais fraco. E mais fraco. Até que não reste nada às meninas, a não ser Jay-Z Arruda.
E cria-se esse exército de meninas absolutamente sem graça, como Geisy, e um outro exército de mulheres que odeiam ser mulher, odeiam a mulher e encontram refúgio nesse moralismo patriarcal que aprisiona a elas mesmas.
Precisa nem ter mediunidade (como a que eu tenho) pra se assustar com o futuro.
 

10-1-010

Sob o Capital, a liberação sexual é a
farsa do comércio do sexo liberado

Por
Francisco Barreira

Todos nós, de esquerda ou direita, que fomos politizados em fases anteriores aos anos 70 do século passado, nos habituamos a antagonizar Freud e Marx. Ou vale um ou vale outro. Isto é obra dos epígonos dos dois lados, aqueles divulgadores medíocres que, por preguiça, malícia ou pura incompetência “reduzem” as teorias dos respectivos mestres a uma série indigesta de slogans ou palavras de ordem que passam a constar de cartilhas destinadas à conquista de novos militantes.
Assim, pela direita, defendia-se fervorosamente que a rebeldia contra Sistema, tinha muito mais a ver com um choque edipiano de gerações do que com a luta de classes e os fatores econômicos E, pela esquerda, os mais empedernidos, numa ação reflexa, ignoravam toda a teoria freudiana, assim como até hoje há ingênuos que ignoram Darwin.
De um lado, via-se a revolta juvenil, mesmo quando ela ganhava as ruas, como um distúrbio temporário de comportamento: nada que um bom divã ou uma boa carteira de trabalho não possam resolver. Do outro lado, torcia-se o nariz para a teoria dos complexos de infância: frescura de burguês: nada que uma enxada e uma vassoura na mão não possam resolver.
Não me tomem por leviano, nem pensem que pretendo reduzir nossa discussão a uma sucessão de frases jocosas. Só direi que um pouco de vaselina não faz mal a ninguém. E, dito isto, reparem na frase de Freud aí em baixo:
“A força propulsora básica da sociedade humana é, em última análise, econômica: já que a sociedade não possui reservas suficientes para manter seus membros sem que eles trabalhem, precisa limitar o número desses membros e desviar suas energias da atividade sexual para o trabalho. Esta é a eterna e básica exigência da vida, que persiste até hoje”. Assim, pois, ele explicava, nas razões econômicas (uma tese marxista), a origem primeira da repressão sexual que dá origem aos complexos por ele estudados.
Pelo lado de Marx, é conhecida sua teoria sobre a luta de classes, o motor da História. Luta esta que faz com que o Sistema internalize (geralmente via religião) no núcleo familiar básico, sua ideologia e, portanto, sua repressão. Eis ai como Marx antecipa, a figura repressora tão conhecida hoje do pai-patrão que, por sua vez, está no núcleo da teoria edipiana.
O leitor mais inteligente – e felizmente todos os meus o são – já deve ter concluído que não faz sentido falar em liberação sexual apenas, desvinculando-a da outra repressão (opressão) que corre em paralelo: a exploração do trabalho alienado, aquele que vendemos apenas para comer e dar de comer aos filhos, sem fazer qualquer tipo de consideração sobre se este tipo (ou quantidade) de trabalho é realmente necessário para a melhoria da qualidade de vida da humanidade como um todo.
Na verdade, o trabalho alienado e seu excedente têm como função essencial (exclusiva) propiciar a acumulação do Capital. Trata-se, portanto, de uma disfunção. Disfunção esta que destrói a Natureza, assim como o câncer (produção excedente de células) destrói o corpo humano.
De tudo isto, pode-se chegar à conclusão de que a liberação sexual,  representa importante avanço cultural, psicológico e também político, como é o caso das mulheres e dos homosexuais. Mas não é só isto: o realmente importante é que, cedo ou tarde, este processo é canalizado para a luta ideológica. Entretanto, na atual fase, a liberação sexual ainda está muito mais para a farsa que consiste em fazer supor que estamos sendo liberados, quando continuamos presos ao fetiche na maioria dos casos. E isto transforma a liberação em mera libertinagem.
Até agora, o que ocorreu de forma realmente consistente foi a liberação da comercialização degradante e desenfreada do sexo. Sexo que, enquanto mercadoria que é na sociedade dominada pelo Capital, representa um negócio planetário superior ao do petróleo.
A mídia capitalista aposta na nossa liberação para continuar com a venda crescente de suas mercadorias sexuais, principalmente as de carne e osso. Mas não quer que concluamos que a liberação real só ocorrerá quando mandarmos a exploração capitalista para o espaço.
Hoje, paramos por aqui, com a promessa de retomar o assunto muito em breve. Ocorre que tenho este compromisso com meus leitores: eu procuro não escrever muito mais que 30 linhas de cada vez . E eles prometem não bocejar enquanto estão lendo.

Não deixe de ler, na coluna Opiniões sobre o Blog, importantes textos de leitores sobre este mesmo assunto.

 

 

9-1-010

O que não querem que você saiba sobre o sexo

Um dos lugares comuns mais comuns nos diz que a prostituição é a profissão mais antiga do mundo. Deve ser verdade. Mas o que é mesmo prostituição? Aí varia. Dependendo da idade, da classe social e da cultura, o conceito vai cambiando. Ou melhor, vai mudando nossa opinião do que seja praticar a prostituição. Atitudes gestos, modos de vestir e de falar, hoje comuns até em crianças, há algumas décadas eram de forma unanime considerados “coisas de puta” ou de puto.
Machado de Assis cujo estilo é considerado austero e pudico, um dia jogou esta frase no papel: casamento, esta prostituição doméstica. Opa! Olha aí o gênio de um homem conservador, levantando uma tese revolucionária. A de que a prostituição é, antes de tudo, uma relação de poder.

Antes de prosseguir, consultemos o Houaiss:

prostituição – Atividade institucionalizada que visa ganhar dinheiro com a cobrança por atos sexuais. Exploração de prostitutas.
proxeneta – aquele que explora a prostituição de outrem.
Se levarmos ao pé da letra estes dois verbetes, como poderíamos, por exemplo, definir gente famosa que se expõe em fotos ou em filmes com o objetivo absolutamente indiscutível de provocar desejo sexual em outrem? Não se precipite amigo leitor. Retire a palavra prostituta(o) de sua boca. A famosa(o) só poderá ser assim denominada(o) se cobrar um dinheirinho (ou dinheirão) para posar para tais fotos ou interpretar tais filmes. O mesmo se poderá dizer com relação aos vetustos órgãos de nossa mídia que produzem e veiculam tais fotos e tais filmes: eles atuam como proxenetas.
É mais do que óbvio, portanto, que os dois verbetes mencionados acima não podem ser tomados ao pé da letra. Seria um Deus nos acuda. Ia sobrar pra todo mundo, Vige Santíssima! O que fazer então? Arrancar a página do dicionário? Não é preciso chegar a tanto, basta relativizar.
Esta é a palavra mágica. Tudo é relativo. Portanto, tudo pode eventualmente ser tolerável ou suportável. Se, no final, ainda metermos alguma grana no bolso, melhor ainda.
Agora voltemos ao velho Machado. Ele nos ensina que a prostituição é uma relação de poder. Como a prostituição já foi devidamente relativizada, sobra a noção elementar de que o sexo implica, inevitavelmente, uma relação de poder. Opa! Mas como se dão as relações de poder? Historicamente, através da luta de classes.
Isso tudo para dizer que a menos que se queira ser apenas um proxeneta e escrever livros ou matérias do tipo “Tudo o que você precisa saber sobre sexo”, com o objetivo exclusivo de levantar uma grana, é preciso estudar , minimamente, as relações de classe ao longo da História. Muita gente já fez isto de forma mais ou menos competente. No caso específico da exploração sexual selecionei quatro autores: Marx, Freud, Jung e Reich. Eles dissecam as relações entre o poder e o sexo na sociedade. E todos eles fixam-se na questão crucial: as relações de sexo e poder no interior do núcleo familiar.
Pelo menos uma vez por semana escreverei sobre este tema aqui no blog. Como não sou especialista nem pretensioso, vou me limitar a reproduzir ou resumir, de forma articulada, textos dos autores sitados acima.

 

28 Comentários leave one →
  1. 09/01/2010 1:08 pm

    Pretendo acompanhar as questões do sexo e poder, além de adiantar que Foucault tem textos fantásticos sobre o assunto.
    Já sobre o filme que trata da operação mata mendigos, nossa, no Rio de Janeiro ser mendigo é viver muito perigosamente. E o perigosamente é relacionado menos com a popualção e mais com as formas de exercer poder e forçar a ordem. E quero adiantar que a candidatura de Eduardo Paes tem nada ou pouco a ver com a opinião dos cariocas. A eleição dele foi das articulações mais absurdas possíveis dentro do que minimamente entendemos como democracia. Grosso modo, ele representar grupos de poder e não a popualção majoritariamente. Desta feita, quando se fala da cidade do Rio de Janeiro no mandato do Eduardo Paes é bom associar menos à população e mais à pessoa do Eduardo Paes em si e sua corja.

  2. cnthia permalink
    10/01/2010 11:17 am

    Gostaria aqui de compilar alguns trechos de “A NOVA MULHER E A MORAL SEXUAL” de Alexandra Kolantai, visionária, que já em 1917 estudava a relação entre homens e mulheres:
    A prostiuição
    No capítulo 2, “O amor e a nova moral”, Kolantai faz uma crítica contundente às três formas de amor vigente na sociedade capitalista: o matrimônio legal, a prostituição e a união livre. Aqui transcrevo as opiniões a cerca da Prostituição, justificada desde os primórdios da humanidade, mas que nada mais é do que uma afronta a edificação de uma Sociedade justa, solidária e fraterna.

    “Pode haver algo mais monstruoso do que o fato amoroso degradado até o ponto de se fazer dele uma profissão?

    Deixemos de lado todas as misérias sociais que vêm unidas à prostituição, os sofrimentos físicos, as enfermidades, as deformações e a degenerescência da raça, e detenhamo-nos somente ante a questão da influência que a prostituição exerce sobre a psicologia humana. Não há nada que prejudique tanto as almas como a venda forçada e a compra de carícias de um ser por outro com que não têm nada em comum. A prostituição extingue o amor nos corações.

    A prostituição deforma as idéias normais dos homens, empobrece e envenena o espírito. Rouba o que é mais valioso nos seres humanos, a capacidade de sentir apaixonadamente o amor, essa paixão que enriquece a personalidade pela entrega dos sentimentos vividos.

    A prostituição deforma todas as noções que nos levam a considerar o ato sexual como um dos fatores essenciais da vida humana, como acorde final de múltiplas sensações físicas, levando-nos a estimulá-lo, em troca, como um ato vergonhoso, baixo e grosseiramente bestial. A vida psicológica das sensações na compra de carícias tem repercussões que podem produzir conseqüências muito graves na psicologia masculina.

    O homem acostumado à prostituição, relação sexual na qual estão ausentes os fatores psíquicos, capazes de enobrecer o verdadeiro êxtase erótico, adquire o hábito de se aproximar da mulher com desejos reduzidos, com uma psicologia simplista e desprovida de tonalidades.

    Acostumado com carícias submissas e forçadas, nem sequer tenta compreender a múltipla atividade a que se entrega a mulher amada durante o ato sexual. Esse tipo de homem não pode perceber os sentimentos que desperta na alma da mulher. É incapaz de captar seus múltiplos matizes. Muito dos dramas têm como causa essa psicologia simplista com que o homem se aproxima da mulher, e que foi engendrada pelas casas de lenocínio.

    A prostituição estende, de modo inevitável, suas asas sombrias tanto sobre a cabeça da mulher livremente amada como sobre a esposa ingênua e amorosa e sobre a amante intuitivamente exigente. A prostituição envenena implacavelmente a felicidade do amor das mulheres que buscam no ato sexual o desfecho de uma paixão correspondida, harmoniosa e onipotente.

    A mulher normal busca no ato sexual a plenitude e a harmonia. O homem, pelo contrário, formado como está na prostituição, que extermina a múltipla vibração sensações do amor, entrega-se apenas a um pálido e uniforme desejo físico que deixa em ambas as partes, insatisfação e fome psíquica. A incompreensão mútua cresce quanto mais desenvolvida está a individualidade da mulher quanto maiores são suas exigências psíquicas, o que traz com o resultado uma grave crise sexual. Portanto a prostituição é perigosa, pois sua influência se estende muito além de seu próprio domínio.”

    • cnthia permalink
      10/01/2010 11:18 am

      Ah, digitei errado, faltou uma letra, meu nome correto é Cínthia. Grata.

    • 17/04/2010 6:27 pm

      Ótima dica, Cinthia, obrigado. Esse debate vai ser rico.

      Sobre prostituição: como é que um pai tem a coragem de levar seu filho para ser “iniciado” por prostitutas? Que pobreza…

  3. 10/01/2010 9:04 pm

    nem li ainda, mas a chamada do twitter matou! ==>@ChicoBarreira Eles querem liberdade sexual para vender mais, não para que o mundo fique menos hipócrita e mais generoso. No blog. http://bit.ly/Sv9pL

  4. 10/01/2010 9:19 pm

    esse comércio ligado ao sexo que inclui a carne e o osso. não deixa de incluir os desejos e toda a gama de defesa e promoção da indústria do entrentenimento, com a substituição do desejo do indivíduo pela projeção e vinculo com as imagens das celebridades, em menos palavras, o comércio do sexo não só inclui os corpos como também os desejos de ter e ser alguém, afinal, o mito do trabalho diz que devemos vender nossa força de trabalho para nos tornarmos alguém, e que os improdutivos como os vagabundos e os doidos são as piores categorias humanas, assim como “o trabalho liberta”(arbeit macht frei), como estava escrito e Auschuitz, concordo com o texto, mas discordo que ele deva se limitar ao máximo de 25 linhas por parágrafo, tem texto que vamos avante movidos a mais profunda curiosdade! gostei muito!

    • 28/01/2010 11:10 am

      o filosofo frances, Pierre Bourdieu chama isso de VOLENCIA SIMBOLICA… eh causada pelo Estruturalismo, fruto de nossa cultura Patriarcal e Machista, onde a mulher deve ser submissa… gerando a VIOLENCIA ESTRUTURAL, escravizando os mais fracos. Mas como inverter essa Logica perveersa e cruel do Sistema Capitalista, contaminado pelo Sistema Familiar Romano doentio???

  5. 27/01/2010 9:12 pm

    falou tudo, “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”… infelizmente isso eh realidade, a verdadeira liberdade, eh a economica, com elas todos nos tornamos seres potiticos. parabens por desmascarar a ‘violencia simbolica’. saudacoes

    • 08/02/2010 12:14 am

      NÃO QUERO QUE MINHA INDIGNAÇÃO SE RESUMA A SIMPLES TECLADAS NUM BLOG. É PRECISO IR MAIS LONGE. ! AINDA SOMOS OS MESMOS E VIVEMOS COMO NOSSOS PAIS? SERÁ ISSO MESMO?

  6. 08/02/2010 12:12 am

    EU QUERO ME INSCREVER NESTE BLOG. COMO FAÇO? POR FAVOR, ME AJUDE.

  7. 08/03/2010 2:15 am

    Francisco, há tempos acompanho o seu blog via twitter… e realmente esse texto sobre sexo está muito bom. Mesmo que vc não seja um especialista no assunto, como vc mesmo afirma acima, percebo muita clareza e coerencia no que fala. Essas relações estão também muito recheadas das problemáticas das relações de gênero. Perceber que existem diferenças situacionais, antropológicas, sociológicas, políticas etc, entre homens e mulheres vão além das difrenças entre sexo.
    Precisamos debater mais sobre a liberdade sexual feminina. Esse ainda é um tema muito conflitante nessa sociedade patriarcal/paterlinear em que vivemos. O direito ao prazer é um tema que também mexe com muita gente.
    Parabéns mais uma vez!!!

    Saudações Feministas!

  8. Brasdangola permalink
    01/04/2010 2:01 am

    Seu blogue é muito bom, cada vez que dou uma passada por aqui aumenta minha simpatia por ele, por isso, me permita dar uma sugestão, que tem tudo a ver com as relações de poder através do sexo, No centro do nosso amado Brasil existe um grande filósofo, que por acaso tem a tribuna do congresso ao seu dispor e outro dia tocou no assunto das relações sexuais entre casagrande e senzala, tenho certeza que, com sua competência e bom humor, daria um ótimo artigo.

  9. 15/04/2010 12:37 am

    OI TUDO BEM SÃO VOTOS BOA NOITE!!!

  10. 17/04/2010 6:20 pm

    Sensacional!! Precisamos de mais pessoas lúcidas assim no Brasil!!

  11. Samuel Antonio da Silva permalink
    19/04/2010 1:03 am

    Recomendo a leitura da Psíquiatra Regina Navarro Lins- Cama na Varanda… Faz um relato histórico da sexualidade humana desde o período neolítico, e nos faz compreender com o sistema nos faz homens e mulheres alienados.

  12. 22/06/2010 6:20 pm

    Geisy, suscita a Eva, mesmo naquelas que se autodenominam Lilith!
    muitas, tem posicionamento tal qual ao da nossa talentosa escritora, mas isso lá longe dos seus respectivos gajos!
    caso contrário, o primeiro sentimento é de que “esta Geisy é mesmo uma vagaba!”
    assim que surge uma deusa blonde, logo as Evas se alvoroçam, e eis que se forma assim como o nosso sistema imune, a conspiração, todas em defesa do seu, ou mesmo do Adão alheio.
    porque a Geisy, tem coragem de fazer tudo aquilo que a maioria não tem!
    Geisy, pode estar nadando nas águas da civilização, mas mesmo dentro deste mar de tolices, ela agrada a si mesma antes de tudo, eu acredito.
    como dizer se ela sente ou não a segurança que deveria ter, e qual é o modelo que move os membros fálicos? qual é o número certo?
    afinal, todxs hoje temos que ser desinibidxs, despachadxs, segurxs, eficientes e eficazes…
    Geisy fez foi pôr as Evas para dormir enquanto ela brinca de Lilith nos sacrosantos mausoléus reservados aos que se encaixam nos padrões.
    a sociedade civilizada, apenas diferencia na hora do talher: as moçoilas limpinhas de família, degustam com talheres de prata, cartões de crédito contas conjuntas.
    já as gordinhas e funhanhadas By Dyadema, comem com as mãos, e palitam os dentes depois!
    apenas isso, às mulheres tratamentos para mulheres!!! entrou por uma porta e saiu pela outra, quem quiser que conte outra!

  13. 22/06/2010 7:01 pm

    E tudo isso com um bom tempero de hipocrisia.

    Repressão sexual sempre foi uma arma de poder, as mídias de massa surgiram na Alemanha Nazista, para refrescara memória de todos.

  14. 12/07/2010 2:47 pm

    As pessoas precisam realmente botar a boca no trombone e condenar atos violentos e abjetos como os que foram perpetrados por Bruno e sua quadrilha.

    Responsáveis por esse crime hediondo contra Elisa foram também a juíza que não lhe deu proteção, com base no pífio argumento que Elisa não tinha laços familiares com Bruno, e a polícia do Rio de Janeiro que só soltou o laudo sobre a ingestão de substâncias abortivas quando a moça já estava morta.

    Qualquer pessoa, com um mínimo de sensibilidade, percebe que a pobre criatura foi torturada desde que chegou naquele sítio macabro. O coração da gente, queira ou não, se enche de revolta.

    Se quisermos preservar a condição de seres humanos, não poderemos continuar tolerando e aceitando com indiferença crimes como os que foram praticados por Bruno e sua quadrilha.

    È preciso protestar sem parar contra a barbárie, pois poderemos ser a próxima vítima.

  15. Sergio permalink
    12/07/2010 6:40 pm

    Bom, o porque de darem tanta atençao pra maria chuteira e goleiro do flamengo eu nao sei. Tem tanta gente incocente que tenta viver com o minimo de honestidade sendo esquecida por voces mesmo que só dão atenção quando algo vira noticia na Televisão.

    Foi um ato cruel? Foi, Merece ser preso? Merece.

    Agora não me venha dizer que tenho que simpatizar com puta/maria-chuteira. Tanto o homem é burro por nao usar camisinha como a mulher por nao tomar anti-concepcional, ainda mais com o que ela fazia.

    Uma pena pelo bebê, mas hoje em dia ser mãe ou ser pai nao da mais respeito e nao melhora o carater de ninguem, tomara que ele encontre uma outra família e que fique tudo bem.

  16. 16/07/2010 1:58 pm

    Vivemos num mundo onde é fácil julgar, e estabelecer critérios de valor para seres humanos, onde já se viu?

    Porque a polícia e a justiça? Protegeriam uma moça que nem sei quem é ( prostituta? atriz pornô?oportunista? sei lá…como a chamam….) se seu algoz era nada menos que um jogador do FLAMENGO(nooooossa o FLAMENGO?)…Digo que a mesma polícia que agora tenta encontrar culpados e fazer justiça, é a mesma culpada pelo acontecido, afinal ela já mostrava indícios claríssimos que recebia ameaça…Me pergunto que país é esse? que justiça é essa? que aguarda a morte de um cidadão, para enfim investigar? Mas tento loucamente entender a lógica dessas instituições e caio nessa moral: Não vá contra alguém influente, diminua o que já é “menor”….

    No mínimo triste, nojento e tenho asco…. Quando seremos protegidos?

    A sociedade talvez faça piadas no twitter ou pouco se importe, afinal foi MAIS uma puta que saiu do mundo… E só está assim na mídia porque ELE, logo ELE Bruno não podia fazê-lo, então um cidadão comum poderia?

    Quantos travestis sãoa ssasinados? Quantas crianças violentadas(por estranhos, padrastos, pais….)?

    Temo nossa segurança, porque se ser uma simples escritora ou professora não é tão valorosos assim…será q a próxima vai ser eu?

  17. 17/07/2010 12:27 pm

    A razão de se dar tanta atenção a quem o Sergio chama de “Maria Chuteira” é justamente para se tentar evitar que gente inocente e trabalhadora tenha o mesmo destino, porque bandido não escolhe raça, sexo, cor, ou status social. Bandido psicopata trucida quem lhe der na telha, ou quem estiver atrapalhando seu caminho, como foi o caso da Elisa Samudio.

    Só espero que se faça justiça nesse caso, s fim de que a sociedade não seja obrigada a conviver com mais um criminoso em liberdade e se achando o grande herói.

    Ontem soube, através de um amigo, que já há marido ameaçando fazer com a mulher o mesmo que Bruno fez. Vejam só que mentalidade!

  18. 27/07/2010 6:42 am

    cara, eu acho que a iniciativa parte do indivíduo tb, mas parar de culpar a sociedade não dá não, se for assim, ela vai continuar como um conceito beirando o sagrado e impossível e inaceitável de ser atingido, embora muitas vezes mereça mesmo é ser vista como ela é, como Nelson Rodrigues a via, sem concessões, mas que muitos endeuzam a perspectiva dele para proteger esse conceito sagrado e burro de sociedade que ajuda, funciona e salva (e está sempre certa), eximindo-a de toda a injustiça, violência e loucura que produz.

  19. 23/01/2011 2:49 am

    Bruna Scarpioni e Francisco Barreira, estes foram os textos mais geniais que já li na vida (olha que sou um trasgo que não lê muitas opiniões hein!). Bruna só lhe digo uma coisa: quero ser você quando crescer! Você é simplesmente a feminista livre e libertadora que quero ser. Você simplesmente disse tudo o que penso, o que acredito e o que sou (mesmo que por dentro ainda). Isso me foi de um sentido libertador que não imaginas. Parabéns por ter toda essa personalidade inspiradora as mulheres. Francisco Barreira, não tenho mais o que lhe dizer que já não saiba amigo, obrigada pela dica de ler a seção Sexo e Comércio de seu site, foi um prazer!

  20. 13/03/2011 10:24 pm

    É interessante como a família, a moral, a dignidade dos lares tem sido corrompida por um mar de mudanças sociais; facilitam e incentivam a desmoralização, a prostituição, renegam a essência do convívio social. É incrível como a valorização do capital agrega a ele valores que deviam ser unicamente familiares e sociais. Esse sistema absurdo de acumulo de riqueza e hipocrisia não me surpreende mais. O que vale para eles é estarem no alto, no controle das mentes, dos corpos e se pusessem até mesmo do inconsciente das pessoas. Parabéns pelo blog é crítico e bem fundamentado.

  21. 03/11/2011 8:30 pm

    Excelente texto Barreira, como sempre

  22. 19/01/2012 7:48 pm

    Muito bom essa sua nova atualização, meu caro Francisco.

    Acho que vc conseguiu ir no ponto central do debate “pós-moderno” sobre a liberdade sexual e a sexualidade.

    “O problema é que o Sistema (modo de produção Capitalista), que na sua origem era convenientemente puritano, agora que a família tradicional passou ser a indiferente para seu jeito de produzir e forçar o consumo, encampou a liberação, mas o fez como numa contrafação, deturpando-a e prostituindo-a.”

    É isso mesmo que temos que ter em mente, no entanto parte da esquerda ainda continua com os mesmo dogmas e sectarismo do passado.

    Hoje em dia para capitalismo vale muito mais uma “puta” consumindo do que uma burguesa, portadora de boas condições, para a formação dos seus filhos( futuros diregentes das nações – segundo a teoria clássica elitista dos conservadores).

    Abs!

    @aloisiofcs

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